Papai é homem ou mulher?
Questões sobre a parentalidade transgênero no Canadá e a homoparentalidade no Brasil
por Sylvia Romano apoiada em
lÉrica Renata de Souza
: Neste artigo apresento uma discussão sobre a categoria trans-gênero, em especial no contexto canadense, a fim de problematizar a questão da parentalidade transgênero no Canadá e da parentalidade de travestis e transexuais no Brasil. Com base nos dados de campo, o foco está nos trans-gêneros canadenses que lidam com os constrangimentos sociais e culturais para as suas manifestações afetivas, familiares, parentais e sexuais, analisando essas práticas num diálogo com o cenário brasileiro no que se refere à ho-moparentalidade. Questiono em que medida não seria relevante também, no Brasil, tanto do ponto de vista acadêmico quanto político, possibilitar a existência discursiva das parentalidades transexual e travesti para além da homoparentalidade. Por fim, analiso as concepções de paterni dade que perpassam essas práticas, buscando compreender em que medida elas recon-figuram as representações do pensamento ocidental ao performatizarem a parentalidade na sua relação com o gênero. Ainda que não fosse o foco da pesquisa, estava incluída em minhas in-
relações não convencionais, no que se referia à gênero e sexualidade. Neste sentido, esse artigo é parte revisa-da e alterada da minha Tese de Doutorado (Souza, 2005), retomando e desenvolvendo essa questão que o campo me trouxe, e que ainda carece de problematização. Transgêneros: que termo “guarda-chuva” é este?Desde o VIII Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas, em 1995, a categoria travesti foi incluída no nome dos encontros seguintes, ao mesmo tempo em que foi fundada, em Assembleia Geral, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT). Porém, antes deste evento, “travestis e liberados” já haviam se organizado em dois encontros. Durante o IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis, essa nova identidade po-lítica representava ainda apenas 1% dos presentes no encontro (Facchini, 2003). Em 1999, o termo “travesti” foi substituído na sigla GLBT3 por “transgênero”. Entretanto, durante o II Encontro Paulista GLBT, em agosto de 2004, foi novamente aprovada a separação entre “travestis” e “transexuais” no Estado de São Paulo, a fim de visibilizar as diferenças entre essas duas categorias, bem como entre suas distintas demandas. Vencato (2003) mostra-nos com muita clareza como, no Brasil, traves-tis, transexuais e drag queens tinham suas especificidades e diferenciadas trajetórias diluídas dentro da categoria transgênero, além dos aspectos hierárquicos que os definiam. No Canadá, durante a pesquisa de campo, pude perceber que o termo “transgênero” (transgender umbrella) referia-se a qualquer manifestação não convencional do sistema sexo/gênero, como andrógenos, por exem-plo. Contudo, via de regra, englo bava travestis, transexuais, intersexuais, two-spirited 4, crossdressers e drag queens5, mas sem desconsiderar outras
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Cabe aqui esclarecer que os transexuais ainda se divi-diam em “pré-operados” (pre-op) e “pós-operados”. No entanto, havia transgêneros que, mesmo após a cirurgia de redesignação de sexo, não se autoidentificam como transexuais. Nesse sentido, a categoria transgênero se configura como um guarda-chuva para a diversidade de possibilidades, inclusive para aqueles que não se sentiam à vontade para se identifi-car com as categorias abarcadas pelo guarda-chuva do transgenderism. No entanto, essa concepção coexiste com definições das categorias que engloba. No discurso dos entrevistados, a categoria travesti referia-se àqueles que se travestem com regularidade, sem intervenção cirúrgi-ca (implantes de silicone, cirurgia de mudança de sexo) ou hormonal. Transexuais eram aqueles que tinham seus corpos alterados pela cirurgia ou pela in gestão de hormônios femininos sintéticos e também se traves-tiam com regularidade. Os transexuais pré-operados eram aqueles que não queriam se submeter ou ainda não haviam se submetido à cirurgia de mudança de sexo. Dentro da subcategoria pré-operados, sabemos que também há de “não operados” (non-op) para os que decidem não se submeter à cirurgia, mas esta não apareceu no discurso dos meus entrevistados, que a incluíam em “pré-operados”. Os crossdressers eram os que se travestiam eventualmente, sem intervenção cirúrgica ou hor-monal. As drag queens representavam o grupo que se travestia eventual-mente, sem intervenção cirúrgica ou hormonal, mas diferenciavam-se dos crossdressers por sua intenção deliberada de exagero e teatralidade na performance do feminino. Os intersexuais consti tuíam o grupo daqueles que, em proporções e tipos variados, nascem com os dois órgãos sexuais. Contudo, nas relações e práticas cotidianas dos chamados transgêneros, essas subcategorias ganham o status de categorias. Os transgêneros (ressalvadas as suas particularidades) desestabilizam a matriz heterossexual (Butler, 2008) que pressupõe a coerência entre sexo, gênero e sexualidade. Provocam “desordens de gênero” não inte-
– ...ligíveis para a lógica da matriz heterossexual e, como bem nos lembra Vencato (2003), até mesmo para os homossexuais. Nesse sentido, há uma tentativa de “generalização” de uma categoria, que englobe todas as manifestações produtoras dessa “desordem”. Contudo, se não há fixidez da categoria transgênero, tampouco há nas suas diversas manifestações. Vencato (2003) discute essa questão também no contexto brasileiro:Além disso, é comum entre esses sujeitos que façam referências a si mesmos de modo diverso em diferentes momentos, ou seja, que possam se autorre-ferir como travestis, transexuais ou mulheres, em contextos diferentes. Isso implica numa construção de identidade raramente centrada em categorias estanques e extremamente pautada no que se poderia chamar de negocia-ção constante de se ntidos. Como sujeitos de sua própria transformação, esses sujeitos acabam manipulando com alguma destreza sua identidade, talvez para lidar melhor com os preconceitos que lhes atingem (Idem, pp. 204-205).Contudo, outra questão nessa problemática tentativa de generalizar essas diversas manifestações diz respeito à associação entre transgêneros e homossexualidade. Nesse sentido, o pertencimento dos transgêneros dentro do “movimento homossexual” é questionável, já que a luta dos transgêneros é travada com base em significados e manifestações perpas-sadas pela questão da homossexualidade, a qual, no entanto, não é o seu vetor e nem uma questão comum a todos os transgêneros. Dessa forma, assim como Rubin (1984) sugere que a sexualidade deveria ter sua pró-pria política radical para além da tute la do feminismo, os transgêneros também não têm seus interesses contemplados pelo movimento LGBT, uma vez que suas orientações sexuais podem variar e não é a sexualidade que os identifica como transgêneros. Contudo, nota-se uma associação entre o fenômeno transgênero e a homossexualidade, que apresenta um
revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 401 –discurso essencialista e redutor de significados e práticas de transexuais, travestis e drag queens à questão da homossexualidade, apesar da diver-sidade no que se refere às suas práticas sexuais. No Brasil, essa discussão, no que concerne a travestis e transexuais, já é bastante conhecida e de-batida, mas cito, por exemplo, os trabalhos de Vencato (2003), Pelúcio (2004) e Cardozo (2006a).No Canadá, o campo me levou ao dado de que a aceitação da sua orientação sexual torna-se uma questão secundária, já que os transgê-neros MtoF (male to female, masculino para feminino) apresentavam orientações sexuais diversas e esse fato não era ignorado pela comuni-dade LGBT. Tive contato transgêneros MtoF que se relacionam com mulheres, outros com homens e outr os com transgêneros. O mesmo ocorria com os transgêneros FtoM (female to male). Esses transgêneros, dentro da sigla LGBT, “encaixavam-se” na categoria de “transexuais”. No entanto, na prática, havia deslocamentos para outras categorias quando o assunto era a orientação sexual. Por exemplo, Transgêneros MtoF que se relacionam tanto com homens quanto com mulheres, frequentam grupos de apoio para mulheres bissexuais. Segundo a transgênero MtoF Micheline Montreuil6, advogada, den-tro do movimento LGBT canadense, os transexuais constituíam a mais marginalizada das categorias, ainda muito carente na conquista de di-reitos civis quando comparados aos homossexuais. Segundo ela, a dis-criminação ainda era muito grande mesmo dentro do movimento (o que ela chamava de “transfobia”), e oferecia sua experiência pessoal para corroborar tal fato, alegando que muitas vezes a sua entrada não era acei-ta em bares homossexuais de Quebec, província canadense onde morava e trabalhava. Montreiul afirmou que os transexuais eram considerados “pessoas em transição” e, no imaginário do movimento, aquelas que “não se decidem”, que estão “em cima do muro”, e, portanto, sua luta não era vista com muita seriedade pela maioria dos homossexuais.
– 402 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...Contudo, dados os movimentos de fusão e fissão entre grupos de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros, de acordo com o contexto e as necessidades, os transgêneros ganharam seu espaço e se mantêm como grupo heterogêneo integrante do movimento LGBT canadense. Durante as manifestações públicas, os transgêneros são “diluídos” na “massa” marginalizada socialmente pelas “transgressões” do sexo e do gênero. No interior das preocupações do movimento, os transgêneros são alocados num grupo à parte, o qual, por sua vez, é caracterizado por uma pluralidade de questões de gênero e orientação sexual que não são devidamente contempladas nas lutas e reivindicações do movimento. Ness e contexto, a questão da parentalidade transgênero é relegada a um plano ainda mais distante, como veremos neste artigo. A lei canadense que permite o registro de dois parents independente-mente do gênero. No Brasil, na certidão de nascimento de uma criança já pode constar os nomes de duas mães ou de dois pais, no caso de casais homossexuais. Mas o que acontece, então, no Brasil, quando alguém se assume como transexual já sendo pai ou mãe?Na hipótese de o transexual ter gerado filhos antes de se submeter à ope-ração de troca de sexo, nenhum reflexo pode ocorrer no tocante à situação jurídica dos filhos. Elimar Szaniawski sustenta que o assento de nascimento continuará imutável e a “existência de redesignação de um dos pais não deverá aparecer jamais em qualquer documento do filho”7. Essa solução, porém, não pode ser sustentada na hipótese de o genitor, após a cirurgia, vir a obter a alteração de seu nome e de seu status sexual. Nesse caso, o registro de nascimento do filho deixará de retratar o vínculo parental, o que poderá trazer-lhe sérios e irremediáveis prejuízos. Permanecendo inalterado o assento de nascimento da prole, haverá a impossibilidade de serem bus-cados direitos decorrentes da relação de parentesco (Dias, 2000, p.119).
revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 403 –Na matéria publicada no dia 7 de maio de 2012 no jornal baiano Correio, sobre o ineditismo do Estado do Rio Grande do Sul em lançar uma “carteira de nome social” que equivale a um RG e na qual travestis e transexuais podem escolher o seu nome, apenas um comentário foi postado, o qual começa da seguinte forma: “Gostaria de perguntar não só às autoridades do RS, mas de todo o Brasil: ‘esses senhores’ que ado-tam nomes femininos, poderão também gerar filhos?”8. A questão da parentalidade de transexuais ganha cada vez mais visibi-lidade e novas problematizações. No site de Maria Berenice Dias, encon-tramos uma recente publicação, de 19 de maio de 2012: “Mestra, ontem lancei mais uma sentença de modificação de registro civil de um transe xual masculino para feminino. Detalhe é que o indivíduo foi casado, tem uma filha e ainda não se submeteu à cirurgia. Depois de publicada te mando”9.O que estou querendo dizer é que, apesar de todas as mudanças, o questionamento de Dias (2000) sobre o tema permanece atual: “pode-se taxar de ‘excesso de egoísmo e de vedetismo exibicionista’10 a pretensão de realizar o sonho da filiação sem abrir mão do direito de buscar a própria identidade?” (p. 120)Parentalidade transgênero ou homoparentalidade? Situando categorias.Utilizarei a “parentalidade transgênero” como categoria êmica dos sujei-tos entrevistados no Canadá, apesar das discussões levantadas no início do texto sobre a diversidade de manifestações às quais a categoria trans-gênero pode se referir. Para me referir ao Brasil, utilizarei o ne ologismo cunhado na produção brasileira sobre o tema, a “homoparentalidade”, que inclui a parentalidade de transexuais e travestis, mas ciente de que travestis e transexuais apresentam especificidades na sua construção iden-
– 404 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...titária e, consequentemente, na sua relação de parentalidade” (Zambra-no, 2006, p. 128).Se travestis e transexuais ainda ocupam um espaço marginal na pro-dução acadêmica, o que poderíamos dizer a respeito da sua homoparen-talidade? Num país em que se levou dezesseis anos (desde o Projeto de Lei 1.151/95) para aprovação da União Civil Homossexual, que ainda não contempla os homossexuais com todos os direitos dos heterosse-xuais, o que dizer sobre as famílias e homoparentalidades? Mesmo no que se refere à produção acadêmica antropológica, a atenção foi mais focada nas famílias, conjugalidades e parentalidades de gays e lésbicas (Heilborn, 1992; Mello, 1999; Uziel, 2002; Tarnovski, 2002; Eugênio, 2003; Souza, 2005). Já que no que se refere aos transgêneros e transe-xuais, como bem coloca Cardozo (2006a; 2006b), a produção acadêmica sobre travestis têm se focado nas ruas, enquanto a autora se propõe a es-tudar o tema na relação com a casa e a família. Zambrano (2006) em seu artigo “Parentalidades impensáveis: pais/mães, travestis e transexuais” também aborda a tão pouco problematizada questão da parentalidade de travestis e transexuais, incluída no neologismo da “homoparentalidade”, cuja importância Zambrano (2006) comenta: “Ao nomear um tipo de família até então sem nome, permite-se que ela adquira uma existência discursiva, indispensável para indicar uma realidade, possibilitando o seu estudo e, principalmente, sua problematização (De Singly, 2000). Favorece, ao mesmo tempo, a emergência de um campo de luta p olítica onde as demandas de (homo) parentalidade ficam fortalecidas” (p. 128).Contudo, caberíamos questionar em que medida não seria relevante, tanto do ponto de vista acadêmico quanto político, possibilitar a exis-tência discursiva da parentalidade de travestis e transexuais no Brasil. Essa minha perspectiva deriva da minha experiência com a parentalidade transgênero no Canadá. Ainda que minha intenção não seja sugerir a “importação” de nenhum modelo, acredito que essa reflexão se faz neNesse contexto, com o intuito de dar suporte aos pais GLBT, vários grupos e atividades de apoio para a comunidade LGBT em geral funcio-navam dentro ou relacionados ao Centro Comunitário da Church Street. Além do Colage, para filhos de LGBT, havia: Gays and Lesbians Parenting Together, um grupo para gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros que eram parents ou queriam se tornar e estavam explorando as opções para tal (adoção, coparentalidade, parentalidade biológica, doação de óvulos ou esperma, barrigas de aluguel); Rainbow Club, um clube social que organizava atividades recreativas para queer parents e seus filhos; Queer Mums Family Lunch, um almoço mensal para mães lésbicas, bissexuais, transsexuais e transgêneros, com espaço recreativo para as crianças; Dykes Planning Tykes, um curso para lésbicas e bissexuais que queriam ser mães, sobre os aspectos práticos (como inseminação, adoção e opção por par-teiras), emocionais, sociais e legais da parentalidade lésbica; The Family Resource Centre, um programa gratuito que funcionava como “berçário” para filhos, de 0 a 6 anos, de queer parents. Além disso, o Centro Co-munit& aacute;rio promovia acampamentos de verão, viagens e eventos especiais (fóruns, feiras etc.) para famílias de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, transgêneros, pessoas intersex e two-spirited. Planilhas informativas sobre bancos de esperma, contendo nome do banco, endereço, preços, taxa de
– 406 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...entrega, custos extras e comentários também estavam sempre disponíveis no Centro Comunitário, para toda a comunidade interessada. Publicações e eventos de diversas organizações ofereciam seu respaldo às famílias de LGBT. O Colage (Children of Lesbian and Gays Everywhere) mantinha uma publicação periódica, o jornal Just for us, o Alternative Moms circula o Mommy Queerest: a journal for Queer Moms and their Fa-milies, cujo downloadpodia ser feito através do Family Pride Web Site12, a primeira organização virtual para famílias queer canadenses. O LGBT Pa-renting Network oferecia um boletim informativo bimestral, o Pride & Joy. Contudo, como veremos, apesar dos recursos supracitados, assim como travestis e transexuais ocupam um lugar marginal e ainda pouco compreendido dentro do movimento LGBT brasileiro e da produção acadêmica, os transgêneros canadenses também pouco se sentiam con-templados pelo movimento ou pela infraestrutura legal, sobretudo no que se refere à parentalidade transgênero. Loree Cook-Daniels é uma ativista lésbica canadense que adotou a filha biológica de seu companheiro transgênero FtoM (feminino para masculino). Neste tipo de arranjo, denominado coparentalidade, ge-ralmente um dos parents é um dos genitores da criança e o outro entra com o pedido na justiça para a adoção. Esse procedimento é, em geral, rápido e simples, a menos que o outro genitor (ainda que não faça parte do arranjo de coparentalidade) interfira. Apesar deste recurso de coparentalidade conquistado pelos homossexuais ter sido estendido aos transgêneros, Cook-Daniels (1999) comenta sobre as dificuldades en-caradas pelos transg& ecirc;neros que são parents: Ser um parent transgênero é andar diariamente num campo minado. Todos – e digo todos, incluindo outros transgêneros, assim como membros da família, amigos, oficiais de justiça e observadores casuais – são uma fonte potencial de hostilidade, incredulidade e condescendência. É uma vida na
revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 407 –qual você pode simultaneamente ser invisível e terrivelmente, terrivelmente ameaçado; totalmente “comum” e ao mesmo tempo “bizarro”. É exercer a parentalidade do modo com que lésbicas e gays exerceram há vinte ou trinta anos – totalmente sem úteis mapas ou modelos de papéis – mas com alguns desafios adicionais únicos.[...]Lembra-se dos dias em que tínhamos que explicar como seria possível que lésbicas fossem mães? Aqueles dias não são passado para parents transgê-neros. Nós ainda estamos explicando quem somos e como foi possível que tivéssemos filhos13.Tanto Cook-Daniels (1999) quanto os sujeitos envolvidos em minha pesquisa no Canadá sugerem que os parents transgêneros canadenses buscam pelo reconhecimento do direito d e articularem a parentalidade com a sua orientação de gênero, num contexto social e histórico onde se veem alocados num “não lugar” e lutam por uma ascensão na categoria de sujeito dentro do movimento LGBT, que os considera como pessoas “em cima do muro”, e, concomitantemente, por um lugar reconhecido de parentalidade dentro das estruturas do parentesco. O campoMeu primeiro contato com os transgêneros em Toronto foi durante o Congresso de Humanidades e Ciências Sociais, na sessão Transgender realities and rights. Foi interessante ressaltar que levei algum tempo para perceber que a maioria dos ali presentes eram T-people. Na verdade eu só pude notar o fato a partir da hora do intervalo, quando tive mais opor-tunidade de interagir e conversar com os presentes. Alguns eram Female to Male (FtoM), mas a maioria era Male to Female (MtoF).
– 408 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...A mesa de apresentação e discussão era composta por: Professor Bar-ry Adam, da University of Windsor, Allison Comeau, da University of Brunswick, Sky Gilbert, da University of Toronto, Micheline Montreuil, de Quebec, Ben Murray, de Ottawa, e Kimberly Nixon, de Vancouver. Allison é uma mulher que foi casada com um transgender MtoF por 25 anos e tinha cinco filhos com ele. Durante os anos de casamento, Allison apoiou toda a transição do marido, incluindo a cirurgia de rede-signação de sexo. Ela participava de um grupo de apoio em Ottawa para familiares de transgêneros. Disse-me que o casamento acabou por vários motivos, tendo sido o transgenderism do parceiro apenas um deles, sem ênfase na orientação de gênero do ex-marido. Quando perguntei sobre sua orientação sexual, disse-me que nunca havia pensado nisso. Essa era uma questão para mim, pois algumas pessoas haviam comentado que ser parceiro de um transgênero é algo delicado porque a sua própria iden-tidade passa a ser questionada. Mas não, aparentemente, para Allison. Kimberly vivia como mulher há dezenove anos (estava à época com 44 anos), e há nove estava envolvida com organizações de mulheres e também com um centro de apoio a vítimas de estupro. Era formada em Educação Física, porém trabalhava há onze anos como piloto de avião. Vivia com seu companheiro e a filha deste, de 6 anos. Disse-me que a menina a considerava como uma “segunda mãe” e ainda não ques-tionava o seu transgenderism. Além das conversas informais com os transgêneros acima citados, tive um contato mais intenso e duradouro com Leslie, Abidel e Cheryl14. Conto com três entrevist as gravadas, sendo uma delas da filha adulta de Leslie. As demais informações foram obtidas no contato com os pais transgêneros e suas filhas, em situações diversas de interação informal, durante cinco meses. Considerando que quase todo contato com Leslie, Abidel, Cheryl e suas respectivas filhas deu-se de forma coletiva, observando a interação
revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 409 –entre os pais, entre as filhas e entre pais e filhas, torna-se difícil para mim, nessa apresentação, separá-los em casos distintos. Dessa forma, a apresentação que segue sobre estas informantes é um reflexo do modo como as conheci, em relações cotidianas e histórias entrelaçadas. Ainda no dia da mesa redonda sobre transgenderism conheci Abidel e Leslie, durante a recepção. Conversei durante aproximadamente três horas com todos os transgêneros durante a ocasião, mas na maior parte do tempo com Abidel, quem pacientemente explicou-me as diferenças entre as possibilidades que o termo transgênero engloba. Depois disso iniciei meus contatos via email com Abidel e Leslie. Recebi, depois de algum tempo, o primeiro convite para visitá-las. Abidel estava com 40 anos e era caminh oneiro15. Não cursou faculdade porque precisava trabalhar para sustentar a família e tinha duas filhas que moravam com a ex-esposa, a qual sempre foi consciente de seu transgen-derism, mesmo antes de se casarem. Leslie estava aposentada, depois de décadas como pastor protestante, dispensado pela igreja, entre outros motivos, porque as dificuldades de seu casamento se tornaram públicas. Abidel foi morar com Leslie, aliviando, assim, o problema financeiro desta última, que esperava pela pensão do governo, divorciada e desem-pregada, aos 62 anos. Leslie fez parte da primeira turma de Ciências Gerais (General Sciences) da University of Toronto em 1960 e tinha três filhos: a mais velha, casada e extremamente religiosa, o que implicava em empecilhos para o contato de Leslie com os netos; a filha do meio, com 27 anos, havia saído de casa por volta dos 20 anos e morava com o namorado; e, por fim, o filho mais novo, que nunca aceit ou sua tran-sição. Ela jamais se travestiu na presença dos filhos ou da ex-esposa, e assumiu o transgenderism permanentemente somente quando já não mais coabitava com eles.Ainda conheci Cheryl, também transgênero e namorada de Abidel, além de suas respectivas filhas. As duas filhas de Abidel e as duas de
– 410 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...Cheryl rapidamente tornaram-se amigas, não apenas pela questão da faixa etária (que variava entre 7 e 14), bem como pela identificação entre si como filhas de transgêneros. Durante minhas visitas à casa de Leslie e Abidel, as meninas pareciam muito confortáveis com os pais transgê-neros. Ouvi-as chamando-os pelo termo daddy (papai). E pude notar em várias ocasiões que o “código de conduta” tanto de Abidel quanto de Cheryl, em relação a suas filhas, era o de pai. Contudo, segundo in-formações de Leslie, Cheryl não apreciava muito a interação das filhas com Leslie e Abidel porque temia que a ex-esposa utilizasse o discurso de um “ambiente ruim” na justiça para separá-la das filhas, das quais recebe visitas quinzenais (bem como Abidel).Tive ainda a oportunidade de conhecer Dwayne, 56 anos, marcenei-ro16, pai de duas filhas adultas. Assim como Leslie, relatou que o proces-so de aceitação para suas filhas não foi ameno como está sendo para as filhas de Abidel e Cheryl, que fazem parte de outra geração. Numa das primeiras ocasiões em que estive com elas, foi interessante sentar à mesa e discutir questões sobre transgenderism com Leslie, Abidel e Cheryl. Leslie sempre enfatizou que seu gênero nunca foi masculino e por isso não duvidava de que era uma mulher, já que sempre se sen-tiu atraída por tudo aquilo que “constitui” o gênero feminino e nunca se sentiu “como homem”. Abidel disse que se sentia como mulher, e por isso acredita que os outros a viam assim, o que despertou a ironia de Cheryl, cujo discurso de gênero estava embasado numa perspectiva biológica e por isso acreditava que nunca ne nhuma delas seria reconhe-cida pela sociedade como mulher, embora esse fosse seu maior desejo. No entanto, alguns meses depois, durante a entrevista gravada, Cheryl apresentou uma perspectiva menos rígida:Erica – Hum... e como... como você se vê em alguma categoria: transgê-nero, transexual, mulher... como você se considera?-Cheryl – Bem... Eu não sou classificada como transexual. Hum... meu cérebro é basicamente feminino. Hum... meu corpo é basicamente mascu-lino, mas, como a alteração por hormônios e coisas do tipo, é parcialmente feminino17. Leslie sugeriu, em conversa particular comigo, que Cheryl não aceitava que Abidel se assumisse como mulher (e Abidel estava procurando auxílio psiquiátrico para isso) porque queria um homem ao seu lado. As necessi-dades de Cheryl pareciam ser incompatíveis com as de Abidel. Na ocasião da entrevista com Cheryl, A bidel já havia terminado sua relação com ela e Cheryl comentou, tentando compreender a incompatibilidade de pers-pectivas entre elas: “ela quer reafirmar todo o tempo que é uma mulher e... talvez o jeito que você a vê, a sua opinião, não a ajude nesse sentido”18.Uma questão de gênero? Articulações entre as categorias de pai e “transgênero”Considerando que Abidel passava a maior parte do tempo trabalhan-do para garantir seu sustento e ajudar as filhas, meu tempo e meu con-tato se estreitaram com Leslie. Vários convites surgiram para almoços, jantares e passeios.Na primeira parte da entrevista, Leslie se emocionou e chorou. Na se-gunda parte, algum tempo depois, percebi Leslie diferente, mais distan-te. Alegou que estava cansada, pois havia tido problemas recentes com a ex-esposa, relativos à venda da casa (cuja parte do dinheiro planejava investir na cir urgia de redesignação de sexo, realizada posteriormente, quando eu já havia voltado ao Brasil). Durante nossas conversas infor-mais, nas pausas da entrevista, comentou sobre sua orientação sexual, disse que achava que se considerava heterossexual e que já havia desistido de acreditar que se relacionaria com uma mulher. Ainda que estivesse,
– 412 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...naquele momento, envolvida emocionalmente com uma mulher, o que apenas me relatou posteriormente. Os discursos dos transgêneros durante o Congresso, bem como o discurso corrente de Leslie, deixam claro que, para eles, o transgenderismé uma questão estrita de gênero e independe da orientação sexual ou de práticas sexuais, e que, por isso, sentem-se deslocados na sigla LGBT. No caso dos transgêneros, a relação entre gênero e sexualidade ganha configurações diversas: Kimberly (MtoF ) tinha um parceiro homem e Micheline (MtoF), uma parceira mulher. Leslie queria um parceiro, mas havia cogitado a possibilidade de se envolver com mulheres, ainda que se autoidentificasse como heterossexual. Cheryl e Abidel eram namoradas e ambas, transgêneros MtoF. Leslie ressaltou que, em seu ponto de vista, trangenderism trata-se da a ceitação de gênero e não da sexualidade. Seu discurso colocava a sexua-lidade em segundo plano. A dissonância corpo e mente/alma parecia ser crucial para ela, um campo de conflito incessante, que ela esperava ver o fim com a cirurgia. E seu discurso sugeria que a cirurgia acabaria com seu conflito de gênero e, por decorrência, da sexualidade, o que contra-dizia seu discurso de que gênero e sexualidade são domínios distintos em sua experiência. Leslie esperava que, depois da cirurgia, sua orientação heterossexual se reificasse, porém, envolveu-se em uma relação com ou-tra transgênero MtoF. Ao que se refere às filhas dos transgêneros, eu não dispunha de auto-rização para entrevistar as filhas de Cheryl e Abidel, todas menores de 16 anos, contudo, felizmente, consegui uma entrevista gravada com Joanna, a filha do meio de Leslie e a úni ca que nunca se opôs à sua transição. E, segundo Leslie, a única que me concederia uma entrevista.Conheci Joanna e seu namorado num almoço na casa de Leslie e Abidel. Não tivemos oportunidade de conversar muito naquela ocasião, mas foi a chance para me apresentar e estabelecer um contato posterior.
revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 413 –Marcamos uma entrevista num café no centro de Toronto. A entrevista de Joanna sugere a filha de Leslie como uma pessoa que nutre respeito e sensibilidade à questão da diversidade. Joanna relatou sobre a vida familiar atípica que vivenciou, não so-mente pela questão do transgenderism de seu pai, mas pelo distanciamen-to emocional com o pai e a mãe, relacionado, sobretudo, à dedicação destes à religiosidade. Quando lhe questionei se “sentia” Leslie como pai, respondeu que não, da mesma maneira que nunca havia sentido sua mãe “como uma mãe”. Ou seja, as dificuldades na relação com seu pai tinham uma história familiar, e não se referiam especificamente à transição de gênero de seu pai. Tendo notado uma variedade nos termos (Le slie/dad; she/he) que Joanna usava para referir-se à Leslie, levantei a questão e obtive a seguin-te resposta de Joanna: “Eu não me importo. Eu tento dizer Leslie e ‘ela’ apenas para o seu benefício”19. Joanna deixou muito evidente, durante a entrevista, que respeita Leslie e suas opções devido ao seu respeito pelas escolhas dos seres humanos em busca da realização pessoal. No entanto, a aceitação de Joanna, quanto ao transgenderism de seu pai, não era compartilhada por sua mãe. Assim como o movimento LGBT ca-nadense concebia os transgêneros como pessoas “em transição”, “em cima do muro”, a esposa de Leslie também esperava que aquilo fosse apenas uma fase transitória. Essa é a descrição da situação por Joanna: “Minha mãe esperando que meu pai pensasse que era apenas uma fa se e parasse e voltasse para ela, e ele, esperando que ela fosse, você entende, apenas aceitar isso e eles pudessem viver juntos com essa, essa... hum, coisa”20. Ao mesmo tempo, Joanna sentia dificuldades em alocar seu pai bio-lógico em alguma categoria específica. Como, no passado, nunca houve um vínculo forte entre eles, nem de paternidade nem de amizade, Joan-na, depois da transformação de seu pai, continuava sem uma d Isso é o que ele quer e eu estou apenas tentando... nós nunca tivemos um forte relacionamento pai-filha mesmo, então agora eu quero dizer, eu realmente não o considero parte das minhas amizades femininas, tampou-co como meu pai, então...21Erica – Mas quando você telefona para ela ou coisa do tipo, como você chama por ela, “papai”?Joanna – Eu chamo por Leslie.E – Leslie?J - Porque se estou escrevendo emails, às vezes escrevo &ldquo ;oi, pai” ou... hum... se estou no celular, digo “oi, pai”. Se eu estou ligando para a casa da Abidel, então eu chamo por Leslie, porque todas elas a conhecem como Leslie, então eu posso...22Diferentemente da pesquisa de Zambrano (2006) em que transexuais e travestis são chamadas de “mães”, e do caso supracitado de Kimberly, Joanna referia-se a Leslie como “pai”, contextualmente, mais em situações isoladas de contato com o pai ou para se referir a ele em contextos fami-liares. Entretanto, quando conversava com o pai em contextos nos quais, para ela, a identidade transgênero se sobrepunha, o pai era chamado de Leslie. Da mesma forma, no contexto brasileiro, Cardozo (2006, p. 4) escreve que “nos casos de travestis que têm filhos (biológicos ou adota-dos): as terminologias com que suas posições são definidas em relação às crianças não são fixas, mas passíveis de renegociações”. Cardozo (2006, p. 3) exemplifica através do caso de Cecília: “Desconfortável com o título de pai, pede ao menino que a considere um irmão. Entretanto, mesmo a chamando pelo nome de batismo, diante de situações adversas Carlos – o filho biológico dela – evoca a figura do pai, referindo-se a Cecília”.Retornemos ao caso de Leslie. Não é apenas um nome, mas rotula a identidade feminina adotada por Leslie, anteriormente Wayne, por nome de batismo. Também no contexto canadense, o nome feminino
revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 415 –e o pronome pessoal “ela” aparecem como poderosas ferramentas de reconhecimento social de uma identidade feminina23. O caso de Leslie é ainda mais complexo porque envolve questões de religião. Seu transgenderism teria sido a “causa” da falência da família, mas não somente por adotar uma relação sexo/gênero que não tinha lugar naquela família, mas porque o transgenderism teria sido a causa do seu afastamento do exercício de pastor numa igreja evangélica, já que a moral religiosa era considerada o “pilar” da família. Do ponto de vista da ex-mulher, da filha mais velha e do filho, o afastamento da igreja fez com que a estrutura familiar desmoronasse e, portanto, Leslie havia perdido não somente seu lugar de pai e marido, mas também seu lugar na hier arquia moral e religiosa da família. Dessa forma, não houve necessidade de intervenção judicial, pois os próprios filhos se recusaram a querer contatos futuros com Leslie. No entanto, a entrevista da filha revela uma outra versão dos fatos: uma família desunida, com pai e mãe ausentes durante toda a sua vida. Para Joanna, o transgenderism de Leslie foi apenas o último motivo que precisava para uma família “desestruturada” desmoronar, e ainda pode-mos perceber que os conflitos e problemas que dissolveram sua família tinham um caráter de problemas típicos de famílias heterossexuais, como pais ausentes, falta de diálogo e de intimidade etc. Em seu relato fica explícito que a orientação de gênero de seu pai foi apenas “mais um mo-tivo”, mas não o cerne dos conflitos que perduravam desde sua infância.Apesar das dificuldad es em “sentir” Leslie como pai, Joanna deixa claro que seu pai era, antes de qualquer coisa, seu pai, e que qualquer “opção” que fizesse, dizia respeito somente à vida dele. E, se tinha má-goas em relação a ele, essas mágoas existiam no mesmo plano em que estavam as mágoas por sua mãe, aquelas surgidas no cotidiano familiar, na ausência de ambos desde sua infância. Dessa forma, o termo utilizado para se referir a ele ou sua opção de gênero em nada afetavam o reconhe-
– 416 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...cimento do seu papel biológico e social de pai. As críticas que Joanna fez à vida que seu pai deu a esse papel em nada se relacionam com sua opção de ser um transgênero. São identidades completamente distintas, ainda que não excludentes. No caso da relação de Abidel e Cheryl com suas filhas, o transgenderism parece ser concebido como uma performance ainda mais dissociável da paternidade. As filhas sempre se referem a eles como “pai” ou “papai”, e assim também eles se autorreferem. Há, entre os transgêneros canadenses, uma imensa dificuldade em “encontrar” um lugar renomeado para um pai de família que muda sua orientação de gênero. Em nenhum dos casos percebi o desejo de um transgênero MtoF de ser chamado de mãe ou de ser alocado nessa categoria. Dessa forma, ao menos nos casos entrevis-tados, esses sujeitos, incluindo Leslie, continuaram a se autodenominar (contextualmente) e serem denominados como “pais”. Perante a justiça, Abidel e Cheryl foram contemplados com todos os direitos e deveres de um pai heterossexual em condições ordinárias de separação. O fato de se autoidentificarem como transgêneros, em outros contextos, não afetava uma outra definição coexistente: a de pais. Tanto para a justiça quanto para as ex-mulheres, para as filhas e para eles mesmos, o transgenderism e a paternidade são identidades distintas de uma mesma pessoa. A filha de Leslie procura demonstrar o reconhecimento da sua identidade transgêne-ro em certos contextos chamando-o por seu nome feminino, mas isso não altera as expectativas da paternidade que Leslie sustenta para ela mesma. Associações e dissociaç&otil de;es entre sexo, gênero e parentalidadeMarylin Strathern, no artigo “Necessidade de pais, necessidade de mães”, aponta que o parentesco euro-americano está pautado num “modelo duo-genético de parentalidade” (Strathern, p. 322) que pressupõe sem-
revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 417 –pre um reconhecimento de apenas “dois lados” biológicos de parenta-lidade, marcados por uma relação assimétrica de gênero: o pai e a mãe. Na ausência do pai e da mãe, entra a/o substituta(o) nas suas várias possibilidades: a mãe de aluguel, a mãe adotiva, a avó, o marido da mãe, o pai adotivo etc. Nesse sentido, o modelo é sempre dual, reduzindo possibilidades práticas múltiplas a um mecanismo conceitual binário. Butler (2003) desenvolve uma discussão muito próxima a essa de Stra-thern, na qual inclusive cita os trabalhos de Schneider e Strathern, e escreve que, de acordo com a “lei simbólica fundadora e disseminada” da heterossexualidade, “aqueles que entram nos termos do parentesco como não heterossexuais só far&ati lde;o sentido se assumirem o papel de Mãe ou o papel de Pai” (Idem, p. 251)Para todos os envolvidos, a paternidade é considerada como fato a priori, e em segunda instância, o fato de ser transgênero. É um processo semelhante ao que ocorre com as mães lésbicas brasileiras: a mulher que é mãe e se assume como lésbica é concebida, por todos os envolvidos, incluindo ela mesma, primeiro como mãe, e depois como uma mulher envolvida numa relação homossexual. Essa lógica, diante do conflito de identidades, ordena os fatos e situa as identidades. Nesse processo, os conflitos são “resolvidos” situacionalmente quando as duas identidades são colocadas em cena ao mesmo tempo. Não obstante a rigidez das políticas identitárias, no contexto familiar, no discurso dos sujeitos en-trevistados as identidades de “mãe” e “pai& rdquo; seefinição para o lugar que ele ocupava emQuando o que está em questão são as relações familiares, o transgen-derism parece não ter o direito de interferir na identidade de “pai” por-que é entendido como “escolha” dos atores sociais e, portanto, relegado a um segundo plano, enquanto a paternidade biológica, indiscutível, estaria em primeiro plano. No entanto, a relação entre a paternidade biológica e o transgenderism exige do sujeito uma articulação de suas identidades de pai e transgênero. O que, no entanto, não sé dá no caso
– 418 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...da parentalidade das travestis e transexuais brasileiras: “Nas famílias em que um dos componentes é travesti ou transexual, a divisão dos papéis parentais é mais definida e parece se dar de acordo com o sexo/gênero de ‘escolha’ de cada um: mulheres transexuais e travestis são consideradas mães e seus companheiros, pais” (Zambrano, 2006, p. 136).Já nos casos canadenses, as expectativas para a parentalidade não es-tão calcadas no “sexo/gênero de ‘escolha’”, mas aponta para primazia do referencial biológico nas relações de parentesco. Na cultura americana, segundo Schneider (1968), o parentesco é biologia. Qualquer alteração científica no campo biológico pode alterar as relações de parentesco, mas a recí proca não é verdadeira. “O parentesco não é uma teoria sobre a biologia, mas a biologia serve para formular uma teoria do paren-tesco”24 (Schneider, 1968, p. 115). O sistema de construção dos fatos culturais, segundo Schneider, existe numa relação de (re)ajuste com os fatos biológicos. Ainda que os “fatos biológicos” sejam questionados e problematizados pela literatura antropológica (a exemplo de Moore, 1997), ou seja, o corpo “pré-discursivo”, não podemos perder de vista que “(o)s euro-americanos por outro lado tomam a diferença de gênero, como os papéis fisiológicos que reúnem na noção de concepção, como anteriores.” (Strathern, 1995, p. 327) Resumindo, refiro-me às “tradicio-nais suposições euro-americanas sobre a relação entre cultura e natu reza, acima de tudo a compreensão do parentesco como construçãosocial de fatos naturais.” (Strathern, 1995, p.316)Acredito que o que nos cabe questionar aqui são os novos sentidos e práticas de paternidade que essa configuração específica, propiciada pela articulação entre as identidades de pai e transgênero, gera e ope-racionaliza. Contudo, há um outro dado que complexifica a análise. No contexto canadense, o transgenderism é uma identidade “em transição” e, portan-to, espera-se alguma estabilidade em algum momento. Cheryl é o único
revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 419 –transgênero que conheci que não acredita que um dia possa “se tornar uma mulher” e assume, por opção, um gênero in-between que é renegado pela grande maioria dos transgêneros, sobretudo devido à pressão que sofrem (mesmo do movimento) por uma “definição de gênero”:Erica – Você acha que elas [as filhas] entendem isso [o transgenderism], essa atitude?Cheryl – Hum... eu acho... elas meio que aceitam, não entendem isso. Hum... elas ficam ansiosas em serem vistas em público. Realmente, bem, particularmente minha filha mais velha, a mais nova não liga muito. Hum... mas serem vistas em público depende de como eque... elas podem ficar envergonhadas por isso. E – Então você acha que elas não se sentem confortáveis se voc&ecir c; é mais feminina quando vocês saem juntas?C – Hum, sim. Eu não sei, a preferência dela seria que eu tentasse ser o mais macho possível.E – Seria mais fácil para elas?C – Minha preferência natural é parecer como pareço, o que é bem in-between. Hum... é possível que se eu tentar parecer completamente feminina pode de fato funcionar melhor para elas, porque em alguns ex-perimentos recentes e tentando parecer mais completamente feminina, eu pareço chamar menos atenção. Hum... como normalmente pareço mais in-between, eu atraio muito mais atenção25. E – E sobre a coisa do in-between, você encara alguns problemas entre os transgêneros?C – Hum... que eu acho que deveria tentar ser mais feminina?E – Sim.C – Oh, sim, da Leslie (risos).E – Um certo tipo de pressão?u me apresento sua vida: C – Da Abi del, da... hum, sim, consideravelmente. Não de todo mun-do, mas de muita gente. E é... sério, eu me sinto engraçada quando tento parecer mulher, porque eu não sou. Dessa forma, suas posicionalidades sugerem movimento, processo inacabado. Nesse movimento, as únicas categorias que se mantêm fixas e estáveis são as de “mãe” e de “pai”, tanto biológica quanto socialmente. As orientações sexuais e o transgenderism desses atores são alocados num segundo plano26, de caráter supostamente transitório e, portanto, sem um nome que defina esses novos sujeitos nas relações sociais e de paren-tesco. “O perigo está nos estados de transição, simplesmente porque a transição não é nem um estado nem o seguinte, é indefinível” (Douglas, 1976, p. 119). E, diante do “perigo&rdqu o;, a identidade “estável” de pai se sobrepõe à de transgênero (ainda que esta não seja ignorada).No Brasil, segundo Zambrano (2006), as travestis e transexuais sustentam um discurso de possuidoras de um “instinto materno”, re-presentando a paternidade como biológica (esperma, hormônios) e a maternidade como socialmente construída, possibilitada devido a uma “essência” feminina das travestis e transexuais. Essa lógica promove uma ruptura no pensamento ocidental que associa o “instinto materno” ao sexo feminino, ou seja, a maternidade ao biológico e à paternidade ao social (Strathern, 1995). A “essência feminina” estaria no gênero, não no sexo, o que rompe, em certa medida, com o modelo tradicional, mas sustenta a associação da maternidade ao gênero feminino. De toda forma, a maternidade permanece vinculada ao feminino. Já na pesquisa de Cardozo (2006b), voltando ao exemplo de Cecília, a paternidade também aparece como uma “essência”, mas não associado ao sexo mas-culino, ao biológico referindo-se ao sexo (esperma, hormônios), e sim à consanguinidade: “E, embora saliente discursivamente uma dificuldade em aceitar a paternidade, supõe uma concepção naturalizada de amor de –pai, a exemplo do amor materno (Badinter, 1985). Sob tal perspectiva, a não assunção total da identidade social paterna não anularia o amor que o progenitor teria por seu rebento, sangue de seu sangue.” (Idem, p. 3).Enquanto a maternidade aparece como social, associada ao gênero fe-minino. No entanto, esse caráter social é reduzido ao discurso da “essên-cia”. A paternidade, por sua vez, de uma forma ou de outra, vincula-se ao biológico (esper ma, hormônios, sangue). No entanto, ainda no Brasil, Cardozo conclui que “não só o gênero é performativizado (Butler, 2003), como também a posição na organização e na estrutura de parentesco o é” (Cardozo, 2006b, p. 4). No contexto canadense, a maternidade foi citada por apenas um dos transgêneros envolvidos na pesquisa, que não era um pai biológico. Dessa forma, nos casos em que o transgênero é o genitor, a paternidade en-quanto fato biológico e social é priorizada. Nesse contexto, assim como o gênero, a paternidade aparece como um elemento com o qual os trans-gêneros têm que lidar performaticamente, negociando-a de acordo com o contexto e com os sujeitos envolvidos, no caso, na relação com os filhos. Neste sentido, cabe-nos então refletir sobre os diferentes caminhos pelos quais os pais transgêneros , transexuais ou travestis27 performatizam a parentalidade na sua relação com o gênero, numa negociação entre ma-ternidades, paternidades e gênero que se define de acordo com cada caso e cada contexto, vivenciando práticas que não têm nome nem lugar social-mente reconhecidos na organização simbólica e social da parentalidade no pensamento ocidental. Assim como Leslie precisa negociar sua paterni-dade, as travestis e transexuais brasileiras consideradas mães (Zambrano, 2006) certamente também têm que negociar essa maternidade. Nesse sentido, a existência discursiva das parentalidades transgênero, travesti e transexual pode abrir portas para o reconhecimento das suas especificida-des, da sua diversidade de manifestações e dos diversos caminhos possíveis de se exercer a parentalidade na sua relação com as performances de gênero.

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