Corpo em sofrimento, afirmação de uma vida
Corpo em sofrimento, afirmação de uma vida
por Sylvia Romano sustentada por
Bibiana Munhoz Roos, Angelica Vier Munhoz
Esta escrita tem por objetivo questionar a suposta ditadura da felicidade que vivemos atualmente. Reproduzimos e consumimos
modelos de vida sem questionar aquilo que eles têm produzido em nós, colocando-nos a serviço de uma felicidade pautada comomodo de recompensa. Pretende-se compreender de que modo a experiência do sofrimento e da fraqueza fazem parte de uma ética
afirmativa de vida, a partir do pensamento de Nietzsche e Spinoza. Busca-se pensar para além dos discursos reclamatórios e negacionistas de sofrimento, que acabam por minimizar a potência de nossa existência. O corpo, nessa medida, encontra-se vedado
e anestesiado à experiência sensível, enquanto seguimos manuais que acreditamos conter o segredo da felicidade, sem espaço
para o sofrimento. Pretende-se encontrar possibilidades de desvios desses modos de pensar o corpo e a vida, com vista a tornar o
cotidiano mais leve, percebendo o sofrimento e, até mesmo a morte, sob uma outra ótica, distante de qualquer julgamento moral
ou representacional.
Notas introdutórias
Este ensaio se produz em meio às discussões que
emergem no grupo de pesquisa Currículo, Espaço, Movimento (CEM/CNPq/Univates), o qual busca investigar
os processos de ensinar e aprender permeados por práticas educativas e artísticas, em espaços escolares e não
escolares. O grupo de pesquisa articula-se ao pensamento pós-nietzschiano da Diferença, tendo como alguns de
seus referenciais teóricos Foucault, Deleuze e Guattari,
Nietzsche, entre outros. Nesse sentido, pensar o corpo e
seu aprender em meio a práticas cotidianas, educativas ou
não, artísticas ou não, integram esse exercício de pensamento, do presente artigo, ao escopo da referida pesquisa.
Trata-se de uma proposta que vem com o intuito de
repensar alguns dos discursos que emergem na sociedade atual, cujo sintoma mais flagrante é a noção de crise.
Enuncia-se a todo momento “a crise” em suas mais diversas facetas: crise da educação, crise da saúde, crise da
economia. A crise que já não é mais a crise na modernidade, que surgia de modo natural e impunha a necessidade
uma decisão final, um remédio, a fim de acabar com uma
insegurança. Nos dias atuais, o remédio já não serve para
pôr fim à crise, mas ao inverso, a crise é desencadeada
para produzir o remédio. O capitalismo cria um conflito
em cada um de nós, e a crise se torna uma técnica política
de governo e, assim, uma estratégia para “[...] prevenir,
por via da crise permanente, toda e qualquer crise efetiva” (PELBART; FERNANDES, 2018, p. 26-27). Desse
modo, mantém uma insegurança existencial crônica que
instaura o medo que limita o corpo as experiências sensíveis e, por sua vez, imprevisíveis.
Uma crise que se instaura no corpo, transpassa vísceras, rasga a carne e aquece o sangue, produzindo vibrações
outras num corpo em estado de esgotamento, mas que, por
sua vez, não quer se esgotar. Num corpo que percebe sua
morte em vida, que está aprisionado e enclausurado em
formas e padrões que ditam verdades e elencam modos
de existência superiores e excludentes. Uma catástrofe que
acima de tudo é metafísica, afetiva e existencial, que faz
com que o homem, pelo seu estrondoso temor em relação
ao mundo, queira se fazer amo e possuidor da natureza.
Um homem que tudo engendra, tudo cria e tudo domina,
tudo recria de modo contínuo “sem conseguir suportar
uma realidade que, por todos os lados, o ultrapassa” (PELBART; FERNANDES, 2018, p. 34). Sem conseguir suportar a noção de que o próprio corpo está sempre adiante
de si, transborda sempre seu próprio território.
Uma lógica que produz uma crise para, assim, imperar
em suas soluções e imperativos. Um corpo que vive, mas
é conduzido a repugnar a vida. Vida esta, enquanto imprevisível, acontecimental, corporal, quente e cansada. Para
se proteger da dor do real e imprevisível que diz da vida,
o homem “projeta-se para um plano ideal, digital, sem ficCorpo em sofrimento, afirmação de uma vida
E, se essa paz existe, talvez esteja na
noção de sua inexistência.
Sem o intuito de exercer um juízo de valores que impõe
como devemos viver nossas alegrias e tristezas, busca-se
pensar para além dos que acabam por minimizar nossa
potência de vida. Pelo contrário, pretende-se encontrar
possibilidades de desvios desses discursos, que tornem o
cotidiano mais leve e que façam com que possamos olhar
e experenciar de outro modo aquilo que tomamos como
nossas maiores fragilidades e fraquezas. Fragilidades da
humanidade, do homem, do corpo, da vida.
Trata-se de problematizar discursos e pensar em possibilidades outras de recriar para si uma vida mais potente. Como habitar, em meio à crise, essas verdades?
Verdades que refutam a dor e o sofrimento e que, quando
não o fazem, colocam-nos a serviço de uma suposta felicidade pautada como modo de recompensa. Como potencializar a vida desse corpo esgotado? Um corpo que
cansa, mas que não pode demonstrar cansaço, que sofre,
mas não pode mostrar sofrimento? Um corpo que se vê
enclausurado em uma suposta ditadura que produz escravos da felicidade, que em cada esquina encontra um
outdoor onde está escrito “good vibes only”.
Forças de um corpo frágil
Em meio aos mecanismos de coerção e dominação do
corpo, a saúde se tornou um bem de consumo, e cada vez
maiores são as promessas e consumo de forças prontas
que indicam a qualidade de vida. Cada vez mais, submergimos na lógica de uma felicidade plena, cada vez
mais nos são ofertados produtos que prometem essa felicidade, que subjugam a dor, a impotência e a infelicidade
– que a mesma lógica não cessa de produzir. Em tempos
de uma sociedade capitalista, não há mais lugar para o
sofrimento, e ele é compreendido como uma patologia,
como se não fizesse parte da vida.
Acreditamos que somos livres, porém estamos cada
vez mais dependentes das tecnologias e dos saberes dos
experts. Colocamos nossa vida nas mãos de quem não
conhecemos e raramente temos a noção dos jogos de
poder que nos envolvem. A psiquiatria rendeu-se à neurociência, tratando o ser humano apenas como um ser
biológico, ouvindo queixas, organizando os sintomas,
etiquetando e prescrevendo.
Em meio à ascensão do saber médico, dos discursos
em relação à felicidade e da medicalização da vida, seria
possível pensar naquilo que tomamos como fragilidade de
um corpo, uma potência? Tomemos os corpos frágeis do
jejuador de Kafka (1991), do copista de Melville (2008),
dos corpos inomináveis de Beckett (2009). O que há neles? Quais forças os atravessam? Para Pelbart (2009, p.
49), é justamente a aparente fragilidade de tais figuras e
permissividade que faz com que o sofrimento os atravesse, isto é, o ato de “passividade constitutiva”1
perante o
sofrimento, que os torna ativos. Uma espécie de força de
resistir face ao sofrimento. Parece tratar-se, tal qual nos
diz Deleuze e Guattari (2012), de criar para si um corpo
sem órgãos, ou, ainda, encontrar seu corpo sem órgãos,
uma forma de escapar do juízo, de escapar do corpo como
um organismo, da organização dos corpos e dos modelos.
A questão é que existem forças que atravessam esses
corpos, no limiar entre a vida e a morte, que não poderiam
atravessar corpos excessivamente encouraçados. Algo
se passa nesses corpos, permeados pela sua condição de
fragilidade, e que ainda assim os torna ativos, dando passagem a outras forças, talvez não possíveis em um corpo esquadrinhado. Mas seria preciso produzir um corpo
morto ou estar próximo da morte, para que essas forças
o atravessassem? Poderia um corpo desembaraçar-se de
sua organização, desinventar seus órgãos, para então dar
passagem a elas? De que maneiras seria possível dar passagem a essas forças presentes nesse corpo fragilizado?
Desde tempos imemoráveis o corpo é coagido por
mecanismos e ações e, de certa maneira, roubado de toda
sua potência. A crise do corpo se instala ao passo que
ele “já não aguenta mais” (LAPOUJADE, 2002, p. 2),
tal sistema de martírio e narcose que o cristianismo, e
posteriormente a medicina, elaboraram para lidar com a
dor. Um na sequência e no rastro do outro: “[...] culpabilização e patologização do sofrimento e insensibilização
e negação do corpo” (PELBART, 2009, p. 45). O sofrimento pede passagem, o que ainda vibra do corpo grita,
grita por estar sofrendo e, novamente como grande parte
da dor que se instala, está sendo aniquilada.
A crise, assim como a febre, existe, e com sorte existe, não para que simplesmente se acabe com elas, mas
porque há algo ali a nos dizer. E mais, existe algo para
se pensar. Uma crise do homem, que é a estranheza em
relação ao seu mundo. Talvez não seja o mundo que esteja perdido, mas nós é que estamos perdidos no mundo, “acabados, amputados, cortados, nós que recusamos
alucinadamente o contato vital com o real” (PELBART;
FERNANDES, 2018, p. 35).
Assim, essa crise moderna que se instaura e a qual,
sim, devemos temer não é nem a crise econômica, nem a
política ou nem mesmo a ecológica, mas uma crise que “é
antes de tudo uma crise de presença” (PELBART; FERNANDES, 2018, p. 35). Crise que diz de um esgotamento
subjetivo de recursos vitais do nosso contemporâneo e
que se configura, além de tudo, numa aparelhagem sofisti1Grifo do autor.
286 Fractal, Rev. Psicol., v. 32 – n. 3, p. 2
modo de recompensa. Pretende-se compreender de que modo a experiência do sofrimento e da fraqueza fazem parte de uma ética
afirmativa de vida, a partir do pensamento de Nietzsche e Spinoza. Busca-se pensar para além dos discursos reclamatórios e negacionistas de sofrimento, que acabam por minimizar a potência de nossa existência. O corpo, nessa medida, encontra-se vedado
e anestesiado à experiência sensível, enquanto seguimos manuais que acreditamos conter o segredo da felicidade, sem espaço
para o sofrimento. Pretende-se encontrar possibilidades de desvios desses modos de pensar o corpo e a vida, com vista a tornar o
cada de ausência. Ausência de si. Não é o apetite de nada,
mas a ausência do apetite. O desejo de nada ainda é o
desejo. A dor ainda é dor de algo que vive e por isso sente.
Aquele homem que fazia cópias na frenética Wall
Street (MELVILLE, 2008) e que intrigava e irritava Herman Melville ao emitir o “prefiro não”, quando lhe era
solicitada alguma tarefa, ainda preferia algo. Ainda que
preferisse não o fazer, dizia de um desejo. Contrariando
aquilo que se esperava, escapando da norma, desejando o
que dizem que não é possível desejar. Um corpo instável,
fora do normal, fora da norma. Frágil, tal corpo que ainda
não tem forma acabada e lida com a instabilidade de não
saber o que está por vir, mas ainda assim vive. Trata-se
ainda de vida e não de morte, existe ainda a abertura para
se experimentar em seus encontros. Talvez a forma do
corpo ou o seu estado seja justamente sua informe porosidade, e é em meio a essa fragilidade e imprevisibilidade
que a potência de vida toma força.
“Precisamos ser felizes”
É chamado louco, pessimista ou depressivo aquele
que não defende a felicidade, ou melhor, aquele que não
refuta a dor e a tristeza. Alegria e tristeza são, assim, tomadas como instâncias distintas que se excluem, se uma
está presente, a outra não pode estar. Dessa maneira,
emerge a busca de uma suposta “felicidade plena”, que a
todo custo evita as tristezas e tudo aquilo que um suposto tribunal da razão compreende como sofrimento. Com
o objetivo de problematizar tal discurso, nos aproximamos, ainda que brevemente, do conceito de Alegria em
Spinoza (2009), que pode ser compreendida não como
um estado da alma, mas como uma maneira de existir.
Um processo que não depende de modelos e de estratificações, que não se configura como uma recompensa ou
um lugar a que se chegar. Tal conceito, de acordo com o
filósofo, em termos menos capturados pelo sentido comum, pode ser compreendido como algo capaz de tornar
o espírito mais tranquilo: nossa beatitude.
Se perguntarmos a uma criança o que é a felicidade,
talvez ela não saiba ao certo responder. Se perguntarmos
a um adulto, possivelmente a resposta estará na ponta da
língua. A questão parece ser que a criança ainda experimenta o mundo pela ordem do sensível, e, assim, está
menos presa a julgamentos morais.
Existem coisas que não podem ser ensinadas, mas
antes experimentadas. Trata-se daquilo que se compõe
com cada corpo e produz efeito, antes de qualquer julgamento moral ou representacional. Os homens, os mesmos
que não faltam para escrever “sobre a reta conduta da
vida muitas coisas excelentes e dar aos mortais conselhos
cheios de prudência” (SPINOZA, 2009, p. 87), chamam
as coisas naturais de ordinárias, perfeitas e imperfeitas,
antes pautados em preconceitos do que em um verdadeiro conhecimento sobre elas.
Quando julgamos uns modelos como mais perfeitos
do que outros, quando afirmamos sua impotência, é antes
porque não nos afetam semelhantemente àqueles os quais
chamamos de perfeitos, e não porque lhes falte alguma
coisa. Em tal medida, Spinoza (2009) nos ajuda a pensar
que nossa potência de agir varia conforme nossas composições, com nossos encontros. Depende da maneira como
somos afetados, que não é pautada em um modelo moral,
mas antes químico. Depende dos tipos de afecções, entendendo afecção como algo que vem de fora e modifica,
tornando-se, assim, paixões alegres ou tristes.
Para Spinoza (2009) os afetos são sempre uma passagem. Uma passagem de uma potência maior para uma
menor, se aquilo me destruiu; de uma potência menor para
uma maior, se algo compôs comigo. O que se compõe comigo me alimenta, aumenta a minha potência, do contrário, fico envenenada, diminuindo-se a minha potência.
Assim, as concepções de alegria e felicidade em Spinoza são concebidas a partir das paixões pelas quais a potência de cada um é aumentada ou diminuída, estimulada
ou refreada. A tristeza consiste sempre na passagem de uma
perfeição maior para uma menor. A questão parece ser que a
tristeza consiste justamente na passagem, e não na perfeição
menor em si; e assim, à medida que se participa de uma determinada perfeição, não se torna possível entristecer.
Em Spinoza, não se pode dizer que a tristeza consiste
na privação de uma perfeição maior, quando a tristeza,
de algum modo, participa da perfeição. Diferentemente
do que concepções modernas defendem, a tristeza não se
trata de um mal a ser evitado ou privado. Somos dotados
de potência de agir, e a paixão triste é sempre impotência. Quando o que nos acontece nos entristece e frustra,
o nosso desejo ou nossa potência de agir produz um mau
encontro. Nesse sentido, o bom e o mau são sempre uma
questão de alimento, nunca de julgamento, sempre uma
questão de composição e decomposição. A noção de bom
e de mal são os próprios afetos de tristeza e alegria, quando tomados pela consciência.
A tristeza, tanto como a alegria, é o próprio desejo e
apetite, enquanto aumentados ou diminuídos por causas
exteriores. Só conhecemos o bem e o mal vivendo os afetos alegres e tristes. Vemos que a tristeza, e nesse sentido
a dor, não envolvem a ausência de apetite e nem de desejo. Assim, não é na imposição de uma suposta ditadura da
felicidade, que acredita na evitação da dor e da tristeza,
que estaremos potencializando e alimentando nossa vida,
mas, pelo contrário, despontencializando nosso ser. Que
é também quando, em Spinoza (2009), somos coagidos
por causas exteriores e deixamos de buscar aquilo que
nos é útil e de nos esforçar para conservar nosso ser.
O desejo é, antes de mais nada, um desejo de existir,
e o sofrimento é, assim, a expressão desse desejo. Quando passamos a pensar e agir regulados apenas por causas
exteriores, modelos antes estabelecidos, conceitos já formulados, nos afastamos de nossa própria existência enquanto potência. Vamos diminuindo nossa potência, que
é esse desejo e esforço para perseverar-nos em nosso ser;
logo, atentamos contra nossa própria natureza. Ainda que
sedutora seja a ideia de que o caminho para a felicidade
está na evitação da dor, ela tem nos custado caro. Tem
nos custado uma suposta anestesia de nós mesmos. Anestesia que não diz respeito ao não conhecimento daquilo
que nos acontece ou transpassa, até porque o pensamento
spinozista compreende que existe a instância do imprevisível em nossa ética de vida. A anestesia mencionada
aqui se trata dessa suspensão total da sensibilidade e da
espontaneidade. Anestesia não é o não saber o que se passa, mas não se permitir sentir aquilo que se passa.
Que corpo é este?
Quando se fala do corpo, não se fala de um lugar
qualquer, de um corpo qualquer. Então, que corpo é este?
Um conjunto de membros? Um braço? Uma perna? Uma
mente? Um fígado? Dois pulmões? Evoca-se a noção de
um corpo tomado não apenas em uma instância, seja ela
biológica, anatômica ou neurológica. Um corpo que não
pode ser estratificado, que não pode ser classificado e
que não é passível de previsões. Um Corpo sem Órgãos
(CsO), que não é uma noção ou conceito, mas uma prática, ou melhor, um conjunto de práticas, tal como nos
dizem Deleuze e Guattari (2012, p. 13), “um CsO é feito
de tal maneira que ele só pode ser ocupado, povoado por
intensidades. Somente intensidades passam e circulam”.
Um corpo disforme, no qual nada tem lugar fixo, podem existir braços por todo o lado ou a ausência de vísceras, pois ele é movido pelo desejo, pelas intensidades. Um
corpo que se modifica a cada encontro. Ideais platônicos
da dicotomia corpo/alma medem, estratificam e delimitam a figura do corpo enquanto finita e divisível em parte.
Quanto a isso, Spinoza (2009, p. 13) questiona “[...] se
substância corpórea pudesse ser dividida de maneira tal
que as suas partes fossem realmente distintas, por que,
então, uma dessas partes não poderia ser aniquilada, com
as outras permanecendo, como antes, ligadas entre si?”.
Portanto, não se trata de pensar os corpos como organizações sedimentarizadas. Esse corpo que se separa e
do qual se extrai um trabalho útil é um estrato do corpo,
desse corpo organizado e biologicamente concebido. O
corpo, o que Spinoza também chama de substância corpórea, não pode ser dividido. Trata-se de um corpo infinito, um corpo de conexão de desejos, intensidades, um
corpo por vezes insuportável; quando não é mais possível
suportar as intensidades do CsO, necessitamos cada vez
mais do organismo. E paralisamos não diante do corpo,
mas de um estrato do corpo que é “fenômeno de acumulação, de coagulação, de sedimentarização que lhe impõe
formas, funções, ligações, organizações dominantes e
hierarquizadas, transcendências organizadas para extrair
um trabalho útil” (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 24).
Mas o corpo é paradoxal, errante, fugidio, e, assim,
insistimos em maneiras outras de pensá-lo, por meio das
quais emergem possibilidades de se rachar com as verdades impostas e habitar a vida, a dor, o sofrimento de maneiras outras. De criar para si um corpo sem órgãos, de
criar possibilidades desviantes dos discursos dominantes
que ditam como devemos disciplinar nossos corpos. O
corpo, nessa perspectiva, torna-se maleável, permeável,
tem seus poros abertos para serem atravessados, transpassados e imersos em blocos de sensações. Permite-se
estar aberto aos encontros e às afecções, às paixões alegres e tristes, às ações, sempre alegres. Ainda de acordo
com a proposição de Spinoza (2009), as afecções podem
levar também à destruição, quando um corpo se encontra com outro que tem uma potência maior que a sua.
Contudo, a vedação dos poros, como promessa de uma
evitação de dor e sofrimento, pode também levar o corpo
à destruição, em uma ausência de si.
A suposta ditadura da felicidade, que impõe modos
para lidar com o sofrimento e demais ocorrências da
vida, não poderia ser criada senão em cima de preconceitos. E assim, sobre esse corpo pós-orgânico, como se
só ele existisse. É impossível, ou então inútil, dissertar
sobre aquilo que é bom ou mau, desejável ou indesejável
para os indivíduos quando, de fato, não o sabemos. Como
diria Spinoza (2009), quanto à música, esta pode ser boa
para um melancólico, má para um aflito ou mesmo indiferente para aquele que não ouve.
O pior não é permanecer estratificado enquanto corpo,
mas precipitar tais estratos em uma queda suicida. Não se
trata de refutar a instância estrato, mas de experimentar aí
as oportunidades que o estrato nos oferece, “ter sempre
um pedaço de uma nova terra” (DELEUZE; GUATTARI,
2012, p. 27). Não se trata, ainda, de negar o julgamento
moral, negar ou lutar contra a ditadura da felicidade na
qual estamos imersos. Até porque, negando, cairíamos
sobre essa mesma lógica de evitação a qual buscamos ultrapassar. Não se trata de negar nada, mas de experimentar. Não apenas um organismo que funciona, mas um CsO
que se constrói (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 28).
Dizer sim à vida
O cotidiano de nossas vidas torna-se excessivamente
pesado, ao passo que tudo e todos temos muito a dizer
sobre o que somos e queremos, e mesmo assim permanecemos em um silêncio impotente. Mais do que carregar
fardos ou provas para ser feliz, há que se instaurar em tais
fardos e provas para experimentar possibilidades outras.
Não negar as receitas, os manuais e nem declarar guerra
à ditadura da felicidade. Mais do que preocupar-se em ter
uma vida feliz, há que se perceber a importância de se ter
“uma vida” e afirmar a existência dessa vida.
Assim, não é possível experimentar a vida negando
aquilo que nela está implicado. É impossível desejar viver e agir bem sem antes desejar e agir, “existir em ato”
(SPINOZA, 2009, p. 86). A felicidade não pode ser compreendida assim, como a consequência de nossas ações ou
pensamentos, mas é ela mesma a causa e efeito da vida.
A vida que é esse plano de composição e decomposição.
Ser dignos do que nos acontece, afinal os acontecimentos se inserem numa ordem causal, e necessariamente não poderiam ocorrer de outra maneira. Isso implica
afirmar o acontecimento para que assim possamos nos
tornar ativos em nossos encontros.
Afirmar não é carregar, atrelar-se, assumir o que é, mas,
ao contrário, desatrelar, livrar, descarregar o que vive. Não
carregar a vida com o peso dos valores superiores, mesmo
heroicos, porém, criar valores novos que tomam a vida leve
ou afirmativa (DELEUZE, 1997, p. 115).
cotidiano mais leve, percebendo o sofrimento e, até mesmo a morte, sob uma outra ótica, distante de qualquer julgamento moral
ou representacional.
Com Nietzsche (2001), é possível compreender a
necessidade dos acontecimentos e, ainda, aprender a ver
como belo aquilo que é necessário nas coisas, e não se
lamentar pelo desnecessário.
Amor fati: seja este, doravante, o meu amor! Não quero
fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem
mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação
seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser,
algum dia, apenas alguém que diz Sim! (NIETZSCHE,
2001, p. 67)
Assim como muitos acreditam, o sentido da vida talvez não seja a busca pela felicidade. O sentido da vida
implica uma necessidade mais do que uma finalidade.
Trata-se de agarrar o presente e fazer dele uma potência
de agir em função de nossa própria natureza. Assim, com
Nietzsche (2001), um dizer sim à vida. Um sim à vida e
àquilo que ela contempla, afirmar alegrias, tristezas, doenças, dores, abismos e monstros.
Sim, o corpo cansa. Sim, o corpo se esgota. Sim, o
corpo sofre. Mas ainda assim ele vibra, ainda assim algo
o faz estremecer, ainda assim se trata da vida e não da
morte. Entretanto, nessa incessante busca por ideias ilusórias de felicidade, os poros se fecham e o corpo vibra
cada vez menos, vive cada vez menos e diminui sua potência. Estamos cansados de buscar, cansamos de que os
outros nos digam como viver, o que o corpo deve ou não
deve, pode ou não pode.
Agora é o corpo que quer falar. Que quer experimentar. O corpo quer entrar em contato com sensações,
afirmar vida enquanto essa composição de encontros, vivendo as paixões e buscando fazer delas ações. O corpo
quer estar livre.
livre desejando nada
senão o desejo de viver,
enquanto provamos um sentimento
que se forma
antes
de
formas
e
figuras,
fluídos momentos
antes dos primos traços
de pensamento,
antes de que digamos “pare”!
[...]

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