Entre a folia e a bola de luz: reflexões sobre uma visão compartilhada com os sem-terra de Itapetininga-SP
por SYLVIA ROMANO IN COMENTARIOS A
Danilo Paiva Ramos
Universidade de São Paulo
RESUMO: Enfoco neste trabalho o momento em que vi, com um grupo de
foliões sem-terra, uma bola de luz no céu. Na tentativa de melhor compre-
ender esse evento, procuro refletir sobre as relações entre a Folia de Reis, as
histórias de assombração e os lugares que fui ocupando na vida social do
assentamento à medida que realizava minha pesquisa de campo. Tomando
como referência os trabalhos de Bauman (1977), procuro reconstituir su-
cintamente os pontos marcantes da etnografia da performance que realizei
no Assentamento Carlos Lamarca, através da qual dois gêneros discursivos
surgiram como fundamentais para entender a experiência dos assentados
(Turner, 1986): as falas sobre a “nossa luta” e as “histórias de assombração”.
Pensando com Favret-Saada (2005) e Ingold (2000), busco então refletir
sobre a visão compartilhada da bola de luz como um evento que alterou de
modo significativo o lugar que eu vinha ocupando na sociabilidade do as-
sentamento e que me fez compreender de modo diferente as narrativas que
vinha ouvindo e tentando interpretar.
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Introdução
Numa noite de dezembro, terminado o ensaio da Folia de Reis,
íamos caminhando de volta para a casa dos assentados quando nos de-
paramos com uma estranha bola de luz a se mover no céu para cima e
para baixo. Os 12 foliões e eu, antropólogo e professor de música, fica-
mos a contemplar a luz misteriosa, semelhante àquelas surgidas em his-
tórias que muitos sem-terra vinham me contando durante meu traba-
lho de campo. Creio que somente agora, frequentando as festas de
Santos Reis em janeiro, fazendo visitas aos assentados em dias especiais,
se torne possível refletir sobre essa visão.
Relações entre a Folia de Reis abençoada, as “histórias de assombra-
ção” e as falas sobre a “nossa luta” são enfocadas neste trabalho com o
objetivo de melhor entender como esse momento em que vi, com os
foliões, a bola de luz – misto de mãe do ouro e boitatá – alterou de
modo significativo o lugar que eu vinha ocupando na sociabilidade do
assentamento. Partindo dos trabalhos de Bauman (1977), procuro
reconstituir sucintamente as linhas marcantes de dois gêneros
discursivos: as falas sobre a “nossa luta” e sobre as “histórias de assom-
bração”, que se configuraram como fundamentais para compreender a
experiência dos assentados. Incorporando as perspectivas de Favret-Saada
(2005) e de Ingold (2000) sobre a pesquisa etnográfica, busco descrever
como esse evento da visão compartilhada da bola de luz pode ser perce-
bido como o desdobramento de um processo de educação da atenção
que, colocando em risco o “empreendimento científico”, alterou minha
percepção da fazenda-assentamento, o lugar que eu ocupava na sociabi-
lidade e meu modo de interpretar esses gêneros discursivos. Esse proces-
so permitiu, a meu ver, entender o modo como os assentados interpre-
tam e narram sua experiência (Turner, 1986) de um modo diferente.
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Nossa luta
Muitos trabalhos sobre o MST começam dizendo que o período de 1979
a 1985 compreende o momento de formação do MST no Brasil. Esse é
o período em que se torna mais intensa a luta pela democracia, e em
que as lutas trabalhistas conquistam importantes espaços no campo e
na cidade (Fernandes, 1996, p. 66). O novo processo de conquista da
terra pelos trabalhadores rurais inicia-se com lutas camponesas localiza-
das. Estas se articulam em diversos estados brasileiros na gênese de um
movimento social nacional. As famílias do movimento fazem das ocu-
pações de terra suas principais ações de luta. Com o aumento das ocu-
pações, os conflitos fundiários se intensificam, e a questão da reforma
agrária é recolocada no cenário político nacional (p. 17). A partir desse
novo contexto em que se inserem os movimentos sociais de luta pela
terra e pela reforma agrária, grande quantidade de trabalhadores, mar-
cados pela expropriação da terra, pelo desemprego e pelas dificuldades
da vida nos grandes centros urbanos, engaja-se no MST, o que implica
sérias mudanças em suas vidas.
Já desenvolvendo atividades junto ao MST e lendo trabalhos acadê-
micos sobre a luta por terra e a reforma agrária, optei por realizar uma
pesquisa etnográfica no Assentamento Carlos Lamarca do MST devido
ao fato de ele ter concentrado grandes interesses do movimento. Situa-
do na região Sudoeste do estado de São Paulo, o assentamento está pró-
ximo de grandes centros urbanos, de importantes polos da produção
agrícola e de fortes assentamentos do MST. As famílias assentadas são
originárias das mais diversas regiões do país. Há famílias baianas, minei-
ras, paranaenses, pernambucanas, mato-grossenses e paulistas. Marcadas
pela necessidade da migração para outras regiões em função da perda de
suas terras e das más condições de vida e trabalho, esses migrantes fo-
ram se estabelecendo nas periferias de grandes centros urbanos (Campi-
nas, Sorocaba, São Paulo) ou em cidades com grande produção agrícola
(Araraquara, Americana, Sumaré, Hortolândia). Eu pretendia realizar
uma “pesquisa participante” nos moldes em que Brandão (1990) define
essa prática. Por isso, desde o início da pesquisa, desenvolvi atividades,
como as aulas de alfabetização de adultos e as aulas de música, que iam
ao encontro dos interesses dos assentados e do próprio movimento so-
cial do qual faziam parte, o MST.
No início das atividades de campo, realizei entrevistas com os assen-
tados para entender suas trajetórias de vida e de militância. Aos poucos
fui percebendo que as falas das entrevistas assemelhavam-se àquelas
dadas pelos assentados a pessoas que vinham de fora para conhecer o
assentamento e sua experiência de luta. Tais pessoas eram jornalistas,
estudantes, militantes de outros movimentos sociais, religiosos, simpa-
tizantes e pesquisadores, como eu.
Trabalhando como assalariados, mão de obra pouco qualificada e
barata para as grandes empresas, os assentados foram quase sempre víti-
mas do desemprego e de grande exploração. Vivendo nas periferias, as
famílias estavam constantemente expostas à violência e à socialização
dos filhos na criminalidade (periferias urbanas, em particular). Nesse
contexto, tomaram conhecimento do MST através dos trabalhos de
base, e resolveram aderir ao movimento. Sem ter nenhuma garantia da
conquista da terra, esses assentados viveram dois anos à beira de estra-
das, em difíceis condições de moradia, sempre ameaçados pela polícia e
pelos jagunços dos fazendeiros. Mudaram-se para acampamentos na re-
gião de Itapetininga no ano de 1996 e iniciaram uma longa jornada de
ocupações, expulsões, ameaças, brigas e disputas que terminaria em
1998, com o assentamento nessa propriedade em Itapetininga.
No entanto, os conflitos acerca da divisão dos lotes, do modo de pro-
dução (cooperada ou individual), da forma de moradia (agrovila ou indi-
vidual) acabaram dividindo, “rachando” o grupo. Os impactos desses
conflitos repercutem até hoje e podem ser percebidos tanto nas relações
das famílias de assentados entre si como nas relações destes com o MST.
O grupo que defendia a produção cooperada e a agrovila propostas pelo
movimento continua a militar e a participar de encontros e atos do MST.
Por outro lado, o grupo que defendia medidas distintas do movimento
se mantém mais afastado e raramente participa de tais atividades.
Esses temas sempre vinham à tona nas entrevistas que eu realizava
nas casas dos assentados, e penso que correspondam a um gênero do
discurso que era designado como “nossa luta”. Por meio dessas narrati-
vas, os assentados ligavam suas trajetórias de vida a uma espécie de his-
tória política do assentamento e do movimento social no qual se inse-
riam. Creio que desse modo uma identidade (Novaes, 1993) de
“sem-terra” ia se expressando nessas narrativas da “nossa luta”.
No relato de suas trajetórias como “militantes” sempre eram enfati-
zados três momentos marcantes. O primeiro era denominado “virar sem-
terra” e correspondia ao relato das situações de violência, exploração e
perigo em que eles e suas famílias se encontravam. Narravam as reuni-
ões com militantes do movimento ou com padres e freiras da igreja que
faziam com que tomassem consciência de suas situações sociais e optas-
sem por aderir ao movimento e lutar pela terra. O segundo dizia respei-
to aos conflitos pela “divisão dos lotes”, nos quais houve a disputa entre
famílias que aderiram às propostas do MST de cooperativismo e agrovila
e aquelas que queriam lotes “individuais”, familiares, para constituir seus
sítios e suas produções autônomas. O terceiro vem a ser a “luta no lote”,
em que as narrativas descrevem as dificuldades dos assentados em plan-
tar, colher e vender a produção a partir de uma terra pouco fértil. Numa
dessas narrativas sobre a “nossa luta”, Hermes contou-me a respeito do
tempo de acampamentos e de ocupações feitas para conquistar a terra
da fazenda onde se consolidou o Assentamento Carlos Lamarca:

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