A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO

A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO por SYLVIA ROMANO TÓPICO 1 - DISCUTINDO O CONHECIMENTO HISTÓRICO 1 INTRODUÇÃO No mundo ocidental, seguindo a denominação dada à Europa e às neo-Europas da América pelos europeus desde o século XV, a História, com esse nome, emergiu na Grécia do período clássico. Heródoto escreveu nove livros intitulados Histórias, cada um deles levando o título de musas helênicas, e repletos de feitos e comportamentos tanto gregos, quanto bárbaros de um período não tão distante do autor. Mas a História não pode ser resumida a livros escritos por alguns de seus pretensos e disputados pais. Ninguém pode negar a Heródoto seus méritos, mas há que se destacar que Tucídides também se apresenta como genitor do que hoje é esse campo institucionalizado, isso sem pensarmos em outros historiadores mais a leste, contemporâneos aos gregos do período clássico, tais como os chineses Confúcio (VI a.C.), Sima Qian (II a.C.) ou Ban Gu (I d.C.). Ela emerge não de livros, mas de uma necessidade mais existencial, que impele os humanos de diversas regiões do globo a querer buscar interpretações sobre sua orientação, seu sentido, no tempo (RÜSEN, 2007). A esse aspecto, Rüsen (2007) designou como a utilidade do conhecimento histórico: suprir a carência que os humanos têm de orientar-se no tempo. Em outras palavras, de identificar mudanças e continuidades e permitir perceber-se no papel crítico de agente dessas escolhas. A História, assim, engendra-se como priWLFD FRWLGLDQD QRV ³FDXVRV´ QDV DQHGRWDV QDV prosas ou em outros processos que apresentam a referencialidade como elemento aglutinador da necessidade de se organizar a narrativa, de hierarquizá-la (MUNSLOW, 2009); mas ela também e uma história como ciência, que impulsiona quem a conta ou replica a ter cuidado com a forma, com a cronologia, com alguns fatos ou ficções, com a ideia de origem e sentido (RÜSEN, 2007; 8 MUNSLOW, 2009). Ela é história como ciência na medida em que ordenamos nossas narrativas, para encadear uma explicação lógica do passado individual ou grupal. Por último, especialmente ao longo do século XIX, passamos a pensar a Ciência Histórica, marcada, aí sim, por protocolos de pesquisa, por uma racionalização institucionalizada, por cadeiras, por especialidades, por teorias e métodos, uma história metódica (RÜSEN, 2007). Em pouco mais de 200 anos, deixamos de racionalizar a História de um ponto de vista filosófico, para adentrar ao regime acadêmico desse campo de conhecimento, com o surgimento e expansão de faculdades, institutos de pesquisa, laboratórios, todos eles nas mais refinadas áreas da História, divididas por abordagens, por períodos, por localização geográfica. Já no final do século XIX, o filólogo Friedrich Nietzsche, escrevendo na Suíça, traçou pesadas críticas à História, qualificando-a como um fardo e um excesso para a Europa daquele momento. Para aquele autor, um dos males do final do século XIX europeu seria a sobra de História ou, em outros termos, a obsessão por esse conhecimento, os abusos e apropriações feitas sobre ele no período, quer fosse pela classe operária, pelos nobres ou pela burguesia. Certamente Nietzsche escrevia em meio ao surgimento de uma série de revistas acadêmicas destinadas a discutir histórias políticas, histórias naturais, histórias econômicas que corroboravam ou negavam identidades nacionais, locais, moldavam comportamentos, justificavam o imperialismo europeu em outras regiões do globo, assustavam dirigentes de fábricas. Certamente o autor vislumbrava, com todos os seus preconceitos e problemas, um fim de século marcado pela luta incessante pela apropriação de um passado para a Europa, especialmente greco-romano (ideia que ele também compartilhava), percebendo que a História começava a incomodar nas esferas públicas e privadas, especialmente quando se pensa em manutenções ou reordenações do status quo econômico, político, social ou cultural. A História do final do século XIX não era mais aquela baseada no ouvir contar ou no ver, tão característicos a Heródoto. E também não era mais apenas aquela baseada em narrativas de guerras amparadas em documentos dispostos cronologicamente, de Tucídides. Muito menos ela continuava sendo a narração da vida dos santos, marca de um mundo medieval. Por fim, ela também já estava apartada das preocupações filosóficas propostas por iluministas dos séculos XVII e XVIII. Agora ela era uma disciplina autônoma, com seus próprios recursos, modelos, autoridades, perspectivas, prerrogativas e abordagens.9 E foi nesse processo de separação ou independência perante outros campos de conhecimento que a História passou a nomear-se como campo autônomo do conhecimento, como ciência, como domínio. Foi nesse período, também, que podemos dizer que a figura do historiador (depois, mais tarde, a de historiadora), emergiu. A História passou, então, a dizer que tinha uma origem grega, com Heródoto e Tucídides; passou a dizer que começou a ser melhor racionalizada por um italiano do século XVII, chamado Giambattista Vico; que foi reforçada por iluministas como Immanuel Kant ou Voltaire. Consolidouse no início do século XIX com Leopold von Ranke a partir de sua insistência em metodizar o FDPSRSRUPHLRGDSUHPLVVDGHTXHD+LVWyULDGHYHULDFRQWDUR ³TXH UHDOPHQWHDFRQWHFHX´SRU fim, começou a derivar-se no final do século XIX em História Política, História Econômica, História da Arte, História Social, História Cultural, grande parte delas entremeadas por uma racionalidade científica inerente àquele tempo, com influências materialistas (de Charles Darwin ou de Karl Marx) (FOSTER, 2006), realistas e empiricistas (de Leopold von Ranke ou Auguste Comte), ou ainda de outras vertentes que acabaram por influenciar a História, tais como as escolas geográficas da França ou da Alemanha, ou os estudos da Fronteira Oeste, nos EUA (MUNSLOW, 2009). Digamos, então, que a História espraiou-se no final do século XIX. No Brasil, uma das principais influências advinha, naquele momento, do positivismo francês, e do darwinismo social amplamente difundido na Europa, ao passo em que convivia com posturas objetivistas que tinham a finalidade de estabelecer preceitos e uma explicação coerente da origem e da situação contemporânea do país. Se entre os séculos XVIII e XIX há toda uma gama de inversões, contestações, emergências de novas posições em torno do conhecimento histórico; se, na virada do século XIX para o XX há diversas reelaborações conceituais que vão separando, cada vez mais, a História de outros campos, buscando estabelecer algumas fronteiras entre os campos, processo inerente ao realismo científico típico da naturalização das ciências na sociedade contemporânea, é impossível buscar determinar caminhos gerais ou modelos específicos para o que acontecerá no século XX, embora possamos identificar algumas perspectivas amplamente reconhecidas mundialmente na comunidade de historiadores e historiadoras.10 O processo de transformação do conhecimento histórico posto nesse período amplia-se ao longo do século XX e está em curso. Ele é impulsionado, simultaneamente, por mudanças nas concepções gerais de história, nos procedimentos de pesquisa e de ensino, na multiplicação de formas de escrita, na reelaboração de narrativas, nas mais variadas especializações da História, no debate sobre o que é e o que não é história, no conceito de documento, de periodização, nos jogos de escala, na ideia de arquivo e patrimônio, no uso de tecnologias. Isso implica uma atitude paradoxal por parte de quaisquer profissionais da História: parece que, quanto mais especializado, mais ele ou ela está dependente das áreas de pesquisa histórica vizinhas ao seu campo; quanto mais ligado ao ensino, mais dependente da pesquisa, e vice-versa. Quanto mais imbuído da crítica documental, mais escolhas individuais sobre documentos, sobre o que falar, estão em jogo. 3DUDIUDVHDQGR$OXQ0XQVORZVHRVFLHQWLVWDVOHHPDUWLJRVXQVGRVRXWURV³SDUDWHVWDUIyUPXODVH GDGRV´ KLVWRULDGRUHV OHHP RV OLYURV XQV GRV RXWURV ³SDUD PHOKRUDU D VXD HVFROKD GH REMHWR GH SHVTXLVDHGHHQVLQR´ 081/2:S  Então, o que seria, a partir de todas as derivações apresentadas, o conhecimento histórico? O que é a História? Peter Burke (1995), em A escrita da História, afirma que qualquer tentativa de delimitação categórica sobre a História implica problemas, e que poderíamos pensá-la mais a partir de uma descrição negativa, ou seja, poderíamos explicá-la a partir do que ela não pode ser. Essa obra, embora amplamente utilizada no Brasil, não nos auxilia muito no que diz respeito a pensar a História em sentido amplo, uma vez que o autor apenas organiza outros autores e autoras que discutem algumas formas de se fazer história a partir de capítulos individualizados. Uma definição positiva do conceito poderia advir da recente profissionalização do Historiador, aprovada pela Câmara dos Deputados em 3 de março de 2011. Contudo, o texto legal não expõe, também, quais seriam os elementos fundamentais da História, e que perpassam por quaisquer de suas especialidades. Sobra apelar para a Teoria da História, com o objetivo de vislumbrar alguns elementos, FDUDFWHUtVWLFDV H SURFHVVRV ³JHUDLV´ RX SHOR PHQRV FLUFXODQWHV HQWUH KLVWRULDGRUHV H historiadoras, para dizer o que seria esse tipo de conhecimento. Ponderamos, contudo, que a todo o momento eles estão sendo debatidos, desconstruídos e reconstruídos, especialmente por meio de um recurso inerente ao profissional, que é sua autocrítica.11 9HMDRTXH-|UQ5VHQ S QRVIDODVREUHRTXHHOHFKDPRXGH ³SOHQLWXGHGD SHVTXLVDQDKLVWRULRJUDILD´HQIDWL]DQGRRSDSHOGDDXWRFUtWLFa e da necessidade de exercitarmos, a todo o momento, o deslocamento entre o particular e o geral na História, visando à busca de um conhecimento histórico o mais completo possível: A pesquisa histórica não é um fim em si mesmo, mas está determinada por critérios de constituição histórica (narrativa) de sentido, que orientam a pesquisa e que a conduzem, para além do trabalho com as fontes, à prática comunicativa do presente em que está em jogo a identidade histórica como fator da socialização humana. A pesquisa não está vinculada apenas externamente a essa comunicação formadora da identidade, não é apenas instrumentalizada por ela, mas insere-se nela por inteiro. Ela se transforma de pesquisa (e não poderia ser de outra forma) em historiografia (2007, p. 169). Rüsen (2007) não perde de vista a característica não apenas complementar, mas integradora, que une e transforma o papel da pesquisa em historiografia, e poderíamos pensar, como ele, na aglutinação, também, entre as preocupações que se desenham no mundo da sala de aula (didática), e a função, o papel, as marcas e características do conhecimento histórico como um todo. 2 QUANDO COMEÇA A HISTÓRIA? Convencionalmente, até a metade do século XX havia um consenso, na comunidade historiográfica, que a História surge a partir do momento em que os humanos inventaram a escrita. Daí a divisão entre História Natural (a sucessão de organismos na natureza) e História Humana (reiterada pelas esferas do cultural, do social, do econômico). Por meio dessa premissa, gerações e gerações de escolares em diversas partes do globo, ontem e hoje, ainda usam termos consagrados como Pré-História e História, o que significava, no mundo ideal das divisões entre ciências, um domínio para arqueólogos e outro para historiadores, um para uma história da presença humana na Terra antes da escrita, outro para a leitura e interpretação de grupos sociais que contavam e, especialmente, registravam histórias. Para contrapor essa percepção de que a História surgiu apenas quando os humanos estabeleceram códigos verbais e escritos que tinham a intenção de transmitir algumas 12 informações para o futuro (SOUZA, 2007, p. 3), há vários historiadores que sugerem a substituição dos termos historicamente construídos de Pré-História e História para História Ágrafa e História Escrita, haja vista a quantidade de grupos sociais que vivem, na atualidade, sem escrita RX FRPXQLFDP VXD KLVWyULD SRU PHLR GH ³RXWUDV HVFULWDV´ WDLV FRPR WUDQoDV QyV WDWXDJHQV pinturas corporais, totens ou homens-memória. Isso significa que há abordagens históricas que consideram outros registros para a interpretação das ações, das escolhas e dos legados humanos. FIGURA 1 ± PEDRAS DE CALLANISH, na Ilha Lewis, na Escócia, instaladas por volta de 2600 a.C, são exemplo de uma forma de registro histórico, em época anterior à escrita na Europa. FONTE: Autores. Em muitos trabalhos de História Ambiental (uma dessas tantas abordagens recentes), por exemplo, a história humana e seu legado é estudada a partir de outra escrita, tirada de empréstimo de áreas como a Biologia, da Ecologia ou a Economia, que vão desde a intervenção QRPXQGRQDWXUDODWpD³SHJDGDHFROyJLFD´RXecological footprint (BRANCO, 1999, p. 12). Desde que os humanos interagem com o mundo natural, fazendo parte e uso contínuo dele, a história se desenvolve a partir da ideia de transformação e mudança. É o caso da abordagem utilizada pelo historiador Warren Dean (2000), em A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. Souza (2007, p. 3) enfatiza que o homem, desde seu surgimento no planeta, é um ser KLVWyULFR H R p QD PHGLGD HP TXH SURPRYH PRGLILFDo}HV ³VRIUH LQIOXrQFLDV GR DPELHQWH13 estabelece-se como um ser bio-histórico capaz de produzir cultura ao mesmo tempo em que troca energia e PDWpULDFRPRPXQGRH[WHULRU´ %8(//  Resta considerar, então, que a autoimagem europeia especialmente da segunda metade do século XIX reforçou a presença da escrita convencional como o marco inicial da História no Ocidente, como um processo de consolidação do eurocentrismo, marcado por recortes políticos, econômicos e socioculturais inerentes à época do capitalismo industrial, depois imperialista, que se apropriou de noções como o darwinismo social para empreender a sujeição de povos não europeus, especialmente nas regiões coloniais. (SHOHAT; STAM, 2006). Coube à História científica do final do século XIX estabelecer cientificamente as divisões entre Pré-História, Proto-História e História, reafirmando essa visão de mundo, e elaborando um percuUVR GH LQWHUSUHWDomR FRQYHQFLRQDO GR ³RFLGHQWH´ D SDUWLU GD LQYHQomR GD HVFULWD QR RULHQWH médio (Suméria), que havia retransmitido tal herança, agora aperfeiçoada no mundo helênico, que seguiu fértil no mundo romano, instalando-se depois, no mundo medieval, chegando ao mundo FRQWHPSRUkQHRVHPSUHSRUYLD³FLYLOL]DGRUD´ 6+2+$767$0  No entanto, para toda e qualquer força de história tradicional, que ainda insiste, muitas vezes, em afirmar categoricamente o surgimento da escrita como o marco inicial da História, não é apenas a história ambiental que tem proposto interpretações diversas, mas a própria arqueologia tem trabalhado no sentido de redimensionar o limite entre o que seria e o que não seria escrita. O conhecimento histórico prescinde, contudo, de textos, de evidências, de escritas, para constituir-se, para transformar o feito em fato, para organizar fragmentos, indícios, discursos. Se há múltiplas dimensões sobre a escrita, outro elemento fundamental para os estudos históricos também é multifacetado, que é o documento. 3 RELATOS )UDQoRLV'RVVHOHPEUDTXH³VHDKLVWyULDpDQWHVGHWXGRUHODWRHODpWDPEpP>@XPD SUiWLFDTXHVHUHIHUHDROXJDUGDHQXQFLDomRDXPDWpFQLFDGHVDEHUOLJDGDjLQVWLWXLomRKLVWyULFD´ (DOSSE, 2003, p. 137). Nesse sentido, profissionais da História não podem sobreviver sem o 14 ³UHODWR´TXH p LQHUHQWHD VXD SUySULDIXQomR HP SHVTXLVD H HQVLQRPDVWDPEpP p R HOHPHQWR fundamental para problematizar sua prática. Desde Heródoto, Sima Qian ou Tudícides, passando por Cícero, Marx ou Fernand Braudel, trabalhamos com o relato, oriundo de diversos tipos de documentos. Eles podem ser ouvidos, vistos, escritos, inscritos. Eles podem estar presentes numa anedota, num discurso, num documento escrito, numa pedra, na forma de arremesso de um objeto, na sensibilidade com relação a aromas, em tabelas de números. Histórias são construídas por meio da articulação entre documentos, intenções do historiador ou da historiadora, escolhas de narrativas, e seleção, catalogação, reunião, organização e exposição dos fragmentos de um passado de forma a comunicar uma pretensão de verdade, reapresentando os pequenos trechos de passado impressos em registros diversos num todo orgânico e lógico, a ser denominado de passado propriamente dito. David Lowenthal (1998) DILUPRXFHUWDYH]TXHR³SDVVDGRpXPSDtVHVWUDQJHLUR´HVVDPHWiIRUDpPXLWRIHOL]QDPHGLGD em que nos leva a uma premissa básica da pesquisa histórica sobre o passado, que é a limitação do profissional de História perante os documentos que ele pode dispor sobre esse mesmo passado, ou seja, geralmente são poucos fragmentos. A expressão de Lowenthal reforça, nada mais nada menos, a observação de Fernand Braudel, de que a História se faz com documentos, mas que os sentidos e ideias de documentos mudam, também, no tempo histórico (BRAUDEL, 1992). Em definitivo, é claro que a História se faz com documentos. Mas, quais documentos? No mundo antigo greco-romano, os documentos utilizados por Heródoto assemelhavam-se mais aos exercícios etnográficos da Antropologia emergente do século XIX, ou às fontes orais, trabalhadas desde o século XVIII em estudos folclóricos e históricos. No período de plena cientifização do trabalho do historiador (no século XIX), esses dados arrolados por Heródoto certamente não teriam espaço em correntes como o historicismo alemão, uma vez que houve um reforço significativo da ideia de que só teria valor histórico o documento oriundo de arquivos oficiais, e que, por conseguinte, também fosse oficial (DOSSE, 2003). Tucídides é quem começa a estabelecer a necessidade, para o pensamento histórico, de documentos escritos e relatos oficiais para dar organicidade à narrativa da História. Na A Guerra do Peloponeso, escrita pelo autor, notamos a emergência do uso de documentos escritos na constituição das histórias propostas. 15 Ressaltamos, contudo, que esse processo é peculiar do mundo grego clássico, e não devemos generalizá-lo para período semelhante. Na Ásia, especialmente na China, o processo é diferente (vamos relatá-lo depois). Devemos utilizar, também, precaução ao tratar das histórias escritas por gregos no mundo antigo. Tucídides é uma exceção à regra das histórias daquele período, em sua insistência por documentos escritos. Com os romanos é diferente, mas com os gregos, devemos levar em conta TXHDHVFULWDHPFHUWDPHGLGDHSRUXPERPWHPSRHUDFRQVLGHUDGD³QHJyFLRGHEiUEDURV´QR caso, especialmente os egípcios (DOSSE, 2003). Eram os egípcios, por exemplo, que tinham uma fixação por documentar as suas realizações, em pedras, estelas, estátuas e, especialmente, documentos. Dos gregos, herdamos mais monumentos e textos filosóficos do que históricos, e sua história é mais estudada a partir de cultura material do que textual. Outra sociedade antiga que produzirá, sim, muitos documentos, será a romana, desde a república até o império. Diferentemente dos gregos, a história adquirirá papel didático, moral e de registro oficial de realizações militares e políticas, por meio de historiadores oficiais, com acesso a arquivos também oficiais ou privados. Se Heródoto estava mais interessado em relatar o que ouviu ou viu, num período não maior do que uma ou duas gerações anteriores a ele, Políbio, um escravo grego na função de historiador oficial romano, construirá narrativa de outra espécie, mais detalhada, datada, vinculada a um registro oficial para servir de exemplo, guia ou propedêutica para o futuro. A partir de Políbio, Roma inaugurará no ocidente algo que já havia, no mesmo período, na China, que é a figura que podHUtDPRVFKDPDUGH³KLVWRULDGRURILFLDOGHHVWDGR´ TXHQRRFLGHQWH será o historiador analista, aquele que, a cada ano, escreverá sobre as realizações do período). Tito Lívio é um dos exemplos desse tipo de historiador, ao escrever as vidas dos césares, com função educativa e moral, mas também com a função senatorial de registrar os procedimentos legais e a história político-administrativa romana. Documentos, para Roma, teriam, então, outro sentido e outras qualidades e propriedades. O ouvir contar perderia força, substituído pelos atos oficiais, não necessariamente escritos, porém chancelados por notáveis da sociedade. É claro que para a História escrita na época romana, porque hoje, ao escrevermos história do mundo romano, nos aproveitamos de uma infinidade de documentos deixados em todo esse mundo, que vão desde grafite em paredes de antigos prédios, bilhetes pessoais, contratos de casamento, até monumentos e instrumentos de trabalho.16 Nem substituição, nem continuidade, nem declínio, apenas outra forma de entender a História ocorre a partir da emergência do cristianismo e de sua expansão dentro desse mundo romano que se espalha desde a África, passado por parte do Oriente Médio e abraçando todo o Mediterrâneo, adentrando, também o continente europeu. Para os cristãos, a História dos homens e mulheres é tão somente a revelação proposta pelo único documento verdadeiramente importante: a bíblia, que vai, também, se formulando em sua versão latina ao longo da Pax Romana e da insustentabilidade da sociedade militarista romana. O cristianismo irá propor, a partir da leitura da vida de Jesus Cristo, o fim da História, e a proposta de desprendimento humano com relação a virtudes e morais pagãs, o que vai desarticular a ideia e a importância social da História, desde o fim da Idade Antiga, alcançando quase que a totalidade da época medieval (CAMBI, 1999). Por isso é que é possível dizer, em certa medida, que os estudos históricos não terão relevância no mundo medieval, na medida em que documentos produzidos com intenções humanas nada seriam em comparação com o único documento importante para o entendimento da existência humana. Haverá, sim, documentos relevantes no mundo medieval, que serão usados em hagiografias, as escritas das vidas dos santos. Não significa, também, que o mundo medieval europeu não produziu documentos que hoje são utilizados por historiadores; o mundo medieval produziu uma quantidade extremamente volumosa de documentos dos mais variados gêneros, cobrindo os mais diferentes campos especulativos, desde aspectos comezinhos da vida cotidiana até tratados políticos, elementos que, no século XX, redundaram em histórias interessantíssimas das vidas pública e privada, e dos mundos urbano e não urbano medievais que seriam difíceis de serem estruturados levando-se apenas poucos fragmentos, como é o caso de algumas regiões do mundo antigo. No mundo medieval, contudo, devemos levar em consideração a reemergência do uso de fontes orais em combinação com documentos escritos e imagéticos, quando pensamos nos historiadores muçulmanos que trafegavam entre o Oriente Médio, o Norte e o Centro da África, e partes da Europa. Ibn Kaldum, Ibn Batuta, Ibn Sina são alguns dos exemplos de historiadores importantes do período. São esses historiadores que irão influenciar, em certa medida, um retorno da História no mundo medieval europeu. Ibn Kaldum, por exemplo, reintroduzirá o modelo de relato escrito que leva em conta rigor de datação e cronologia, critérios claros para a escolha de documentos, 17 método para a organização lógica do argumento e da narrativa históricos, além de preocupação com didatismo e comunicabilidade textuais. Grande parte da História do continente africano deve-se, também, à coleta de relatos por esses historiadores muçulmanos, caracterizados pela captação, análise e crítica de documentos oriundos de diferentes espaços públicos e privados, e dotados de características diferenciadas entre si. Até aqui estamos expondo, de maneira generalista, a multiplicidade do conceito de documento a partir de exemplos dispostos cronologicamente, do mundo antigo ocidental, para o mundo moderno. Percebe-se que o documento assume diferentes formas e usos segundo as abordagens escolhidas, e essas especificidades serão melhor discutidas quando adentrarmos a unidade que apresenta as principais abordagens históricas reconhecidas, na atualidade. Nos alvores do mundo moderno, a partir de eventos inerentes à Revolução Científica, ou ao descobrimento da América, e o refinar das navegações, o encontro da Europa com seus ³RXWURV´PDrcadamente no que os europeus dos séculos XV e XVI passaram a chamar de Novo Mundo, a necessidade de se construir narrativas históricas desses processos passou a orientar um retorno da imperiosidade do divino medieval, para a imperiosidade do mundano. Descobertas, viagens, aventuras, ambientes, eram cada vez mais registrados por documentos verbais e visuais, textos seguidos de desenhos, muitas vezes identificados como crônicas, histórias, relações ou cartas. Muitas vezes, o conhecimento histórico utilizou-VH GR WHUPR ³IRQWH´ SDUD GHVLJQDU documento (e ainda o utiliza, dependendo da abordagem). Não há termo mais preso a sua época do que esse, quando pensamos na discussão do estatuto do documento na pesquisa e no ensino de História. A fonte emerge com esse designativo durante a apropriação e discussão da História pelos iluministas, entre os séculos XVII e XVIII. O termo fonte ajudou, inclusive, a produzir uma falsa impressão de que os documentos jamais seriam manipulados, apropriados ou interpretados de maneira diferente do que seus objetivos iniciais. Fonte é alegoria da pureza, da fluidez, da limpidez, da saciedade do historiador. 2V LOXPLQLVWDV VDOLHQWDUDP H UHDILUPDUDP R SDSHO GRV GRFXPHQWRV KLVWyULFRV FRPR ³IRQWHV´ QD medida em que seria por meio de docuPHQWRV ³SXURV´ ³LPDFXODGRV´ ³FODURV´ TXH D +LVWyULD18 poderia emergir matando a sede de curiosidade e, especialmente, de verdade dos acontecimentos passados. No início do século XIX, com arquivos públicos em processo de expansão e consolidação, as fontes históricas tiveram papel importante para o surgimento de um esforço crescente de uso GHGRFXPHQWRVSDUDHVFUHYHUKLVWyULDV³GRTXHUHDOPHQWHDFRQWHFHX´ Para escrever o que realmente aconteceu, alguns historiadores, como é o caso de Leopold Von Ranke, recorreram à legitimação da História por meio do uso de protocolos de pesquisa advindos da heurística documental e de uma racionalização objetiva, na qual a ideia de bom historiador estaria intimamente ligada com a sua capacidade de isentar-se das intenções discursivas dos documentos, na sua habilidade em apresentar-se por meio da imparcialidade e da neutralidade frente às fontes utilizadas. Uma boa história seria aquela capaz de ser contada pelo historiador, a partir das fontes em si. No final do século XIX, com o projeto de objetivação do conhecimento histórico de vento em poupa, Charles Langlois e Charles Seignobos lançam, em 1898, a obra Introdução aos estudos históricos. Um dos aspectos essenciais no livro de Langlois e de Seignobos é a teorização sobre o documento e seus usos pela História. Entre as proposições desses dois autores estava a reafirmação de algumas qualidades do que seria ou não um documento histórico, a utilidade deles para a História, a sua localização, e sua validação. (LANGLOIS; SEIGNOBOS, 1946). Para Langlois e Seignobos (1946), documento histórico seria oriundo, especialmente, da instituição chamada arquivo público. Esse documento, portanto, já seria fruto de um processo de seleção, catalogação e inventário por parte de arquivólogos e, desde sempre, sua vitalidade e importância seria ditada, numa primeira instância pelas autoridades. Os documentos oficiais de arquivo seriam a máxima expressão da objetividade dos interesses de estado, e das realizações político-administrativo-burocráticas, reafirmando, também, sua importância na vida pública de nações ou de grupos sociais. A esses documentos, caberia proceder a inquéritos de ordem interna e externa, para averiguação da sua autenticidade e validade (elementos positivos que permanecem na prática da História). Na Heurística interna, o historiador deveria buscar analisar pormenorizadamente a constituição do documento por si, sua forma, sua estética, seu discurso, 19 sua construção em sentido restrito. Na Heurística Externa, a sua validade levando-se em conta a relação existente com outros documentos, com as instituições originárias, com a época e local de formulação. O que o Positivismo de Langlois e Seignobos propunha então, não seria de todo um procedimento ruim; pelo contrário, buscaria reverter certo desleixo propugnado por formas de se fazer história que não se detinham, antes deles, a desenvolver uma série de procedimentos de YHULILFDomR GD ³IRQWH´ &RQWXGR QmR SRGHPRV QRV GHL[DU WDPEpP HPEULDJDU SHOD Pi[LPD objetividade da verificação documental proposta por essa história quase ligada às Ciências Naturais do final do século XIX; as verificações são importantes, não por si, mas para depreendermos dos documentos os interesses, quem fala, de onde fala, para quem fala e o que pretende, em termos de exercício de uma relação de poder. Os documentos, dessa maneira, articulam uma vontade de veracidade, uma potencialidade de refutabilidade. (RÜSEN, 2007). A história, nesse sentido, é uma narrativa verídica, como Paul Veyne a descreveu, na obra Como se escreve a História. Se Ranke tentou objetivar ao máximo a narrativa histórica, atribuindo uma capacidade autoexplicativa aos documentos com os quais o historiador poderia construir a história, e se Seignobos e Langlois propugnaram protocolos científicos para a História, todos eles dentro de uma tradição de uso e de favorecimento da documentação de arquivos públicos e oficiais, no entanto não se pode dizer que apenas essa forma de construção do conhecimento histórico era reconhecida no período. Julles Michelet, por exemplo, fez amplo uso de documentos não oficiais para discutir e reposicionar o mundo medieval no centro de uma cultura europeia cosmopolita e burguesa. Karl Marx, em capítulos de O Capital, tais como A Jornada de Trabalho não poupou análise sobre documentos públicos e privados, laudos médicos, denúncias de trabalhadores, manifestos e outros textos não necessariamente enquadrados no rol de documentos que iriam para arquivos públicos oficiais. Entre o final do século XIX e as primeiras três décadas do século XX, a noção de História foi sacudida, construída e reconstruída a partir de preocupações teórico-metodológicas e temáticas. Frente ao objetivismo e à defesa exacerbada da história política, voltada à exaltação de indivíduos e laudatória, alguns pensadores como François Simiand, Marc Bloch, Lucien Febvre pejorativizavam a história que era baseada em três ídolos (expressão de Simiad): o indivíduo, a data e o fato. Foram eles que, lançando uma revista nova de história, intitulada $QQDOHVG¶+Lstoire Économique et Social, acabaram por articular uma nova forma de se fazer história, a ser difundida pelo grupo designado, posteriormente, de Escola dos Annales.20 As críticas sobre o documento, dentro desse grupo, seriam feitas por Fernand Braudel, que propunha a expansão ou dilatação do conceito, afirmando que o historiador não deveria apenas se pautar por documentos oficiais para construir seus enredos, mas por documentos diversos que emergiam do todo social. Civilização material, economia e capitalismo, uma coleção de três livros produzia por Braudel representa, certamente, um bom exemplo do que é o historiador, a partir dos Annales. Nela, Braudel faz isso de receitas, de anotações, mapas, croquis. Nada muito distante do que já outro historiador posteriormente inserido no clube da História Cultural, Gilberto Freyre, havia feito em Casa-Grande e Senzala (1936). 3.1 TIPOS DE RELATOS OU DOCUMENTOS Quando profissionais da História utilizam relatos intermediados por documentos, passam a considerar qual é o tipo de documento que estão usando. Diferentes tipos de documentos existem por diferentes razões e conhecer a diferença de tipos de documentos pode nos auxiliar na melhor construção da crítica à história, bem como aos próprios documentos. Isso se deve ao uso de uma ampla quantidade de documentos para responder a questões que colocamos com relação ao passado. Para uma grande parte de historiadores e historiadoras empiricistas, há uma divisão básica entre fontes primárias e fontes secundárias, ou documentos primários e documentos secundários, que podem servir como arquivos e registros daquilo que sobreviveu do passado, tais como cartas, fotografias, artigos, roupas. Já fontes ou documentos secundários são aqueles que tratam do passado, mas criados por pessoas escrevendo sobre esses eventos em algum momento posterior a sua ocorrência. 3.1.1 Documentos escritos publicados e não publicados Pessoas vivendo no passado deixaram muitas pistas sobre suas vidas. Essas pistas envolvem documentos primários e secundários na forma de livros, de artigos pessoais, de documentos governamentais, cartas, oralidade, diários, mapas, fotos, relatórios, romances e contos, artefatos, moedas, selos e outros. Muitos desses documentos foram publicados, o que significa que poderiam ter audiência e distribuição, como é o caso de livros, jornais, revistas, documentos governamentais e não 21 governamentais, literatura de toda espécie, panfletos, mapas, anúncios, pôsteres, leis e processos. Ao se trabalhar com documentos publicados, devemos lembrar que não é pelo simples fato de estarem publicados que os documentos podem ser confiáveis e acurados. Todo documento tem um ou vários criadores, e todo criador ou criadora tem um ponto de vista, visões de mundo e preconceitos. Também devemos levar em consideração que toda e qualquer evidência documental que é intermediada por preconceitos ou opiniões contam-nos coisas importantes sobre o passado. FIGURA 2 ± EXEMPLO DE DOCUMENTO NÃO PUBLICADO, o diário, que acabou por se tornar um dos principais documentos de uma ordem social que passou a valorizar a intimidade e a vida privada, com a emergência da burguesia. FONTE: (CORBIS, 2011). Há, também, muitos tipos de documentos não publicados. Nesse rol encontramos cartas pessoais, diários, documentos familiares contendo histórias da família, boletins escolares, agendas, entre outros. Arquivos empresariais, tais como correspondências, boletins financeiros, informação sobre consumidores, pautas de reunião de direções, arquivos de desenvolvimento de produtos também nos servem como pistas do passado.22 Documentos não publicados frequentemente advêm de organizações da comunidade, de igrejas, de clubes de serviço, partidos políticos, sindicados de trabalhadores. Governos em todos os seus níveis também criam uma série de documentos que não são publicados. Isso inclui relatórios de política, listas de taxas e votantes, além de documentos sigilosos. Ao contrário dos documentos publicados, os registros não publicados são difíceis de serem encontrados e utilizados, especialmente porque têm poucas cópias. Por exemplo, cartas pessoais podem ser encontradas facilmente na posse de uma pessoa que foi a destinatária, desde que tenha interesse em arquivar tais evidências. Às vezes, as cartas de pessoas famosas podem ser arquivadas e publicadas. No entanto, devemos também pensar que, muitas vezes, o autor ou autora da carta nunca teria a intenção de publicá-la no futuro, ou que alguém pudesse lê-la não sendo o destinatário. 3.1.2 Documentos visuais Os documentos visuais incluem fotografias, filmes, pinturas e outras construções culturais. Devido ao fato de que esse tipo de documento captura momentos no tempo, eles podem, principalmente, fornecer evidências das transformações que ocorrem ao longo da história. Documentos visuais incluem evidências sobre a cultura em momentos específicos, tais como seus costumes, preferências, estilos, ocasiões especiais, trabalho e lazer.23 FIGURA 3 ± UM DOS ITENS MAIS COMUNS que encontramos como fontes visuais são as fotos de família, que ocupam lugar de destaque no mundo cotidiano. FONTE: CORBIS, 2011. Esses documentos também têm um criador ou criadora, um ponto de vista (como o do pintor, do escultor, do diretor do filme). Mesmo fotografias foram criadas por fotógrafos usando filme e câmeras para criar os efeitos desejados. Pensem sobre o ponto de vista do criador quando você visualiza esse tipo de documento. Qual é sua proposta? Qual a razão daquela pose mostrada no documento? Quais são as perspectivas? Qual é o enquadramento? Quais são as distâncias utilizadas? Qual é o assunto? O que foi incluído sobre o assunto? O que foi excluído? Esses questionamentos são fundamentais, uma vez que a imagem, especialmente a fotografia, por exemplo, cumprem uma das funções essenciais que é a contiguidade com a realidade fotografada (NÖRTH; SANTAELLA, 1999). Essa característica essencial da fotografia muitas vezes sugere que esse tipo de documento retrate ou colete ou informe elementos IXQGDPHQWDLVGDUHDOLGDGHRXGRV³IDWRVUHDLV´&RQWXGRGHYHPRVVHPSUHPHQFLRQDUTXHKiXP filtro fundamental ao pensarmos fotos, que é o dedo do fotógrafo, o tipo de máquina que ele usa, 24 as técnicas de revelação ou digitalização, os softwares que são incorporados nesse processo, o momento do dia ou da noite, entre outros. Em Testemunha ocular, o historiador Peter Burke (2004) trabalha fundamentalmente com a problematização do uso de imagens pela História, relembrando a todo o momento que, entre o produtor e o receptor da imagem há um caminho totalmente historicizável, que precisa ser criticado e analisado com acuidade pelos profissionais da História. Em certa medida, ele sugere que tenhamos filtros específicos para ler as imagens não apenas como ilustrações de textos, mas como textos em si, dotados, portanto, de todas as características inerentes a outros documentos, tais como o enunciado, o criador do enunciado, o sentido escolhido e dado a ele, a quem está direcionado etc. 3.1.3 Documentos orais A oralidade é, sem dúvida, muito instigante do ponto de vista do seu uso como documento para fins históricos. Tradições orais e histórias orais proporcionam outro meio de aprender sobre o passado de pessoas que vivenciaram muitos eventos ou mudanças. Esse tipo de documento começou a ganhar forma semelhante à atual nos anos 1930, quando uma série de medidas que envolviam história oral foi tomada para registrar a crise ocasionada pelas tempestades de terra no meio-oeste dos Estados Unidos, o fenômeno que ficou conhecido como Dust Bowl. Esse processo de migração forçada, pauperização da população de classe média rural que foi forçada a fugir da fome em direção à Califórnia acabou sendo retratada em um livro intitulado Vinhas da Ira, que também recebeu uma versão fílmica com o mesmo nome em 1941. A História Oral, como campo do conhecimento, reforçou-se ainda mais na segunda metade do século XX, especialmente quando pensamos nos estudos históricos de minorias, tais como indígenas, ou outros grupos étnicos, que são, muitas vezes, excluídos dos principais produtos culturais e historiográficos. Há inúmeras formas de se encarar a História Oral, bem como de se obter um depoimento que possa ser utilizado historicamente. Até a década de 1970, vigorava uma perspectiva de História Oral que preconizava a recorrência a ela somente quando o historiador não conseguia 25 obter determinada informação em fontes escritas. Os documentos históricos orais seriam QHFHVViULRVHQWmRSDUD³SUHHQFKHUODFXQDV´GHL[DGDVSRURXWURVWLSRVGHUHJLstro. Contudo, essa forma de encarar a História Oral sofreu inúmeros ataques, o que repercutiu positivamente em tempos posteriores, e a trajetória particular desse campo é interessante, por mesclar teoria e método, bem como uso de novas tecnologias numa velocidade maior do que outros campos de estudo histórico. FIGURA 4 ± O PROCESSO MAIS COMUM para a realização de entrevistas é o uso de gravador e de uma entrevista semiestruturada. FONTE: (CORBIS, 2011). Em diversos lugares, como no Brasil, acostumamo-nos, durante muito tempo, em utilizar um saber manualístico e técnico de História oral, especialmente a partir de obras como Manual de História Oral, de Sebe Bom Meihy (1998). A partir desse manual, muitos historiadores e historiadoras ainda utilizam uma forma de fazer História Oral que compreende entrevista semiestruturada, a sua gravação, especialmente em áudio, a posterior transcrição da entrevista, e, então, um processo chamado de transcriação, ou seja, uma reelaboração do documento para fins científicos.26 Mas há outros métodos, especialmente de coleta de informações, que não precisam, necessariamente, estar gravadas em áudio, mas registradas em vídeo ou caderno de campo. Nesse sentido, outros elementos entram em cena quando pensamos a História Oral, como é o caso dos critérios éticos na pesquisa histórica, a saber: até que ponto se pode utilizar um depoimento, sem manter anonimato ou garantias a sigilo e confidencialidade, entre outros. 3.1.4 Documentos multimidiáticos Raphael Samuel (1996) enfatizou que a sua geração de historiadores representava uma geração não educada e não preparada para discutir imagens, e apenas textos. Não apenas esse autor pode servir de exemplo da autocrítica de historiadores. Desde o final do século XIX, um importante documento entrou para a arena da História, não gerando preocupações teórico-metodológicas num primeiro momento, mas estabelecendo-se como uma realidade inexorável e indiscutível no que diz respeito aos usos e à atração por parte de um público também moderno. Foi desde o final do século XIX que passamos a conviver com outras formas midiáticas de documentos, que rapidamente passaram a envolver não apenas uma ou duas dimensões textuais (como as palavras e as fotografias), mas três ou mais (texto, imagem e som). Levy (2000) foi um dos primeiros pesquisadores a discutir o uso de documentos multimídia para a História. Para ele, os documentos desse trio carregavam em si as identificações com os meios (aparelhos) usados para apresentar a mensagem, os modos de apresentação, e os sentidos implicados à recepção da imagem, que deveriam envolver dois ou mais sentidos para a decodificação. Nesse sentido, esse tipo de documento tira partido de mais de um formato para sua apresentação, e, quando pensamos em discuti-los de um ponto de vista histórico devemos pensar que foram os filmes os primeiros exemplos desse tipo a serem trabalhados histórica e historiograficamente, ainda nos anos 1960.27 Mas esses documentos não são apenas filmes, são vídeos que combinam formatos como os de hoje, os informáticos, e, nesse sentido, profissionais de história não podem desconsiderar, para fins de pesquisa e de ensino, relatos como aqueles que são postados em redes como o YOUTUBE, por exemplo. Muitos desses documentos apresentam hoje não apenas a característica de serem decodificados a partir do uso de dois ou mais sentidos, mas de serem direcionados, repensados por meio de um conceito que emergiu no final dos anos 1980, que é a interatividade. Um documento interativo é aquele que dá ao seu usuário o poder de controlar o tema, em certos sentidos, e isso também precisa ser pensado, por historiadores e historiadoras, do ponto de vista da pesquisa histórica. Documentos multimídias têm alguns formatos. Um deles, denominado de unimídia modal apresenta-se como um documento que tem dois ou mais tipos de mídia envolvidos numa mesma produção. São exemplos disso alguns documentos que envolvem áudio, vídeo, animação, histórias em quadrinhos, gráficos e tabelas. Quanto à organização desse tipo de documento, devemos pensar características topológicas, que condicionam o leitor ou usuário, e que podem construir um relato que pode variar entre sequencial, linear, hierárquico ou disposto em rede. Documentos lineares apresentam uma organização da informação que tem uma sequência no modelo "anterior-próximo". Há documentos dispostos na forma de grelha, ou documentos ortogonais, que apresentam dois níveis, e geralmente esses documentos permitem comparações, que são importantes para o trabalho da História. Outros documentos multimídia são construídos na forma de árvores, ou hierárquicos, nos quais os nós podem ter antecedentes e descendentes, mas sem apresentar, muitas vezes, ramificações. Já documentos dispostos em rede apresentam nós interconectados. Cabe a historiadores e historiadoras tecer perguntas sobre os componentes de um multimídia, ou seja, sobre o armazenamento, sobre o tipo de interatividade possível, entre outros problemas característicos de qualquer outro tipo de documento.28 4 A HISTÓRIA E OS HISTORIADORES E HISTORIADORAS -|UQ 5VHQ  S   DILUPD TXH D H[SUHVVmR ³KLVWyULFD´ QmR VH OLPLWD j FLrQFLD GD KLVWyULD PDV ³GHVLJQD LJXDOPHQWH DV RSHUDo}HV HOHPHQWDUHV H JHUDLV GD FRQVFLrQFLD KLVWyULFD KXPDQD´$HVFULWDGDKLVWyULD RXPHOKRUXPDHVFULWDKLVWyULFD³QmRQHFHVVDULDPHQWHSDUWLULDGR historiador, uma vez que está incluída no rol de preocupações de qualquer ser humano no que diz UHVSHLWR j VXD RULHQWDomR QRWHPSR´ &RQWXGR D UD]mR KLVWyULFD HVWi YLQFXODGD DR SURFHVVR Ge escrita da história, essa, sim, com o nome de historiografia, ofício do historiador. (RÜSEN, 2007, p. 12). Nesse sentido, cada historiador ou historiadora tem características próprias, geralmente vinculadas a sua concepção específica de História, a sua forma de compreensão da historiografia ou a uma escola ou formação acadêmica que recebeu (SOUZA, 2007). As conclusões dos historiadores nunca são definitivas, podendo variar segundo a localização, a cultura e a época. Ela pode variar, também, segundo os documentos que são utilizados na construção da narrativa, e esse elemento é significativo quando pensamos em novas abordagens sobre os antigos temas. Em certa medida, é isso que explica o porquê de uma ideia do século XIX ser, num dado momento, desconstruída por uma nova teoria no século XX. Já dissemos que, enquanto um cientista lê artigos de outros cientistas para provar suas premissas e testar elementos publicados por outrem, os historiadores costumam escrever a partir da leitura de outros historiadores. Esse fundamento baliza a construção do conhecimento histórico e sua mutabilidade no tempo. A constatação, ou melhor, a inerente admissão, por parte da pesquisa, da mudança de perspectiva já havia sido observada pelo historiador francês Georges Duby (2001, p. 7-8), ao afirmar que: o campo de ação do historiador se desloca ao longo dos tempos, [...] a função da história na sociedade se transforma e temos absolutamente de ter em consideração, no trabalho dos historiadores que nos precederam, o meio em que viveram e a sua própria personalidade, para aproveitarmos ao máximo suas contribuições. Essas palavras marcam a visão atual que os historiadores têm da construção da História, pois as análises de um mesmo objeto de estudo podem diferenciar de época para época, de espaço para espaço. Se a "história é filha do tempo", expressão típica do início do século XX, sua 29 produção atende às demandas ligadas ao presente do qual ela emerge. É o que afirma Jean Glenisson (1991, p. 142), quando fala dos fatos históricos no tempo: fatos históricos são os fenômenos, as coisas que acontecem aos homens: os acontecimentos. Ora, estes são dificilmente previsíveis, jamais idênticos em seus detalhes e de importância infinitamente variada: acontece-lhe afetar todos os homens, mas podem, também, reduzir-se a um simples gesto, a uma palavra. São estritamente localizados no tempo e no espaço e, se muitas vezes o homem é seu autor consciente, com muito maior frequência é ele sua vítima ou seu beneficiário involuntário. Os fatos se constituem na matéria-prima dos historiadores, na sua tarefa de reconstruir o passado, pois cada problemática investigativa deve ter como base a experiência em si. As informações utilizadas são peculiares, escolhidas e postas em locais e tempos peculiares. Muitas vezes elas têm caráter subjetivo e diverso, podendo beneficiar ou dificultar o trabalho de investigação (tarefa, também, baseada na oportunidade). É impossível reproduzir a experiência histórica em laboratório, e podemos apenas esperar da experiência, que ela se manifeste e venha a ser interpretada aos olhos da historiografia. Nesse sentido é que Rüsen (2007, p. 12) enfatiza que: o pensamento histórico só se torna especificamente científico quando segue os princípios da metodização, quando submete a regras todas as operações da consciência histórica, cujas pretensões de validade se baseiam nos argumentos das narrativas, nas quais tais fundamentos são ampliados sistematicamente. O que Rüsen (2007) pontua para a operação de reconstrução do passado serve, também, para pensarmos a história como um todo. Dessa forma, os historiadores contemporâneos tem o dever de valorizar as diversas fontes disponíveis para a condução de sua investigação. Pois a experiência histórica não pode e não deve ser vista e analisada apenas como um fenômeno isolado. A História é viva e ela se relaciona com as mais diversas formas de expressões temporais e espaciais. Nesse sentido, o contato e a análise do fato histórico exigem grande discernimento e postura ética. Devemos nos lembrar a todo o momento que as conclusões de historiadores e historiadoras não são definitivas. Assim, a historiografia não deve ter a preocupação de fixar verdades, uma vez que ela é apenas uma forma de validação das pesquisas históricas, pensando seus protocolos. Nesse sentido, são comuns interpretações diferentes sobre o mesmo objeto.30 Um exemplo marcante do que estamos tentando mostrar é o descobrimento ou achamento ou conquista do Brasil pelos portugueses. Em sentido amplo, hoje o principal documento sobre o evento é a carta escrita por Pero Vaz de Caminha. Ela só veio a público no início do século XIX e disputou lugar com outros documentos sobre o acontecimento, especialmente a Carta do Piloto Anônimo, escrita por um dos tripulantes da caravela de Pedro Álvares Cabral. Tanto Pero Vaz de Caminha como o Piloto Anônimo tinham a função específica de noticiar ou relatar a descoberta de terras localizadas a ocidente da costa africana, ao rei de Portugal. No caso da carta de Pero Vaz de Caminha é impressionante o relato detalhado sobre as pessoas e a paisagem. Contudo, ela não fornece, por si só, subsídios para que historiadores entendam essa América portuguesa recém "descoberta" em sua totalidade. Isso porque o território seria transformado em colônia europeia em 1500 e foi a partir da colonização que diversos problemas passaram a assolar os povos que ocuparam anteriormente o espaço. O descobrimento não pode ser pensado, portanto, a partir de uma única correspondência oficial, embora ela tenha pretensões de veracidade, e seja validada como um documento importante. Para pensarmos o nascente Brasil Colônia, ou melhor, a América Portuguesa, prescindimos de outros documentos, relatos, fontes. O que pode, porventura, modificar todo o relato e o entendimento do processo de colonização e conquista do território que, futuramente, será denominado Brasil. Parafraseando o historiador Edward Carr (1996, p. 45), a história consiste num corpo de fator verificados. Os fatos estão disponíveis para os historiadores nos documentos, nas inscrições, e assim por diante, como os peixes numa tábua de peixeiro. O historiador deve reuni-los, depois levá-los para casa, cozinhá-los, e então servi-los da maneira que mais o atrai. O historiador é um pesquisador que necessita ter um cuidado especial com as fontes históricas, pois são elas que darão sentido para o seu ofício. É a partir do ato reflexivo ligado ao material de pesquisa que o investigador irá esmiuçar o seu objeto de análise e estudo.31 Muitas vezes, a História tem sido vista como um enorme quebra-cabeça com muitas partes faltando. Porém, o problema principal não consiste nas lacunas e sim na imagem que construímos de determinado fato histórico. Para facilitar, vamos utilizar o exemplo da Grécia. Os historiadores possuem uma visão incompleta da Grécia do século V a. C., não porque WDQWDVSDUWHVVHSHUGHUDPSRUDFDVR³>@PDVSRUTXHpHPJUDQGHSDUWHRUHWUDWRIHLWRSRUXP SHTXHQRJUXSRGH$WHQDV´ &$55S  Sabemos muito de Atenas, mas pouco da Grécia em si. Neste sentido, o saber histórico construído acerca da História Grega está ligado diretamente à História da Cidade-Estado Atenas, o que vem a simplificar todo um contexto histórico, dificultando a visão das diversas especificidades históricas do restante da Grécia. Essa visão da História Grega relacionada a Atenas, ou mesmo a visão de que os Estados Unidos da América são a nação mais desenvolvida e importante do mundo contemporâneo estão ligadas a uma imagem pré-VHOHFLRQDGDHSUHGHWHUPLQDGD³>@não por acaso, mas por pessoas que estavam, consciente ou inconscientemente, imbuídas de uma visão particular e que consideravam os fatos que sustentavam essa visão dignoVGHVHUHPSUHVHUYDGRV´ &$55 p. 49). Neste sentido, o que sustenta que a História Grega seja basicamente a História de Atenas e que a nação mais poderosa do mundo são os Estados Unidos da América é justamente a visão pré-estabelecida acerca do objeto de estudo. Se houvesse a preocupação de estudar a História Grega a partir de Esparta, certamente a narrativa seria outra, ou se o modo de produção capitalista desse espaço a outro modelo econômico, certamente a visão acerca do domínio americano iria mudar. 'HYHPRVWHUFODUH]DGHTXHRVIDWRVKLVWyULFRVQXQFDFKHJDPDQyVGHIRUPD³SXUD´HOHV smRVHPSUHLQWHUSUHWDGRVSHORKLVWRULDGRUTXHRUHJLVWURX³&RPRFRQVHTXrQFLDTXDQGRSHJDPRV um trabalho de História nossa preocupação não deveria ser com os fatos que ele contém, mas FRPRKLVWRULDGRUTXHRHVFUHYHX´ &$55S  Certamente as visões dos fatos e dos objetos passam necessariamente pela escrita da sendo o historiador o principal responsável pela elaboração de um discurso negativo ou 32 positivo acerca de determinado fato histórico. É a História dos vencedores que acaba por apagar a História dos vencidos, os que dominam determinam o curso da História em detrimento daqueles que servem. Concluímos então que é importante que quaisquer profissionais de História tenham ao seu alcance o maior número de documentos históricos, pois eles permitem desvendar o seu objeto de estudo com mais propriedade e, acima de tudo, com mais honestidade, além de melhorar a capacidade e a necessidade de tecer escolhas. É conveniente afirmar que a historiografia, muitas vezes, é comprometida com um segmento da sociedade, deixando assim de dar visibilidade a outro. Autores e autoras só se preocupam em analisar os aspectos econômicos em detrimento dos aspectos históricos de ordem cultural, política e social, por exemplo. Mesmo que devamos admitir a parcialidade, priorizando alguns alvos, procedimentos e perspectivas de análise, não podemos desconsiderar tacitamente documentos e métodos que possam contribuir para o aprofundamento de questões relacionadas ao seu objeto de estudo.História, sendo o historiador o principal responsável pela elaboração de um discurso negativo ou

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Corporeidades silenciadas: reflexões sobre as narrativas de mulheres violadas Corporealities silenced: reflections about the narratives of violated women Jane Felipe Beltrão Camille Gouveia Castelo Branco Barata Mariah Torres Aleixo Sobre os autores » Resumo » Abstract » Text» De traduções olvidadas e diálogos “surdos” » Os segredos da escuta » O veneno da dor » As categorias sobre violência: enredamentos na narrativa das mulheres » As categorias relativas à agência: a resistência das/entre mulheres » Entre oitivas e traduções » Por diálogos e justiças » Referências bibliográficas » Datas de Publicação » Histórico Resumo Refletir sobre as formas de narrar as violências enfrentadas por indígenas e quilombolas mulheres/mulheres indígenas e quilombolas é a proposta do texto para discutir a possibilidade de tradução etnográfica das categorias nativas em confronto com as categorias acadêmicas para referir as mulheres em situação de violência, identificando as agências das protagonistas. indígenas; quilombolas; violência Abstract Reflect about the ways of narrate the violence faced for indigenous and maroons women/women indigenous and maroons is the propositions of the article to discuss the possibility of ethnographic translation of native categories in confrontation with the academic categories to refer women in violence situations, identify the agencies of the protagonists indigenous; maroons; violence De traduções olvidadas e diálogos “surdos” No ensaio que hoje pode ser considerado clássico para o que se convencionou chamar Antropologia Jurídica ou Antropologia do Direito2 , Geertz (2013) enuncia que o Direito é construído à luz de saberes e artesanatos locais, isto é, tem a ver com a cultura na qual ele tem vida, onde “funciona.” Segundo o autor, há diversos sentidos de direito e justiça – o que ele denomina de sensibilidades jurídicas – as quais, no contexto contemporâneo, são obrigadas a conversar, em suas palavras, “... uma iluminando o que a outra obscurece.” (2013, p. 237) De acordo com essa afirmação, o estudo e a prática do Direito devem ser feitos por meio da tradução cultural, buscando compreender as sensibilidades jurídicas que estão em jogo nas contendas, seja aquelas levadas à justiça estatal, seja as que são discutidas e resolvidas à luz das normas comunitárias e, principalmente, as que caminham na fronteira entre tais normatividades. Partimos desse pressuposto para compreender as maneiras pelas quais mulheres indígenas e quilombolas/indígenas e quilombolas mulheres3 da Amazônia paraense resistem às violências do cotidiano e perscrutar suas sensibilidades em meio às situações de violência. Não se trata aqui de analisar estratégias de movimentos de mulheres indígenas e/ou quilombolas para conseguir alcançar suas reivindicações políticas, o que não deixaria de ser importante objeto de reflexão, mas sim de entender as próprias corporeidades das protagonistas como estratégias de resistência. Esta última, que pode parecer mais individualizada e circunstancial num primeiro olhar, ganha contornos coletivos quando se observa o compartilhamento de histórias, as redes de ajuda e solidariedade criadas pelas mulheres, entre outras agências, como veremos a seguir. Temos em conta que esse diálogo entre noções de justiça não ocorre com paridade de armas, pois o Estado brasileiro se constituiu olvidando etnicidades e engendrando políticas de homogeneização e integração dos grupos diferenciados à “sociedade nacional.” A conversa entre as sensibilidades jurídicas no país ocorre na forma do que Yrigoyen Fajardo (2011) denomina pluralismo jurídico subordinado colonial, isto é, de modo a não reconhecer noções de direito que não sejam as provenientes do Estado. Quando se pensa em questões relativas às mulheres etnicamente diferenciadas a questão se complexifica. A promulgação de leis específicas às mulheres, que consideram a violência como crime4 , fruto de anos de reivindicações e estudos promovidos por organizações e coletivos feministas, diz pouco sobre diferenças de ordem cultural, étnica e racial. Diante disso, compreender noções de violência bem como as estratégias de resistência das protagonistas se impõe. Os segredos da escuta Assim, nosso objetivo é refletir sobre as formas de narrar a violência que atinge os corpos das interlocutoras que pertencem a povos indígenas e coletivos quilombolas e debater acerca das possibilidades de tradução etnográfica a partir da identificação das categorias nativas que compõem a enunciação das interlocutoras, considerando as diferenciadas noções de justiça presentes entre as mulheres que emprestam seus depoimentos às autoras do texto. Para alcance dos objetivos, procura-se compreender como se dá a construção da corporeidade entre as mulheres indígenas e quilombolas/indígenas e quilombolas mulheres, pela possibilidade de demonstrar como o corpo se apresenta entre elas como território privilegiado de resistência e luta. A marca do presente trabalho são as reflexões que ressaltam e problematizam as categorias que integram a epistemologia e o olhar nativo sobre corpo e violência. Para os limites da reflexão proposta, é importante esclarecer que os depoimentos oferecidos pelas interlocutoras foram ditos às pesquisadoras em diversos momentos, os quais compreendem um lastro de 15 anos de pesquisa, sem que estas tivessem a intenção de trabalhar especificamente violência e violação de corpos, entretanto, os depoimentos foram como que aflorando pela impossibilidade – estatal e/ou comunitária – de oitiva das mulheres em situação de violência. Selecionou-se depoimentos de mulheres indígenas pertencentes aos povos Tembé Tenetehara5 , hoje moradores do município de Santa Maria do Pará, Xipaya6 e Kuruaya7 que vivem no médio Xingu e, no caso das quilombolas, selecionamos as interlocutoras moradoras das diversas comunidades localizadas no arquipélago do Marajó, também no estado do Pará. Destacam-se trajetórias e memórias que marcam de modo indelével o etnocídio praticado via colonização (Beltrão, 2012), que até o presente atinge os corpos e as vidas de pessoas indígenas e quilombolas via colonialidade.8 Nesse sentido, é latente na narrativa das interlocutoras a referência ao processo de expulsão territorial, sequestro de crianças indígenas e quilombolas pela ação missionária e/ou do Estado, tentativas reiteradas e violentas de genocídio, em face da tentativa de homogeneização e apagamento das pertenças. Vale, porém, ressaltar que a colonialidade incide de forma específica e brutal necessariamente sobre os corpos das mulheres, pois esta, segundo Lugones (2008) , se instituiu também como colonialidade gênero, que instituiu o sistema de gênero colonial/moderno, baseado nas dicotomias homem/mulher e público/privado, como o padrão. Isso ocultou sistemas de organização dos “mundos sexuais” nativos, em que muitas vezes as fronteiras entre masculino e feminino eram fluídas e as mulheres exerciam papéis importantes na vida coletiva. Não tratamos aqui de perscrutar esses sistemas “originais” e nem acreditamos que, hoje, isso seja possível. Porém, importa ter isso em consideração para um olhar etnográfico mais apurado. O ponto nevrálgico, locus em que os caminhos etnográficos se tornam mais “nebulosos”: ter o corpo marcado, como é o caso de indígenas e quilombolas mulheres/mulheres indígenas e quilombolas, pela violência física e sexual, muitas vezes infringida pelos próprios “parentes”, ou ainda por pessoas não indígenas e quilombolas, fato que mobiliza sentimentos como dor, sofrimento e vergonha. A possibilidade de ouvir (com tudo o que o ato da escuta representa para a Antropologia) implica em cuidados9 redobrados na interpretação de atos e falas que não são ditos a qualquer pessoa, nem em qualquer lugar. Os processos de violação dos corpos, vividos como eventos devastadores, segundo as interlocutoras, também formam seus modos de narrar, de liderar e de agir politicamente. De alguma forma, somos “ouvintes” privilegiadas, considerando a confiança com a qual fomos brindadas, portanto nosso compromisso com a ocultação das identidades é fato. O veneno da dor Veena Das (2008a), em seus escritos, problematiza a correlação entre dor e linguagem. Segundo a autora, por meio da expressão da dor, é possível sair da privacidade sufocante que ela produz na vítima. De acordo com Das (2008a), eventos devastadores produzem um tipo de conhecimento que só é alcançado pela experimentação do sofrimento, um conhecimento venenoso. Portanto, violências extremas não seriam apenas responsáveis pela destruição de vidas e corpos. Atuam, também, na construção de sujeitos e linguagens da dor. A enunciação da dor pede, portanto, admissão e reconhecimento, o que nem sempre ocorre. Trata-se, nos termos da autora, de sentir a dor no corpo do outro. Essa é a proposta ao fazer antropológico, requisitado de forma envergonhada, mas insistente por nossas interlocutoras. De acordo com Michael Taussig (1993), a reprodução da imagem dos povos indígenas como selvagens, irracionais e violentos é o que possibilita a propagação do terror colonial. E no caso dos coletivos quilombolas a estratégia de resistência e luta dos negros é imperdoável ao mundo colonial, afinal, os africanos são equiparadamente considerados, como os indígenas, pessoas desprezíveis. Trata-se uma operação mimética por parte do colonizador, que conduz a atos de extrema violência, não importando se esse imaginário é verdadeiro ou não. As culturas do terror criam, desse modo, o que o autor denomina como espaços de morte, nos quais indígenas, africanos e brancos viram nascer o Novo Mundo. Segundo Taussig (1993) o terror é o mediador por excelência da hegemonia colonial e acrescenta-se da discriminação presente em nossa sociedade. O autor afirma ainda que “... as culturas do terror são nutridas pelo entremesclar do silêncio e do mito.” (Taussig, 1993, 30) Os efeitos paralisantes e silenciadores do terror encontrariam na narrativa sua primeira possibilidade de cura. Quando decidiram falar sobre as violências que marcaram de forma mais ou menos severa suas trajetórias, nossas interlocutoras começaram a vencer a primeira imposição do terror, o silêncio. Como diz Maria Aparecida, quilombola, que por ser estudante universitária, escreveu seu depoimento: “não vou falar e também nunca escrevi, mas faço [o texto] porque não consigo explicar porque aconteceu comigo, talvez não haja explicação, e mesmo que tivesse jamais iria me fazer esquecer aquele homem imundo que me rasgou e tudo que aconteceu comigo. Neste caso, a forma de prevenção pra que não possa acontecer com outras mulheres é contar e contar do massacre que sofri. Mas para isso tenho que ter coragem para dar o testemunho, mas tenho muita vergonha por isso escrevo. Peço que a senhora conte, leve adiante, o massacre não pode continuar.” Para compreender o que diz Taussig (1993), traz-se à consideração e em complemento à Maria Aparecida, o depoimento de Maria Dolores, de pertença Kuruaya, que narra seu pânico no dia da violação, praticada dentro de sua casa, na frente do marido e das filhas, que à época tinham respectivamente oito anos e dois anos: “Dormi, como todas as noites, com meu marido e minhas filhas na minha cama. De madrugada acordei e levei o maior susto da minha vida, me deparei com um homem passando da sala pra cozinha, pois a porta do quarto ficava entre aberta durante a noite, então no primeiro momento imaginei que pudesse ser alguém de fora, pensei que fosse meu marido, então olhei na cama e vi as meninas e ele, percebi que tinha alguém na casa e não era o meu marido, ele dormia com as crianças. Logo depois minha filha de oito anos acordou e percebeu que eu estava bastante assustada e nervosa, então falei que tinha alguém na casa, pedi que ela não fizesse escândalo. Na hora, eu só pedia a Deus proteção pra minha família e, ao mesmo tempo, sem saber o que fazer e como agir naquela situação de angústia e muito muito medo.” Na sequência dos acontecimentos, Dolores se apercebe do perigo e evoca Deus: “... com toda Tua sabedoria me traz tranquilidade e, nas minhas orações, pedi que Deus fizesse aquela pessoa ter compaixão e não fizesse nada com meu marido e com as minhas filhas, eu coloquei minha vida nas mãos Dele. Eu dizia: Deus coloco minha família em suas mãos me proteja e me ilumine nesta noite, pois sei que corro perigo, me abençoe, te peço em amém. Dona a senhora já teve medo?” Dolores prossegue a narrativa, ofegante, e esclarece, “... agradeço todos os dias a Deus, eu esqueci parcialmente o fato, só que por mais que os anos passem, eu não consigo falar com as pessoas sobre o assunto, por medo e até mesmo vergonha.” O relato foi adiante, entrecortado pelo choro às vezes discreto, outras vezes convulsivo a ponto de interromper a narrativa. Ela segurava as minhas mãos10 com força, de certo ainda sentia pânico e as marcas corporais que se apresentavam vivas, intensas! O relato é bastante longo, mas importante para compreensão da dor, silenciada pelas circunstância e sobretudo pela vergonha. Diz a Kuruaya: “... trabalhei o dia inteiro, sou professora no bairro dos índios, local tomado pela violência. Nunca tive medo de nada. A casa é pequenininha. Toda noite eu tenho o costume de verificar portas e janelas, e nesse dia não foi diferente, entretanto nunca imaginei que alguém pudesse entrar na casa de alguém pelo telhado, por onde entrou o bandido. Quando me dei conta do perigo fingi que estava dormindo e observei por baixo do travesseiro que ele [o bandido] se aproximava e logo entrou no quarto meio agachado, ficando em volta do berço da minha filha. Chegou perto da cama e pôs a faca no meu pescoço, daí eu gritei e ele se debruçou em cima da cama fazendo ameaças, dizendo pra não gritar se não iria matar todo mundo caso eu não trepasse [mantivesse relações sexuais] com ele.” Dolores informou que ele estava visivelmente muito perturbado andando de um lado para o outro, parecia não saber o que fazer, aparentando transtornos. Tinha aparência de drogado, exalava mal cheiro, mas não parecia bêbado e nem cheirava a álcool. Ela continua: “... depois da ronda pela casa, ele saiu um momento do quarto e eu disse ao meu marido finge que dorme e cuida das meninas, pois ele vai voltar. Minha filha que estava acordada chorava muito e falei pra ela ficar bem caladinha como se estivesse dormindo foi o que ela fez, ficou quietinha abraçada à irmã e ao pai. Ele voltou e me obrigou a manter relações sexuais com ele. Sem saber o que fazer, pedia ajuda a Deus. Aquilo foi uma humilhação muito grande, na minha cama, com o meu marido vendo tudo e as minhas filhas então? Até hoje não sei “transar” como antes, a lembrança me perturba, tenho problemas, passo mal, meu marido não se conforma, reclama. Temo que me abandone por isso. Com os olhos distantes, como se voltasse à cena do crime, Dolores informa: “... pela conversa dele, percebi que ele não falava coisa com coisa, às vezes parecia tranquilo, daí a pouco se exaltava e com a faca na mão, junto do meu pescoço. Que medo! Quando ele falou que iria fazer sexo comigo, tornei a me apavorar e, na hora, pensei na família e o quanto seria pior se fossem com as minhas filhas, pensei que era melhor eu ceder do que ele fazer algo pior conosco, ele sentou na cama e falou que não era pra eu gritar, era melhor pra mim. Ele se serviu de mim duas vezes e perguntava, gostou cachorra, tu foste pega no dente, índia é tudo assim ... Eu desesperei, além de me usar me humilhava e minhas filhas e meu marido assistindo, acho que a pequena não acordou, nem sei ... quando percebi que ele tinha saído da minha casa parece que o mundo caiu sobre mim, não tinha reação de nada lembro que peguei o celular, mas não tinha condições de ligar pra ninguém, acho que ainda não tenho mundo.” Abalada, Dolores confessou que teve dificuldade de identificar o criminoso, mas o fez. Ele respondeu processo e foi condenado, o fantasma à época era a saída do agressor da cadeia. Ela ainda vive aos sobressaltos, pois se aproxima o final do cumprimento da pena. As categorias sobre violência: enredamentos na narrativa das mulheres Nos diálogos estabelecidos com as interlocutoras é possível detectar em seus depoimentos e mesmo discurso de indígenas e quilombolas, uma série de categorias a respeito de eventos que, do ponto de vista antropológico, poderiam ser definidos analiticamente como situações de violência, embora dificilmente nossas interlocutoras tenham usado explicitamente o termo violência, as protagonistas referiram-se a todo momento a situações que atingiam seus corpos individual e coletivamente. Os corpos são atingidos de forma coletiva na medida em que a corporeidade e construída socialmente e as violações são estruturais e não individuais, além de engendrarem dor e resistências. Os fatos narrados aproximam-se da definição de violência proposta por Paula Lacerda (2015) que a entende como: [...] um amplo conjunto de situações que poderiam ser percebidas, de outro ponto de vista, como ‘causadoras de sofrimento’, pessoas se apresentam como ‘vítimas de violação de direitos’, o que as transforma em sujeito e potencializa o alcance de suas reivindicações.” (2008, 28) A primeira categoria que se refere a tais processos diz respeito a violência enfrentada coletivamente pelo povo Tembé Tenetehara na Colônia Santo Antônio do Prata, educandário que recebia as crianças indígenas sequestradas de suas comunidades e apartadas de seus parentes para serem educadas, catequizadas e “civilizadas” com base na pedagogia cristã dos missionários Capuchinhos. Posteriormente, a Colônia foi transformada em Leprosário e a ameaça de contrair a doença afastou ainda mais os Tembé Tenetehara do território que tradicionalmente ocupavam. No período de instalação do Leprosário, conforme conta Dona Maria Joana, circulava na região o boato de que era possível curar a hanseníase se o doente comesse o fígado de uma pessoa saudável. Na época chegaram a ser encontrados na mata cadáveres com o fígado retirado, o que reforçava ainda mais o temor de que uma das pessoas a serem mortas pudessem ser Tembé Tenetehara. É desse cenário que emerge a categoria massacre: as interlocutoras constantemente reafirmam, ao dizer dessas memórias que “o nosso povo foi muito massacrado no Prata”. A noção de massacre parece elucidar mais enfaticamente os acontecimentos que a categoria violência, uma vez que as violações enfrentadas coletivamente pelos Tembé Tenetehara – ditos de Santa Maria – incluem espoliação territorial, epistemicídio, quebra dos laços de parentesco e, em última instância, o adoecimento e a morte dos membros do povo. O mesmo ocorre com as mulheres Xipaya e Kuruaya que, expulsas de seus territórios no médio Xingu, vieram à cidade e vivem presas a espaços, onde sequer podiam, há 10 anos, se declarar indígenas. Eram, como referem algumas das interlocutoras, impedidas de falar a língua materna, enfrentaram o massacre da discriminação, produzida pelo racismo que se apresenta em estratégias de dominação de ordem material e ideológica, utilizada pelas estruturas coloniais para manter status privilegiado de membros do grupo dominante, produzindo a perene subalternidade dos povos etnicamente diferenciados (Moreira, 2016 ), não fosse a luta que empreendem diuturnamente. No caso das quilombolas o massacre foi/é pesado e reproduzido nas diversas narrativas. A segunda categoria que diz de processos de violência é a de escravidão. Conforme explica Maria da Paz: “os antigos do nosso povo tratavam a mulher como escrava. Ela só servia para ter filho, cuidar da casa e da roça, ser usada pelo marido e trabalhar pro pai. Hoje não pode mais ser assim, mas muitos homens no nosso povo e de fora querem tratar as mulheres nessa escravidão.” A categoria escravidão parece dizer respeito a crítica que as mulheres indígenas fazem sobre a condição feminina dentro das diversas comunidades. O entendimento de que as mulheres eram e são tratadas como escravas, guarda em seu interior a reivindicação de que sejam entendidas como sujeitos, dotadas de direitos, vontades e voz. Tal categoria diz respeito a forma como as interlocutoras pensam a mulheridade e a crítica que fazem por não serem reconhecidas de tal forma. Entre as quilombolas a condição de escrava é mencionada por conta das avós e das bisavós, entretanto, algumas vezes, a condição passada é negada para não comprometer a luta e favorecer a discriminação. A terceira categoria nos parece a que possui maior tensão ao ser utilizada analiticamente: trata-se da categoria maldade. Durante muito tempo do percurso das pesquisas que apontavam para as categorias nativas, evitou-se conjecturar sobre a mesma, por receio de que escrever sobre o assunto pudesse “dar munição” para os antagonistas em relação aos povos tradicionais. Entretanto, ao buscar as noções de justiça que permitem a luta política das mulheres, a maldade atravessou o percurso da problematização. As interlocutoras com quem se dialogou nomeiam como “homens maus” aqueles que agridem seus corpos, física e/ou sexualmente. E, a essas agressões, as mulheres indígenas dão o nome de maldades. As quilombolas, algumas vezes referem-se às violações dos homens maus, como malinesas. Denominam malinesas às penas impostas, pelos encantados, a homens (e também à mulheres) que vivem fora das normas tradicionais, malinesas que trazem como consequência efeitos deletérios às relações sociais. Malinos são os encantados que castigam os transgressores com o mal, tornando-os perniciosos ao convívio social. Os encantados que “jogam a malinesa” vivem nas matas e nos cursos d’água e por serem donos dos espaços, exigem reverências e cumprimento de obrigações, nem sempre observadas pelos homens maus que terminam “malinando” com as mulheres (ou mulheres que malinam com homens). No caso da maldade ou da malinesa entre indígenas e quilombolas, uma e outra não integram a essência dos humanos, são tomadas pelas interlocutoras como condição que, dependendo do comportamento, pode ser afastada dos humanos, sempre que, arrependidos, voltem a cumprir as obrigações com os encantados. A tensão reside no fato de que muitas vezes os homens maus ou malinos podem ser companheiros das mulheres indígenas e quilombolas ou lideranças dos referidos coletivos. Duas situações parecem ilustrativas de como a categoria maldade é posta em ação. A primeira delas diz respeito a história contada por Maria Laura, que teve a filha Maria Conceição sequestrada por um homem que circulava na comunidade. A menina passou oito dias em cativeiro submetida a violência física e sexual pelo agressor. Por fim, depois de espancá-la quase até a morte, o criminoso abandonou-a sozinha na casa onde a escondia. Embora Maria Conceição tenha sido encontrada com vida e acolhida sob o modo Tembé de cuidar do corpo, a marca da violência permanece para o resto da vida e o fato de o agressor ter muito dinheiro, à época, assegurou-lhe a impunidade. Ao contar a história de sua filha, Maria Laura referiu-se ao criminoso como um “anjo mau”, aproximando-o do mito bíblico que conta a história de Lúcifer. A mesma categoria foi utilizada pela filha de Maria da Paz, Maria Lídia, para referir-se ao seu pai. Na época ele se encontrava doente, com desmaios e fraquezas constantes, e as causas não puderam ser identificadas pelos médicos que a família procurou. Maria da Paz, desde que a conhecemos, narra as agressões cometidas pelo marido, que espancava ela e os filhos e dizia constantemente a todos palavras duras, que “machucavam” quem as ouvia. Conversando com Maria da Paz e Maria Lídia, a filha afirmou que a doença do pai era um “castigo por todas as maldades que ele fez com a gente”, com o que Maria da Paz concordou. A noção de maldade parece ter um sentido diferenciado para as mulheres indígenas se comparada aos usos que assume na sociedade dita ocidental. Enquanto no ocidente a maldade é frequentemente tomada como propriedade de pessoas perversas, entre as protagonistas indígenas a categoria parece se aproximar do que a Antropologia e os movimentos de mulheres tem chamado de machismo ou violência de gênero. Atentar para o uso diferenciado do termo pelas interlocutoras só foi possível em função do envolvimento etnográfico no contexto em que estas se inserem e por meio do diálogo e inflexão mantida pelas autoras. Por fim, a última categoria percebida como o sinônimo nativo para a violência é a de machucar. Frequentemente usada na sociedade ocidental para designar ferimentos físicos, sejam acidentais ou infringidos, machucar entre as mulheres indígenas refere-se ao ato de dizer palavras ofensivas e duras, que atacam a honra e o caráter das pessoas atingidas. Nos relatos de violência dentro das relações com os maridos – sejam eles indígenas ou não – as interlocutoras afirmam que as palavras duras são tão dolorosas e machucam tanto quanto agressões físicas. Tendo em conta a lei brasileira sobre violência doméstica, temos que o “machucar” talvez possa ser compreendido como violência psicológica11 , uma entre as possibilidades de violência contra a mulher, deslindadas nesse diploma legal. Entre as quilombolas há narrativas que informam que as palavras ofendem mais que serem marcadas por paus, chicotes e outros instrumentos de agressão. As marcas físicas podem ser tratadas, curadas, mesmo que levem tempo, mas as marcas dos machucados ferem a alma (para além do corpo) e permanecem na memória das interlocutoras e nada nem ninguém faz desaparecer. Abaixo as correspondências relativas às categorias éticas e êmicas. Thumbnail  Quadro 1 : Categorias éticas e êmicas sobre violência As categorias relativas à agência: a resistência das/entre mulheres Uma das principais questões que se tornaram visíveis no diálogo com as interlocutoras diz respeito ao fato de que as violações que atingem os corpos das mulheres jamais foram aceitas de forma passiva, elas não se deixam paralisar. Os processos de agência – aqui utilizada no sentido atribuído por Pierre Bourdieu (1983) e Anthony Giddens (1984) – e resistência, sempre estiveram presentes nas trajetórias das indígenas e quilombolas. O silenciamentos via etnocídio atingiu seus corpos e vidas, mas não se consolidou na medida em que as protagonistas sempre estiveram dispostas a buscar alternativas e resisitir. É com o intuito de romper com o etnocídio e a destituição da memória de seus coletivos que as mulheres indígenas ou quilombolas contam histórias de extrema violência no contexto da pesquisa; supomos que elas acreditam que por meio do registro na produção antropológica, as interlocutoras mantém a expectativa de que as memórias não sejam esquecidas nem apagadas, mas que, pelo contrário, permaneçam vivas na luta por direitos coletivos e por reconhecimento. Relatar as estratégias de agência e resistência e o protagonismo das interlocutoras frente a situações de poder assimétricas coaduna-se com o objetivo de “contar para prevenir”, como disse Maria dos Anjos, há anos, quando em uma roda de conversa aconselhou as jovens presentes: “... não guardem segredos, eles envenenam a vida. Não façam como eu que evitei contar as malinesas, daí não consegui domei os maus [homens] da minha vida. Nem os de casa, nem os da rua e ninguém deve machucar nossas almas, somos pessoas, [e olhando firme as meninas moças da roda] devemos reagir, assim as malinesas vão pra longe da comunidade.” De fato, contar a história parece uma das principais categorias que distinguem a agência das mulheres diante da violência sofrida. O trabalho das autoras, membros da equipe de antropólogos do Grupo de Pesquisa Cidade, Aldeia & Patrimônio só teve início a partir do convite dos membros da comunidade para que os pesquisadores escrevessem a história do povo Tembé Tenetehara e de outros povos indígenas e quilombolas, como informamos à partida. Quando na comunidade, muitos pesquisadores foram “intimados” a entrevistar os membros mais velhos da comunidade, para garantir que as histórias que estes se lembravam fossem registradas antes que se perdessem com seu falecimento. Maria Laura, com o início das pesquisas na comunidade, decidiu começar a escrever diários, onde poderia registrar suas memórias pessoais e coletivas e repassar para os pesquisadores do grupo. Outra categoria importante nos processos de agência das mulheres indígenas, especialmente as Tembé, é a do cuidado. Conforme elucida Maria Laura: “... o nosso povo foi muito massacrado no Prata. Morreu muita gente. A gente jamais podia dizer que era índio, até hoje nós vivemos discriminados. Hoje tá muito melhor, a gente vive junto, faz nossas festas, cuida uns dos outros e o nosso povo se alegra. Mas vive com a discriminação. Não podemos usar uma roupa, que já dizem que nós não somos índios. Eu vou dizer que eu sou uma portuguesa, sendo que eu não sou? Até tem gente que diz, mas eu não digo. Eu digo o que eu sou, eu sou Tembé. Mas tem que viver com a discriminação.” Ao contrário da visão de cuidado amplamente discutida na literatura produzida na área da Enfermagem, pautada na atenção e medicalização de pessoas com doenças, ou deficiência, o cuidado tembé e das demais etnias é holístico e alimenta o corpo de forma completa, por meio do sistema tradicional de ação para saúde, que contempla não apenas o cuidado com o corpo, mas a proteção espiritual, e as lutas políticas por uma vida melhor, que acarretam uma corporeidade saudável. E esse corpo não se estrutura desconectado do ser indígena, com toda a carga política e epistemológica que a identidade enseja para as tembé, xipaya e kuruaya. Cuidar de si e dos seus implica em se proteger de violações e fortalecer o grupo para que as lutas políticas possam ser continuadas. Nesse sentido, o cuidado de si constitui um empreendimento que conforma resistências políticas, materiais e epistemológicas, em um contexto no qual o corpo vem à cena tanto como território de lutas e afirmações identitárias, quanto como alvo de opressões e estigmas. Com as mulheres quilombolas a situação é semelhante, sempre que alguém se machuca a cura vem via sistema tradicional de ação para saúde, mesmo que a pessoa machucada e violada receba atendimento dentro do sistema ocidental de ação para saúde. Outra categoria percebida como forma de agência das mulheres nas tensões que envolvem os maridos diz respeito a educação dos filhos. Segundo Maria Laura: “... a mulher é que educa o filho. Se ela não mandar ele ir lá, tomar a bença do pai, fazer um carinho no pai, ele não vai, não, fica na dele. Foi por causa de um dos meus filhos que meu marido parou de me bater. Um dia, ele era novinho, magro, magro... Ele virou pro pai e falou: “O senhor nunca mais vai bater na mamãe, hoje foi o último dia”. O pai perguntou: “E o que tu vai fazer?”. E ele disse: “Eu não sei, mas o senhor não encosta mais um dedo nela”. Depois disso, nunca mais ele me bateu.” Uma das filhas de Maria Laura, ao ver o pai com outras mulheres na rua: “... fazia um escândalo, batia nela. Uma vez enchi as coisas da mulher de areia, ficou tudo sujo. Depois ele metia a porrada em mim quando chegava em casa, mas eu nunca deixava barato.” Atualmente as crianças que na infância enfrentaram os pais em defesa de suas mães, criam redes de apoio e acolhimento das indígenas mulheres em situação de violência, seja recebendo-as em suas casas, rezando por elas ou conversando com os maridos e, muitas vezes constrangendo-os perante os demais parentes. Maria José, quilombola da comunidade Maria me ajude constrangia o marido, mostrando de casa em casa os ferimentos produzidos pelas surras que levava, porque teimava em estudar. A peregrinação de casa em casa produzia o recolhimento do agressor que, alcoolizado, tinha produzido as maldades, malinado a protagonista. Por fim, a última categoria percebida como característica da agência empreendida pelas mulheres tembé em relação a violência diz respeito ao processo de fechar o corpo. Prática também verificada entre as quilombolas. Em um contexto em que as violações de direitos ocorridas em hospitais são reais e prováveis, fechar o corpo contra coisas ruins é essencial. Entre as práticas frequentes, temos: rezar na cabeça de criança com febre; ministrar ervas medicinais para pessoas que adoecem ou são envenenadas; manter a gravidez ou interrompê-la quando as vidas da mãe e da criança estão ameaçadas; são exemplos de saberes e fazeres acionados no agenciamento de situações consideradas de risco, em que se sabe que o acesso ao sistema ocidental de ação para saúde não responde satisfatoriamente ou há dificuldades em acessá-lo. Fechar o corpo entre os povos tradicionais implica proteger as pessoas da comunidade tanto no plano físico quanto no espiritual. Os rituais podem ou não estar relacionados à alguma forma de religiosidade indígena afro-brasileira ou ocidental. Uma das interlocutoras, reconhecida “por ser uma das mais antigas dos nossos antepassados”, entre os Tembé, relata que nos tempos antigos, quando houve grande incidência de hanseníase na região, ela conseguiu paralisar o avanço da doença no corpo de uma das pessoas da comunidade utilizando as propriedades do mucuracaá, uma planta medicinal que também é utilizada entre os tembé para combater o mau-olhado. Outras indígenas afirmam que uma mulher grávida que estivesse sob os cuidados de Maria Carmen estaria em boas mãos, uma vez que ela acompanhava a gestação desde os primeiros meses até a hora do parto, no qual a mulher era virada de lado e dava a luz enquanto a interlocutora rezava em sua barriga. Despois do parto, a profissional de saúde permanecia na casa da parturiente até o resguardo terminar, portanto eram quarenta dias de cuidados diferenciados. Durante uma das idas a campo, a mãe de uma criança que havia nascido há pouco tempo encontrava-se aflita, pois o bebê não parava de chorar e não costumava ser assim. Nesse momento, Maria Carmen, sogra da mãe da criança, entrava na casa e, ao se dar conta da situação, perguntou se a menina havia ido tomar banho de igarapé. Como a resposta foi afirmativa, a interlocutora disse: “... minha filha pegue alho, amasse e misture com álcool e deixe um tempo. Depois passe com o dedo na palma da mão da neném, na sola do pé, no braço e na coxa, em forma de cruz. Vai ficar um cheirinho ruim, mas não tem problema, ela vai melhorar. Ela deve ter visto alguma coisa no igarapé, criança é muito sensível, parece um pintinho novo. Quando eu era pequena, minha tia levava a gente pro igarapé, mas ela entrava primeiro, pedia licença pra mãe da água pra gente entrar e jogava o alho na água, aí o banho era sossegado.” O alho é antídoto (combate o veneno) para os encantados que “jogam malinesa” quando as pessoas não reconhecem as regras, que não se referem apenas aos espaços de domínio dos mesmos, mas às horas proibidas do dia e da noite. A paçoca de gergelim preto “pisada” com hortelã é utilizada para “botar pra fora” (as indígenas não utilizam o termo “aborto”, as quilombolas usam expulsar), principalmente quando a gravidez ameaça a vida da mãe ou quando o parto é de risco. Para mulheres grávidas que sentem dores, ministra-se chá de gengibre. Para inflamações, especialmente em casos de problemas de próstata, o caroço de abacate mostra-se eficaz. Crianças, quando morrem antes do batismo, segundo os católicos, choram durante sete dias e precisam ser batizados para que “descansem”. A última prática mostra-se elucidativa da forma tembé de pensar a construção da “pessoa”, a partir do ato de batizar a criança morta. Para os Tembé Tenetehara não se deve negar às pessoas mortas, quando oriundas de famílias cristãs, o direito ao ritual de batismo que as forma e legitima. As situações acima descritas, integrantes das observações de campo, revelam que mesmo enfrentando situações de precariedade e violência, as mulheres exercem seu protagonismo, instituindo o “ser sujeito” e encontram alternativas para agenciar situações de violência. O corpo e as múltiplas corporeidades que coexistem entre as interlocutoras são territórios privilegiados da resistência de indígenas e quilombolas mulheres e das formas de cuidar de si mesmas. Thumbnail  Quadro 2 : Categorias êmicas e éticas sobre agência Entre oitivas e traduções Os diálogos em campo demonstram que os atos e falas das interlocutoras são ferramentas importantes para a compreensão de suas realidades. Ao mesmo tempo, analisar o discurso no contexto das relações antropológicas passa a ser um desafio, na medida em que aponta para a necessidade de proceder o controle das dificuldades de tradução etnográfica, dos etnocentrismos ocidentais e do viés da colonialidade vigente. Em trabalho de grande influência e repercussão, Gayatri Spivak (2010) questiona criticamente a (im)possibilidade de fala de determinados grupos. A autora constata que os subalternos em geral, e o sujeito historicamente emudecido, a mulher subalterna em particular, foram e são, ao longo da história, mal compreendidos ou mal representados pelo interesse pessoal dos que têm poder para representar. A proposição instigante de Spivak (2010), além de elucidar silenciamentos, colonialismos e violências, também aduz escutas anti-hegemônicas, epistemologicamente desobedientes, pós-coloniais. Inspirada pela reflexão provocativa da filósofa indiana, Lacerda (2014) considera que em meio a tentativas de silenciamento, os grupos e sujeitos subalternizados – e esse é um deslocamento analítico fundamental para que a subalternidade não seja entendida como lugar paralisante e intransponível – estão falando. Superando a perspectiva colonialista que pretende “dar voz” aos grupos subalternizados por meio da pesquisa, Lacerda (2014) tensiona a questão que orienta Spivak (2010): como o não subalternizado, o privilegiado, pode escutar? As posições teórico-epistemológicas (que também possuem caráter político) adotadas na presente discussão objetivam favorecer a escuta etnográfica mais responsável, capaz de superar estereótipos de passividade e compreender indígenas e quilombolas como sujeitos de suas próprias histórias. A estruturação do olhar antropológico sobre o campo, em diálogo com os conceitos e categorias referidas, foi essencial para compreensão das interlocutoras como protagonistas de suas próprias histórias, não como vítimas passivas, desagenciadas e paralisadas diante de violações. Qualquer procedimento em sentido contrário seria uma prática etnocêntrica. Atentar para as narrativas das mulheres indígenas e quilombolas, a partir do que foi explicitado, é um esforço que vai além de retomar o protagonismo de vozes subalternizadas. Trata-se de uma tentativa de constituição de possibilidades de outra epistemologia, outras referências e sensibilidades, diferentes das que o pensamento colonial afirma serem as únicas dignas de serem aprendidas e respeitadas. A partir das falas desses sujeitos, confrontamos a tentativa histórica de epistemícidio (Santos, 2010) e assimilação que incide sobre os povos indígenas e quilombolas, e, mais especificamente sobre mulheres indígenas e quilombolas/ indígenas e quilombolas mulheres. Trata-se de uma opção metodológica que abriga dimensões e responsabilidades políticas, de contemplar enunciações ditas e tomadas como periféricas e arbitrariamente alijadas pelo pensamento ocidental e colonial. Por diálogos e justiças A diversidade das agências e possibilidades de justiça nos permite esterçar para diferentes lados saindo dos limites de nossos axiomas, verdades que consideramos inquestionáveis e supostamente válidas universalmente. Axiomas estes que muitas vezes são utilizadas como princípios que mantém privilégios de uns em detrimentos de outros secularmente subalternizados. Não se trata de atribuir valor superior aos conhecimentos tradicionais ou mesmo de aderir a eles, mas de considerá-los em diálogo para produzir a melhor justiça, sem diluí-los na ciência desenvolvida na academia. A importância das reflexões que se faz é tentar indicar que as agências das mulheres e modos diversos de conhecimentos, é indicar também que se pode pensar de outro modo e que os variados sistemas de justiça precisam, de fato, dialogar. Sabemos que os estudos acerca da violência de gênero no país muitas vezes utilizam o termo violência sem muita precisão, como se violência doméstica, violência intrafamiliar, violência contra a mulher, entre outros, fossem capazes de abarcar reflexões sobre realidades diversas. Fazer o esforço de compreender noções êmicas do termo afasta o perigo da reificação e induz a “diálogos ouvintes”, que postulamos aqui, em contraposição aos “diálogos surdos.” Ainda sobre a questão dos termos utilizados para abordar a violência, contemporaneamente tem se preferido falar em mulheres em situação de violência ao invés de violência contra a mulher, para indicar que a violência é transitória e não um destino que as mulheres devem cumprir (Campos, 2011). Além disso, a mudança de termo e, por conseguinte, de enfoque, impele a pensar a questão fora do molde algoz versus vítima, possibilitando compreender que, mesmo sendo vítima, especialmente num sentido jurídico-estatal, não significa não ter poder e força de resistir. As narrativas e corporeidades de mulheres indígenas e quilombolas/ indígenas e quilombolas mulheres desafiam compreensões do senso comum sobre situações de violência e nos fazem compreender que vítimas são sujeitos. Dessa forma, como sujeitos que são, devem poder acionar sistemas tradicionais de justiça ou mesmo a “justiça dos brancos”, como dizem algumas. Porém, a colonialidade, especialmente a de gênero (Lugones, 2008 ) cria contextos em que os dois lados olvidam as demandas pelo fim de maldades e malinesas. Referências bibliográficas ALEIXO, Mariah Torres. 2015. Indígenas e quilombolas icamiabas em situação de violência: rompendo fronteiras em busca de direitos Dissertação de mestrado, Programa de Pós-Graduação em Direito, UFPA. (Inédita) BELTRÃO, Jane Felipe. 2012. Histórias ‘em suspenso’: os Tembé ‘de Santa Maria’, estratégias de enfrentamento do etnocídio ‘cordial’. Revista História Hoje, São Paulo, v. 1, no 2, p. 195-212. BOURDIEU, Pierre. 1983. Esboço de uma teoria da prática In: ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu: sociologia São Paulo: Ática, p.46-81. BRASIL. 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Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica Elie CheniauxSOBRE O AUTOR Resumos É realizada uma ampla revisão dos estudos psicanalíticos e das mais recentes pesquisas neurocientíficas sobre os sonhos. Segundo Freud, os sonhos constituem "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Para muitos neurocientistas, eles são formados a partir de estímulos aleatórios originados na ponte e não possuem qualquer significado. Contudo, diversos estudos associam as emoções experimentadas durante a vigília e o conteúdo dos sonhos. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos dá algum respaldo à teoria freudiana. Todavia, não há dados empíricos que apóiem a existência de uma instância censora que deturpe os sonhos. É possível que os sonhos exerçam um papel na elaboração psíquica de lembranças traumáticas. Na nossa opinião, as visões psicanalítica e neurocientífica sobre os sonhos podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Sonho; fases do sono; psicanálise; neurofisiologia; literatura de revisão A comprehensive review was carried out about psychoanalytic studies and the most recent neuroscientific researches about dreams. According to Freud, dreams represent "a (disguised) fulfillment of a (repressed) wish." For several neuroscientists, they are formed based on random stimuli originated from the brainstem and do not have any meaning. However, several studies associate the emotions experienced during waking with the content of dreams. The hypothesis that the dopaminergic mesolimbic-mesocortical system, which is associated with instinctual appetitive craving states, is essential to the formation of dreams brings some endorsement to Freudian theory. Nevertheless, there is no empirical data to support the existence of an instance of censorship that distorts the dreams. It is possible that the dreams play a role in psychological working-through of traumatic memories. In our opinion, psychoanalytic and neuroscientific views about dreams can be complementary and mutually enriching. Dream; sleep stages; psychoanalysis; neurophysiology; literature review ARTIGO DE REVISÃO Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica Elie Cheniaux Professor adjunto, Faculdade de Ciências Médicas - Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCM-UERJ), Rio de Janeiro, RJ. Médico, Instituto de Psiquiatria - Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Doutor em Psiquiatria, IPUB-UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Pós-doutor, Programa de Engenharia de Sistemas e Computação, Área Interdisciplinar de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia - Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Membro associado e docente, Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ), Rio de Janeiro, RJ Correspondência RESUMO É realizada uma ampla revisão dos estudos psicanalíticos e das mais recentes pesquisas neurocientíficas sobre os sonhos. Segundo Freud, os sonhos constituem "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Para muitos neurocientistas, eles são formados a partir de estímulos aleatórios originados na ponte e não possuem qualquer significado. Contudo, diversos estudos associam as emoções experimentadas durante a vigília e o conteúdo dos sonhos. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos dá algum respaldo à teoria freudiana. Todavia, não há dados empíricos que apóiem a existência de uma instância censora que deturpe os sonhos. É possível que os sonhos exerçam um papel na elaboração psíquica de lembranças traumáticas. Na nossa opinião, as visões psicanalítica e neurocientífica sobre os sonhos podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Descritores: Sonho, fases do sono, psicanálise, neurofisiologia, literatura de revisão. INTRODUÇÃO O neurocientista e psicanalista Mauro Mancia1, num artigo publicado no International Journal of Psychoanalysis, em 1999, ressalta as diferenças entre as abordagens neurocientífica e psicanalítica dos sonhos. Enquanto os neurocientistas se dedicam ao estudo das estruturas e funções cerebrais envolvidas na produção do sonho, os psicanalistas se interessam pelo significado deste, considerando os aspectos biológicos irrelevantes para a sua compreensão. Todavia, para outros autores, como o psiquiatra Morton Reiser2, o estudo dos sonhos representa uma grande oportunidade de exploração da relação entre corpo e mente. Segundo ele, os modelos da psicanálise e da neurociência para os sonhos, embora muito distintos entre si, não devem ser vistos como antagônicos ou inconciliáveis, mas sim como complementares. Reiser acredita que uma cooperação entre esses dois campos do conhecimento poderia ser mutuamente enriquecedora. Realizamos uma revisão bibliográfica a respeito dos sonhos, na qual comparamos as visões da psicanálise e da neurociência, com o objetivo de identificar possíveis pontos de contato e de divergência entre elas. Promovendo, assim, um diálogo entre a psicanálise e a neurociência, teremos subsídios para avaliar a viabilidade e a utilidade de uma aproximação ou mesmo de uma integração entre as duas no estudo da mente humana. Iniciamos nossa pesquisa bibliográfica pelos trabalhos sobre os sonhos de Sigmund Freud, criador da psicanálise, de James Allan Hobson, neurocientista que veementemente critica a teoria freudiana, e de Mark Solms, um dos principais pesquisadores na área da neuropsicanálise, disciplina científica recém-criada que se ocupa da integração entre os conceitos psicanalíticos e neurocientíficos. Com o auxílio das bases de dados MEDLINE, LILACS e PsycINFO, e utilizando como termo de busca "sonho" (ou dream), procuramos artigos científicos sobre o tema. Também consultamos diretamente alguns dos mais importantes periódicos nacionais e estrangeiros das áreas de psicanálise e de neurociência em bibliotecas e através da Internet, no portal Periódicos da CAPES. Optamos por incluir preferencialmente artigos originais ou de revisão recentes, ou então considerados clássicos na literatura científica. A teoria freudiana sobre os sonhos "A Interpretação dos Sonhos", de 1900, é considerada a primeira obra propriamente psicanalítica de Freud. Nesse trabalho, particularmente no capítulo VII, já se encontra uma teoria geral do aparelho psíquico, formulada a partir dos estudos de Freud sobre os sonhos, que são, segundo ele, a "via régia de acesso ao conhecimento do inconsciente na vida mental"3. Para Freud, o sonho constitui "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Possui um conteúdo manifesto, que é a experiência consciente durante o sono, e ainda um conteúdo latente, considerado inconsciente. Este é composto por 3 elementos: as impressões sensoriais noturnas (por exemplo, a sensação de sede durante o sono), os restos diurnos (registros dos acontecimentos da véspera) e as pulsões do id (relacionadas a fantasias de natureza sexual ou agressiva). Esses elementos do sonho latente tendem a fazer o indivíduo despertar. E, durante o sono, em função da completa cessação da atividade motora voluntária, a repressão está enfraquecida, o que aumenta a possibilidade de as pulsões terem acesso à consciência. Todavia o sonho atua como "o guardião do sono". Em função de uma solução de compromisso entre o id e o ego - que é a instância que exerce a repressão -, é permitida uma gratificação parcial das pulsões, diminuindo a força delas e, conseqüentemente, possibilitando que o indivíduo continue a dormir. Essa gratificação se dá através de uma fantasia visual (o conteúdo manifesto do sonho), que é o resultado de um processo regressivo: o fluxo da energia psíquica, ao invés de seguir em direção às vias motoras, retorna às vias sensoriais3,4. Ainda de acordo com Freud, o conteúdo manifesto dos sonhos é aparentemente incompreensível porque consiste numa versão distorcida do conteúdo latente. Essa distorção se dá, em primeiro lugar, porque no sono há uma profunda regressão do funcionamento do ego, que faz com que prevaleça o processo primário do pensamento. Este é caracterizado pelo predomínio das imagens visuais (em detrimento da linguagem verbal) e pelos mecanismos de condensação (fusão de duas ou mais representações) e de deslocamento (substituição de uma representação por outra). Além disso, entre o inconsciente e o consciente existiria uma instância censora, que deliberadamente disfarçaria o conteúdo do sonho, para que o sonhador não reconheça sua origem pulsional, proibida3,4. Algumas contestações à teoria freudiana A teoria freudiana sobre os sonhos tem sido bastante contestada, dentro e fora da psicanálise. Questiona-se se as imagens que percebemos durante o sono representariam mesmo um disfarce ou distorção. Luborsky & Crits-Christoph5 estudaram os sonhos de um grupo de pacientes utilizando o core conflictual relationship theme method (CCRT), um instrumento que avalia o padrão de relacionamentos interpessoais de um indivíduo, tendo como base o relato deste. Comparando-se os resultados da avaliação relativos apenas ao conteúdo manifesto do sonho com aqueles obtidos quando foram consideradas também as associações livres do sonhador (que indicariam o conteúdo latente do sonho), não foram encontradas diferenças. Vários estudos empíricos encontraram uma correlação significativa entre a atividade mental durante a vigília e o conteúdo manifesto dos sonhos. Na amostra de Greenberg et al.6, os problemas sonhados eram basicamente os mesmos pelos quais os indivíduos estavam passando em suas vidas diurnas. Smith7, por sua vez, observou que separação ou morte eram a temática predominante nos sonhos de pacientes cardiopatas hospitalizados. Outros ensaios clínicos demonstraram que estímulos apresentados anteriormente ao sono - como filmes, fotografias ou jogos de palavras - reaparecem claramente nos sonhos8. Por outro lado, alguns autores não acreditam que seja possível recuperar o conteúdo latente do sonho na sessão analítica. Para eles, a associação livre ocasiona a produção de um material novo, criado a partir da relação paciente-analista9,10. Blechner10 afirma que muito do que é bizarro ou confuso no sonho não resulta de repressão: são elementos originalmente extralingüísticos, que não podem ser expressos em palavras. Para Robbins11, os sonhos expressam puramente a linguagem do processo primário; portanto, a atuação de uma instância censora, que refletiria um pensamento racional (característico do processo secundário), não seria possível. Coloca-se em dúvida, ainda, a afirmativa de Freud de que desejos seriam os instigadores de todos os sonhos. Para diversos autores1,12,13, os sonhos refletiriam não só os desejos e as defesas contra estes, mas a atividade mental como um todo, e teriam inúmeras outras funções além de descarga (da energia psíquica), como a solução de problemas (intelectuais ou emocionais)6,14,15, criatividade8, autoconhecimento1,16, integração da mente14,17, adaptação17, aprendizagem8, neutralização do estresse8, entre outras. McCarley & Hobson18, por sua vez, argumentam que, embora possam estar presentes no sonho temas relacionados a desejos, isso não significa que estes representem um fator causal no processo de formação do sonho. Por fim, alguns autores1,9,10,12,17,19,20 destacam a relação paciente-terapeuta e a transferência como os componentes principais na formação dos sonhos durante o tratamento. Em contrapartida à importância que Freud dava aos sonhos para a investigação da mente, o interesse por estes entre os psicanalistas tem diminuído significativamente nas últimas décadas. Kantrowitz17, estudando o currículo de 28 institutos psicanalíticos americanos, constatou que o número total de horas dedicadas ao estudo dos sonhos em cursos clínicos e teóricos no biênio 1998-1999 foi muito menor do que em 1980-1981. Para muitos analistas, os aspectos intrapsíquicos trazidos pelos sonhos podem ser igualmente obtidos por meio do estudo de sintomas, traços de caráter, atos falhos ou associações livres10,17. Os aspectos neurofisiológicos do sono Na década de 1950, Nathaniel Kleitman e seus alunos William Dement e Eugene Aserinsky descreveram pela primeira vez o sono paradoxal, ou sono REM1,2. Este, que compreende no adulto cerca de 20% do tempo total de sono, é caracterizado pela ocorrência de movimentos oculares rápidos (rapid eye movements, daí a sigla), perda do tônus muscular, freqüências cardíaca e respiratória irregulares e oscilações na pressão arterial sistêmica. Esses autores detectaram ser muito comum, quando uma pessoa era despertada nessa fase do sono, que ela referisse ter estado sonhando. Em 1962, Jouvet demonstrou que o traçado eletroencefalográfico durante o sono REM é muito semelhante ao da vigília: dessincronizado (irregular) e com ondas rápidas (ritmo b). Em contrapartida, no sono profundo, não-REM (NREM), em que não há um aumento da atividade autonômica periférica, predominam um traçado sincronizado e os ritmos d e t - daí ele ser conhecido também como sono de ondas lentas (slow wave sleep)1,21. Hoje em dia se sabe que, embora os sonhos sejam muito mais comuns durante o sono REM, eles podem ocorrer também durante o sono profundo: estima-se que entre 25 e 50% dos períodos de sono NREM estejam associados a sonhos21. Além disso, 5 a 30% dos períodos de sono REM cursam sem qualquer sonho22. Todavia, dependendo da fase do sono, as características dos sonhos são bem diferentes. Comparados com os sonhos da fase NREM, os da fase REM são mais vívidos e mais bizarros, apresentam uma maior participação do sonhador e uma maior estruturação espacial, são mais facilmente lembrados e relatados com um número maior de palavras. Já os sonhos do sono NREM são mais conceituais do que plásticos, compostos por fragmentos da realidade não organizados e não narráveis, raramente são lembrados e apresentam uma participação mais passiva do sonhador1,21. Durante o sono REM, o fluxo sangüíneo cortical é maior do que no sono de ondas lentas e, às vezes, maior até do que na vigília23. Estudos de tomografia por emissão de pósitrons (PET scan) mostram que, durante o sono REM, estão ativados o córtex visual extra-estriatal (associativo) e as regiões límbica e paralímbica; estando, ao mesmo tempo, desativados o córtex visual estriado (primário) e o córtex pré-frontal. Vários aspectos característicos do sonho podem ser relacionados a estes achados: a riqueza de imagens visuais, à ativação do córtex visual associativo e desativação do primário; a intensa expressão emocional, à ativação das regiões límbica e paralímbica; e a bizarrice, incoerência, perda da crítica e esquecimento, à desativação do córtex pré-frontal1,24,25. Acredita-se que a consciência da vigília seja mediada pela noradrenalina e pela serotonina, e a consciência do sonho (do sono REM), pela acetilcolina24,25. A atividade aminérgica (noradrenalina e serotonina) está elevada durante a vigília, diminui durante o sono NREM e se encontra ausente no sono REM. Já a atividade colinérgica é máxima no sono REM e na vigília e mínima ou ausente durante o sono NREM. Recentemente, descobriu-se que as hipocretinas desempenham um importante papel no ciclo sono-vigília: apresentam atividade máxima durante a vigília e ausente durante o sono, tanto no REM como no NREM26,27. Consolidação da memória durante o sono Para grande parte dos neurocientistas, os sonhos não têm qualquer função: são apenas um efeito colateral de processos de consolidação da memória dependentes do sono, a manifestação consciente destes27. Diversos dados indicam que o sono é fundamental para a memória e a aprendizagem. Em primeiro lugar, durante o sono REM, predomina a atividade colinérgica, sendo que a acetilcolina está claramente envolvida nas funções cognitivas28. Em vários estudos experimentais, alguns feitos com ratos, outros com humanos, observou-se que a privação do sono REM ocasionava um prejuízo na aprendizagem de habilidades perceptivas ou perceptivo-motoras (memória implícita), treinadas pouco antes do adormecer27,29,30. Em outros estudos, em que os animais ou humanos foram submetidos a um treinamento desse tipo, mas não foram privados do sono, detectou-se um aumento da duração total do sono REM28,31. Tal aumento só ocorria quando a tarefa era de fato aprendida28. Diante disso, passou-se a acreditar numa relação entre o sono REM e a consolidação da memória implícita32. Por outro lado, um ensaio clínico evidenciou uma diminuição na capacidade de aquisição de memórias explícitas em indivíduos privados do sono NREM30. Em estudos eletroencefalográficos realizados com ratos, pássaros e humanos, constatou-se que padrões de disparos de determinados neurônios do hipocampo registrados na vigília, enquanto se treinavam tarefas cognitivas (memória explícita), reapareciam durante o sono. Esse fenômeno de reativação neuronal, ou reverberação, ocorre predominantemente no sono NREM, mas também é observado no sono REM e mesmo durante a vigília28,33,34. Experiências com ratos evidenciaram que aqueles expostos algumas horas antes de dormir a ambientes não-familiares apresentaram um aumento da expressão do gene zif-268 - particularmente envolvido em processos de neuroplasticidade - no hipocampo e no córtex cerebral durante o sono REM, o que não ocorreu com os animais-controle34. Contudo, há questionamentos quanto ao papel do sono na consolidação da memória. Para Vertes32, parece um contra-senso que o sono, sendo um estado eminentemente amnéstico, tenha esse papel. Além disso, sabe-se que a consolidação de algumas formas de memória se dá também durante a vigília28. Em cerca de metade dos estudos de privação do sono com animais, os resultados não evidenciaram um déficit de aprendizagem32, e em diversos experimentos com humanos submetidos a atividades pré-sono de treinamento, não se observou uma duração aumentada do sono REM31. Por outro lado, critica-se a metodologia de vários estudos com ratos, pois tanto o treinamento como a privação do sono costumam provocar estresse, o qual, por sua vez, pode causar um prolongamento do sono REM e também prejuízo na aquisição de novas memórias28,31,32. Também merece destaque a observação de que os antidepressivos inibidores da mono-amino-oxidase, largamente prescritos num passado recente, embora causem eliminação do sono REM, nunca foram relacionados a um déficit de memória31,32. Siegel31 argumenta que, se o reaparecimento da atividade neuronal da vigília durante o sono estivesse implicado na consolidação das memórias dos eventos diurnos, os sonhos seriam cópias fiéis destes. Mas não parece ser assim. Fosse et al.35 examinaram o conteúdo de um total de 299 relatos de sonhos de 29 voluntários. Embora 65% dos sonhos estivessem relacionados a experiências pessoais recentes, apenas 1,4% deles continha elementos que pudessem ser considerados uma repetição dessas experiências. Segundo Francis Crick - ganhador do prêmio Nobel por suas pesquisas sobre o DNA - e Graeme Mitchison36, sonhamos não com as memórias que estão sendo consolidadas, mas com aquelas que estão sendo apagadas. Para eles, o sono REM é necessário para a eliminação de informações erradas ou inúteis armazenadas no cérebro. O sonho seria um reflexo de um processo de aprendizagem reversa, no qual determinadas sinapses são enfraquecidas. Embora esta formulação não tenha recebido muito apoio nos meios acadêmicos, ela é freqüentemente citada e parece ser coerente com o fato de os sonhos retratarem eventos bizarros ou irreais, os quais precisariam ser eliminados da memória32. A teoria de ativação-síntese A teoria de ativação-síntese, de Hobson & McCarley, apresentada como uma contestação à teoria psicanalítica sobre os sonhos, tem sido amplamente aceita entre os neurocientistas nas últimas duas décadas22. No sono REM, em função de uma diminuição da atividade aminérgica, ocorre uma desinibição do sistema colinérgico, especialmente na ponte. Isso faz com sejam geradas periodicamente as ondas ponto-genículo-occipitais (PGO), detectadas no eletroencefalograma do sono REM, as quais, para os dois autores, são os estímulos básicos dos sonhos. Elas se originam na ponte, propagam-se para o corpo geniculado lateral do tálamo e chegam ao córtex visual (occipital), ativando-o. Dessa forma, com base nos traços de memória visual armazenados, são produzidas as imagens do sonho. Como essa ativação cortical se dá de forma aleatória, são formadas imagens caóticas, as quais, num segundo momento, sofrem um processo de síntese, construindo, assim, uma narrativa seqüencial. Portanto, de acordo com a teoria, os sonhos nascem, no tronco cerebral, sem qualquer significado; eles não estão disfarçando nada, pelo contrário, expressam de forma transparente a atividade cerebral24,37,38. O sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical e o resgate da teoria freudiana Mark Solms22,39 apresenta uma teoria que é, ao mesmo tempo, uma crítica à teoria de ativação-síntese e uma tentativa de confirmação da formulação freudiana sobre os sonhos. Segundo ele, o sono REM e o sonho são estados dissociáveis: um pode ocorrer sem o outro. Pode haver sonhos na fase NREM do sono, e 5 a 10% destes são indistinguíveis dos sonhos da fase REM. Além disso, focos epilépticos em regiões têmporo-límbicas, ou seja, fora do tronco cerebral, podem causar pesadelos estereotipados recorrentes, tipicamente durante o sono NREM. Dos 22 pacientes estudados por ele que apresentavam uma lesão na ponte e, conseqüentemente, perda total ou parcial do sono REM, 18 mantinham a capacidade de sonhar. Por outro lado, Solms aponta que, na literatura científica, já foram registrados mais de 100 casos de eliminação do sonhar provocada por lesões no cérebro anterior que preservaram a ponte e o sono REM. Na maioria desses casos, foi afetada a área da junção parieto-têmporo-occipital, estreitamente relacionada à formação das imagens do sonho. Contudo, em outros pacientes, a eliminação dos sonhos se deveu a uma lesão no quadrante ventromedial do lobo frontal. Essa região, por sinal, era a acometida nas cirurgias de leucotomia pré-frontal, muito utilizadas no passado no tratamento da esquizofrenia e que comumente levavam a um prejuízo no sonhar. Pelo quadrante ventromedial do lobo frontal, passam fibras do sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, o qual envolve a área tegmentar ventral do mesencéfalo, o núcleo acumbente, o hipotálamo, o córtex pré-frontal e o córtex cingulado anterior. De acordo com Solms22, esse sistema é o gerador do sonho. Estudos de PET scan mostram um aumento da atividade nesse circuito durante o sono REM23,40. Além disso, agonistas dopaminérgicos, como o L-Dopa, podem causar sonhos especialmente vívidos e pesadelos. Tais achados reforçam a antiga concepção de uma ligação entre sonho e "loucura" - em ambos há alucinações, perda do juízo crítico, etc. -, já que existe uma clara correlação entre hiperatividade dopaminérgica e ocorrência de sintomas psicóticos22,23. O sistema mesolímbico-mesocortical está relacionado aos estados motivacionais, os quais instigam comportamentos que visam à satisfação das necessidades biológicas, como o beber, o comer e o copular. Substâncias estimulantes e que causam dependência, como cocaína e anfetamina, atuam nesse circuito, causando um aumento na liberação de dopamina no núcleo acumbente, o que, por sua vez, leva a uma sensação de prazer22. Um outro elemento que indica uma relação entre esse sistema dopaminérgico e o sonhar é a alta freqüência com que dependentes químicos em abstinência sonham estar buscando ou usando drogas41. Na concepção de Solms22, o sono REM e o sonho são controlados por mecanismos biológicos diferentes: o primeiro, pela atividade colinérgica da ponte; e o segundo, pelos circuitos dopaminérgicos do cérebro anterior. Estes são a via final comum de várias formas de estimulação cerebral. As ondas PGO freqüentemente exercem esse papel de estimulação cerebral, mas não de forma exclusiva. Ainda segundo Solms, o envolvimento na geração dos sonhos do sistema mesolímbico-mesocortical, claramente relacionado ao que a psicanálise chama de pulsões, parece confirmar a afirmativa de Freud quanto a um desejo ser o instigador do sonho. O papel do sonho na elaboração psíquica de experiências traumáticas Em "A Interpretação dos Sonhos", Freud3 argumenta que mesmo os pesadelos não contradizem a formulação de que os sonhos são realizações de desejos. Segundo ele, nesse caso, apesar da censura onírica, o conteúdo latente consegue chegar à consciência pouco deformado e é reconhecido pelo ego. Este então reage produzindo a ansiedade, com o objetivo de despertar o indivíduo. Freud cita ainda uma variante, os sonhos de punição, nos quais o ego antecipa a culpa (pela realização do desejo reprimido), e o conteúdo manifesto está representando uma fantasia de punição. Seria, portanto, a realização de um desejo do superego, e não do id. Mais tarde, porém, em "Além do Princípio do Prazer", de 1920, o próprio Freud42 aponta uma importante exceção à sua formulação: os sonhos repetitivos que sucedem eventos traumáticos e os que evocam traumas da infância não são realizações de desejos. Tais sonhos, de acordo com ele, obedecem à compulsão à repetição, que seria algo mais primitivo do que o princípio do prazer (e independente deste), e têm como função a sujeição ou dominação das excitações relacionadas à recordação do trauma. Para Ernest Hartmann43, contudo, os pesadelos não são uma exceção; ao contrário, constituem o paradigma de todos os sonhos. Ele estudou os sonhos de pessoas que passaram por experiências traumáticas importantes e observou que, no início, muitas vezes havia uma mera repetição do trauma; mais tarde, contudo, os sentimentos de medo, vulnerabilidade, culpa ou pesar continuavam presentes nos sonhos, mas num contexto inteiramente diferente. Por exemplo, sonhar estar sendo atingido por uma onda gigante ou um furação era muito comum, independentemente de como tivesse sido o verdadeiro trauma. Os sonhos desses indivíduos continham não os estímulos sensoriais relativos ao evento traumático, mas sim a emoção vivenciada. Segundo o autor, os sonhos contextualizam a emoção dominante, expressando-a através de uma representação pictórica. Para Hartmann, esse mesmo padrão é encontrado nos sonhos de pessoas que não sofreram traumas importantes, mas que estão experimentando uma emoção intensa, como em situações de estresse em geral. Ele afirma ainda que, quando não há uma emoção dominante, e várias emoções de menor intensidade estão presentes, tal padrão, embora menos evidente, persiste. Revonsuo15, por sua vez, baseou-se na teoria da evolução para tentar explicar os sonhos. Ele partiu das seguintes premissas: para os primeiros humanos, a vida era curta e cheia de ameaças; os eventos traumáticos freqüentemente são expressos nos sonhos; e os sonhos são fundamentais no processo de aprendizagem. De acordo com sua hipótese, a função dos sonhos é simular experiências traumáticas ou ameaçadoras que foram anteriormente vivenciadas durante a vigília. Tal simulação, segundo ele, leva a uma melhora no desempenho do indivíduo em relação à detecção e enfrentamento de ameaças, o que, conseqüentemente, aumenta a sua sobrevida e chances de procriação. Diversos autores9,14,19,20,44 acreditam que os sonhos são de grande importância para a elaboração de traumas e conflitos psíquicos e têm um papel terapêutico, semelhante ao da psicoterapia. Para explicar esse processo de elaboração, o seguinte modelo da neurociência computacional tem sido utilizado. Acredita-se que, no sonho, as redes neurais se conectem com mais facilidade do que durante a vigília43. Todavia, essas conexões não são feitas de forma aleatória: as emoções seriam os organizadores das redes neurais. Em outras palavras, as representações tendem a se associar a outras que possuam a mesma conotação afetiva2,43. Isso está de acordo com a regra de aprendizagem de Hebb, que diz que "a força de uma conexão sináptica entre dois neurônios aumenta sempre que os neurônios são ativados ao mesmo tempo por uma fonte externa". Enquanto dormimos, as experiências recentes são primeiro emparelhadas com eventos mais remotos, com os quais possuam alguma similaridade, para em seguida serem integradas aos registros permanentes de memória45. Dessa forma, a lembrança de um trauma (da infância ou recente) se associa a outras recordações, o que a torna menos poderosa e perturbadora43. DISCUSSÃO Os sonhos podem ser definidos como estados da consciência que ocorrem durante o sono. Mas ainda sabemos muito pouco sobre eles. Na edição comemorativa da revista Science, relativa ao seu 125º aniversário, é apresentada uma lista de 125 questões ainda não respondidas pela ciência e que irão desafiar os pesquisadores no próximo quarto de século. Entre elas, foram incluídas as seguintes: "qual é a base biológica da consciência?"; "por que dormimos?"; e "por que sonhamos?"46. A hipótese de Freud de que os desejos são os instigadores dos sonhos encontra agora algum respaldo na proposição de Solms22 de uma relação entre sonhos e ativação do sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical. Esse autor, como vimos, baseou-se na observação de pacientes com lesões no cérebro anterior, em estudos de PET scan no sono REM, no efeito de agonistas dopaminérgicos sobre os sonhos e na existência de diversos aspectos em comum entre sonhos e psicose. Todavia, algumas dúvidas ainda pairam sobre essa questão. Por exemplo, faltam dados na literatura científica sobre como os antipsicóticos, que são antagonistas dopaminérgicos, afetam os sonhos, tanto em indivíduos normais como em psicóticos. Além disso, os sonhos e a mais importante das psicoses, a esquizofrenia, possuem diferenças marcantes do ponto de vista fenomenológico: enquanto os sonhos são constituídos basicamente por imagens visuais, na esquizofrenia predominam as alucinações auditivas, sendo bem mais raras as visuais. E não se pode esquecer que o próprio Freud42 reconheceu a existência de exceções à sua regra: os sonhos repetitivos pós-traumáticos. Já a concepção de que uma instância censora deturpa os sonhos tem encontrado pouco apoio. Robins11 defende que o conteúdo manifesto é o próprio sonho, visto que o córtex pré-frontal, que seria fundamental em qualquer mecanismo mental de disfarce dos sonhos, encontra-se inativado durante a fase REM do sono. Por outro lado, a visão de muitos neurocientistas, como Hobson & McCarley37, de que os sonhos não possuem significado é desafiada pela constatação de quanto as emoções experimentadas durante a vigília determinam o conteúdo dos sonhos, como descrito no trabalho de Hartmann43. Os aspectos emocionais das recordações são codificados como memórias implícitas47, as quais provavelmente são consolidadas durante o sono REM32. E segundo Stickgold et al.27, o sono REM pode incrementar o processamento de memórias emocionais. Tudo isso é bastante coerente com a hipótese de que as emoções exercem um papel fundamental na formação dos sonhos. O modelo da neurociência computacional sobre o papel dos sonhos na elaboração psíquica é bastante semelhante ao modelo psicanalítico. O desenvolvimento de múltiplas associações para a representação do trauma corresponderia à incorporação desta ao pensamento do processo secundário, o qual é racional e obedece à lógica e ao princípio da realidade. Incrementar a modalidade de pensamento do processo secundário em detrimento do pensamento do processo primário representa um fortalecimento da capacidade do ego de dominar o id, o que, por sua vez, consiste num dos principais objetivos do tratamento analítico48. Freud3, em 1900, afirma que tanto o pensamento irracional como o racional participam da elaboração do sonho. Robins11 discorda, afirmando que os sonhos expressam unicamente o pensamento do processo primário; o relato deles é que está relacionado ao processo secundário. Mas o neurocientista Claude Gottesmann23 atesta que os sonhos da fase NREM do sono se assemelham ao pensamento do processo secundário. Surge aqui uma questão: se os sonhos são terapêuticos por ocasionarem uma ampliação do campo de atuação do ego e incremento do pensamento do processo secundário, como eles se apresentam com características do pensamento do processo primário? Na seção D do capítulo VII de "A Interpretação dos Sonhos", Freud3 diz que a transformação de pensamentos em imagens visuais favorece a ligação com pensamentos que sofreram o mesmo processo de transformação. Talvez o sonho represente uma parte apenas do processo de elaboração psíquica que ocorre durante o sono. Embora o aumento do número de associações das representações mentais se dê durante grande parte - ou a totalidade - do sono, apenas durante os sonhos, principalmente na fase REM, chegam à nossa consciência informações sobre esse processo. Como durante o sono REM o córtex pré-frontal - fundamental para a atenção e o pensamento racional na vigília - está inativado, a nossa consciência só é capaz de funcionar de acordo com o processo primário e, assim, só capta de forma parcial o processo que está se desenrolando. Em outras palavras, embora durante o sono estejam sendo criadas novas associações entre as idéias, só conseguimos sonhar com condensações ou deslocamentos. Pelo que vimos, o diálogo entre a neurociência e a psicanálise sobre os sonhos pode ser bastante profícuo: proposições da psicanálise têm inspirado e guiado investigações neurocientíficas, e achados da neurociência têm sido úteis para um maior refinamento da teoria psicanalítica. Correspondência: Elie Cheniaux Rua Santa Clara, 50/1213, Copacabana CEP 22041-010 Rio de Janeiro, RJ Tel.: (21) 2547.0670 E-mail: echeniaux@globo.com Recebido em 10/08/2005. Aceito em 26/02/2006. 1. Mancia M. Psychoanalysis and the neurosciences: a topical debate on dreams. Int J Psychoanal. 1999;80(Pt 6):1205-13. 2. Reiser MF. The dream in contemporary psychiatry. Am J Psychiatry. 2001;158(3):351-9. 3. Freud S. A interpretação dos sonhos. 2Ş ed. Rio de Janeiro: Imago; 1987. 4. Freud S. Esboço de psicanálise. Rio de Janeiro: Imago; 1975. 5. Luborsky L, Crits-Christoph P. Understanding transference: the core conflictual relationship theme method. New York: Basic Books; 1990. 6. 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