Papai é homem ou mulher?

Questões sobre a parentalidade transgênero no Canadá e a homoparentalidade no Brasil por Sylvia Romano apoiada em lÉrica Renata de Souza : Neste artigo apresento uma discussão sobre a categoria trans-gênero, em especial no contexto canadense, a fim de problematizar a questão da parentalidade transgênero no Canadá e da parentalidade de travestis e transexuais no Brasil. Com base nos dados de campo, o foco está nos trans-gêneros canadenses que lidam com os constrangimentos sociais e culturais para as suas manifestações afetivas, familiares, parentais e sexuais, analisando essas práticas num diálogo com o cenário brasileiro no que se refere à ho-moparentalidade. Questiono em que medida não seria relevante também, no Brasil, tanto do ponto de vista acadêmico quanto político, possibilitar a existência discursiva das parentalidades transexual e travesti para além da homoparentalidade. Por fim, analiso as concepções de paterni dade que perpassam essas práticas, buscando compreender em que medida elas recon-figuram as representações do pensamento ocidental ao performatizarem a parentalidade na sua relação com o gênero. Ainda que não fosse o foco da pesquisa, estava incluída em minhas in- relações não convencionais, no que se referia à gênero e sexualidade. Neste sentido, esse artigo é parte revisa-da e alterada da minha Tese de Doutorado (Souza, 2005), retomando e desenvolvendo essa questão que o campo me trouxe, e que ainda carece de problematização. Transgêneros: que termo “guarda-chuva” é este?Desde o VIII Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas, em 1995, a categoria travesti foi incluída no nome dos encontros seguintes, ao mesmo tempo em que foi fundada, em Assembleia Geral, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT). Porém, antes deste evento, “travestis e liberados” já haviam se organizado em dois encontros. Durante o IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis, essa nova identidade po-lítica representava ainda apenas 1% dos presentes no encontro (Facchini, 2003). Em 1999, o termo “travesti” foi substituído na sigla GLBT3 por “transgênero”. Entretanto, durante o II Encontro Paulista GLBT, em agosto de 2004, foi novamente aprovada a separação entre “travestis” e “transexuais” no Estado de São Paulo, a fim de visibilizar as diferenças entre essas duas categorias, bem como entre suas distintas demandas. Vencato (2003) mostra-nos com muita clareza como, no Brasil, traves-tis, transexuais e drag queens tinham suas especificidades e diferenciadas trajetórias diluídas dentro da categoria transgênero, além dos aspectos hierárquicos que os definiam. No Canadá, durante a pesquisa de campo, pude perceber que o termo “transgênero” (transgender umbrella) referia-se a qualquer manifestação não convencional do sistema sexo/gênero, como andrógenos, por exem-plo. Contudo, via de regra, englo bava travestis, transexuais, intersexuais, two-spirited 4, crossdressers e drag queens5, mas sem desconsiderar outras . Cabe aqui esclarecer que os transexuais ainda se divi-diam em “pré-operados” (pre-op) e “pós-operados”. No entanto, havia transgêneros que, mesmo após a cirurgia de redesignação de sexo, não se autoidentificam como transexuais. Nesse sentido, a categoria transgênero se configura como um guarda-chuva para a diversidade de possibilidades, inclusive para aqueles que não se sentiam à vontade para se identifi-car com as categorias abarcadas pelo guarda-chuva do transgenderism. No entanto, essa concepção coexiste com definições das categorias que engloba. No discurso dos entrevistados, a categoria travesti referia-se àqueles que se travestem com regularidade, sem intervenção cirúrgi-ca (implantes de silicone, cirurgia de mudança de sexo) ou hormonal. Transexuais eram aqueles que tinham seus corpos alterados pela cirurgia ou pela in gestão de hormônios femininos sintéticos e também se traves-tiam com regularidade. Os transexuais pré-operados eram aqueles que não queriam se submeter ou ainda não haviam se submetido à cirurgia de mudança de sexo. Dentro da subcategoria pré-operados, sabemos que também há de “não operados” (non-op) para os que decidem não se submeter à cirurgia, mas esta não apareceu no discurso dos meus entrevistados, que a incluíam em “pré-operados”. Os crossdressers eram os que se travestiam eventualmente, sem intervenção cirúrgica ou hor-monal. As drag queens representavam o grupo que se travestia eventual-mente, sem intervenção cirúrgica ou hormonal, mas diferenciavam-se dos crossdressers por sua intenção deliberada de exagero e teatralidade na performance do feminino. Os intersexuais consti tuíam o grupo daqueles que, em proporções e tipos variados, nascem com os dois órgãos sexuais. Contudo, nas relações e práticas cotidianas dos chamados transgêneros, essas subcategorias ganham o status de categorias. Os transgêneros (ressalvadas as suas particularidades) desestabilizam a matriz heterossexual (Butler, 2008) que pressupõe a coerência entre sexo, gênero e sexualidade. Provocam “desordens de gênero” não inte- – ...ligíveis para a lógica da matriz heterossexual e, como bem nos lembra Vencato (2003), até mesmo para os homossexuais. Nesse sentido, há uma tentativa de “generalização” de uma categoria, que englobe todas as manifestações produtoras dessa “desordem”. Contudo, se não há fixidez da categoria transgênero, tampouco há nas suas diversas manifestações. Vencato (2003) discute essa questão também no contexto brasileiro:Além disso, é comum entre esses sujeitos que façam referências a si mesmos de modo diverso em diferentes momentos, ou seja, que possam se autorre-ferir como travestis, transexuais ou mulheres, em contextos diferentes. Isso implica numa construção de identidade raramente centrada em categorias estanques e extremamente pautada no que se poderia chamar de negocia-ção constante de se ntidos. Como sujeitos de sua própria transformação, esses sujeitos acabam manipulando com alguma destreza sua identidade, talvez para lidar melhor com os preconceitos que lhes atingem (Idem, pp. 204-205).Contudo, outra questão nessa problemática tentativa de generalizar essas diversas manifestações diz respeito à associação entre transgêneros e homossexualidade. Nesse sentido, o pertencimento dos transgêneros dentro do “movimento homossexual” é questionável, já que a luta dos transgêneros é travada com base em significados e manifestações perpas-sadas pela questão da homossexualidade, a qual, no entanto, não é o seu vetor e nem uma questão comum a todos os transgêneros. Dessa forma, assim como Rubin (1984) sugere que a sexualidade deveria ter sua pró-pria política radical para além da tute la do feminismo, os transgêneros também não têm seus interesses contemplados pelo movimento LGBT, uma vez que suas orientações sexuais podem variar e não é a sexualidade que os identifica como transgêneros. Contudo, nota-se uma associação entre o fenômeno transgênero e a homossexualidade, que apresenta um revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 401 –discurso essencialista e redutor de significados e práticas de transexuais, travestis e drag queens à questão da homossexualidade, apesar da diver-sidade no que se refere às suas práticas sexuais. No Brasil, essa discussão, no que concerne a travestis e transexuais, já é bastante conhecida e de-batida, mas cito, por exemplo, os trabalhos de Vencato (2003), Pelúcio (2004) e Cardozo (2006a).No Canadá, o campo me levou ao dado de que a aceitação da sua orientação sexual torna-se uma questão secundária, já que os transgê-neros MtoF (male to female, masculino para feminino) apresentavam orientações sexuais diversas e esse fato não era ignorado pela comuni-dade LGBT. Tive contato transgêneros MtoF que se relacionam com mulheres, outros com homens e outr os com transgêneros. O mesmo ocorria com os transgêneros FtoM (female to male). Esses transgêneros, dentro da sigla LGBT, “encaixavam-se” na categoria de “transexuais”. No entanto, na prática, havia deslocamentos para outras categorias quando o assunto era a orientação sexual. Por exemplo, Transgêneros MtoF que se relacionam tanto com homens quanto com mulheres, frequentam grupos de apoio para mulheres bissexuais. Segundo a transgênero MtoF Micheline Montreuil6, advogada, den-tro do movimento LGBT canadense, os transexuais constituíam a mais marginalizada das categorias, ainda muito carente na conquista de di-reitos civis quando comparados aos homossexuais. Segundo ela, a dis-criminação ainda era muito grande mesmo dentro do movimento (o que ela chamava de “transfobia”), e oferecia sua experiência pessoal para corroborar tal fato, alegando que muitas vezes a sua entrada não era acei-ta em bares homossexuais de Quebec, província canadense onde morava e trabalhava. Montreiul afirmou que os transexuais eram considerados “pessoas em transição” e, no imaginário do movimento, aquelas que “não se decidem”, que estão “em cima do muro”, e, portanto, sua luta não era vista com muita seriedade pela maioria dos homossexuais. – 402 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...Contudo, dados os movimentos de fusão e fissão entre grupos de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros, de acordo com o contexto e as necessidades, os transgêneros ganharam seu espaço e se mantêm como grupo heterogêneo integrante do movimento LGBT canadense. Durante as manifestações públicas, os transgêneros são “diluídos” na “massa” marginalizada socialmente pelas “transgressões” do sexo e do gênero. No interior das preocupações do movimento, os transgêneros são alocados num grupo à parte, o qual, por sua vez, é caracterizado por uma pluralidade de questões de gênero e orientação sexual que não são devidamente contempladas nas lutas e reivindicações do movimento. Ness e contexto, a questão da parentalidade transgênero é relegada a um plano ainda mais distante, como veremos neste artigo. A lei canadense que permite o registro de dois parents independente-mente do gênero. No Brasil, na certidão de nascimento de uma criança já pode constar os nomes de duas mães ou de dois pais, no caso de casais homossexuais. Mas o que acontece, então, no Brasil, quando alguém se assume como transexual já sendo pai ou mãe?Na hipótese de o transexual ter gerado filhos antes de se submeter à ope-ração de troca de sexo, nenhum reflexo pode ocorrer no tocante à situação jurídica dos filhos. Elimar Szaniawski sustenta que o assento de nascimento continuará imutável e a “existência de redesignação de um dos pais não deverá aparecer jamais em qualquer documento do filho”7. Essa solução, porém, não pode ser sustentada na hipótese de o genitor, após a cirurgia, vir a obter a alteração de seu nome e de seu status sexual. Nesse caso, o registro de nascimento do filho deixará de retratar o vínculo parental, o que poderá trazer-lhe sérios e irremediáveis prejuízos. Permanecendo inalterado o assento de nascimento da prole, haverá a impossibilidade de serem bus-cados direitos decorrentes da relação de parentesco (Dias, 2000, p.119). revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 403 –Na matéria publicada no dia 7 de maio de 2012 no jornal baiano Correio, sobre o ineditismo do Estado do Rio Grande do Sul em lançar uma “carteira de nome social” que equivale a um RG e na qual travestis e transexuais podem escolher o seu nome, apenas um comentário foi postado, o qual começa da seguinte forma: “Gostaria de perguntar não só às autoridades do RS, mas de todo o Brasil: ‘esses senhores’ que ado-tam nomes femininos, poderão também gerar filhos?”8. A questão da parentalidade de transexuais ganha cada vez mais visibi-lidade e novas problematizações. No site de Maria Berenice Dias, encon-tramos uma recente publicação, de 19 de maio de 2012: “Mestra, ontem lancei mais uma sentença de modificação de registro civil de um transe xual masculino para feminino. Detalhe é que o indivíduo foi casado, tem uma filha e ainda não se submeteu à cirurgia. Depois de publicada te mando”9.O que estou querendo dizer é que, apesar de todas as mudanças, o questionamento de Dias (2000) sobre o tema permanece atual: “pode-se taxar de ‘excesso de egoísmo e de vedetismo exibicionista’10 a pretensão de realizar o sonho da filiação sem abrir mão do direito de buscar a própria identidade?” (p. 120)Parentalidade transgênero ou homoparentalidade? Situando categorias.Utilizarei a “parentalidade transgênero” como categoria êmica dos sujei-tos entrevistados no Canadá, apesar das discussões levantadas no início do texto sobre a diversidade de manifestações às quais a categoria trans-gênero pode se referir. Para me referir ao Brasil, utilizarei o ne ologismo cunhado na produção brasileira sobre o tema, a “homoparentalidade”, que inclui a parentalidade de transexuais e travestis, mas ciente de que travestis e transexuais apresentam especificidades na sua construção iden- – 404 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...titária e, consequentemente, na sua relação de parentalidade” (Zambra-no, 2006, p. 128).Se travestis e transexuais ainda ocupam um espaço marginal na pro-dução acadêmica, o que poderíamos dizer a respeito da sua homoparen-talidade? Num país em que se levou dezesseis anos (desde o Projeto de Lei 1.151/95) para aprovação da União Civil Homossexual, que ainda não contempla os homossexuais com todos os direitos dos heterosse-xuais, o que dizer sobre as famílias e homoparentalidades? Mesmo no que se refere à produção acadêmica antropológica, a atenção foi mais focada nas famílias, conjugalidades e parentalidades de gays e lésbicas (Heilborn, 1992; Mello, 1999; Uziel, 2002; Tarnovski, 2002; Eugênio, 2003; Souza, 2005). Já que no que se refere aos transgêneros e transe-xuais, como bem coloca Cardozo (2006a; 2006b), a produção acadêmica sobre travestis têm se focado nas ruas, enquanto a autora se propõe a es-tudar o tema na relação com a casa e a família. Zambrano (2006) em seu artigo “Parentalidades impensáveis: pais/mães, travestis e transexuais” também aborda a tão pouco problematizada questão da parentalidade de travestis e transexuais, incluída no neologismo da “homoparentalidade”, cuja importância Zambrano (2006) comenta: “Ao nomear um tipo de família até então sem nome, permite-se que ela adquira uma existência discursiva, indispensável para indicar uma realidade, possibilitando o seu estudo e, principalmente, sua problematização (De Singly, 2000). Favorece, ao mesmo tempo, a emergência de um campo de luta p olítica onde as demandas de (homo) parentalidade ficam fortalecidas” (p. 128).Contudo, caberíamos questionar em que medida não seria relevante, tanto do ponto de vista acadêmico quanto político, possibilitar a exis-tência discursiva da parentalidade de travestis e transexuais no Brasil. Essa minha perspectiva deriva da minha experiência com a parentalidade transgênero no Canadá. Ainda que minha intenção não seja sugerir a “importação” de nenhum modelo, acredito que essa reflexão se faz neNesse contexto, com o intuito de dar suporte aos pais GLBT, vários grupos e atividades de apoio para a comunidade LGBT em geral funcio-navam dentro ou relacionados ao Centro Comunitário da Church Street. Além do Colage, para filhos de LGBT, havia: Gays and Lesbians Parenting Together, um grupo para gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros que eram parents ou queriam se tornar e estavam explorando as opções para tal (adoção, coparentalidade, parentalidade biológica, doação de óvulos ou esperma, barrigas de aluguel); Rainbow Club, um clube social que organizava atividades recreativas para queer parents e seus filhos; Queer Mums Family Lunch, um almoço mensal para mães lésbicas, bissexuais, transsexuais e transgêneros, com espaço recreativo para as crianças; Dykes Planning Tykes, um curso para lésbicas e bissexuais que queriam ser mães, sobre os aspectos práticos (como inseminação, adoção e opção por par-teiras), emocionais, sociais e legais da parentalidade lésbica; The Family Resource Centre, um programa gratuito que funcionava como “berçário” para filhos, de 0 a 6 anos, de queer parents. Além disso, o Centro Co-munit& aacute;rio promovia acampamentos de verão, viagens e eventos especiais (fóruns, feiras etc.) para famílias de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, transgêneros, pessoas intersex e two-spirited. Planilhas informativas sobre bancos de esperma, contendo nome do banco, endereço, preços, taxa de – 406 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...entrega, custos extras e comentários também estavam sempre disponíveis no Centro Comunitário, para toda a comunidade interessada. Publicações e eventos de diversas organizações ofereciam seu respaldo às famílias de LGBT. O Colage (Children of Lesbian and Gays Everywhere) mantinha uma publicação periódica, o jornal Just for us, o Alternative Moms circula o Mommy Queerest: a journal for Queer Moms and their Fa-milies, cujo downloadpodia ser feito através do Family Pride Web Site12, a primeira organização virtual para famílias queer canadenses. O LGBT Pa-renting Network oferecia um boletim informativo bimestral, o Pride & Joy. Contudo, como veremos, apesar dos recursos supracitados, assim como travestis e transexuais ocupam um lugar marginal e ainda pouco compreendido dentro do movimento LGBT brasileiro e da produção acadêmica, os transgêneros canadenses também pouco se sentiam con-templados pelo movimento ou pela infraestrutura legal, sobretudo no que se refere à parentalidade transgênero. Loree Cook-Daniels é uma ativista lésbica canadense que adotou a filha biológica de seu companheiro transgênero FtoM (feminino para masculino). Neste tipo de arranjo, denominado coparentalidade, ge-ralmente um dos parents é um dos genitores da criança e o outro entra com o pedido na justiça para a adoção. Esse procedimento é, em geral, rápido e simples, a menos que o outro genitor (ainda que não faça parte do arranjo de coparentalidade) interfira. Apesar deste recurso de coparentalidade conquistado pelos homossexuais ter sido estendido aos transgêneros, Cook-Daniels (1999) comenta sobre as dificuldades en-caradas pelos transg& ecirc;neros que são parents: Ser um parent transgênero é andar diariamente num campo minado. Todos – e digo todos, incluindo outros transgêneros, assim como membros da família, amigos, oficiais de justiça e observadores casuais – são uma fonte potencial de hostilidade, incredulidade e condescendência. É uma vida na revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 407 –qual você pode simultaneamente ser invisível e terrivelmente, terrivelmente ameaçado; totalmente “comum” e ao mesmo tempo “bizarro”. É exercer a parentalidade do modo com que lésbicas e gays exerceram há vinte ou trinta anos – totalmente sem úteis mapas ou modelos de papéis – mas com alguns desafios adicionais únicos.[...]Lembra-se dos dias em que tínhamos que explicar como seria possível que lésbicas fossem mães? Aqueles dias não são passado para parents transgê-neros. Nós ainda estamos explicando quem somos e como foi possível que tivéssemos filhos13.Tanto Cook-Daniels (1999) quanto os sujeitos envolvidos em minha pesquisa no Canadá sugerem que os parents transgêneros canadenses buscam pelo reconhecimento do direito d e articularem a parentalidade com a sua orientação de gênero, num contexto social e histórico onde se veem alocados num “não lugar” e lutam por uma ascensão na categoria de sujeito dentro do movimento LGBT, que os considera como pessoas “em cima do muro”, e, concomitantemente, por um lugar reconhecido de parentalidade dentro das estruturas do parentesco. O campoMeu primeiro contato com os transgêneros em Toronto foi durante o Congresso de Humanidades e Ciências Sociais, na sessão Transgender realities and rights. Foi interessante ressaltar que levei algum tempo para perceber que a maioria dos ali presentes eram T-people. Na verdade eu só pude notar o fato a partir da hora do intervalo, quando tive mais opor-tunidade de interagir e conversar com os presentes. Alguns eram Female to Male (FtoM), mas a maioria era Male to Female (MtoF). – 408 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...A mesa de apresentação e discussão era composta por: Professor Bar-ry Adam, da University of Windsor, Allison Comeau, da University of Brunswick, Sky Gilbert, da University of Toronto, Micheline Montreuil, de Quebec, Ben Murray, de Ottawa, e Kimberly Nixon, de Vancouver. Allison é uma mulher que foi casada com um transgender MtoF por 25 anos e tinha cinco filhos com ele. Durante os anos de casamento, Allison apoiou toda a transição do marido, incluindo a cirurgia de rede-signação de sexo. Ela participava de um grupo de apoio em Ottawa para familiares de transgêneros. Disse-me que o casamento acabou por vários motivos, tendo sido o transgenderism do parceiro apenas um deles, sem ênfase na orientação de gênero do ex-marido. Quando perguntei sobre sua orientação sexual, disse-me que nunca havia pensado nisso. Essa era uma questão para mim, pois algumas pessoas haviam comentado que ser parceiro de um transgênero é algo delicado porque a sua própria iden-tidade passa a ser questionada. Mas não, aparentemente, para Allison. Kimberly vivia como mulher há dezenove anos (estava à época com 44 anos), e há nove estava envolvida com organizações de mulheres e também com um centro de apoio a vítimas de estupro. Era formada em Educação Física, porém trabalhava há onze anos como piloto de avião. Vivia com seu companheiro e a filha deste, de 6 anos. Disse-me que a menina a considerava como uma “segunda mãe” e ainda não ques-tionava o seu transgenderism. Além das conversas informais com os transgêneros acima citados, tive um contato mais intenso e duradouro com Leslie, Abidel e Cheryl14. Conto com três entrevist as gravadas, sendo uma delas da filha adulta de Leslie. As demais informações foram obtidas no contato com os pais transgêneros e suas filhas, em situações diversas de interação informal, durante cinco meses. Considerando que quase todo contato com Leslie, Abidel, Cheryl e suas respectivas filhas deu-se de forma coletiva, observando a interação revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 409 –entre os pais, entre as filhas e entre pais e filhas, torna-se difícil para mim, nessa apresentação, separá-los em casos distintos. Dessa forma, a apresentação que segue sobre estas informantes é um reflexo do modo como as conheci, em relações cotidianas e histórias entrelaçadas. Ainda no dia da mesa redonda sobre transgenderism conheci Abidel e Leslie, durante a recepção. Conversei durante aproximadamente três horas com todos os transgêneros durante a ocasião, mas na maior parte do tempo com Abidel, quem pacientemente explicou-me as diferenças entre as possibilidades que o termo transgênero engloba. Depois disso iniciei meus contatos via email com Abidel e Leslie. Recebi, depois de algum tempo, o primeiro convite para visitá-las. Abidel estava com 40 anos e era caminh oneiro15. Não cursou faculdade porque precisava trabalhar para sustentar a família e tinha duas filhas que moravam com a ex-esposa, a qual sempre foi consciente de seu transgen-derism, mesmo antes de se casarem. Leslie estava aposentada, depois de décadas como pastor protestante, dispensado pela igreja, entre outros motivos, porque as dificuldades de seu casamento se tornaram públicas. Abidel foi morar com Leslie, aliviando, assim, o problema financeiro desta última, que esperava pela pensão do governo, divorciada e desem-pregada, aos 62 anos. Leslie fez parte da primeira turma de Ciências Gerais (General Sciences) da University of Toronto em 1960 e tinha três filhos: a mais velha, casada e extremamente religiosa, o que implicava em empecilhos para o contato de Leslie com os netos; a filha do meio, com 27 anos, havia saído de casa por volta dos 20 anos e morava com o namorado; e, por fim, o filho mais novo, que nunca aceit ou sua tran-sição. Ela jamais se travestiu na presença dos filhos ou da ex-esposa, e assumiu o transgenderism permanentemente somente quando já não mais coabitava com eles.Ainda conheci Cheryl, também transgênero e namorada de Abidel, além de suas respectivas filhas. As duas filhas de Abidel e as duas de – 410 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...Cheryl rapidamente tornaram-se amigas, não apenas pela questão da faixa etária (que variava entre 7 e 14), bem como pela identificação entre si como filhas de transgêneros. Durante minhas visitas à casa de Leslie e Abidel, as meninas pareciam muito confortáveis com os pais transgê-neros. Ouvi-as chamando-os pelo termo daddy (papai). E pude notar em várias ocasiões que o “código de conduta” tanto de Abidel quanto de Cheryl, em relação a suas filhas, era o de pai. Contudo, segundo in-formações de Leslie, Cheryl não apreciava muito a interação das filhas com Leslie e Abidel porque temia que a ex-esposa utilizasse o discurso de um “ambiente ruim” na justiça para separá-la das filhas, das quais recebe visitas quinzenais (bem como Abidel).Tive ainda a oportunidade de conhecer Dwayne, 56 anos, marcenei-ro16, pai de duas filhas adultas. Assim como Leslie, relatou que o proces-so de aceitação para suas filhas não foi ameno como está sendo para as filhas de Abidel e Cheryl, que fazem parte de outra geração. Numa das primeiras ocasiões em que estive com elas, foi interessante sentar à mesa e discutir questões sobre transgenderism com Leslie, Abidel e Cheryl. Leslie sempre enfatizou que seu gênero nunca foi masculino e por isso não duvidava de que era uma mulher, já que sempre se sen-tiu atraída por tudo aquilo que “constitui” o gênero feminino e nunca se sentiu “como homem”. Abidel disse que se sentia como mulher, e por isso acredita que os outros a viam assim, o que despertou a ironia de Cheryl, cujo discurso de gênero estava embasado numa perspectiva biológica e por isso acreditava que nunca ne nhuma delas seria reconhe-cida pela sociedade como mulher, embora esse fosse seu maior desejo. No entanto, alguns meses depois, durante a entrevista gravada, Cheryl apresentou uma perspectiva menos rígida:Erica – Hum... e como... como você se vê em alguma categoria: transgê-nero, transexual, mulher... como você se considera?-Cheryl – Bem... Eu não sou classificada como transexual. Hum... meu cérebro é basicamente feminino. Hum... meu corpo é basicamente mascu-lino, mas, como a alteração por hormônios e coisas do tipo, é parcialmente feminino17. Leslie sugeriu, em conversa particular comigo, que Cheryl não aceitava que Abidel se assumisse como mulher (e Abidel estava procurando auxílio psiquiátrico para isso) porque queria um homem ao seu lado. As necessi-dades de Cheryl pareciam ser incompatíveis com as de Abidel. Na ocasião da entrevista com Cheryl, A bidel já havia terminado sua relação com ela e Cheryl comentou, tentando compreender a incompatibilidade de pers-pectivas entre elas: “ela quer reafirmar todo o tempo que é uma mulher e... talvez o jeito que você a vê, a sua opinião, não a ajude nesse sentido”18.Uma questão de gênero? Articulações entre as categorias de pai e “transgênero”Considerando que Abidel passava a maior parte do tempo trabalhan-do para garantir seu sustento e ajudar as filhas, meu tempo e meu con-tato se estreitaram com Leslie. Vários convites surgiram para almoços, jantares e passeios.Na primeira parte da entrevista, Leslie se emocionou e chorou. Na se-gunda parte, algum tempo depois, percebi Leslie diferente, mais distan-te. Alegou que estava cansada, pois havia tido problemas recentes com a ex-esposa, relativos à venda da casa (cuja parte do dinheiro planejava investir na cir urgia de redesignação de sexo, realizada posteriormente, quando eu já havia voltado ao Brasil). Durante nossas conversas infor-mais, nas pausas da entrevista, comentou sobre sua orientação sexual, disse que achava que se considerava heterossexual e que já havia desistido de acreditar que se relacionaria com uma mulher. Ainda que estivesse, – 412 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...naquele momento, envolvida emocionalmente com uma mulher, o que apenas me relatou posteriormente. Os discursos dos transgêneros durante o Congresso, bem como o discurso corrente de Leslie, deixam claro que, para eles, o transgenderismé uma questão estrita de gênero e independe da orientação sexual ou de práticas sexuais, e que, por isso, sentem-se deslocados na sigla LGBT. No caso dos transgêneros, a relação entre gênero e sexualidade ganha configurações diversas: Kimberly (MtoF ) tinha um parceiro homem e Micheline (MtoF), uma parceira mulher. Leslie queria um parceiro, mas havia cogitado a possibilidade de se envolver com mulheres, ainda que se autoidentificasse como heterossexual. Cheryl e Abidel eram namoradas e ambas, transgêneros MtoF. Leslie ressaltou que, em seu ponto de vista, trangenderism trata-se da a ceitação de gênero e não da sexualidade. Seu discurso colocava a sexua-lidade em segundo plano. A dissonância corpo e mente/alma parecia ser crucial para ela, um campo de conflito incessante, que ela esperava ver o fim com a cirurgia. E seu discurso sugeria que a cirurgia acabaria com seu conflito de gênero e, por decorrência, da sexualidade, o que contra-dizia seu discurso de que gênero e sexualidade são domínios distintos em sua experiência. Leslie esperava que, depois da cirurgia, sua orientação heterossexual se reificasse, porém, envolveu-se em uma relação com ou-tra transgênero MtoF. Ao que se refere às filhas dos transgêneros, eu não dispunha de auto-rização para entrevistar as filhas de Cheryl e Abidel, todas menores de 16 anos, contudo, felizmente, consegui uma entrevista gravada com Joanna, a filha do meio de Leslie e a úni ca que nunca se opôs à sua transição. E, segundo Leslie, a única que me concederia uma entrevista.Conheci Joanna e seu namorado num almoço na casa de Leslie e Abidel. Não tivemos oportunidade de conversar muito naquela ocasião, mas foi a chance para me apresentar e estabelecer um contato posterior. revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 413 –Marcamos uma entrevista num café no centro de Toronto. A entrevista de Joanna sugere a filha de Leslie como uma pessoa que nutre respeito e sensibilidade à questão da diversidade. Joanna relatou sobre a vida familiar atípica que vivenciou, não so-mente pela questão do transgenderism de seu pai, mas pelo distanciamen-to emocional com o pai e a mãe, relacionado, sobretudo, à dedicação destes à religiosidade. Quando lhe questionei se “sentia” Leslie como pai, respondeu que não, da mesma maneira que nunca havia sentido sua mãe “como uma mãe”. Ou seja, as dificuldades na relação com seu pai tinham uma história familiar, e não se referiam especificamente à transição de gênero de seu pai. Tendo notado uma variedade nos termos (Le slie/dad; she/he) que Joanna usava para referir-se à Leslie, levantei a questão e obtive a seguin-te resposta de Joanna: “Eu não me importo. Eu tento dizer Leslie e ‘ela’ apenas para o seu benefício”19. Joanna deixou muito evidente, durante a entrevista, que respeita Leslie e suas opções devido ao seu respeito pelas escolhas dos seres humanos em busca da realização pessoal. No entanto, a aceitação de Joanna, quanto ao transgenderism de seu pai, não era compartilhada por sua mãe. Assim como o movimento LGBT ca-nadense concebia os transgêneros como pessoas “em transição”, “em cima do muro”, a esposa de Leslie também esperava que aquilo fosse apenas uma fase transitória. Essa é a descrição da situação por Joanna: “Minha mãe esperando que meu pai pensasse que era apenas uma fa se e parasse e voltasse para ela, e ele, esperando que ela fosse, você entende, apenas aceitar isso e eles pudessem viver juntos com essa, essa... hum, coisa”20. Ao mesmo tempo, Joanna sentia dificuldades em alocar seu pai bio-lógico em alguma categoria específica. Como, no passado, nunca houve um vínculo forte entre eles, nem de paternidade nem de amizade, Joan-na, depois da transformação de seu pai, continuava sem uma d Isso é o que ele quer e eu estou apenas tentando... nós nunca tivemos um forte relacionamento pai-filha mesmo, então agora eu quero dizer, eu realmente não o considero parte das minhas amizades femininas, tampou-co como meu pai, então...21Erica – Mas quando você telefona para ela ou coisa do tipo, como você chama por ela, “papai”?Joanna – Eu chamo por Leslie.E – Leslie?J - Porque se estou escrevendo emails, às vezes escrevo &ldquo ;oi, pai” ou... hum... se estou no celular, digo “oi, pai”. Se eu estou ligando para a casa da Abidel, então eu chamo por Leslie, porque todas elas a conhecem como Leslie, então eu posso...22Diferentemente da pesquisa de Zambrano (2006) em que transexuais e travestis são chamadas de “mães”, e do caso supracitado de Kimberly, Joanna referia-se a Leslie como “pai”, contextualmente, mais em situações isoladas de contato com o pai ou para se referir a ele em contextos fami-liares. Entretanto, quando conversava com o pai em contextos nos quais, para ela, a identidade transgênero se sobrepunha, o pai era chamado de Leslie. Da mesma forma, no contexto brasileiro, Cardozo (2006, p. 4) escreve que “nos casos de travestis que têm filhos (biológicos ou adota-dos): as terminologias com que suas posições são definidas em relação às crianças não são fixas, mas passíveis de renegociações”. Cardozo (2006, p. 3) exemplifica através do caso de Cecília: “Desconfortável com o título de pai, pede ao menino que a considere um irmão. Entretanto, mesmo a chamando pelo nome de batismo, diante de situações adversas Carlos – o filho biológico dela – evoca a figura do pai, referindo-se a Cecília”.Retornemos ao caso de Leslie. Não é apenas um nome, mas rotula a identidade feminina adotada por Leslie, anteriormente Wayne, por nome de batismo. Também no contexto canadense, o nome feminino revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 415 –e o pronome pessoal “ela” aparecem como poderosas ferramentas de reconhecimento social de uma identidade feminina23. O caso de Leslie é ainda mais complexo porque envolve questões de religião. Seu transgenderism teria sido a “causa” da falência da família, mas não somente por adotar uma relação sexo/gênero que não tinha lugar naquela família, mas porque o transgenderism teria sido a causa do seu afastamento do exercício de pastor numa igreja evangélica, já que a moral religiosa era considerada o “pilar” da família. Do ponto de vista da ex-mulher, da filha mais velha e do filho, o afastamento da igreja fez com que a estrutura familiar desmoronasse e, portanto, Leslie havia perdido não somente seu lugar de pai e marido, mas também seu lugar na hier arquia moral e religiosa da família. Dessa forma, não houve necessidade de intervenção judicial, pois os próprios filhos se recusaram a querer contatos futuros com Leslie. No entanto, a entrevista da filha revela uma outra versão dos fatos: uma família desunida, com pai e mãe ausentes durante toda a sua vida. Para Joanna, o transgenderism de Leslie foi apenas o último motivo que precisava para uma família “desestruturada” desmoronar, e ainda pode-mos perceber que os conflitos e problemas que dissolveram sua família tinham um caráter de problemas típicos de famílias heterossexuais, como pais ausentes, falta de diálogo e de intimidade etc. Em seu relato fica explícito que a orientação de gênero de seu pai foi apenas “mais um mo-tivo”, mas não o cerne dos conflitos que perduravam desde sua infância.Apesar das dificuldad es em “sentir” Leslie como pai, Joanna deixa claro que seu pai era, antes de qualquer coisa, seu pai, e que qualquer “opção” que fizesse, dizia respeito somente à vida dele. E, se tinha má-goas em relação a ele, essas mágoas existiam no mesmo plano em que estavam as mágoas por sua mãe, aquelas surgidas no cotidiano familiar, na ausência de ambos desde sua infância. Dessa forma, o termo utilizado para se referir a ele ou sua opção de gênero em nada afetavam o reconhe- – 416 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...cimento do seu papel biológico e social de pai. As críticas que Joanna fez à vida que seu pai deu a esse papel em nada se relacionam com sua opção de ser um transgênero. São identidades completamente distintas, ainda que não excludentes. No caso da relação de Abidel e Cheryl com suas filhas, o transgenderism parece ser concebido como uma performance ainda mais dissociável da paternidade. As filhas sempre se referem a eles como “pai” ou “papai”, e assim também eles se autorreferem. Há, entre os transgêneros canadenses, uma imensa dificuldade em “encontrar” um lugar renomeado para um pai de família que muda sua orientação de gênero. Em nenhum dos casos percebi o desejo de um transgênero MtoF de ser chamado de mãe ou de ser alocado nessa categoria. Dessa forma, ao menos nos casos entrevis-tados, esses sujeitos, incluindo Leslie, continuaram a se autodenominar (contextualmente) e serem denominados como “pais”. Perante a justiça, Abidel e Cheryl foram contemplados com todos os direitos e deveres de um pai heterossexual em condições ordinárias de separação. O fato de se autoidentificarem como transgêneros, em outros contextos, não afetava uma outra definição coexistente: a de pais. Tanto para a justiça quanto para as ex-mulheres, para as filhas e para eles mesmos, o transgenderism e a paternidade são identidades distintas de uma mesma pessoa. A filha de Leslie procura demonstrar o reconhecimento da sua identidade transgêne-ro em certos contextos chamando-o por seu nome feminino, mas isso não altera as expectativas da paternidade que Leslie sustenta para ela mesma. Associações e dissociaç&otil de;es entre sexo, gênero e parentalidadeMarylin Strathern, no artigo “Necessidade de pais, necessidade de mães”, aponta que o parentesco euro-americano está pautado num “modelo duo-genético de parentalidade” (Strathern, p. 322) que pressupõe sem- revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 417 –pre um reconhecimento de apenas “dois lados” biológicos de parenta-lidade, marcados por uma relação assimétrica de gênero: o pai e a mãe. Na ausência do pai e da mãe, entra a/o substituta(o) nas suas várias possibilidades: a mãe de aluguel, a mãe adotiva, a avó, o marido da mãe, o pai adotivo etc. Nesse sentido, o modelo é sempre dual, reduzindo possibilidades práticas múltiplas a um mecanismo conceitual binário. Butler (2003) desenvolve uma discussão muito próxima a essa de Stra-thern, na qual inclusive cita os trabalhos de Schneider e Strathern, e escreve que, de acordo com a “lei simbólica fundadora e disseminada” da heterossexualidade, “aqueles que entram nos termos do parentesco como não heterossexuais só far&ati lde;o sentido se assumirem o papel de Mãe ou o papel de Pai” (Idem, p. 251)Para todos os envolvidos, a paternidade é considerada como fato a priori, e em segunda instância, o fato de ser transgênero. É um processo semelhante ao que ocorre com as mães lésbicas brasileiras: a mulher que é mãe e se assume como lésbica é concebida, por todos os envolvidos, incluindo ela mesma, primeiro como mãe, e depois como uma mulher envolvida numa relação homossexual. Essa lógica, diante do conflito de identidades, ordena os fatos e situa as identidades. Nesse processo, os conflitos são “resolvidos” situacionalmente quando as duas identidades são colocadas em cena ao mesmo tempo. Não obstante a rigidez das políticas identitárias, no contexto familiar, no discurso dos sujeitos en-trevistados as identidades de “mãe” e “pai& rdquo; seefinição para o lugar que ele ocupava emQuando o que está em questão são as relações familiares, o transgen-derism parece não ter o direito de interferir na identidade de “pai” por-que é entendido como “escolha” dos atores sociais e, portanto, relegado a um segundo plano, enquanto a paternidade biológica, indiscutível, estaria em primeiro plano. No entanto, a relação entre a paternidade biológica e o transgenderism exige do sujeito uma articulação de suas identidades de pai e transgênero. O que, no entanto, não sé dá no caso – 418 –fiThfljo hncowo an rtdso. eoyofl g itpnp td pdóinThl...da parentalidade das travestis e transexuais brasileiras: “Nas famílias em que um dos componentes é travesti ou transexual, a divisão dos papéis parentais é mais definida e parece se dar de acordo com o sexo/gênero de ‘escolha’ de cada um: mulheres transexuais e travestis são consideradas mães e seus companheiros, pais” (Zambrano, 2006, p. 136).Já nos casos canadenses, as expectativas para a parentalidade não es-tão calcadas no “sexo/gênero de ‘escolha’”, mas aponta para primazia do referencial biológico nas relações de parentesco. Na cultura americana, segundo Schneider (1968), o parentesco é biologia. Qualquer alteração científica no campo biológico pode alterar as relações de parentesco, mas a recí proca não é verdadeira. “O parentesco não é uma teoria sobre a biologia, mas a biologia serve para formular uma teoria do paren-tesco”24 (Schneider, 1968, p. 115). O sistema de construção dos fatos culturais, segundo Schneider, existe numa relação de (re)ajuste com os fatos biológicos. Ainda que os “fatos biológicos” sejam questionados e problematizados pela literatura antropológica (a exemplo de Moore, 1997), ou seja, o corpo “pré-discursivo”, não podemos perder de vista que “(o)s euro-americanos por outro lado tomam a diferença de gênero, como os papéis fisiológicos que reúnem na noção de concepção, como anteriores.” (Strathern, 1995, p. 327) Resumindo, refiro-me às “tradicio-nais suposições euro-americanas sobre a relação entre cultura e natu reza, acima de tudo a compreensão do parentesco como construçãosocial de fatos naturais.” (Strathern, 1995, p.316)Acredito que o que nos cabe questionar aqui são os novos sentidos e práticas de paternidade que essa configuração específica, propiciada pela articulação entre as identidades de pai e transgênero, gera e ope-racionaliza. Contudo, há um outro dado que complexifica a análise. No contexto canadense, o transgenderism é uma identidade “em transição” e, portan-to, espera-se alguma estabilidade em algum momento. Cheryl é o único revista de antropologia, são paulo, usp, 2013, v. 56 nº 2.– 419 –transgênero que conheci que não acredita que um dia possa “se tornar uma mulher” e assume, por opção, um gênero in-between que é renegado pela grande maioria dos transgêneros, sobretudo devido à pressão que sofrem (mesmo do movimento) por uma “definição de gênero”:Erica – Você acha que elas [as filhas] entendem isso [o transgenderism], essa atitude?Cheryl – Hum... eu acho... elas meio que aceitam, não entendem isso. Hum... elas ficam ansiosas em serem vistas em público. Realmente, bem, particularmente minha filha mais velha, a mais nova não liga muito. Hum... mas serem vistas em público depende de como eque... elas podem ficar envergonhadas por isso. E – Então você acha que elas não se sentem confortáveis se voc&ecir c; é mais feminina quando vocês saem juntas?C – Hum, sim. Eu não sei, a preferência dela seria que eu tentasse ser o mais macho possível.E – Seria mais fácil para elas?C – Minha preferência natural é parecer como pareço, o que é bem in-between. Hum... é possível que se eu tentar parecer completamente feminina pode de fato funcionar melhor para elas, porque em alguns ex-perimentos recentes e tentando parecer mais completamente feminina, eu pareço chamar menos atenção. Hum... como normalmente pareço mais in-between, eu atraio muito mais atenção25. E – E sobre a coisa do in-between, você encara alguns problemas entre os transgêneros?C – Hum... que eu acho que deveria tentar ser mais feminina?E – Sim.C – Oh, sim, da Leslie (risos).E – Um certo tipo de pressão?u me apresento sua vida: C – Da Abi del, da... hum, sim, consideravelmente. Não de todo mun-do, mas de muita gente. E é... sério, eu me sinto engraçada quando tento parecer mulher, porque eu não sou. Dessa forma, suas posicionalidades sugerem movimento, processo inacabado. Nesse movimento, as únicas categorias que se mantêm fixas e estáveis são as de “mãe” e de “pai”, tanto biológica quanto socialmente. As orientações sexuais e o transgenderism desses atores são alocados num segundo plano26, de caráter supostamente transitório e, portanto, sem um nome que defina esses novos sujeitos nas relações sociais e de paren-tesco. “O perigo está nos estados de transição, simplesmente porque a transição não é nem um estado nem o seguinte, é indefinível” (Douglas, 1976, p. 119). E, diante do “perigo&rdqu o;, a identidade “estável” de pai se sobrepõe à de transgênero (ainda que esta não seja ignorada).No Brasil, segundo Zambrano (2006), as travestis e transexuais sustentam um discurso de possuidoras de um “instinto materno”, re-presentando a paternidade como biológica (esperma, hormônios) e a maternidade como socialmente construída, possibilitada devido a uma “essência” feminina das travestis e transexuais. Essa lógica promove uma ruptura no pensamento ocidental que associa o “instinto materno” ao sexo feminino, ou seja, a maternidade ao biológico e à paternidade ao social (Strathern, 1995). A “essência feminina” estaria no gênero, não no sexo, o que rompe, em certa medida, com o modelo tradicional, mas sustenta a associação da maternidade ao gênero feminino. De toda forma, a maternidade permanece vinculada ao feminino. Já na pesquisa de Cardozo (2006b), voltando ao exemplo de Cecília, a paternidade também aparece como uma “essência”, mas não associado ao sexo mas-culino, ao biológico referindo-se ao sexo (esperma, hormônios), e sim à consanguinidade: “E, embora saliente discursivamente uma dificuldade em aceitar a paternidade, supõe uma concepção naturalizada de amor de –pai, a exemplo do amor materno (Badinter, 1985). Sob tal perspectiva, a não assunção total da identidade social paterna não anularia o amor que o progenitor teria por seu rebento, sangue de seu sangue.” (Idem, p. 3).Enquanto a maternidade aparece como social, associada ao gênero fe-minino. No entanto, esse caráter social é reduzido ao discurso da “essên-cia”. A paternidade, por sua vez, de uma forma ou de outra, vincula-se ao biológico (esper ma, hormônios, sangue). No entanto, ainda no Brasil, Cardozo conclui que “não só o gênero é performativizado (Butler, 2003), como também a posição na organização e na estrutura de parentesco o é” (Cardozo, 2006b, p. 4). No contexto canadense, a maternidade foi citada por apenas um dos transgêneros envolvidos na pesquisa, que não era um pai biológico. Dessa forma, nos casos em que o transgênero é o genitor, a paternidade en-quanto fato biológico e social é priorizada. Nesse contexto, assim como o gênero, a paternidade aparece como um elemento com o qual os trans-gêneros têm que lidar performaticamente, negociando-a de acordo com o contexto e com os sujeitos envolvidos, no caso, na relação com os filhos. Neste sentido, cabe-nos então refletir sobre os diferentes caminhos pelos quais os pais transgêneros , transexuais ou travestis27 performatizam a parentalidade na sua relação com o gênero, numa negociação entre ma-ternidades, paternidades e gênero que se define de acordo com cada caso e cada contexto, vivenciando práticas que não têm nome nem lugar social-mente reconhecidos na organização simbólica e social da parentalidade no pensamento ocidental. Assim como Leslie precisa negociar sua paterni-dade, as travestis e transexuais brasileiras consideradas mães (Zambrano, 2006) certamente também têm que negociar essa maternidade. Nesse sentido, a existência discursiva das parentalidades transgênero, travesti e transexual pode abrir portas para o reconhecimento das suas especificida-des, da sua diversidade de manifestações e dos diversos caminhos possíveis de se exercer a parentalidade na sua relação com as performances de gênero.

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Corporeidades silenciadas: reflexões sobre as narrativas de mulheres violadas Corporealities silenced: reflections about the narratives of violated women Jane Felipe Beltrão Camille Gouveia Castelo Branco Barata Mariah Torres Aleixo Sobre os autores » Resumo » Abstract » Text» De traduções olvidadas e diálogos “surdos” » Os segredos da escuta » O veneno da dor » As categorias sobre violência: enredamentos na narrativa das mulheres » As categorias relativas à agência: a resistência das/entre mulheres » Entre oitivas e traduções » Por diálogos e justiças » Referências bibliográficas » Datas de Publicação » Histórico Resumo Refletir sobre as formas de narrar as violências enfrentadas por indígenas e quilombolas mulheres/mulheres indígenas e quilombolas é a proposta do texto para discutir a possibilidade de tradução etnográfica das categorias nativas em confronto com as categorias acadêmicas para referir as mulheres em situação de violência, identificando as agências das protagonistas. indígenas; quilombolas; violência Abstract Reflect about the ways of narrate the violence faced for indigenous and maroons women/women indigenous and maroons is the propositions of the article to discuss the possibility of ethnographic translation of native categories in confrontation with the academic categories to refer women in violence situations, identify the agencies of the protagonists indigenous; maroons; violence De traduções olvidadas e diálogos “surdos” No ensaio que hoje pode ser considerado clássico para o que se convencionou chamar Antropologia Jurídica ou Antropologia do Direito2 , Geertz (2013) enuncia que o Direito é construído à luz de saberes e artesanatos locais, isto é, tem a ver com a cultura na qual ele tem vida, onde “funciona.” Segundo o autor, há diversos sentidos de direito e justiça – o que ele denomina de sensibilidades jurídicas – as quais, no contexto contemporâneo, são obrigadas a conversar, em suas palavras, “... uma iluminando o que a outra obscurece.” (2013, p. 237) De acordo com essa afirmação, o estudo e a prática do Direito devem ser feitos por meio da tradução cultural, buscando compreender as sensibilidades jurídicas que estão em jogo nas contendas, seja aquelas levadas à justiça estatal, seja as que são discutidas e resolvidas à luz das normas comunitárias e, principalmente, as que caminham na fronteira entre tais normatividades. Partimos desse pressuposto para compreender as maneiras pelas quais mulheres indígenas e quilombolas/indígenas e quilombolas mulheres3 da Amazônia paraense resistem às violências do cotidiano e perscrutar suas sensibilidades em meio às situações de violência. Não se trata aqui de analisar estratégias de movimentos de mulheres indígenas e/ou quilombolas para conseguir alcançar suas reivindicações políticas, o que não deixaria de ser importante objeto de reflexão, mas sim de entender as próprias corporeidades das protagonistas como estratégias de resistência. Esta última, que pode parecer mais individualizada e circunstancial num primeiro olhar, ganha contornos coletivos quando se observa o compartilhamento de histórias, as redes de ajuda e solidariedade criadas pelas mulheres, entre outras agências, como veremos a seguir. Temos em conta que esse diálogo entre noções de justiça não ocorre com paridade de armas, pois o Estado brasileiro se constituiu olvidando etnicidades e engendrando políticas de homogeneização e integração dos grupos diferenciados à “sociedade nacional.” A conversa entre as sensibilidades jurídicas no país ocorre na forma do que Yrigoyen Fajardo (2011) denomina pluralismo jurídico subordinado colonial, isto é, de modo a não reconhecer noções de direito que não sejam as provenientes do Estado. Quando se pensa em questões relativas às mulheres etnicamente diferenciadas a questão se complexifica. A promulgação de leis específicas às mulheres, que consideram a violência como crime4 , fruto de anos de reivindicações e estudos promovidos por organizações e coletivos feministas, diz pouco sobre diferenças de ordem cultural, étnica e racial. Diante disso, compreender noções de violência bem como as estratégias de resistência das protagonistas se impõe. Os segredos da escuta Assim, nosso objetivo é refletir sobre as formas de narrar a violência que atinge os corpos das interlocutoras que pertencem a povos indígenas e coletivos quilombolas e debater acerca das possibilidades de tradução etnográfica a partir da identificação das categorias nativas que compõem a enunciação das interlocutoras, considerando as diferenciadas noções de justiça presentes entre as mulheres que emprestam seus depoimentos às autoras do texto. Para alcance dos objetivos, procura-se compreender como se dá a construção da corporeidade entre as mulheres indígenas e quilombolas/indígenas e quilombolas mulheres, pela possibilidade de demonstrar como o corpo se apresenta entre elas como território privilegiado de resistência e luta. A marca do presente trabalho são as reflexões que ressaltam e problematizam as categorias que integram a epistemologia e o olhar nativo sobre corpo e violência. Para os limites da reflexão proposta, é importante esclarecer que os depoimentos oferecidos pelas interlocutoras foram ditos às pesquisadoras em diversos momentos, os quais compreendem um lastro de 15 anos de pesquisa, sem que estas tivessem a intenção de trabalhar especificamente violência e violação de corpos, entretanto, os depoimentos foram como que aflorando pela impossibilidade – estatal e/ou comunitária – de oitiva das mulheres em situação de violência. Selecionou-se depoimentos de mulheres indígenas pertencentes aos povos Tembé Tenetehara5 , hoje moradores do município de Santa Maria do Pará, Xipaya6 e Kuruaya7 que vivem no médio Xingu e, no caso das quilombolas, selecionamos as interlocutoras moradoras das diversas comunidades localizadas no arquipélago do Marajó, também no estado do Pará. Destacam-se trajetórias e memórias que marcam de modo indelével o etnocídio praticado via colonização (Beltrão, 2012), que até o presente atinge os corpos e as vidas de pessoas indígenas e quilombolas via colonialidade.8 Nesse sentido, é latente na narrativa das interlocutoras a referência ao processo de expulsão territorial, sequestro de crianças indígenas e quilombolas pela ação missionária e/ou do Estado, tentativas reiteradas e violentas de genocídio, em face da tentativa de homogeneização e apagamento das pertenças. Vale, porém, ressaltar que a colonialidade incide de forma específica e brutal necessariamente sobre os corpos das mulheres, pois esta, segundo Lugones (2008) , se instituiu também como colonialidade gênero, que instituiu o sistema de gênero colonial/moderno, baseado nas dicotomias homem/mulher e público/privado, como o padrão. Isso ocultou sistemas de organização dos “mundos sexuais” nativos, em que muitas vezes as fronteiras entre masculino e feminino eram fluídas e as mulheres exerciam papéis importantes na vida coletiva. Não tratamos aqui de perscrutar esses sistemas “originais” e nem acreditamos que, hoje, isso seja possível. Porém, importa ter isso em consideração para um olhar etnográfico mais apurado. O ponto nevrálgico, locus em que os caminhos etnográficos se tornam mais “nebulosos”: ter o corpo marcado, como é o caso de indígenas e quilombolas mulheres/mulheres indígenas e quilombolas, pela violência física e sexual, muitas vezes infringida pelos próprios “parentes”, ou ainda por pessoas não indígenas e quilombolas, fato que mobiliza sentimentos como dor, sofrimento e vergonha. A possibilidade de ouvir (com tudo o que o ato da escuta representa para a Antropologia) implica em cuidados9 redobrados na interpretação de atos e falas que não são ditos a qualquer pessoa, nem em qualquer lugar. Os processos de violação dos corpos, vividos como eventos devastadores, segundo as interlocutoras, também formam seus modos de narrar, de liderar e de agir politicamente. De alguma forma, somos “ouvintes” privilegiadas, considerando a confiança com a qual fomos brindadas, portanto nosso compromisso com a ocultação das identidades é fato. O veneno da dor Veena Das (2008a), em seus escritos, problematiza a correlação entre dor e linguagem. Segundo a autora, por meio da expressão da dor, é possível sair da privacidade sufocante que ela produz na vítima. De acordo com Das (2008a), eventos devastadores produzem um tipo de conhecimento que só é alcançado pela experimentação do sofrimento, um conhecimento venenoso. Portanto, violências extremas não seriam apenas responsáveis pela destruição de vidas e corpos. Atuam, também, na construção de sujeitos e linguagens da dor. A enunciação da dor pede, portanto, admissão e reconhecimento, o que nem sempre ocorre. Trata-se, nos termos da autora, de sentir a dor no corpo do outro. Essa é a proposta ao fazer antropológico, requisitado de forma envergonhada, mas insistente por nossas interlocutoras. De acordo com Michael Taussig (1993), a reprodução da imagem dos povos indígenas como selvagens, irracionais e violentos é o que possibilita a propagação do terror colonial. E no caso dos coletivos quilombolas a estratégia de resistência e luta dos negros é imperdoável ao mundo colonial, afinal, os africanos são equiparadamente considerados, como os indígenas, pessoas desprezíveis. Trata-se uma operação mimética por parte do colonizador, que conduz a atos de extrema violência, não importando se esse imaginário é verdadeiro ou não. As culturas do terror criam, desse modo, o que o autor denomina como espaços de morte, nos quais indígenas, africanos e brancos viram nascer o Novo Mundo. Segundo Taussig (1993) o terror é o mediador por excelência da hegemonia colonial e acrescenta-se da discriminação presente em nossa sociedade. O autor afirma ainda que “... as culturas do terror são nutridas pelo entremesclar do silêncio e do mito.” (Taussig, 1993, 30) Os efeitos paralisantes e silenciadores do terror encontrariam na narrativa sua primeira possibilidade de cura. Quando decidiram falar sobre as violências que marcaram de forma mais ou menos severa suas trajetórias, nossas interlocutoras começaram a vencer a primeira imposição do terror, o silêncio. Como diz Maria Aparecida, quilombola, que por ser estudante universitária, escreveu seu depoimento: “não vou falar e também nunca escrevi, mas faço [o texto] porque não consigo explicar porque aconteceu comigo, talvez não haja explicação, e mesmo que tivesse jamais iria me fazer esquecer aquele homem imundo que me rasgou e tudo que aconteceu comigo. Neste caso, a forma de prevenção pra que não possa acontecer com outras mulheres é contar e contar do massacre que sofri. Mas para isso tenho que ter coragem para dar o testemunho, mas tenho muita vergonha por isso escrevo. Peço que a senhora conte, leve adiante, o massacre não pode continuar.” Para compreender o que diz Taussig (1993), traz-se à consideração e em complemento à Maria Aparecida, o depoimento de Maria Dolores, de pertença Kuruaya, que narra seu pânico no dia da violação, praticada dentro de sua casa, na frente do marido e das filhas, que à época tinham respectivamente oito anos e dois anos: “Dormi, como todas as noites, com meu marido e minhas filhas na minha cama. De madrugada acordei e levei o maior susto da minha vida, me deparei com um homem passando da sala pra cozinha, pois a porta do quarto ficava entre aberta durante a noite, então no primeiro momento imaginei que pudesse ser alguém de fora, pensei que fosse meu marido, então olhei na cama e vi as meninas e ele, percebi que tinha alguém na casa e não era o meu marido, ele dormia com as crianças. Logo depois minha filha de oito anos acordou e percebeu que eu estava bastante assustada e nervosa, então falei que tinha alguém na casa, pedi que ela não fizesse escândalo. Na hora, eu só pedia a Deus proteção pra minha família e, ao mesmo tempo, sem saber o que fazer e como agir naquela situação de angústia e muito muito medo.” Na sequência dos acontecimentos, Dolores se apercebe do perigo e evoca Deus: “... com toda Tua sabedoria me traz tranquilidade e, nas minhas orações, pedi que Deus fizesse aquela pessoa ter compaixão e não fizesse nada com meu marido e com as minhas filhas, eu coloquei minha vida nas mãos Dele. Eu dizia: Deus coloco minha família em suas mãos me proteja e me ilumine nesta noite, pois sei que corro perigo, me abençoe, te peço em amém. Dona a senhora já teve medo?” Dolores prossegue a narrativa, ofegante, e esclarece, “... agradeço todos os dias a Deus, eu esqueci parcialmente o fato, só que por mais que os anos passem, eu não consigo falar com as pessoas sobre o assunto, por medo e até mesmo vergonha.” O relato foi adiante, entrecortado pelo choro às vezes discreto, outras vezes convulsivo a ponto de interromper a narrativa. Ela segurava as minhas mãos10 com força, de certo ainda sentia pânico e as marcas corporais que se apresentavam vivas, intensas! O relato é bastante longo, mas importante para compreensão da dor, silenciada pelas circunstância e sobretudo pela vergonha. Diz a Kuruaya: “... trabalhei o dia inteiro, sou professora no bairro dos índios, local tomado pela violência. Nunca tive medo de nada. A casa é pequenininha. Toda noite eu tenho o costume de verificar portas e janelas, e nesse dia não foi diferente, entretanto nunca imaginei que alguém pudesse entrar na casa de alguém pelo telhado, por onde entrou o bandido. Quando me dei conta do perigo fingi que estava dormindo e observei por baixo do travesseiro que ele [o bandido] se aproximava e logo entrou no quarto meio agachado, ficando em volta do berço da minha filha. Chegou perto da cama e pôs a faca no meu pescoço, daí eu gritei e ele se debruçou em cima da cama fazendo ameaças, dizendo pra não gritar se não iria matar todo mundo caso eu não trepasse [mantivesse relações sexuais] com ele.” Dolores informou que ele estava visivelmente muito perturbado andando de um lado para o outro, parecia não saber o que fazer, aparentando transtornos. Tinha aparência de drogado, exalava mal cheiro, mas não parecia bêbado e nem cheirava a álcool. Ela continua: “... depois da ronda pela casa, ele saiu um momento do quarto e eu disse ao meu marido finge que dorme e cuida das meninas, pois ele vai voltar. Minha filha que estava acordada chorava muito e falei pra ela ficar bem caladinha como se estivesse dormindo foi o que ela fez, ficou quietinha abraçada à irmã e ao pai. Ele voltou e me obrigou a manter relações sexuais com ele. Sem saber o que fazer, pedia ajuda a Deus. Aquilo foi uma humilhação muito grande, na minha cama, com o meu marido vendo tudo e as minhas filhas então? Até hoje não sei “transar” como antes, a lembrança me perturba, tenho problemas, passo mal, meu marido não se conforma, reclama. Temo que me abandone por isso. Com os olhos distantes, como se voltasse à cena do crime, Dolores informa: “... pela conversa dele, percebi que ele não falava coisa com coisa, às vezes parecia tranquilo, daí a pouco se exaltava e com a faca na mão, junto do meu pescoço. Que medo! Quando ele falou que iria fazer sexo comigo, tornei a me apavorar e, na hora, pensei na família e o quanto seria pior se fossem com as minhas filhas, pensei que era melhor eu ceder do que ele fazer algo pior conosco, ele sentou na cama e falou que não era pra eu gritar, era melhor pra mim. Ele se serviu de mim duas vezes e perguntava, gostou cachorra, tu foste pega no dente, índia é tudo assim ... Eu desesperei, além de me usar me humilhava e minhas filhas e meu marido assistindo, acho que a pequena não acordou, nem sei ... quando percebi que ele tinha saído da minha casa parece que o mundo caiu sobre mim, não tinha reação de nada lembro que peguei o celular, mas não tinha condições de ligar pra ninguém, acho que ainda não tenho mundo.” Abalada, Dolores confessou que teve dificuldade de identificar o criminoso, mas o fez. Ele respondeu processo e foi condenado, o fantasma à época era a saída do agressor da cadeia. Ela ainda vive aos sobressaltos, pois se aproxima o final do cumprimento da pena. As categorias sobre violência: enredamentos na narrativa das mulheres Nos diálogos estabelecidos com as interlocutoras é possível detectar em seus depoimentos e mesmo discurso de indígenas e quilombolas, uma série de categorias a respeito de eventos que, do ponto de vista antropológico, poderiam ser definidos analiticamente como situações de violência, embora dificilmente nossas interlocutoras tenham usado explicitamente o termo violência, as protagonistas referiram-se a todo momento a situações que atingiam seus corpos individual e coletivamente. Os corpos são atingidos de forma coletiva na medida em que a corporeidade e construída socialmente e as violações são estruturais e não individuais, além de engendrarem dor e resistências. Os fatos narrados aproximam-se da definição de violência proposta por Paula Lacerda (2015) que a entende como: [...] um amplo conjunto de situações que poderiam ser percebidas, de outro ponto de vista, como ‘causadoras de sofrimento’, pessoas se apresentam como ‘vítimas de violação de direitos’, o que as transforma em sujeito e potencializa o alcance de suas reivindicações.” (2008, 28) A primeira categoria que se refere a tais processos diz respeito a violência enfrentada coletivamente pelo povo Tembé Tenetehara na Colônia Santo Antônio do Prata, educandário que recebia as crianças indígenas sequestradas de suas comunidades e apartadas de seus parentes para serem educadas, catequizadas e “civilizadas” com base na pedagogia cristã dos missionários Capuchinhos. Posteriormente, a Colônia foi transformada em Leprosário e a ameaça de contrair a doença afastou ainda mais os Tembé Tenetehara do território que tradicionalmente ocupavam. No período de instalação do Leprosário, conforme conta Dona Maria Joana, circulava na região o boato de que era possível curar a hanseníase se o doente comesse o fígado de uma pessoa saudável. Na época chegaram a ser encontrados na mata cadáveres com o fígado retirado, o que reforçava ainda mais o temor de que uma das pessoas a serem mortas pudessem ser Tembé Tenetehara. É desse cenário que emerge a categoria massacre: as interlocutoras constantemente reafirmam, ao dizer dessas memórias que “o nosso povo foi muito massacrado no Prata”. A noção de massacre parece elucidar mais enfaticamente os acontecimentos que a categoria violência, uma vez que as violações enfrentadas coletivamente pelos Tembé Tenetehara – ditos de Santa Maria – incluem espoliação territorial, epistemicídio, quebra dos laços de parentesco e, em última instância, o adoecimento e a morte dos membros do povo. O mesmo ocorre com as mulheres Xipaya e Kuruaya que, expulsas de seus territórios no médio Xingu, vieram à cidade e vivem presas a espaços, onde sequer podiam, há 10 anos, se declarar indígenas. Eram, como referem algumas das interlocutoras, impedidas de falar a língua materna, enfrentaram o massacre da discriminação, produzida pelo racismo que se apresenta em estratégias de dominação de ordem material e ideológica, utilizada pelas estruturas coloniais para manter status privilegiado de membros do grupo dominante, produzindo a perene subalternidade dos povos etnicamente diferenciados (Moreira, 2016 ), não fosse a luta que empreendem diuturnamente. No caso das quilombolas o massacre foi/é pesado e reproduzido nas diversas narrativas. A segunda categoria que diz de processos de violência é a de escravidão. Conforme explica Maria da Paz: “os antigos do nosso povo tratavam a mulher como escrava. Ela só servia para ter filho, cuidar da casa e da roça, ser usada pelo marido e trabalhar pro pai. Hoje não pode mais ser assim, mas muitos homens no nosso povo e de fora querem tratar as mulheres nessa escravidão.” A categoria escravidão parece dizer respeito a crítica que as mulheres indígenas fazem sobre a condição feminina dentro das diversas comunidades. O entendimento de que as mulheres eram e são tratadas como escravas, guarda em seu interior a reivindicação de que sejam entendidas como sujeitos, dotadas de direitos, vontades e voz. Tal categoria diz respeito a forma como as interlocutoras pensam a mulheridade e a crítica que fazem por não serem reconhecidas de tal forma. Entre as quilombolas a condição de escrava é mencionada por conta das avós e das bisavós, entretanto, algumas vezes, a condição passada é negada para não comprometer a luta e favorecer a discriminação. A terceira categoria nos parece a que possui maior tensão ao ser utilizada analiticamente: trata-se da categoria maldade. Durante muito tempo do percurso das pesquisas que apontavam para as categorias nativas, evitou-se conjecturar sobre a mesma, por receio de que escrever sobre o assunto pudesse “dar munição” para os antagonistas em relação aos povos tradicionais. Entretanto, ao buscar as noções de justiça que permitem a luta política das mulheres, a maldade atravessou o percurso da problematização. As interlocutoras com quem se dialogou nomeiam como “homens maus” aqueles que agridem seus corpos, física e/ou sexualmente. E, a essas agressões, as mulheres indígenas dão o nome de maldades. As quilombolas, algumas vezes referem-se às violações dos homens maus, como malinesas. Denominam malinesas às penas impostas, pelos encantados, a homens (e também à mulheres) que vivem fora das normas tradicionais, malinesas que trazem como consequência efeitos deletérios às relações sociais. Malinos são os encantados que castigam os transgressores com o mal, tornando-os perniciosos ao convívio social. Os encantados que “jogam a malinesa” vivem nas matas e nos cursos d’água e por serem donos dos espaços, exigem reverências e cumprimento de obrigações, nem sempre observadas pelos homens maus que terminam “malinando” com as mulheres (ou mulheres que malinam com homens). No caso da maldade ou da malinesa entre indígenas e quilombolas, uma e outra não integram a essência dos humanos, são tomadas pelas interlocutoras como condição que, dependendo do comportamento, pode ser afastada dos humanos, sempre que, arrependidos, voltem a cumprir as obrigações com os encantados. A tensão reside no fato de que muitas vezes os homens maus ou malinos podem ser companheiros das mulheres indígenas e quilombolas ou lideranças dos referidos coletivos. Duas situações parecem ilustrativas de como a categoria maldade é posta em ação. A primeira delas diz respeito a história contada por Maria Laura, que teve a filha Maria Conceição sequestrada por um homem que circulava na comunidade. A menina passou oito dias em cativeiro submetida a violência física e sexual pelo agressor. Por fim, depois de espancá-la quase até a morte, o criminoso abandonou-a sozinha na casa onde a escondia. Embora Maria Conceição tenha sido encontrada com vida e acolhida sob o modo Tembé de cuidar do corpo, a marca da violência permanece para o resto da vida e o fato de o agressor ter muito dinheiro, à época, assegurou-lhe a impunidade. Ao contar a história de sua filha, Maria Laura referiu-se ao criminoso como um “anjo mau”, aproximando-o do mito bíblico que conta a história de Lúcifer. A mesma categoria foi utilizada pela filha de Maria da Paz, Maria Lídia, para referir-se ao seu pai. Na época ele se encontrava doente, com desmaios e fraquezas constantes, e as causas não puderam ser identificadas pelos médicos que a família procurou. Maria da Paz, desde que a conhecemos, narra as agressões cometidas pelo marido, que espancava ela e os filhos e dizia constantemente a todos palavras duras, que “machucavam” quem as ouvia. Conversando com Maria da Paz e Maria Lídia, a filha afirmou que a doença do pai era um “castigo por todas as maldades que ele fez com a gente”, com o que Maria da Paz concordou. A noção de maldade parece ter um sentido diferenciado para as mulheres indígenas se comparada aos usos que assume na sociedade dita ocidental. Enquanto no ocidente a maldade é frequentemente tomada como propriedade de pessoas perversas, entre as protagonistas indígenas a categoria parece se aproximar do que a Antropologia e os movimentos de mulheres tem chamado de machismo ou violência de gênero. Atentar para o uso diferenciado do termo pelas interlocutoras só foi possível em função do envolvimento etnográfico no contexto em que estas se inserem e por meio do diálogo e inflexão mantida pelas autoras. Por fim, a última categoria percebida como o sinônimo nativo para a violência é a de machucar. Frequentemente usada na sociedade ocidental para designar ferimentos físicos, sejam acidentais ou infringidos, machucar entre as mulheres indígenas refere-se ao ato de dizer palavras ofensivas e duras, que atacam a honra e o caráter das pessoas atingidas. Nos relatos de violência dentro das relações com os maridos – sejam eles indígenas ou não – as interlocutoras afirmam que as palavras duras são tão dolorosas e machucam tanto quanto agressões físicas. Tendo em conta a lei brasileira sobre violência doméstica, temos que o “machucar” talvez possa ser compreendido como violência psicológica11 , uma entre as possibilidades de violência contra a mulher, deslindadas nesse diploma legal. Entre as quilombolas há narrativas que informam que as palavras ofendem mais que serem marcadas por paus, chicotes e outros instrumentos de agressão. As marcas físicas podem ser tratadas, curadas, mesmo que levem tempo, mas as marcas dos machucados ferem a alma (para além do corpo) e permanecem na memória das interlocutoras e nada nem ninguém faz desaparecer. Abaixo as correspondências relativas às categorias éticas e êmicas. Thumbnail  Quadro 1 : Categorias éticas e êmicas sobre violência As categorias relativas à agência: a resistência das/entre mulheres Uma das principais questões que se tornaram visíveis no diálogo com as interlocutoras diz respeito ao fato de que as violações que atingem os corpos das mulheres jamais foram aceitas de forma passiva, elas não se deixam paralisar. Os processos de agência – aqui utilizada no sentido atribuído por Pierre Bourdieu (1983) e Anthony Giddens (1984) – e resistência, sempre estiveram presentes nas trajetórias das indígenas e quilombolas. O silenciamentos via etnocídio atingiu seus corpos e vidas, mas não se consolidou na medida em que as protagonistas sempre estiveram dispostas a buscar alternativas e resisitir. É com o intuito de romper com o etnocídio e a destituição da memória de seus coletivos que as mulheres indígenas ou quilombolas contam histórias de extrema violência no contexto da pesquisa; supomos que elas acreditam que por meio do registro na produção antropológica, as interlocutoras mantém a expectativa de que as memórias não sejam esquecidas nem apagadas, mas que, pelo contrário, permaneçam vivas na luta por direitos coletivos e por reconhecimento. Relatar as estratégias de agência e resistência e o protagonismo das interlocutoras frente a situações de poder assimétricas coaduna-se com o objetivo de “contar para prevenir”, como disse Maria dos Anjos, há anos, quando em uma roda de conversa aconselhou as jovens presentes: “... não guardem segredos, eles envenenam a vida. Não façam como eu que evitei contar as malinesas, daí não consegui domei os maus [homens] da minha vida. Nem os de casa, nem os da rua e ninguém deve machucar nossas almas, somos pessoas, [e olhando firme as meninas moças da roda] devemos reagir, assim as malinesas vão pra longe da comunidade.” De fato, contar a história parece uma das principais categorias que distinguem a agência das mulheres diante da violência sofrida. O trabalho das autoras, membros da equipe de antropólogos do Grupo de Pesquisa Cidade, Aldeia & Patrimônio só teve início a partir do convite dos membros da comunidade para que os pesquisadores escrevessem a história do povo Tembé Tenetehara e de outros povos indígenas e quilombolas, como informamos à partida. Quando na comunidade, muitos pesquisadores foram “intimados” a entrevistar os membros mais velhos da comunidade, para garantir que as histórias que estes se lembravam fossem registradas antes que se perdessem com seu falecimento. Maria Laura, com o início das pesquisas na comunidade, decidiu começar a escrever diários, onde poderia registrar suas memórias pessoais e coletivas e repassar para os pesquisadores do grupo. Outra categoria importante nos processos de agência das mulheres indígenas, especialmente as Tembé, é a do cuidado. Conforme elucida Maria Laura: “... o nosso povo foi muito massacrado no Prata. Morreu muita gente. A gente jamais podia dizer que era índio, até hoje nós vivemos discriminados. Hoje tá muito melhor, a gente vive junto, faz nossas festas, cuida uns dos outros e o nosso povo se alegra. Mas vive com a discriminação. Não podemos usar uma roupa, que já dizem que nós não somos índios. Eu vou dizer que eu sou uma portuguesa, sendo que eu não sou? Até tem gente que diz, mas eu não digo. Eu digo o que eu sou, eu sou Tembé. Mas tem que viver com a discriminação.” Ao contrário da visão de cuidado amplamente discutida na literatura produzida na área da Enfermagem, pautada na atenção e medicalização de pessoas com doenças, ou deficiência, o cuidado tembé e das demais etnias é holístico e alimenta o corpo de forma completa, por meio do sistema tradicional de ação para saúde, que contempla não apenas o cuidado com o corpo, mas a proteção espiritual, e as lutas políticas por uma vida melhor, que acarretam uma corporeidade saudável. E esse corpo não se estrutura desconectado do ser indígena, com toda a carga política e epistemológica que a identidade enseja para as tembé, xipaya e kuruaya. Cuidar de si e dos seus implica em se proteger de violações e fortalecer o grupo para que as lutas políticas possam ser continuadas. Nesse sentido, o cuidado de si constitui um empreendimento que conforma resistências políticas, materiais e epistemológicas, em um contexto no qual o corpo vem à cena tanto como território de lutas e afirmações identitárias, quanto como alvo de opressões e estigmas. Com as mulheres quilombolas a situação é semelhante, sempre que alguém se machuca a cura vem via sistema tradicional de ação para saúde, mesmo que a pessoa machucada e violada receba atendimento dentro do sistema ocidental de ação para saúde. Outra categoria percebida como forma de agência das mulheres nas tensões que envolvem os maridos diz respeito a educação dos filhos. Segundo Maria Laura: “... a mulher é que educa o filho. Se ela não mandar ele ir lá, tomar a bença do pai, fazer um carinho no pai, ele não vai, não, fica na dele. Foi por causa de um dos meus filhos que meu marido parou de me bater. Um dia, ele era novinho, magro, magro... Ele virou pro pai e falou: “O senhor nunca mais vai bater na mamãe, hoje foi o último dia”. O pai perguntou: “E o que tu vai fazer?”. E ele disse: “Eu não sei, mas o senhor não encosta mais um dedo nela”. Depois disso, nunca mais ele me bateu.” Uma das filhas de Maria Laura, ao ver o pai com outras mulheres na rua: “... fazia um escândalo, batia nela. Uma vez enchi as coisas da mulher de areia, ficou tudo sujo. Depois ele metia a porrada em mim quando chegava em casa, mas eu nunca deixava barato.” Atualmente as crianças que na infância enfrentaram os pais em defesa de suas mães, criam redes de apoio e acolhimento das indígenas mulheres em situação de violência, seja recebendo-as em suas casas, rezando por elas ou conversando com os maridos e, muitas vezes constrangendo-os perante os demais parentes. Maria José, quilombola da comunidade Maria me ajude constrangia o marido, mostrando de casa em casa os ferimentos produzidos pelas surras que levava, porque teimava em estudar. A peregrinação de casa em casa produzia o recolhimento do agressor que, alcoolizado, tinha produzido as maldades, malinado a protagonista. Por fim, a última categoria percebida como característica da agência empreendida pelas mulheres tembé em relação a violência diz respeito ao processo de fechar o corpo. Prática também verificada entre as quilombolas. Em um contexto em que as violações de direitos ocorridas em hospitais são reais e prováveis, fechar o corpo contra coisas ruins é essencial. Entre as práticas frequentes, temos: rezar na cabeça de criança com febre; ministrar ervas medicinais para pessoas que adoecem ou são envenenadas; manter a gravidez ou interrompê-la quando as vidas da mãe e da criança estão ameaçadas; são exemplos de saberes e fazeres acionados no agenciamento de situações consideradas de risco, em que se sabe que o acesso ao sistema ocidental de ação para saúde não responde satisfatoriamente ou há dificuldades em acessá-lo. Fechar o corpo entre os povos tradicionais implica proteger as pessoas da comunidade tanto no plano físico quanto no espiritual. Os rituais podem ou não estar relacionados à alguma forma de religiosidade indígena afro-brasileira ou ocidental. Uma das interlocutoras, reconhecida “por ser uma das mais antigas dos nossos antepassados”, entre os Tembé, relata que nos tempos antigos, quando houve grande incidência de hanseníase na região, ela conseguiu paralisar o avanço da doença no corpo de uma das pessoas da comunidade utilizando as propriedades do mucuracaá, uma planta medicinal que também é utilizada entre os tembé para combater o mau-olhado. Outras indígenas afirmam que uma mulher grávida que estivesse sob os cuidados de Maria Carmen estaria em boas mãos, uma vez que ela acompanhava a gestação desde os primeiros meses até a hora do parto, no qual a mulher era virada de lado e dava a luz enquanto a interlocutora rezava em sua barriga. Despois do parto, a profissional de saúde permanecia na casa da parturiente até o resguardo terminar, portanto eram quarenta dias de cuidados diferenciados. Durante uma das idas a campo, a mãe de uma criança que havia nascido há pouco tempo encontrava-se aflita, pois o bebê não parava de chorar e não costumava ser assim. Nesse momento, Maria Carmen, sogra da mãe da criança, entrava na casa e, ao se dar conta da situação, perguntou se a menina havia ido tomar banho de igarapé. Como a resposta foi afirmativa, a interlocutora disse: “... minha filha pegue alho, amasse e misture com álcool e deixe um tempo. Depois passe com o dedo na palma da mão da neném, na sola do pé, no braço e na coxa, em forma de cruz. Vai ficar um cheirinho ruim, mas não tem problema, ela vai melhorar. Ela deve ter visto alguma coisa no igarapé, criança é muito sensível, parece um pintinho novo. Quando eu era pequena, minha tia levava a gente pro igarapé, mas ela entrava primeiro, pedia licença pra mãe da água pra gente entrar e jogava o alho na água, aí o banho era sossegado.” O alho é antídoto (combate o veneno) para os encantados que “jogam malinesa” quando as pessoas não reconhecem as regras, que não se referem apenas aos espaços de domínio dos mesmos, mas às horas proibidas do dia e da noite. A paçoca de gergelim preto “pisada” com hortelã é utilizada para “botar pra fora” (as indígenas não utilizam o termo “aborto”, as quilombolas usam expulsar), principalmente quando a gravidez ameaça a vida da mãe ou quando o parto é de risco. Para mulheres grávidas que sentem dores, ministra-se chá de gengibre. Para inflamações, especialmente em casos de problemas de próstata, o caroço de abacate mostra-se eficaz. Crianças, quando morrem antes do batismo, segundo os católicos, choram durante sete dias e precisam ser batizados para que “descansem”. A última prática mostra-se elucidativa da forma tembé de pensar a construção da “pessoa”, a partir do ato de batizar a criança morta. Para os Tembé Tenetehara não se deve negar às pessoas mortas, quando oriundas de famílias cristãs, o direito ao ritual de batismo que as forma e legitima. As situações acima descritas, integrantes das observações de campo, revelam que mesmo enfrentando situações de precariedade e violência, as mulheres exercem seu protagonismo, instituindo o “ser sujeito” e encontram alternativas para agenciar situações de violência. O corpo e as múltiplas corporeidades que coexistem entre as interlocutoras são territórios privilegiados da resistência de indígenas e quilombolas mulheres e das formas de cuidar de si mesmas. Thumbnail  Quadro 2 : Categorias êmicas e éticas sobre agência Entre oitivas e traduções Os diálogos em campo demonstram que os atos e falas das interlocutoras são ferramentas importantes para a compreensão de suas realidades. Ao mesmo tempo, analisar o discurso no contexto das relações antropológicas passa a ser um desafio, na medida em que aponta para a necessidade de proceder o controle das dificuldades de tradução etnográfica, dos etnocentrismos ocidentais e do viés da colonialidade vigente. Em trabalho de grande influência e repercussão, Gayatri Spivak (2010) questiona criticamente a (im)possibilidade de fala de determinados grupos. A autora constata que os subalternos em geral, e o sujeito historicamente emudecido, a mulher subalterna em particular, foram e são, ao longo da história, mal compreendidos ou mal representados pelo interesse pessoal dos que têm poder para representar. A proposição instigante de Spivak (2010), além de elucidar silenciamentos, colonialismos e violências, também aduz escutas anti-hegemônicas, epistemologicamente desobedientes, pós-coloniais. Inspirada pela reflexão provocativa da filósofa indiana, Lacerda (2014) considera que em meio a tentativas de silenciamento, os grupos e sujeitos subalternizados – e esse é um deslocamento analítico fundamental para que a subalternidade não seja entendida como lugar paralisante e intransponível – estão falando. Superando a perspectiva colonialista que pretende “dar voz” aos grupos subalternizados por meio da pesquisa, Lacerda (2014) tensiona a questão que orienta Spivak (2010): como o não subalternizado, o privilegiado, pode escutar? As posições teórico-epistemológicas (que também possuem caráter político) adotadas na presente discussão objetivam favorecer a escuta etnográfica mais responsável, capaz de superar estereótipos de passividade e compreender indígenas e quilombolas como sujeitos de suas próprias histórias. A estruturação do olhar antropológico sobre o campo, em diálogo com os conceitos e categorias referidas, foi essencial para compreensão das interlocutoras como protagonistas de suas próprias histórias, não como vítimas passivas, desagenciadas e paralisadas diante de violações. Qualquer procedimento em sentido contrário seria uma prática etnocêntrica. Atentar para as narrativas das mulheres indígenas e quilombolas, a partir do que foi explicitado, é um esforço que vai além de retomar o protagonismo de vozes subalternizadas. Trata-se de uma tentativa de constituição de possibilidades de outra epistemologia, outras referências e sensibilidades, diferentes das que o pensamento colonial afirma serem as únicas dignas de serem aprendidas e respeitadas. A partir das falas desses sujeitos, confrontamos a tentativa histórica de epistemícidio (Santos, 2010) e assimilação que incide sobre os povos indígenas e quilombolas, e, mais especificamente sobre mulheres indígenas e quilombolas/ indígenas e quilombolas mulheres. Trata-se de uma opção metodológica que abriga dimensões e responsabilidades políticas, de contemplar enunciações ditas e tomadas como periféricas e arbitrariamente alijadas pelo pensamento ocidental e colonial. Por diálogos e justiças A diversidade das agências e possibilidades de justiça nos permite esterçar para diferentes lados saindo dos limites de nossos axiomas, verdades que consideramos inquestionáveis e supostamente válidas universalmente. Axiomas estes que muitas vezes são utilizadas como princípios que mantém privilégios de uns em detrimentos de outros secularmente subalternizados. Não se trata de atribuir valor superior aos conhecimentos tradicionais ou mesmo de aderir a eles, mas de considerá-los em diálogo para produzir a melhor justiça, sem diluí-los na ciência desenvolvida na academia. A importância das reflexões que se faz é tentar indicar que as agências das mulheres e modos diversos de conhecimentos, é indicar também que se pode pensar de outro modo e que os variados sistemas de justiça precisam, de fato, dialogar. Sabemos que os estudos acerca da violência de gênero no país muitas vezes utilizam o termo violência sem muita precisão, como se violência doméstica, violência intrafamiliar, violência contra a mulher, entre outros, fossem capazes de abarcar reflexões sobre realidades diversas. Fazer o esforço de compreender noções êmicas do termo afasta o perigo da reificação e induz a “diálogos ouvintes”, que postulamos aqui, em contraposição aos “diálogos surdos.” Ainda sobre a questão dos termos utilizados para abordar a violência, contemporaneamente tem se preferido falar em mulheres em situação de violência ao invés de violência contra a mulher, para indicar que a violência é transitória e não um destino que as mulheres devem cumprir (Campos, 2011). Além disso, a mudança de termo e, por conseguinte, de enfoque, impele a pensar a questão fora do molde algoz versus vítima, possibilitando compreender que, mesmo sendo vítima, especialmente num sentido jurídico-estatal, não significa não ter poder e força de resistir. As narrativas e corporeidades de mulheres indígenas e quilombolas/ indígenas e quilombolas mulheres desafiam compreensões do senso comum sobre situações de violência e nos fazem compreender que vítimas são sujeitos. Dessa forma, como sujeitos que são, devem poder acionar sistemas tradicionais de justiça ou mesmo a “justiça dos brancos”, como dizem algumas. Porém, a colonialidade, especialmente a de gênero (Lugones, 2008 ) cria contextos em que os dois lados olvidam as demandas pelo fim de maldades e malinesas. Referências bibliográficas ALEIXO, Mariah Torres. 2015. Indígenas e quilombolas icamiabas em situação de violência: rompendo fronteiras em busca de direitos Dissertação de mestrado, Programa de Pós-Graduação em Direito, UFPA. (Inédita) BELTRÃO, Jane Felipe. 2012. Histórias ‘em suspenso’: os Tembé ‘de Santa Maria’, estratégias de enfrentamento do etnocídio ‘cordial’. Revista História Hoje, São Paulo, v. 1, no 2, p. 195-212. BOURDIEU, Pierre. 1983. Esboço de uma teoria da prática In: ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu: sociologia São Paulo: Ática, p.46-81. BRASIL. 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Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica Elie CheniauxSOBRE O AUTOR Resumos É realizada uma ampla revisão dos estudos psicanalíticos e das mais recentes pesquisas neurocientíficas sobre os sonhos. Segundo Freud, os sonhos constituem "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Para muitos neurocientistas, eles são formados a partir de estímulos aleatórios originados na ponte e não possuem qualquer significado. Contudo, diversos estudos associam as emoções experimentadas durante a vigília e o conteúdo dos sonhos. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos dá algum respaldo à teoria freudiana. Todavia, não há dados empíricos que apóiem a existência de uma instância censora que deturpe os sonhos. É possível que os sonhos exerçam um papel na elaboração psíquica de lembranças traumáticas. Na nossa opinião, as visões psicanalítica e neurocientífica sobre os sonhos podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Sonho; fases do sono; psicanálise; neurofisiologia; literatura de revisão A comprehensive review was carried out about psychoanalytic studies and the most recent neuroscientific researches about dreams. According to Freud, dreams represent "a (disguised) fulfillment of a (repressed) wish." For several neuroscientists, they are formed based on random stimuli originated from the brainstem and do not have any meaning. However, several studies associate the emotions experienced during waking with the content of dreams. The hypothesis that the dopaminergic mesolimbic-mesocortical system, which is associated with instinctual appetitive craving states, is essential to the formation of dreams brings some endorsement to Freudian theory. Nevertheless, there is no empirical data to support the existence of an instance of censorship that distorts the dreams. It is possible that the dreams play a role in psychological working-through of traumatic memories. In our opinion, psychoanalytic and neuroscientific views about dreams can be complementary and mutually enriching. Dream; sleep stages; psychoanalysis; neurophysiology; literature review ARTIGO DE REVISÃO Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica Elie Cheniaux Professor adjunto, Faculdade de Ciências Médicas - Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCM-UERJ), Rio de Janeiro, RJ. Médico, Instituto de Psiquiatria - Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Doutor em Psiquiatria, IPUB-UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Pós-doutor, Programa de Engenharia de Sistemas e Computação, Área Interdisciplinar de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia - Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Membro associado e docente, Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ), Rio de Janeiro, RJ Correspondência RESUMO É realizada uma ampla revisão dos estudos psicanalíticos e das mais recentes pesquisas neurocientíficas sobre os sonhos. Segundo Freud, os sonhos constituem "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Para muitos neurocientistas, eles são formados a partir de estímulos aleatórios originados na ponte e não possuem qualquer significado. Contudo, diversos estudos associam as emoções experimentadas durante a vigília e o conteúdo dos sonhos. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos dá algum respaldo à teoria freudiana. Todavia, não há dados empíricos que apóiem a existência de uma instância censora que deturpe os sonhos. É possível que os sonhos exerçam um papel na elaboração psíquica de lembranças traumáticas. Na nossa opinião, as visões psicanalítica e neurocientífica sobre os sonhos podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Descritores: Sonho, fases do sono, psicanálise, neurofisiologia, literatura de revisão. INTRODUÇÃO O neurocientista e psicanalista Mauro Mancia1, num artigo publicado no International Journal of Psychoanalysis, em 1999, ressalta as diferenças entre as abordagens neurocientífica e psicanalítica dos sonhos. Enquanto os neurocientistas se dedicam ao estudo das estruturas e funções cerebrais envolvidas na produção do sonho, os psicanalistas se interessam pelo significado deste, considerando os aspectos biológicos irrelevantes para a sua compreensão. Todavia, para outros autores, como o psiquiatra Morton Reiser2, o estudo dos sonhos representa uma grande oportunidade de exploração da relação entre corpo e mente. Segundo ele, os modelos da psicanálise e da neurociência para os sonhos, embora muito distintos entre si, não devem ser vistos como antagônicos ou inconciliáveis, mas sim como complementares. Reiser acredita que uma cooperação entre esses dois campos do conhecimento poderia ser mutuamente enriquecedora. Realizamos uma revisão bibliográfica a respeito dos sonhos, na qual comparamos as visões da psicanálise e da neurociência, com o objetivo de identificar possíveis pontos de contato e de divergência entre elas. Promovendo, assim, um diálogo entre a psicanálise e a neurociência, teremos subsídios para avaliar a viabilidade e a utilidade de uma aproximação ou mesmo de uma integração entre as duas no estudo da mente humana. Iniciamos nossa pesquisa bibliográfica pelos trabalhos sobre os sonhos de Sigmund Freud, criador da psicanálise, de James Allan Hobson, neurocientista que veementemente critica a teoria freudiana, e de Mark Solms, um dos principais pesquisadores na área da neuropsicanálise, disciplina científica recém-criada que se ocupa da integração entre os conceitos psicanalíticos e neurocientíficos. Com o auxílio das bases de dados MEDLINE, LILACS e PsycINFO, e utilizando como termo de busca "sonho" (ou dream), procuramos artigos científicos sobre o tema. Também consultamos diretamente alguns dos mais importantes periódicos nacionais e estrangeiros das áreas de psicanálise e de neurociência em bibliotecas e através da Internet, no portal Periódicos da CAPES. Optamos por incluir preferencialmente artigos originais ou de revisão recentes, ou então considerados clássicos na literatura científica. A teoria freudiana sobre os sonhos "A Interpretação dos Sonhos", de 1900, é considerada a primeira obra propriamente psicanalítica de Freud. Nesse trabalho, particularmente no capítulo VII, já se encontra uma teoria geral do aparelho psíquico, formulada a partir dos estudos de Freud sobre os sonhos, que são, segundo ele, a "via régia de acesso ao conhecimento do inconsciente na vida mental"3. Para Freud, o sonho constitui "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Possui um conteúdo manifesto, que é a experiência consciente durante o sono, e ainda um conteúdo latente, considerado inconsciente. Este é composto por 3 elementos: as impressões sensoriais noturnas (por exemplo, a sensação de sede durante o sono), os restos diurnos (registros dos acontecimentos da véspera) e as pulsões do id (relacionadas a fantasias de natureza sexual ou agressiva). Esses elementos do sonho latente tendem a fazer o indivíduo despertar. E, durante o sono, em função da completa cessação da atividade motora voluntária, a repressão está enfraquecida, o que aumenta a possibilidade de as pulsões terem acesso à consciência. Todavia o sonho atua como "o guardião do sono". Em função de uma solução de compromisso entre o id e o ego - que é a instância que exerce a repressão -, é permitida uma gratificação parcial das pulsões, diminuindo a força delas e, conseqüentemente, possibilitando que o indivíduo continue a dormir. Essa gratificação se dá através de uma fantasia visual (o conteúdo manifesto do sonho), que é o resultado de um processo regressivo: o fluxo da energia psíquica, ao invés de seguir em direção às vias motoras, retorna às vias sensoriais3,4. Ainda de acordo com Freud, o conteúdo manifesto dos sonhos é aparentemente incompreensível porque consiste numa versão distorcida do conteúdo latente. Essa distorção se dá, em primeiro lugar, porque no sono há uma profunda regressão do funcionamento do ego, que faz com que prevaleça o processo primário do pensamento. Este é caracterizado pelo predomínio das imagens visuais (em detrimento da linguagem verbal) e pelos mecanismos de condensação (fusão de duas ou mais representações) e de deslocamento (substituição de uma representação por outra). Além disso, entre o inconsciente e o consciente existiria uma instância censora, que deliberadamente disfarçaria o conteúdo do sonho, para que o sonhador não reconheça sua origem pulsional, proibida3,4. Algumas contestações à teoria freudiana A teoria freudiana sobre os sonhos tem sido bastante contestada, dentro e fora da psicanálise. Questiona-se se as imagens que percebemos durante o sono representariam mesmo um disfarce ou distorção. Luborsky & Crits-Christoph5 estudaram os sonhos de um grupo de pacientes utilizando o core conflictual relationship theme method (CCRT), um instrumento que avalia o padrão de relacionamentos interpessoais de um indivíduo, tendo como base o relato deste. Comparando-se os resultados da avaliação relativos apenas ao conteúdo manifesto do sonho com aqueles obtidos quando foram consideradas também as associações livres do sonhador (que indicariam o conteúdo latente do sonho), não foram encontradas diferenças. Vários estudos empíricos encontraram uma correlação significativa entre a atividade mental durante a vigília e o conteúdo manifesto dos sonhos. Na amostra de Greenberg et al.6, os problemas sonhados eram basicamente os mesmos pelos quais os indivíduos estavam passando em suas vidas diurnas. Smith7, por sua vez, observou que separação ou morte eram a temática predominante nos sonhos de pacientes cardiopatas hospitalizados. Outros ensaios clínicos demonstraram que estímulos apresentados anteriormente ao sono - como filmes, fotografias ou jogos de palavras - reaparecem claramente nos sonhos8. Por outro lado, alguns autores não acreditam que seja possível recuperar o conteúdo latente do sonho na sessão analítica. Para eles, a associação livre ocasiona a produção de um material novo, criado a partir da relação paciente-analista9,10. Blechner10 afirma que muito do que é bizarro ou confuso no sonho não resulta de repressão: são elementos originalmente extralingüísticos, que não podem ser expressos em palavras. Para Robbins11, os sonhos expressam puramente a linguagem do processo primário; portanto, a atuação de uma instância censora, que refletiria um pensamento racional (característico do processo secundário), não seria possível. Coloca-se em dúvida, ainda, a afirmativa de Freud de que desejos seriam os instigadores de todos os sonhos. Para diversos autores1,12,13, os sonhos refletiriam não só os desejos e as defesas contra estes, mas a atividade mental como um todo, e teriam inúmeras outras funções além de descarga (da energia psíquica), como a solução de problemas (intelectuais ou emocionais)6,14,15, criatividade8, autoconhecimento1,16, integração da mente14,17, adaptação17, aprendizagem8, neutralização do estresse8, entre outras. McCarley & Hobson18, por sua vez, argumentam que, embora possam estar presentes no sonho temas relacionados a desejos, isso não significa que estes representem um fator causal no processo de formação do sonho. Por fim, alguns autores1,9,10,12,17,19,20 destacam a relação paciente-terapeuta e a transferência como os componentes principais na formação dos sonhos durante o tratamento. Em contrapartida à importância que Freud dava aos sonhos para a investigação da mente, o interesse por estes entre os psicanalistas tem diminuído significativamente nas últimas décadas. Kantrowitz17, estudando o currículo de 28 institutos psicanalíticos americanos, constatou que o número total de horas dedicadas ao estudo dos sonhos em cursos clínicos e teóricos no biênio 1998-1999 foi muito menor do que em 1980-1981. Para muitos analistas, os aspectos intrapsíquicos trazidos pelos sonhos podem ser igualmente obtidos por meio do estudo de sintomas, traços de caráter, atos falhos ou associações livres10,17. Os aspectos neurofisiológicos do sono Na década de 1950, Nathaniel Kleitman e seus alunos William Dement e Eugene Aserinsky descreveram pela primeira vez o sono paradoxal, ou sono REM1,2. Este, que compreende no adulto cerca de 20% do tempo total de sono, é caracterizado pela ocorrência de movimentos oculares rápidos (rapid eye movements, daí a sigla), perda do tônus muscular, freqüências cardíaca e respiratória irregulares e oscilações na pressão arterial sistêmica. Esses autores detectaram ser muito comum, quando uma pessoa era despertada nessa fase do sono, que ela referisse ter estado sonhando. Em 1962, Jouvet demonstrou que o traçado eletroencefalográfico durante o sono REM é muito semelhante ao da vigília: dessincronizado (irregular) e com ondas rápidas (ritmo b). Em contrapartida, no sono profundo, não-REM (NREM), em que não há um aumento da atividade autonômica periférica, predominam um traçado sincronizado e os ritmos d e t - daí ele ser conhecido também como sono de ondas lentas (slow wave sleep)1,21. Hoje em dia se sabe que, embora os sonhos sejam muito mais comuns durante o sono REM, eles podem ocorrer também durante o sono profundo: estima-se que entre 25 e 50% dos períodos de sono NREM estejam associados a sonhos21. Além disso, 5 a 30% dos períodos de sono REM cursam sem qualquer sonho22. Todavia, dependendo da fase do sono, as características dos sonhos são bem diferentes. Comparados com os sonhos da fase NREM, os da fase REM são mais vívidos e mais bizarros, apresentam uma maior participação do sonhador e uma maior estruturação espacial, são mais facilmente lembrados e relatados com um número maior de palavras. Já os sonhos do sono NREM são mais conceituais do que plásticos, compostos por fragmentos da realidade não organizados e não narráveis, raramente são lembrados e apresentam uma participação mais passiva do sonhador1,21. Durante o sono REM, o fluxo sangüíneo cortical é maior do que no sono de ondas lentas e, às vezes, maior até do que na vigília23. Estudos de tomografia por emissão de pósitrons (PET scan) mostram que, durante o sono REM, estão ativados o córtex visual extra-estriatal (associativo) e as regiões límbica e paralímbica; estando, ao mesmo tempo, desativados o córtex visual estriado (primário) e o córtex pré-frontal. Vários aspectos característicos do sonho podem ser relacionados a estes achados: a riqueza de imagens visuais, à ativação do córtex visual associativo e desativação do primário; a intensa expressão emocional, à ativação das regiões límbica e paralímbica; e a bizarrice, incoerência, perda da crítica e esquecimento, à desativação do córtex pré-frontal1,24,25. Acredita-se que a consciência da vigília seja mediada pela noradrenalina e pela serotonina, e a consciência do sonho (do sono REM), pela acetilcolina24,25. A atividade aminérgica (noradrenalina e serotonina) está elevada durante a vigília, diminui durante o sono NREM e se encontra ausente no sono REM. Já a atividade colinérgica é máxima no sono REM e na vigília e mínima ou ausente durante o sono NREM. Recentemente, descobriu-se que as hipocretinas desempenham um importante papel no ciclo sono-vigília: apresentam atividade máxima durante a vigília e ausente durante o sono, tanto no REM como no NREM26,27. Consolidação da memória durante o sono Para grande parte dos neurocientistas, os sonhos não têm qualquer função: são apenas um efeito colateral de processos de consolidação da memória dependentes do sono, a manifestação consciente destes27. Diversos dados indicam que o sono é fundamental para a memória e a aprendizagem. Em primeiro lugar, durante o sono REM, predomina a atividade colinérgica, sendo que a acetilcolina está claramente envolvida nas funções cognitivas28. Em vários estudos experimentais, alguns feitos com ratos, outros com humanos, observou-se que a privação do sono REM ocasionava um prejuízo na aprendizagem de habilidades perceptivas ou perceptivo-motoras (memória implícita), treinadas pouco antes do adormecer27,29,30. Em outros estudos, em que os animais ou humanos foram submetidos a um treinamento desse tipo, mas não foram privados do sono, detectou-se um aumento da duração total do sono REM28,31. Tal aumento só ocorria quando a tarefa era de fato aprendida28. Diante disso, passou-se a acreditar numa relação entre o sono REM e a consolidação da memória implícita32. Por outro lado, um ensaio clínico evidenciou uma diminuição na capacidade de aquisição de memórias explícitas em indivíduos privados do sono NREM30. Em estudos eletroencefalográficos realizados com ratos, pássaros e humanos, constatou-se que padrões de disparos de determinados neurônios do hipocampo registrados na vigília, enquanto se treinavam tarefas cognitivas (memória explícita), reapareciam durante o sono. Esse fenômeno de reativação neuronal, ou reverberação, ocorre predominantemente no sono NREM, mas também é observado no sono REM e mesmo durante a vigília28,33,34. Experiências com ratos evidenciaram que aqueles expostos algumas horas antes de dormir a ambientes não-familiares apresentaram um aumento da expressão do gene zif-268 - particularmente envolvido em processos de neuroplasticidade - no hipocampo e no córtex cerebral durante o sono REM, o que não ocorreu com os animais-controle34. Contudo, há questionamentos quanto ao papel do sono na consolidação da memória. Para Vertes32, parece um contra-senso que o sono, sendo um estado eminentemente amnéstico, tenha esse papel. Além disso, sabe-se que a consolidação de algumas formas de memória se dá também durante a vigília28. Em cerca de metade dos estudos de privação do sono com animais, os resultados não evidenciaram um déficit de aprendizagem32, e em diversos experimentos com humanos submetidos a atividades pré-sono de treinamento, não se observou uma duração aumentada do sono REM31. Por outro lado, critica-se a metodologia de vários estudos com ratos, pois tanto o treinamento como a privação do sono costumam provocar estresse, o qual, por sua vez, pode causar um prolongamento do sono REM e também prejuízo na aquisição de novas memórias28,31,32. Também merece destaque a observação de que os antidepressivos inibidores da mono-amino-oxidase, largamente prescritos num passado recente, embora causem eliminação do sono REM, nunca foram relacionados a um déficit de memória31,32. Siegel31 argumenta que, se o reaparecimento da atividade neuronal da vigília durante o sono estivesse implicado na consolidação das memórias dos eventos diurnos, os sonhos seriam cópias fiéis destes. Mas não parece ser assim. Fosse et al.35 examinaram o conteúdo de um total de 299 relatos de sonhos de 29 voluntários. Embora 65% dos sonhos estivessem relacionados a experiências pessoais recentes, apenas 1,4% deles continha elementos que pudessem ser considerados uma repetição dessas experiências. Segundo Francis Crick - ganhador do prêmio Nobel por suas pesquisas sobre o DNA - e Graeme Mitchison36, sonhamos não com as memórias que estão sendo consolidadas, mas com aquelas que estão sendo apagadas. Para eles, o sono REM é necessário para a eliminação de informações erradas ou inúteis armazenadas no cérebro. O sonho seria um reflexo de um processo de aprendizagem reversa, no qual determinadas sinapses são enfraquecidas. Embora esta formulação não tenha recebido muito apoio nos meios acadêmicos, ela é freqüentemente citada e parece ser coerente com o fato de os sonhos retratarem eventos bizarros ou irreais, os quais precisariam ser eliminados da memória32. A teoria de ativação-síntese A teoria de ativação-síntese, de Hobson & McCarley, apresentada como uma contestação à teoria psicanalítica sobre os sonhos, tem sido amplamente aceita entre os neurocientistas nas últimas duas décadas22. No sono REM, em função de uma diminuição da atividade aminérgica, ocorre uma desinibição do sistema colinérgico, especialmente na ponte. Isso faz com sejam geradas periodicamente as ondas ponto-genículo-occipitais (PGO), detectadas no eletroencefalograma do sono REM, as quais, para os dois autores, são os estímulos básicos dos sonhos. Elas se originam na ponte, propagam-se para o corpo geniculado lateral do tálamo e chegam ao córtex visual (occipital), ativando-o. Dessa forma, com base nos traços de memória visual armazenados, são produzidas as imagens do sonho. Como essa ativação cortical se dá de forma aleatória, são formadas imagens caóticas, as quais, num segundo momento, sofrem um processo de síntese, construindo, assim, uma narrativa seqüencial. Portanto, de acordo com a teoria, os sonhos nascem, no tronco cerebral, sem qualquer significado; eles não estão disfarçando nada, pelo contrário, expressam de forma transparente a atividade cerebral24,37,38. O sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical e o resgate da teoria freudiana Mark Solms22,39 apresenta uma teoria que é, ao mesmo tempo, uma crítica à teoria de ativação-síntese e uma tentativa de confirmação da formulação freudiana sobre os sonhos. Segundo ele, o sono REM e o sonho são estados dissociáveis: um pode ocorrer sem o outro. Pode haver sonhos na fase NREM do sono, e 5 a 10% destes são indistinguíveis dos sonhos da fase REM. Além disso, focos epilépticos em regiões têmporo-límbicas, ou seja, fora do tronco cerebral, podem causar pesadelos estereotipados recorrentes, tipicamente durante o sono NREM. Dos 22 pacientes estudados por ele que apresentavam uma lesão na ponte e, conseqüentemente, perda total ou parcial do sono REM, 18 mantinham a capacidade de sonhar. Por outro lado, Solms aponta que, na literatura científica, já foram registrados mais de 100 casos de eliminação do sonhar provocada por lesões no cérebro anterior que preservaram a ponte e o sono REM. Na maioria desses casos, foi afetada a área da junção parieto-têmporo-occipital, estreitamente relacionada à formação das imagens do sonho. Contudo, em outros pacientes, a eliminação dos sonhos se deveu a uma lesão no quadrante ventromedial do lobo frontal. Essa região, por sinal, era a acometida nas cirurgias de leucotomia pré-frontal, muito utilizadas no passado no tratamento da esquizofrenia e que comumente levavam a um prejuízo no sonhar. Pelo quadrante ventromedial do lobo frontal, passam fibras do sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, o qual envolve a área tegmentar ventral do mesencéfalo, o núcleo acumbente, o hipotálamo, o córtex pré-frontal e o córtex cingulado anterior. De acordo com Solms22, esse sistema é o gerador do sonho. Estudos de PET scan mostram um aumento da atividade nesse circuito durante o sono REM23,40. Além disso, agonistas dopaminérgicos, como o L-Dopa, podem causar sonhos especialmente vívidos e pesadelos. Tais achados reforçam a antiga concepção de uma ligação entre sonho e "loucura" - em ambos há alucinações, perda do juízo crítico, etc. -, já que existe uma clara correlação entre hiperatividade dopaminérgica e ocorrência de sintomas psicóticos22,23. O sistema mesolímbico-mesocortical está relacionado aos estados motivacionais, os quais instigam comportamentos que visam à satisfação das necessidades biológicas, como o beber, o comer e o copular. Substâncias estimulantes e que causam dependência, como cocaína e anfetamina, atuam nesse circuito, causando um aumento na liberação de dopamina no núcleo acumbente, o que, por sua vez, leva a uma sensação de prazer22. Um outro elemento que indica uma relação entre esse sistema dopaminérgico e o sonhar é a alta freqüência com que dependentes químicos em abstinência sonham estar buscando ou usando drogas41. Na concepção de Solms22, o sono REM e o sonho são controlados por mecanismos biológicos diferentes: o primeiro, pela atividade colinérgica da ponte; e o segundo, pelos circuitos dopaminérgicos do cérebro anterior. Estes são a via final comum de várias formas de estimulação cerebral. As ondas PGO freqüentemente exercem esse papel de estimulação cerebral, mas não de forma exclusiva. Ainda segundo Solms, o envolvimento na geração dos sonhos do sistema mesolímbico-mesocortical, claramente relacionado ao que a psicanálise chama de pulsões, parece confirmar a afirmativa de Freud quanto a um desejo ser o instigador do sonho. O papel do sonho na elaboração psíquica de experiências traumáticas Em "A Interpretação dos Sonhos", Freud3 argumenta que mesmo os pesadelos não contradizem a formulação de que os sonhos são realizações de desejos. Segundo ele, nesse caso, apesar da censura onírica, o conteúdo latente consegue chegar à consciência pouco deformado e é reconhecido pelo ego. Este então reage produzindo a ansiedade, com o objetivo de despertar o indivíduo. Freud cita ainda uma variante, os sonhos de punição, nos quais o ego antecipa a culpa (pela realização do desejo reprimido), e o conteúdo manifesto está representando uma fantasia de punição. Seria, portanto, a realização de um desejo do superego, e não do id. Mais tarde, porém, em "Além do Princípio do Prazer", de 1920, o próprio Freud42 aponta uma importante exceção à sua formulação: os sonhos repetitivos que sucedem eventos traumáticos e os que evocam traumas da infância não são realizações de desejos. Tais sonhos, de acordo com ele, obedecem à compulsão à repetição, que seria algo mais primitivo do que o princípio do prazer (e independente deste), e têm como função a sujeição ou dominação das excitações relacionadas à recordação do trauma. Para Ernest Hartmann43, contudo, os pesadelos não são uma exceção; ao contrário, constituem o paradigma de todos os sonhos. Ele estudou os sonhos de pessoas que passaram por experiências traumáticas importantes e observou que, no início, muitas vezes havia uma mera repetição do trauma; mais tarde, contudo, os sentimentos de medo, vulnerabilidade, culpa ou pesar continuavam presentes nos sonhos, mas num contexto inteiramente diferente. Por exemplo, sonhar estar sendo atingido por uma onda gigante ou um furação era muito comum, independentemente de como tivesse sido o verdadeiro trauma. Os sonhos desses indivíduos continham não os estímulos sensoriais relativos ao evento traumático, mas sim a emoção vivenciada. Segundo o autor, os sonhos contextualizam a emoção dominante, expressando-a através de uma representação pictórica. Para Hartmann, esse mesmo padrão é encontrado nos sonhos de pessoas que não sofreram traumas importantes, mas que estão experimentando uma emoção intensa, como em situações de estresse em geral. Ele afirma ainda que, quando não há uma emoção dominante, e várias emoções de menor intensidade estão presentes, tal padrão, embora menos evidente, persiste. Revonsuo15, por sua vez, baseou-se na teoria da evolução para tentar explicar os sonhos. Ele partiu das seguintes premissas: para os primeiros humanos, a vida era curta e cheia de ameaças; os eventos traumáticos freqüentemente são expressos nos sonhos; e os sonhos são fundamentais no processo de aprendizagem. De acordo com sua hipótese, a função dos sonhos é simular experiências traumáticas ou ameaçadoras que foram anteriormente vivenciadas durante a vigília. Tal simulação, segundo ele, leva a uma melhora no desempenho do indivíduo em relação à detecção e enfrentamento de ameaças, o que, conseqüentemente, aumenta a sua sobrevida e chances de procriação. Diversos autores9,14,19,20,44 acreditam que os sonhos são de grande importância para a elaboração de traumas e conflitos psíquicos e têm um papel terapêutico, semelhante ao da psicoterapia. Para explicar esse processo de elaboração, o seguinte modelo da neurociência computacional tem sido utilizado. Acredita-se que, no sonho, as redes neurais se conectem com mais facilidade do que durante a vigília43. Todavia, essas conexões não são feitas de forma aleatória: as emoções seriam os organizadores das redes neurais. Em outras palavras, as representações tendem a se associar a outras que possuam a mesma conotação afetiva2,43. Isso está de acordo com a regra de aprendizagem de Hebb, que diz que "a força de uma conexão sináptica entre dois neurônios aumenta sempre que os neurônios são ativados ao mesmo tempo por uma fonte externa". Enquanto dormimos, as experiências recentes são primeiro emparelhadas com eventos mais remotos, com os quais possuam alguma similaridade, para em seguida serem integradas aos registros permanentes de memória45. Dessa forma, a lembrança de um trauma (da infância ou recente) se associa a outras recordações, o que a torna menos poderosa e perturbadora43. DISCUSSÃO Os sonhos podem ser definidos como estados da consciência que ocorrem durante o sono. Mas ainda sabemos muito pouco sobre eles. Na edição comemorativa da revista Science, relativa ao seu 125º aniversário, é apresentada uma lista de 125 questões ainda não respondidas pela ciência e que irão desafiar os pesquisadores no próximo quarto de século. Entre elas, foram incluídas as seguintes: "qual é a base biológica da consciência?"; "por que dormimos?"; e "por que sonhamos?"46. A hipótese de Freud de que os desejos são os instigadores dos sonhos encontra agora algum respaldo na proposição de Solms22 de uma relação entre sonhos e ativação do sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical. Esse autor, como vimos, baseou-se na observação de pacientes com lesões no cérebro anterior, em estudos de PET scan no sono REM, no efeito de agonistas dopaminérgicos sobre os sonhos e na existência de diversos aspectos em comum entre sonhos e psicose. Todavia, algumas dúvidas ainda pairam sobre essa questão. Por exemplo, faltam dados na literatura científica sobre como os antipsicóticos, que são antagonistas dopaminérgicos, afetam os sonhos, tanto em indivíduos normais como em psicóticos. Além disso, os sonhos e a mais importante das psicoses, a esquizofrenia, possuem diferenças marcantes do ponto de vista fenomenológico: enquanto os sonhos são constituídos basicamente por imagens visuais, na esquizofrenia predominam as alucinações auditivas, sendo bem mais raras as visuais. E não se pode esquecer que o próprio Freud42 reconheceu a existência de exceções à sua regra: os sonhos repetitivos pós-traumáticos. Já a concepção de que uma instância censora deturpa os sonhos tem encontrado pouco apoio. Robins11 defende que o conteúdo manifesto é o próprio sonho, visto que o córtex pré-frontal, que seria fundamental em qualquer mecanismo mental de disfarce dos sonhos, encontra-se inativado durante a fase REM do sono. Por outro lado, a visão de muitos neurocientistas, como Hobson & McCarley37, de que os sonhos não possuem significado é desafiada pela constatação de quanto as emoções experimentadas durante a vigília determinam o conteúdo dos sonhos, como descrito no trabalho de Hartmann43. Os aspectos emocionais das recordações são codificados como memórias implícitas47, as quais provavelmente são consolidadas durante o sono REM32. E segundo Stickgold et al.27, o sono REM pode incrementar o processamento de memórias emocionais. Tudo isso é bastante coerente com a hipótese de que as emoções exercem um papel fundamental na formação dos sonhos. O modelo da neurociência computacional sobre o papel dos sonhos na elaboração psíquica é bastante semelhante ao modelo psicanalítico. O desenvolvimento de múltiplas associações para a representação do trauma corresponderia à incorporação desta ao pensamento do processo secundário, o qual é racional e obedece à lógica e ao princípio da realidade. Incrementar a modalidade de pensamento do processo secundário em detrimento do pensamento do processo primário representa um fortalecimento da capacidade do ego de dominar o id, o que, por sua vez, consiste num dos principais objetivos do tratamento analítico48. Freud3, em 1900, afirma que tanto o pensamento irracional como o racional participam da elaboração do sonho. Robins11 discorda, afirmando que os sonhos expressam unicamente o pensamento do processo primário; o relato deles é que está relacionado ao processo secundário. Mas o neurocientista Claude Gottesmann23 atesta que os sonhos da fase NREM do sono se assemelham ao pensamento do processo secundário. Surge aqui uma questão: se os sonhos são terapêuticos por ocasionarem uma ampliação do campo de atuação do ego e incremento do pensamento do processo secundário, como eles se apresentam com características do pensamento do processo primário? Na seção D do capítulo VII de "A Interpretação dos Sonhos", Freud3 diz que a transformação de pensamentos em imagens visuais favorece a ligação com pensamentos que sofreram o mesmo processo de transformação. Talvez o sonho represente uma parte apenas do processo de elaboração psíquica que ocorre durante o sono. Embora o aumento do número de associações das representações mentais se dê durante grande parte - ou a totalidade - do sono, apenas durante os sonhos, principalmente na fase REM, chegam à nossa consciência informações sobre esse processo. Como durante o sono REM o córtex pré-frontal - fundamental para a atenção e o pensamento racional na vigília - está inativado, a nossa consciência só é capaz de funcionar de acordo com o processo primário e, assim, só capta de forma parcial o processo que está se desenrolando. Em outras palavras, embora durante o sono estejam sendo criadas novas associações entre as idéias, só conseguimos sonhar com condensações ou deslocamentos. Pelo que vimos, o diálogo entre a neurociência e a psicanálise sobre os sonhos pode ser bastante profícuo: proposições da psicanálise têm inspirado e guiado investigações neurocientíficas, e achados da neurociência têm sido úteis para um maior refinamento da teoria psicanalítica. Correspondência: Elie Cheniaux Rua Santa Clara, 50/1213, Copacabana CEP 22041-010 Rio de Janeiro, RJ Tel.: (21) 2547.0670 E-mail: echeniaux@globo.com Recebido em 10/08/2005. Aceito em 26/02/2006. 1. Mancia M. Psychoanalysis and the neurosciences: a topical debate on dreams. Int J Psychoanal. 1999;80(Pt 6):1205-13. 2. Reiser MF. The dream in contemporary psychiatry. Am J Psychiatry. 2001;158(3):351-9. 3. Freud S. A interpretação dos sonhos. 2Ş ed. Rio de Janeiro: Imago; 1987. 4. Freud S. Esboço de psicanálise. Rio de Janeiro: Imago; 1975. 5. Luborsky L, Crits-Christoph P. Understanding transference: the core conflictual relationship theme method. New York: Basic Books; 1990. 6. 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