A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO
A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO por SYLVIA ROMANO
TÓPICO 1 - DISCUTINDO O CONHECIMENTO HISTÓRICO
1 INTRODUÇÃO
No mundo ocidental, seguindo a denominação dada à Europa e às neo-Europas da
América pelos europeus desde o século XV, a História, com esse nome, emergiu na Grécia do
período clássico. Heródoto escreveu nove livros intitulados Histórias, cada um deles levando o
título de musas helênicas, e repletos de feitos e comportamentos tanto gregos, quanto bárbaros
de um período não tão distante do autor.
Mas a História não pode ser resumida a livros escritos por alguns de seus pretensos e
disputados pais. Ninguém pode negar a Heródoto seus méritos, mas há que se destacar que
Tucídides também se apresenta como genitor do que hoje é esse campo institucionalizado, isso
sem pensarmos em outros historiadores mais a leste, contemporâneos aos gregos do período
clássico, tais como os chineses Confúcio (VI a.C.), Sima Qian (II a.C.) ou Ban Gu (I d.C.). Ela
emerge não de livros, mas de uma necessidade mais existencial, que impele os humanos de
diversas regiões do globo a querer buscar interpretações sobre sua orientação, seu sentido, no
tempo (RÜSEN, 2007).
A esse aspecto, Rüsen (2007) designou como a utilidade do conhecimento histórico: suprir
a carência que os humanos têm de orientar-se no tempo. Em outras palavras, de identificar
mudanças e continuidades e permitir perceber-se no papel crítico de agente dessas escolhas.
A História, assim, engendra-se como priWLFD FRWLGLDQD QRV ³FDXVRV´ QDV DQHGRWDV QDV
prosas ou em outros processos que apresentam a referencialidade como elemento aglutinador da
necessidade de se organizar a narrativa, de hierarquizá-la (MUNSLOW, 2009); mas ela também e
uma história como ciência, que impulsiona quem a conta ou replica a ter cuidado com a forma,
com a cronologia, com alguns fatos ou ficções, com a ideia de origem e sentido (RÜSEN, 2007; 8
MUNSLOW, 2009). Ela é história como ciência na medida em que ordenamos nossas narrativas,
para encadear uma explicação lógica do passado individual ou grupal. Por último, especialmente
ao longo do século XIX, passamos a pensar a Ciência Histórica, marcada, aí sim, por protocolos
de pesquisa, por uma racionalização institucionalizada, por cadeiras, por especialidades, por
teorias e métodos, uma história metódica (RÜSEN, 2007).
Em pouco mais de 200 anos, deixamos de racionalizar a História de um ponto de vista
filosófico, para adentrar ao regime acadêmico desse campo de conhecimento, com o surgimento e
expansão de faculdades, institutos de pesquisa, laboratórios, todos eles nas mais refinadas áreas
da História, divididas por abordagens, por períodos, por localização geográfica. Já no final do
século XIX, o filólogo Friedrich Nietzsche, escrevendo na Suíça, traçou pesadas críticas à História,
qualificando-a como um fardo e um excesso para a Europa daquele momento.
Para aquele autor, um dos males do final do século XIX europeu seria a sobra de História
ou, em outros termos, a obsessão por esse conhecimento, os abusos e apropriações feitas sobre
ele no período, quer fosse pela classe operária, pelos nobres ou pela burguesia.
Certamente Nietzsche escrevia em meio ao surgimento de uma série de revistas
acadêmicas destinadas a discutir histórias políticas, histórias naturais, histórias econômicas que
corroboravam ou negavam identidades nacionais, locais, moldavam comportamentos, justificavam
o imperialismo europeu em outras regiões do globo, assustavam dirigentes de fábricas.
Certamente o autor vislumbrava, com todos os seus preconceitos e problemas, um fim de século
marcado pela luta incessante pela apropriação de um passado para a Europa, especialmente
greco-romano (ideia que ele também compartilhava), percebendo que a História começava a
incomodar nas esferas públicas e privadas, especialmente quando se pensa em manutenções ou
reordenações do status quo econômico, político, social ou cultural.
A História do final do século XIX não era mais aquela baseada no ouvir contar ou no ver,
tão característicos a Heródoto. E também não era mais apenas aquela baseada em narrativas de
guerras amparadas em documentos dispostos cronologicamente, de Tucídides. Muito menos ela
continuava sendo a narração da vida dos santos, marca de um mundo medieval. Por fim, ela
também já estava apartada das preocupações filosóficas propostas por iluministas dos séculos
XVII e XVIII. Agora ela era uma disciplina autônoma, com seus próprios recursos, modelos,
autoridades, perspectivas, prerrogativas e abordagens.9
E foi nesse processo de separação ou independência perante outros campos de
conhecimento que a História passou a nomear-se como campo autônomo do conhecimento, como
ciência, como domínio. Foi nesse período, também, que podemos dizer que a figura do historiador
(depois, mais tarde, a de historiadora), emergiu.
A História passou, então, a dizer que tinha uma origem grega, com Heródoto e Tucídides;
passou a dizer que começou a ser melhor racionalizada por um italiano do século XVII, chamado
Giambattista Vico; que foi reforçada por iluministas como Immanuel Kant ou Voltaire. Consolidouse no início do século XIX com Leopold von Ranke a partir de sua insistência em metodizar o
FDPSRSRUPHLRGDSUHPLVVDGHTXHD+LVWyULDGHYHULDFRQWDUR ³TXH UHDOPHQWHDFRQWHFHX´SRU
fim, começou a derivar-se no final do século XIX em História Política, História Econômica, História
da Arte, História Social, História Cultural, grande parte delas entremeadas por uma racionalidade
científica inerente àquele tempo, com influências materialistas (de Charles Darwin ou de Karl
Marx) (FOSTER, 2006), realistas e empiricistas (de Leopold von Ranke ou Auguste Comte), ou
ainda de outras vertentes que acabaram por influenciar a História, tais como as escolas
geográficas da França ou da Alemanha, ou os estudos da Fronteira Oeste, nos EUA (MUNSLOW,
2009).
Digamos, então, que a História espraiou-se no final do século XIX. No Brasil, uma das
principais influências advinha, naquele momento, do positivismo francês, e do darwinismo social
amplamente difundido na Europa, ao passo em que convivia com posturas objetivistas que tinham
a finalidade de estabelecer preceitos e uma explicação coerente da origem e da situação
contemporânea do país.
Se entre os séculos XVIII e XIX há toda uma gama de inversões, contestações,
emergências de novas posições em torno do conhecimento histórico; se, na virada do século XIX
para o XX há diversas reelaborações conceituais que vão separando, cada vez mais, a História de
outros campos, buscando estabelecer algumas fronteiras entre os campos, processo inerente ao
realismo científico típico da naturalização das ciências na sociedade contemporânea, é impossível
buscar determinar caminhos gerais ou modelos específicos para o que acontecerá no século XX,
embora possamos identificar algumas perspectivas amplamente reconhecidas mundialmente na
comunidade de historiadores e historiadoras.10
O processo de transformação do conhecimento histórico posto nesse período amplia-se ao
longo do século XX e está em curso. Ele é impulsionado, simultaneamente, por mudanças nas
concepções gerais de história, nos procedimentos de pesquisa e de ensino, na multiplicação de
formas de escrita, na reelaboração de narrativas, nas mais variadas especializações da História,
no debate sobre o que é e o que não é história, no conceito de documento, de periodização, nos
jogos de escala, na ideia de arquivo e patrimônio, no uso de tecnologias. Isso implica uma atitude
paradoxal por parte de quaisquer profissionais da História: parece que, quanto mais especializado,
mais ele ou ela está dependente das áreas de pesquisa histórica vizinhas ao seu campo; quanto
mais ligado ao ensino, mais dependente da pesquisa, e vice-versa. Quanto mais imbuído da
crítica documental, mais escolhas individuais sobre documentos, sobre o que falar, estão em jogo.
3DUDIUDVHDQGR$OXQ0XQVORZVHRVFLHQWLVWDVOHHPDUWLJRVXQVGRVRXWURV³SDUDWHVWDUIyUPXODVH
GDGRV´ KLVWRULDGRUHV OHHP RV OLYURV XQV GRV RXWURV ³SDUD PHOKRUDU D VXD HVFROKD GH REMHWR GH
SHVTXLVDHGHHQVLQR´
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Então, o que seria, a partir de todas as derivações apresentadas, o conhecimento
histórico? O que é a História?
Peter Burke (1995), em A escrita da História, afirma que qualquer tentativa de delimitação
categórica sobre a História implica problemas, e que poderíamos pensá-la mais a partir de uma
descrição negativa, ou seja, poderíamos explicá-la a partir do que ela não pode ser.
Essa obra, embora amplamente utilizada no Brasil, não nos auxilia muito no que diz
respeito a pensar a História em sentido amplo, uma vez que o autor apenas organiza outros
autores e autoras que discutem algumas formas de se fazer história a partir de capítulos
individualizados. Uma definição positiva do conceito poderia advir da recente profissionalização do
Historiador, aprovada pela Câmara dos Deputados em 3 de março de 2011. Contudo, o texto legal
não expõe, também, quais seriam os elementos fundamentais da História, e que perpassam por
quaisquer de suas especialidades.
Sobra apelar para a Teoria da História, com o objetivo de vislumbrar alguns elementos,
FDUDFWHUtVWLFDV H SURFHVVRV ³JHUDLV´ RX SHOR PHQRV FLUFXODQWHV HQWUH KLVWRULDGRUHV H
historiadoras, para dizer o que seria esse tipo de conhecimento. Ponderamos, contudo, que a todo
o momento eles estão sendo debatidos, desconstruídos e reconstruídos, especialmente por meio
de um recurso inerente ao profissional, que é sua autocrítica.11
9HMDRTXH-|UQ5VHQ
SQRVIDODVREUHRTXHHOHFKDPRXGH ³SOHQLWXGHGD
SHVTXLVDQDKLVWRULRJUDILD´HQIDWL]DQGRRSDSHOGDDXWRFUtWLFa e da necessidade de exercitarmos,
a todo o momento, o deslocamento entre o particular e o geral na História, visando à busca de um
conhecimento histórico o mais completo possível:
A pesquisa histórica não é um fim em si mesmo, mas está determinada por
critérios de constituição histórica (narrativa) de sentido, que orientam a pesquisa e
que a conduzem, para além do trabalho com as fontes, à prática comunicativa do
presente em que está em jogo a identidade histórica como fator da socialização
humana. A pesquisa não está vinculada apenas externamente a essa
comunicação formadora da identidade, não é apenas instrumentalizada por ela,
mas insere-se nela por inteiro. Ela se transforma de pesquisa (e não poderia ser
de outra forma) em historiografia (2007, p. 169).
Rüsen (2007) não perde de vista a característica não apenas complementar, mas
integradora, que une e transforma o papel da pesquisa em historiografia, e poderíamos pensar,
como ele, na aglutinação, também, entre as preocupações que se desenham no mundo da sala
de aula (didática), e a função, o papel, as marcas e características do conhecimento histórico
como um todo.
2 QUANDO COMEÇA A HISTÓRIA?
Convencionalmente, até a metade do século XX havia um consenso, na comunidade
historiográfica, que a História surge a partir do momento em que os humanos inventaram a
escrita. Daí a divisão entre História Natural (a sucessão de organismos na natureza) e História
Humana (reiterada pelas esferas do cultural, do social, do econômico).
Por meio dessa premissa, gerações e gerações de escolares em diversas partes do globo,
ontem e hoje, ainda usam termos consagrados como Pré-História e História, o que significava, no
mundo ideal das divisões entre ciências, um domínio para arqueólogos e outro para historiadores,
um para uma história da presença humana na Terra antes da escrita, outro para a leitura e
interpretação de grupos sociais que contavam e, especialmente, registravam histórias.
Para contrapor essa percepção de que a História surgiu apenas quando os humanos
estabeleceram códigos verbais e escritos que tinham a intenção de transmitir algumas 12
informações para o futuro (SOUZA, 2007, p. 3), há vários historiadores que sugerem a
substituição dos termos historicamente construídos de Pré-História e História para História Ágrafa
e História Escrita, haja vista a quantidade de grupos sociais que vivem, na atualidade, sem escrita
RX FRPXQLFDP VXD KLVWyULD SRU PHLR GH ³RXWUDV HVFULWDV´ WDLV FRPR WUDQoDV QyV WDWXDJHQV
pinturas corporais, totens ou homens-memória. Isso significa que há abordagens históricas que
consideram outros registros para a interpretação das ações, das escolhas e dos legados
humanos.
FIGURA 1 ± PEDRAS DE CALLANISH, na Ilha Lewis, na Escócia, instaladas por volta de 2600 a.C, são
exemplo de uma forma de registro histórico, em época anterior à escrita na Europa.
FONTE: Autores.
Em muitos trabalhos de História Ambiental (uma dessas tantas abordagens recentes), por
exemplo, a história humana e seu legado é estudada a partir de outra escrita, tirada de
empréstimo de áreas como a Biologia, da Ecologia ou a Economia, que vão desde a intervenção
QRPXQGRQDWXUDODWpD³SHJDGDHFROyJLFD´RXecological footprint (BRANCO, 1999, p. 12). Desde
que os humanos interagem com o mundo natural, fazendo parte e uso contínuo dele, a história se
desenvolve a partir da ideia de transformação e mudança. É o caso da abordagem utilizada pelo
historiador Warren Dean (2000), em A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica
brasileira.
Souza (2007, p. 3) enfatiza que o homem, desde seu surgimento no planeta, é um ser
KLVWyULFR H R p QD PHGLGD HP TXH SURPRYH PRGLILFDo}HV ³VRIUH LQIOXrQFLDV GR DPELHQWH13
estabelece-se como um ser bio-histórico capaz de produzir cultura ao mesmo tempo em que troca
energia e PDWpULDFRPRPXQGRH[WHULRU´
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Resta considerar, então, que a autoimagem europeia especialmente da segunda metade
do século XIX reforçou a presença da escrita convencional como o marco inicial da História no
Ocidente, como um processo de consolidação do eurocentrismo, marcado por recortes políticos,
econômicos e socioculturais inerentes à época do capitalismo industrial, depois imperialista, que
se apropriou de noções como o darwinismo social para empreender a sujeição de povos não
europeus, especialmente nas regiões coloniais. (SHOHAT; STAM, 2006).
Coube à História científica do final do século XIX estabelecer cientificamente as divisões
entre Pré-História, Proto-História e História, reafirmando essa visão de mundo, e elaborando um
percuUVR GH LQWHUSUHWDomR FRQYHQFLRQDO GR ³RFLGHQWH´ D SDUWLU GD LQYHQomR GD HVFULWD QR RULHQWH
médio (Suméria), que havia retransmitido tal herança, agora aperfeiçoada no mundo helênico, que
seguiu fértil no mundo romano, instalando-se depois, no mundo medieval, chegando ao mundo
FRQWHPSRUkQHRVHPSUHSRUYLD³FLYLOL]DGRUD´
6+2+$767$0
No entanto, para toda e qualquer força de história tradicional, que ainda insiste, muitas
vezes, em afirmar categoricamente o surgimento da escrita como o marco inicial da História, não é
apenas a história ambiental que tem proposto interpretações diversas, mas a própria arqueologia
tem trabalhado no sentido de redimensionar o limite entre o que seria e o que não seria escrita.
O conhecimento histórico prescinde, contudo, de textos, de evidências, de escritas, para
constituir-se, para transformar o feito em fato, para organizar fragmentos, indícios, discursos. Se
há múltiplas dimensões sobre a escrita, outro elemento fundamental para os estudos históricos
também é multifacetado, que é o documento.
3 RELATOS
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(DOSSE, 2003, p. 137). Nesse sentido, profissionais da História não podem sobreviver sem o 14
³UHODWR´TXH p LQHUHQWHD VXD SUySULDIXQomR HP SHVTXLVD H HQVLQRPDVWDPEpP p R HOHPHQWR
fundamental para problematizar sua prática.
Desde Heródoto, Sima Qian ou Tudícides, passando por Cícero, Marx ou Fernand Braudel,
trabalhamos com o relato, oriundo de diversos tipos de documentos. Eles podem ser ouvidos,
vistos, escritos, inscritos. Eles podem estar presentes numa anedota, num discurso, num
documento escrito, numa pedra, na forma de arremesso de um objeto, na sensibilidade com
relação a aromas, em tabelas de números.
Histórias são construídas por meio da articulação entre documentos, intenções do
historiador ou da historiadora, escolhas de narrativas, e seleção, catalogação, reunião,
organização e exposição dos fragmentos de um passado de forma a comunicar uma pretensão de
verdade, reapresentando os pequenos trechos de passado impressos em registros diversos num
todo orgânico e lógico, a ser denominado de passado propriamente dito. David Lowenthal (1998)
DILUPRXFHUWDYH]TXHR³SDVVDGRpXPSDtVHVWUDQJHLUR´HVVDPHWiIRUDpPXLWRIHOL]QDPHGLGD
em que nos leva a uma premissa básica da pesquisa histórica sobre o passado, que é a limitação
do profissional de História perante os documentos que ele pode dispor sobre esse mesmo
passado, ou seja, geralmente são poucos fragmentos.
A expressão de Lowenthal reforça, nada mais nada menos, a observação de Fernand
Braudel, de que a História se faz com documentos, mas que os sentidos e ideias de documentos
mudam, também, no tempo histórico (BRAUDEL, 1992). Em definitivo, é claro que a História se
faz com documentos. Mas, quais documentos?
No mundo antigo greco-romano, os documentos utilizados por Heródoto assemelhavam-se
mais aos exercícios etnográficos da Antropologia emergente do século XIX, ou às fontes orais,
trabalhadas desde o século XVIII em estudos folclóricos e históricos. No período de plena
cientifização do trabalho do historiador (no século XIX), esses dados arrolados por Heródoto
certamente não teriam espaço em correntes como o historicismo alemão, uma vez que houve um
reforço significativo da ideia de que só teria valor histórico o documento oriundo de arquivos
oficiais, e que, por conseguinte, também fosse oficial (DOSSE, 2003). Tucídides é quem começa a
estabelecer a necessidade, para o pensamento histórico, de documentos escritos e relatos oficiais
para dar organicidade à narrativa da História. Na A Guerra do Peloponeso, escrita pelo autor,
notamos a emergência do uso de documentos escritos na constituição das histórias propostas. 15
Ressaltamos, contudo, que esse processo é peculiar do mundo grego clássico, e não devemos
generalizá-lo para período semelhante. Na Ásia, especialmente na China, o processo é diferente
(vamos relatá-lo depois).
Devemos utilizar, também, precaução ao tratar das histórias escritas por gregos no mundo
antigo. Tucídides é uma exceção à regra das histórias daquele período, em sua insistência por
documentos escritos. Com os romanos é diferente, mas com os gregos, devemos levar em conta
TXHDHVFULWDHPFHUWDPHGLGDHSRUXPERPWHPSRHUDFRQVLGHUDGD³QHJyFLRGHEiUEDURV´QR
caso, especialmente os egípcios (DOSSE, 2003). Eram os egípcios, por exemplo, que tinham uma
fixação por documentar as suas realizações, em pedras, estelas, estátuas e, especialmente,
documentos. Dos gregos, herdamos mais monumentos e textos filosóficos do que históricos, e
sua história é mais estudada a partir de cultura material do que textual.
Outra sociedade antiga que produzirá, sim, muitos documentos, será a romana, desde a
república até o império. Diferentemente dos gregos, a história adquirirá papel didático, moral e de
registro oficial de realizações militares e políticas, por meio de historiadores oficiais, com acesso a
arquivos também oficiais ou privados. Se Heródoto estava mais interessado em relatar o que
ouviu ou viu, num período não maior do que uma ou duas gerações anteriores a ele, Políbio, um
escravo grego na função de historiador oficial romano, construirá narrativa de outra espécie, mais
detalhada, datada, vinculada a um registro oficial para servir de exemplo, guia ou propedêutica
para o futuro.
A partir de Políbio, Roma inaugurará no ocidente algo que já havia, no mesmo período, na
China, que é a figura que podHUtDPRVFKDPDUGH³KLVWRULDGRURILFLDOGHHVWDGR´
TXHQRRFLGHQWH
será o historiador analista, aquele que, a cada ano, escreverá sobre as realizações do período).
Tito Lívio é um dos exemplos desse tipo de historiador, ao escrever as vidas dos césares, com
função educativa e moral, mas também com a função senatorial de registrar os procedimentos
legais e a história político-administrativa romana. Documentos, para Roma, teriam, então, outro
sentido e outras qualidades e propriedades. O ouvir contar perderia força, substituído pelos atos
oficiais, não necessariamente escritos, porém chancelados por notáveis da sociedade. É claro que
para a História escrita na época romana, porque hoje, ao escrevermos história do mundo romano,
nos aproveitamos de uma infinidade de documentos deixados em todo esse mundo, que vão
desde grafite em paredes de antigos prédios, bilhetes pessoais, contratos de casamento, até
monumentos e instrumentos de trabalho.16
Nem substituição, nem continuidade, nem declínio, apenas outra forma de entender a
História ocorre a partir da emergência do cristianismo e de sua expansão dentro desse mundo
romano que se espalha desde a África, passado por parte do Oriente Médio e abraçando todo o
Mediterrâneo, adentrando, também o continente europeu. Para os cristãos, a História dos homens
e mulheres é tão somente a revelação proposta pelo único documento verdadeiramente
importante: a bíblia, que vai, também, se formulando em sua versão latina ao longo da Pax
Romana e da insustentabilidade da sociedade militarista romana. O cristianismo irá propor, a partir
da leitura da vida de Jesus Cristo, o fim da História, e a proposta de desprendimento humano com
relação a virtudes e morais pagãs, o que vai desarticular a ideia e a importância social da História,
desde o fim da Idade Antiga, alcançando quase que a totalidade da época medieval (CAMBI,
1999). Por isso é que é possível dizer, em certa medida, que os estudos históricos não terão
relevância no mundo medieval, na medida em que documentos produzidos com intenções
humanas nada seriam em comparação com o único documento importante para o entendimento
da existência humana.
Haverá, sim, documentos relevantes no mundo medieval, que serão usados em
hagiografias, as escritas das vidas dos santos. Não significa, também, que o mundo medieval
europeu não produziu documentos que hoje são utilizados por historiadores; o mundo medieval
produziu uma quantidade extremamente volumosa de documentos dos mais variados gêneros,
cobrindo os mais diferentes campos especulativos, desde aspectos comezinhos da vida cotidiana
até tratados políticos, elementos que, no século XX, redundaram em histórias interessantíssimas
das vidas pública e privada, e dos mundos urbano e não urbano medievais que seriam difíceis de
serem estruturados levando-se apenas poucos fragmentos, como é o caso de algumas regiões do
mundo antigo.
No mundo medieval, contudo, devemos levar em consideração a reemergência do uso de
fontes orais em combinação com documentos escritos e imagéticos, quando pensamos nos
historiadores muçulmanos que trafegavam entre o Oriente Médio, o Norte e o Centro da África, e
partes da Europa. Ibn Kaldum, Ibn Batuta, Ibn Sina são alguns dos exemplos de historiadores
importantes do período.
São esses historiadores que irão influenciar, em certa medida, um retorno da História no
mundo medieval europeu. Ibn Kaldum, por exemplo, reintroduzirá o modelo de relato escrito que
leva em conta rigor de datação e cronologia, critérios claros para a escolha de documentos, 17
método para a organização lógica do argumento e da narrativa históricos, além de preocupação
com didatismo e comunicabilidade textuais.
Grande parte da História do continente africano deve-se, também, à coleta de relatos por
esses historiadores muçulmanos, caracterizados pela captação, análise e crítica de documentos
oriundos de diferentes espaços públicos e privados, e dotados de características diferenciadas
entre si.
Até aqui estamos expondo, de maneira generalista, a multiplicidade do conceito de
documento a partir de exemplos dispostos cronologicamente, do mundo antigo ocidental, para o
mundo moderno. Percebe-se que o documento assume diferentes formas e usos segundo as
abordagens escolhidas, e essas especificidades serão melhor discutidas quando adentrarmos a
unidade que apresenta as principais abordagens históricas reconhecidas, na atualidade.
Nos alvores do mundo moderno, a partir de eventos inerentes à Revolução Científica, ou
ao descobrimento da América, e o refinar das navegações, o encontro da Europa com seus
³RXWURV´PDrcadamente no que os europeus dos séculos XV e XVI passaram a chamar de Novo
Mundo, a necessidade de se construir narrativas históricas desses processos passou a orientar
um retorno da imperiosidade do divino medieval, para a imperiosidade do mundano. Descobertas,
viagens, aventuras, ambientes, eram cada vez mais registrados por documentos verbais e visuais,
textos seguidos de desenhos, muitas vezes identificados como crônicas, histórias, relações ou
cartas.
Muitas vezes, o conhecimento histórico utilizou-VH GR WHUPR ³IRQWH´ SDUD GHVLJQDU
documento (e ainda o utiliza, dependendo da abordagem). Não há termo mais preso a sua época
do que esse, quando pensamos na discussão do estatuto do documento na pesquisa e no ensino
de História. A fonte emerge com esse designativo durante a apropriação e discussão da História
pelos iluministas, entre os séculos XVII e XVIII.
O termo fonte ajudou, inclusive, a produzir uma falsa impressão de que os documentos
jamais seriam manipulados, apropriados ou interpretados de maneira diferente do que seus
objetivos iniciais. Fonte é alegoria da pureza, da fluidez, da limpidez, da saciedade do historiador.
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medida em que seria por meio de docuPHQWRV ³SXURV´ ³LPDFXODGRV´ ³FODURV´ TXH D +LVWyULD18
poderia emergir matando a sede de curiosidade e, especialmente, de verdade dos acontecimentos
passados.
No início do século XIX, com arquivos públicos em processo de expansão e consolidação,
as fontes históricas tiveram papel importante para o surgimento de um esforço crescente de uso
GHGRFXPHQWRVSDUDHVFUHYHUKLVWyULDV³GRTXHUHDOPHQWHDFRQWHFHX´
Para escrever o que realmente aconteceu, alguns historiadores, como é o caso de Leopold
Von Ranke, recorreram à legitimação da História por meio do uso de protocolos de pesquisa
advindos da heurística documental e de uma racionalização objetiva, na qual a ideia de bom
historiador estaria intimamente ligada com a sua capacidade de isentar-se das intenções
discursivas dos documentos, na sua habilidade em apresentar-se por meio da imparcialidade e da
neutralidade frente às fontes utilizadas. Uma boa história seria aquela capaz de ser contada pelo
historiador, a partir das fontes em si.
No final do século XIX, com o projeto de objetivação do conhecimento histórico de vento
em poupa, Charles Langlois e Charles Seignobos lançam, em 1898, a obra Introdução aos
estudos históricos.
Um dos aspectos essenciais no livro de Langlois e de Seignobos é a teorização sobre o
documento e seus usos pela História. Entre as proposições desses dois autores estava a
reafirmação de algumas qualidades do que seria ou não um documento histórico, a utilidade deles
para a História, a sua localização, e sua validação. (LANGLOIS; SEIGNOBOS, 1946).
Para Langlois e Seignobos (1946), documento histórico seria oriundo, especialmente, da
instituição chamada arquivo público. Esse documento, portanto, já seria fruto de um processo de
seleção, catalogação e inventário por parte de arquivólogos e, desde sempre, sua vitalidade e
importância seria ditada, numa primeira instância pelas autoridades. Os documentos oficiais de
arquivo seriam a máxima expressão da objetividade dos interesses de estado, e das realizações
político-administrativo-burocráticas, reafirmando, também, sua importância na vida pública de
nações ou de grupos sociais. A esses documentos, caberia proceder a inquéritos de ordem
interna e externa, para averiguação da sua autenticidade e validade (elementos positivos que
permanecem na prática da História). Na Heurística interna, o historiador deveria buscar analisar
pormenorizadamente a constituição do documento por si, sua forma, sua estética, seu discurso, 19
sua construção em sentido restrito. Na Heurística Externa, a sua validade levando-se em conta a
relação existente com outros documentos, com as instituições originárias, com a época e local de
formulação. O que o Positivismo de Langlois e Seignobos propunha então, não seria de todo um
procedimento ruim; pelo contrário, buscaria reverter certo desleixo propugnado por formas de se
fazer história que não se detinham, antes deles, a desenvolver uma série de procedimentos de
YHULILFDomR GD ³IRQWH´ &RQWXGR QmR SRGHPRV QRV GHL[DU WDPEpP HPEULDJDU SHOD Pi[LPD
objetividade da verificação documental proposta por essa história quase ligada às Ciências
Naturais do final do século XIX; as verificações são importantes, não por si, mas para
depreendermos dos documentos os interesses, quem fala, de onde fala, para quem fala e o que
pretende, em termos de exercício de uma relação de poder. Os documentos, dessa maneira,
articulam uma vontade de veracidade, uma potencialidade de refutabilidade. (RÜSEN, 2007). A
história, nesse sentido, é uma narrativa verídica, como Paul Veyne a descreveu, na obra Como se
escreve a História.
Se Ranke tentou objetivar ao máximo a narrativa histórica, atribuindo uma capacidade
autoexplicativa aos documentos com os quais o historiador poderia construir a história, e se
Seignobos e Langlois propugnaram protocolos científicos para a História, todos eles dentro de
uma tradição de uso e de favorecimento da documentação de arquivos públicos e oficiais, no
entanto não se pode dizer que apenas essa forma de construção do conhecimento histórico era
reconhecida no período. Julles Michelet, por exemplo, fez amplo uso de documentos não oficiais
para discutir e reposicionar o mundo medieval no centro de uma cultura europeia cosmopolita e
burguesa. Karl Marx, em capítulos de O Capital, tais como A Jornada de Trabalho não poupou
análise sobre documentos públicos e privados, laudos médicos, denúncias de trabalhadores,
manifestos e outros textos não necessariamente enquadrados no rol de documentos que iriam
para arquivos públicos oficiais.
Entre o final do século XIX e as primeiras três décadas do século XX, a noção de História
foi sacudida, construída e reconstruída a partir de preocupações teórico-metodológicas e
temáticas. Frente ao objetivismo e à defesa exacerbada da história política, voltada à exaltação de
indivíduos e laudatória, alguns pensadores como François Simiand, Marc Bloch, Lucien Febvre
pejorativizavam a história que era baseada em três ídolos (expressão de Simiad): o indivíduo, a
data e o fato. Foram eles que, lançando uma revista nova de história, intitulada $QQDOHVG¶+Lstoire
Économique et Social, acabaram por articular uma nova forma de se fazer história, a ser difundida
pelo grupo designado, posteriormente, de Escola dos Annales.20
As críticas sobre o documento, dentro desse grupo, seriam feitas por Fernand Braudel, que
propunha a expansão ou dilatação do conceito, afirmando que o historiador não deveria apenas
se pautar por documentos oficiais para construir seus enredos, mas por documentos diversos que
emergiam do todo social. Civilização material, economia e capitalismo, uma coleção de três livros
produzia por Braudel representa, certamente, um bom exemplo do que é o historiador, a partir dos
Annales. Nela, Braudel faz isso de receitas, de anotações, mapas, croquis. Nada muito distante do
que já outro historiador posteriormente inserido no clube da História Cultural, Gilberto Freyre,
havia feito em Casa-Grande e Senzala (1936).
3.1 TIPOS DE RELATOS OU DOCUMENTOS
Quando profissionais da História utilizam relatos intermediados por documentos, passam a
considerar qual é o tipo de documento que estão usando. Diferentes tipos de documentos existem
por diferentes razões e conhecer a diferença de tipos de documentos pode nos auxiliar na melhor
construção da crítica à história, bem como aos próprios documentos.
Isso se deve ao uso de uma ampla quantidade de documentos para responder a questões
que colocamos com relação ao passado. Para uma grande parte de historiadores e historiadoras
empiricistas, há uma divisão básica entre fontes primárias e fontes secundárias, ou documentos
primários e documentos secundários, que podem servir como arquivos e registros daquilo que
sobreviveu do passado, tais como cartas, fotografias, artigos, roupas. Já fontes ou documentos
secundários são aqueles que tratam do passado, mas criados por pessoas escrevendo sobre
esses eventos em algum momento posterior a sua ocorrência.
3.1.1 Documentos escritos publicados e não publicados
Pessoas vivendo no passado deixaram muitas pistas sobre suas vidas. Essas pistas
envolvem documentos primários e secundários na forma de livros, de artigos pessoais, de
documentos governamentais, cartas, oralidade, diários, mapas, fotos, relatórios, romances e
contos, artefatos, moedas, selos e outros.
Muitos desses documentos foram publicados, o que significa que poderiam ter audiência e
distribuição, como é o caso de livros, jornais, revistas, documentos governamentais e não 21
governamentais, literatura de toda espécie, panfletos, mapas, anúncios, pôsteres, leis e
processos.
Ao se trabalhar com documentos publicados, devemos lembrar que não é pelo simples fato
de estarem publicados que os documentos podem ser confiáveis e acurados. Todo documento
tem um ou vários criadores, e todo criador ou criadora tem um ponto de vista, visões de mundo e
preconceitos. Também devemos levar em consideração que toda e qualquer evidência
documental que é intermediada por preconceitos ou opiniões contam-nos coisas importantes
sobre o passado.
FIGURA 2 ± EXEMPLO DE DOCUMENTO NÃO PUBLICADO, o diário, que acabou por se tornar um dos
principais documentos de uma ordem social que passou a valorizar a intimidade e a vida privada, com a
emergência da burguesia.
FONTE: (CORBIS, 2011).
Há, também, muitos tipos de documentos não publicados. Nesse rol encontramos cartas
pessoais, diários, documentos familiares contendo histórias da família, boletins escolares,
agendas, entre outros. Arquivos empresariais, tais como correspondências, boletins financeiros,
informação sobre consumidores, pautas de reunião de direções, arquivos de desenvolvimento de
produtos também nos servem como pistas do passado.22
Documentos não publicados frequentemente advêm de organizações da comunidade, de
igrejas, de clubes de serviço, partidos políticos, sindicados de trabalhadores. Governos em todos
os seus níveis também criam uma série de documentos que não são publicados. Isso inclui
relatórios de política, listas de taxas e votantes, além de documentos sigilosos.
Ao contrário dos documentos publicados, os registros não publicados são difíceis de serem
encontrados e utilizados, especialmente porque têm poucas cópias. Por exemplo, cartas pessoais
podem ser encontradas facilmente na posse de uma pessoa que foi a destinatária, desde que
tenha interesse em arquivar tais evidências. Às vezes, as cartas de pessoas famosas podem ser
arquivadas e publicadas. No entanto, devemos também pensar que, muitas vezes, o autor ou
autora da carta nunca teria a intenção de publicá-la no futuro, ou que alguém pudesse lê-la não
sendo o destinatário.
3.1.2 Documentos visuais
Os documentos visuais incluem fotografias, filmes, pinturas e outras construções culturais.
Devido ao fato de que esse tipo de documento captura momentos no tempo, eles podem,
principalmente, fornecer evidências das transformações que ocorrem ao longo da história.
Documentos visuais incluem evidências sobre a cultura em momentos específicos, tais como seus
costumes, preferências, estilos, ocasiões especiais, trabalho e lazer.23
FIGURA 3 ± UM DOS ITENS MAIS COMUNS que encontramos como fontes visuais são as fotos de família,
que ocupam lugar de destaque no mundo cotidiano.
FONTE: CORBIS, 2011.
Esses documentos também têm um criador ou criadora, um ponto de vista (como o do
pintor, do escultor, do diretor do filme). Mesmo fotografias foram criadas por fotógrafos usando
filme e câmeras para criar os efeitos desejados.
Pensem sobre o ponto de vista do criador quando você visualiza esse tipo de documento.
Qual é sua proposta? Qual a razão daquela pose mostrada no documento? Quais são as
perspectivas? Qual é o enquadramento? Quais são as distâncias utilizadas? Qual é o assunto? O
que foi incluído sobre o assunto? O que foi excluído?
Esses questionamentos são fundamentais, uma vez que a imagem, especialmente a
fotografia, por exemplo, cumprem uma das funções essenciais que é a contiguidade com a
realidade fotografada (NÖRTH; SANTAELLA, 1999). Essa característica essencial da fotografia
muitas vezes sugere que esse tipo de documento retrate ou colete ou informe elementos
IXQGDPHQWDLVGDUHDOLGDGHRXGRV³IDWRVUHDLV´&RQWXGRGHYHPRVVHPSUHPHQFLRQDUTXHKiXP
filtro fundamental ao pensarmos fotos, que é o dedo do fotógrafo, o tipo de máquina que ele usa, 24
as técnicas de revelação ou digitalização, os softwares que são incorporados nesse processo, o
momento do dia ou da noite, entre outros.
Em Testemunha ocular, o historiador Peter Burke (2004) trabalha fundamentalmente com a
problematização do uso de imagens pela História, relembrando a todo o momento que, entre o
produtor e o receptor da imagem há um caminho totalmente historicizável, que precisa ser
criticado e analisado com acuidade pelos profissionais da História. Em certa medida, ele sugere
que tenhamos filtros específicos para ler as imagens não apenas como ilustrações de textos, mas
como textos em si, dotados, portanto, de todas as características inerentes a outros documentos,
tais como o enunciado, o criador do enunciado, o sentido escolhido e dado a ele, a quem está
direcionado etc.
3.1.3 Documentos orais
A oralidade é, sem dúvida, muito instigante do ponto de vista do seu uso como documento
para fins históricos. Tradições orais e histórias orais proporcionam outro meio de aprender sobre o
passado de pessoas que vivenciaram muitos eventos ou mudanças.
Esse tipo de documento começou a ganhar forma semelhante à atual nos anos 1930,
quando uma série de medidas que envolviam história oral foi tomada para registrar a crise
ocasionada pelas tempestades de terra no meio-oeste dos Estados Unidos, o fenômeno que ficou
conhecido como Dust Bowl. Esse processo de migração forçada, pauperização da população de
classe média rural que foi forçada a fugir da fome em direção à Califórnia acabou sendo retratada
em um livro intitulado Vinhas da Ira, que também recebeu uma versão fílmica com o mesmo nome
em 1941.
A História Oral, como campo do conhecimento, reforçou-se ainda mais na segunda metade
do século XX, especialmente quando pensamos nos estudos históricos de minorias, tais como
indígenas, ou outros grupos étnicos, que são, muitas vezes, excluídos dos principais produtos
culturais e historiográficos.
Há inúmeras formas de se encarar a História Oral, bem como de se obter um depoimento
que possa ser utilizado historicamente. Até a década de 1970, vigorava uma perspectiva de
História Oral que preconizava a recorrência a ela somente quando o historiador não conseguia 25
obter determinada informação em fontes escritas. Os documentos históricos orais seriam
QHFHVViULRVHQWmRSDUD³SUHHQFKHUODFXQDV´GHL[DGDVSRURXWURVWLSRVGHUHJLstro.
Contudo, essa forma de encarar a História Oral sofreu inúmeros ataques, o que repercutiu
positivamente em tempos posteriores, e a trajetória particular desse campo é interessante, por
mesclar teoria e método, bem como uso de novas tecnologias numa velocidade maior do que
outros campos de estudo histórico.
FIGURA 4 ± O PROCESSO MAIS COMUM para a realização de entrevistas é o uso de gravador e de uma
entrevista semiestruturada.
FONTE: (CORBIS, 2011).
Em diversos lugares, como no Brasil, acostumamo-nos, durante muito tempo, em utilizar
um saber manualístico e técnico de História oral, especialmente a partir de obras como Manual de
História Oral, de Sebe Bom Meihy (1998). A partir desse manual, muitos historiadores e
historiadoras ainda utilizam uma forma de fazer História Oral que compreende entrevista
semiestruturada, a sua gravação, especialmente em áudio, a posterior transcrição da entrevista, e,
então, um processo chamado de transcriação, ou seja, uma reelaboração do documento para fins
científicos.26
Mas há outros métodos, especialmente de coleta de informações, que não precisam,
necessariamente, estar gravadas em áudio, mas registradas em vídeo ou caderno de campo.
Nesse sentido, outros elementos entram em cena quando pensamos a História Oral, como é o
caso dos critérios éticos na pesquisa histórica, a saber: até que ponto se pode utilizar um
depoimento, sem manter anonimato ou garantias a sigilo e confidencialidade, entre outros.
3.1.4 Documentos multimidiáticos
Raphael Samuel (1996) enfatizou que a sua geração de historiadores representava uma
geração não educada e não preparada para discutir imagens, e apenas textos. Não apenas esse
autor pode servir de exemplo da autocrítica de historiadores.
Desde o final do século XIX, um importante documento entrou para a arena da História,
não gerando preocupações teórico-metodológicas num primeiro momento, mas estabelecendo-se
como uma realidade inexorável e indiscutível no que diz respeito aos usos e à atração por parte
de um público também moderno.
Foi desde o final do século XIX que passamos a conviver com outras formas midiáticas de
documentos, que rapidamente passaram a envolver não apenas uma ou duas dimensões textuais
(como as palavras e as fotografias), mas três ou mais (texto, imagem e som).
Levy (2000) foi um dos primeiros pesquisadores a discutir o uso de documentos multimídia
para a História. Para ele, os documentos desse trio carregavam em si as identificações com os
meios (aparelhos) usados para apresentar a mensagem, os modos de apresentação, e os
sentidos implicados à recepção da imagem, que deveriam envolver dois ou mais sentidos para a
decodificação.
Nesse sentido, esse tipo de documento tira partido de mais de um formato para sua
apresentação, e, quando pensamos em discuti-los de um ponto de vista histórico devemos pensar
que foram os filmes os primeiros exemplos desse tipo a serem trabalhados histórica e
historiograficamente, ainda nos anos 1960.27
Mas esses documentos não são apenas filmes, são vídeos que combinam formatos como
os de hoje, os informáticos, e, nesse sentido, profissionais de história não podem desconsiderar,
para fins de pesquisa e de ensino, relatos como aqueles que são postados em redes como o
YOUTUBE, por exemplo.
Muitos desses documentos apresentam hoje não apenas a característica de serem
decodificados a partir do uso de dois ou mais sentidos, mas de serem direcionados, repensados
por meio de um conceito que emergiu no final dos anos 1980, que é a interatividade. Um
documento interativo é aquele que dá ao seu usuário o poder de controlar o tema, em certos
sentidos, e isso também precisa ser pensado, por historiadores e historiadoras, do ponto de vista
da pesquisa histórica.
Documentos multimídias têm alguns formatos. Um deles, denominado de unimídia modal
apresenta-se como um documento que tem dois ou mais tipos de mídia envolvidos numa mesma
produção. São exemplos disso alguns documentos que envolvem áudio, vídeo, animação,
histórias em quadrinhos, gráficos e tabelas.
Quanto à organização desse tipo de documento, devemos pensar características
topológicas, que condicionam o leitor ou usuário, e que podem construir um relato que pode variar
entre sequencial, linear, hierárquico ou disposto em rede.
Documentos lineares apresentam uma organização da informação que tem uma sequência
no modelo "anterior-próximo". Há documentos dispostos na forma de grelha, ou documentos
ortogonais, que apresentam dois níveis, e geralmente esses documentos permitem comparações,
que são importantes para o trabalho da História. Outros documentos multimídia são construídos
na forma de árvores, ou hierárquicos, nos quais os nós podem ter antecedentes e descendentes,
mas sem apresentar, muitas vezes, ramificações. Já documentos dispostos em rede apresentam
nós interconectados.
Cabe a historiadores e historiadoras tecer perguntas sobre os componentes de um
multimídia, ou seja, sobre o armazenamento, sobre o tipo de interatividade possível, entre outros
problemas característicos de qualquer outro tipo de documento.28
4 A HISTÓRIA E OS HISTORIADORES E HISTORIADORAS
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historiador, uma vez que está incluída no rol de preocupações de qualquer ser humano no que diz
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escrita da história, essa, sim, com o nome de historiografia, ofício do historiador. (RÜSEN, 2007,
p. 12).
Nesse sentido, cada historiador ou historiadora tem características próprias, geralmente
vinculadas a sua concepção específica de História, a sua forma de compreensão da historiografia
ou a uma escola ou formação acadêmica que recebeu (SOUZA, 2007).
As conclusões dos historiadores nunca são definitivas, podendo variar segundo a
localização, a cultura e a época. Ela pode variar, também, segundo os documentos que são
utilizados na construção da narrativa, e esse elemento é significativo quando pensamos em novas
abordagens sobre os antigos temas. Em certa medida, é isso que explica o porquê de uma ideia
do século XIX ser, num dado momento, desconstruída por uma nova teoria no século XX.
Já dissemos que, enquanto um cientista lê artigos de outros cientistas para provar suas
premissas e testar elementos publicados por outrem, os historiadores costumam escrever a partir
da leitura de outros historiadores. Esse fundamento baliza a construção do conhecimento histórico
e sua mutabilidade no tempo. A constatação, ou melhor, a inerente admissão, por parte da
pesquisa, da mudança de perspectiva já havia sido observada pelo historiador francês Georges
Duby (2001, p. 7-8), ao afirmar que:
o campo de ação do historiador se desloca ao longo dos tempos, [...] a
função da história na sociedade se transforma e temos absolutamente de ter
em consideração, no trabalho dos historiadores que nos precederam, o
meio em que viveram e a sua própria personalidade, para aproveitarmos ao
máximo suas contribuições.
Essas palavras marcam a visão atual que os historiadores têm da construção da História,
pois as análises de um mesmo objeto de estudo podem diferenciar de época para época, de
espaço para espaço. Se a "história é filha do tempo", expressão típica do início do século XX, sua 29
produção atende às demandas ligadas ao presente do qual ela emerge. É o que afirma Jean
Glenisson (1991, p. 142), quando fala dos fatos históricos no tempo:
fatos históricos são os fenômenos, as coisas que acontecem aos homens:
os acontecimentos. Ora, estes são dificilmente previsíveis, jamais idênticos
em seus detalhes e de importância infinitamente variada: acontece-lhe
afetar todos os homens, mas podem, também, reduzir-se a um simples
gesto, a uma palavra. São estritamente localizados no tempo e no espaço e,
se muitas vezes o homem é seu autor consciente, com muito maior
frequência é ele sua vítima ou seu beneficiário involuntário.
Os fatos se constituem na matéria-prima dos historiadores, na sua tarefa de reconstruir o
passado, pois cada problemática investigativa deve ter como base a experiência em si. As
informações utilizadas são peculiares, escolhidas e postas em locais e tempos peculiares. Muitas
vezes elas têm caráter subjetivo e diverso, podendo beneficiar ou dificultar o trabalho de
investigação (tarefa, também, baseada na oportunidade). É impossível reproduzir a experiência
histórica em laboratório, e podemos apenas esperar da experiência, que ela se manifeste e venha
a ser interpretada aos olhos da historiografia.
Nesse sentido é que Rüsen (2007, p. 12) enfatiza que:
o pensamento histórico só se torna especificamente científico quando segue os
princípios da metodização, quando submete a regras todas as operações da
consciência histórica, cujas pretensões de validade se baseiam nos argumentos
das narrativas, nas quais tais fundamentos são ampliados sistematicamente.
O que Rüsen (2007) pontua para a operação de reconstrução do passado serve, também,
para pensarmos a história como um todo.
Dessa forma, os historiadores contemporâneos tem o dever de valorizar as diversas fontes
disponíveis para a condução de sua investigação. Pois a experiência histórica não pode e não
deve ser vista e analisada apenas como um fenômeno isolado. A História é viva e ela se relaciona
com as mais diversas formas de expressões temporais e espaciais. Nesse sentido, o contato e a
análise do fato histórico exigem grande discernimento e postura ética.
Devemos nos lembrar a todo o momento que as conclusões de historiadores e
historiadoras não são definitivas. Assim, a historiografia não deve ter a preocupação de fixar
verdades, uma vez que ela é apenas uma forma de validação das pesquisas históricas, pensando
seus protocolos. Nesse sentido, são comuns interpretações diferentes sobre o mesmo objeto.30
Um exemplo marcante do que estamos tentando mostrar é o descobrimento ou achamento
ou conquista do Brasil pelos portugueses. Em sentido amplo, hoje o principal documento sobre o
evento é a carta escrita por Pero Vaz de Caminha. Ela só veio a público no início do século XIX e
disputou lugar com outros documentos sobre o acontecimento, especialmente a Carta do Piloto
Anônimo, escrita por um dos tripulantes da caravela de Pedro Álvares Cabral.
Tanto Pero Vaz de Caminha como o Piloto Anônimo tinham a função específica de noticiar
ou relatar a descoberta de terras localizadas a ocidente da costa africana, ao rei de Portugal. No
caso da carta de Pero Vaz de Caminha é impressionante o relato detalhado sobre as pessoas e a
paisagem. Contudo, ela não fornece, por si só, subsídios para que historiadores entendam essa
América portuguesa recém "descoberta" em sua totalidade.
Isso porque o território seria transformado em colônia europeia em 1500 e foi a partir da
colonização que diversos problemas passaram a assolar os povos que ocuparam anteriormente o
espaço.
O descobrimento não pode ser pensado, portanto, a partir de uma única correspondência
oficial, embora ela tenha pretensões de veracidade, e seja validada como um documento
importante. Para pensarmos o nascente Brasil Colônia, ou melhor, a América Portuguesa,
prescindimos de outros documentos, relatos, fontes. O que pode, porventura, modificar todo o
relato e o entendimento do processo de colonização e conquista do território que, futuramente,
será denominado Brasil.
Parafraseando o historiador Edward Carr (1996, p. 45),
a história consiste num corpo de fator verificados. Os fatos estão disponíveis
para os historiadores nos documentos, nas inscrições, e assim por diante,
como os peixes numa tábua de peixeiro. O historiador deve reuni-los, depois
levá-los para casa, cozinhá-los, e então servi-los da maneira que mais o
atrai.
O historiador é um pesquisador que necessita ter um cuidado especial com as fontes
históricas, pois são elas que darão sentido para o seu ofício. É a partir do ato reflexivo ligado ao
material de pesquisa que o investigador irá esmiuçar o seu objeto de análise e estudo.31
Muitas vezes, a História tem sido vista como um enorme quebra-cabeça com muitas partes
faltando. Porém, o problema principal não consiste nas lacunas e sim na imagem que construímos
de determinado fato histórico. Para facilitar, vamos utilizar o exemplo da Grécia.
Os historiadores possuem uma visão incompleta da Grécia do século V a. C., não porque
WDQWDVSDUWHVVHSHUGHUDPSRUDFDVR³>@PDVSRUTXHpHPJUDQGHSDUWHRUHWUDWRIHLWRSRUXP
SHTXHQRJUXSRGH$WHQDV´
&$55S
Sabemos muito de Atenas, mas pouco da Grécia em si. Neste sentido, o saber histórico
construído acerca da História Grega está ligado diretamente à História da Cidade-Estado Atenas,
o que vem a simplificar todo um contexto histórico, dificultando a visão das diversas
especificidades históricas do restante da Grécia.
Essa visão da História Grega relacionada a Atenas, ou mesmo a visão de que os Estados
Unidos da América são a nação mais desenvolvida e importante do mundo contemporâneo estão
ligadas a uma imagem pré-VHOHFLRQDGDHSUHGHWHUPLQDGD³>@não por acaso, mas por pessoas
que estavam, consciente ou inconscientemente, imbuídas de uma visão particular e que
consideravam os fatos que sustentavam essa visão dignoVGHVHUHPSUHVHUYDGRV´
&$55
p. 49).
Neste sentido, o que sustenta que a História Grega seja basicamente a História de Atenas
e que a nação mais poderosa do mundo são os Estados Unidos da América é justamente a visão
pré-estabelecida acerca do objeto de estudo. Se houvesse a preocupação de estudar a História
Grega a partir de Esparta, certamente a narrativa seria outra, ou se o modo de produção
capitalista desse espaço a outro modelo econômico, certamente a visão acerca do domínio
americano iria mudar.
'HYHPRVWHUFODUH]DGHTXHRVIDWRVKLVWyULFRVQXQFDFKHJDPDQyVGHIRUPD³SXUD´HOHV
smRVHPSUHLQWHUSUHWDGRVSHORKLVWRULDGRUTXHRUHJLVWURX³&RPRFRQVHTXrQFLDTXDQGRSHJDPRV
um trabalho de História nossa preocupação não deveria ser com os fatos que ele contém, mas
FRPRKLVWRULDGRUTXHRHVFUHYHX´
&$55S
Certamente as visões dos fatos e dos objetos passam necessariamente pela escrita da
sendo o historiador o principal responsável pela elaboração de um discurso negativo ou 32
positivo acerca de determinado fato histórico. É a História dos vencedores que acaba por apagar a
História dos vencidos, os que dominam determinam o curso da História em detrimento daqueles
que servem.
Concluímos então que é importante que quaisquer profissionais de História tenham ao seu
alcance o maior número de documentos históricos, pois eles permitem desvendar o seu objeto de
estudo com mais propriedade e, acima de tudo, com mais honestidade, além de melhorar a
capacidade e a necessidade de tecer escolhas. É conveniente afirmar que a historiografia, muitas
vezes, é comprometida com um segmento da sociedade, deixando assim de dar visibilidade a
outro. Autores e autoras só se preocupam em analisar os aspectos econômicos em detrimento
dos aspectos históricos de ordem cultural, política e social, por exemplo. Mesmo que devamos
admitir a parcialidade, priorizando alguns alvos, procedimentos e perspectivas de análise, não
podemos desconsiderar tacitamente documentos e métodos que possam contribuir para o
aprofundamento de questões relacionadas ao seu objeto de estudo.História, sendo o historiador o principal responsável pela elaboração de um discurso negativo ou

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