BELEZA E SEUS PERCALÇOS HORIZONTES ANTROPOLOGICOS

Produção e consumo social da beleza

Sérgio Alves TeixeiraSOBRE O AUTOR

Resumos

Este artigo apresenta a argumentação básica a respeito da subjetividade e da objetividade na percepção da beleza e tem por preocupação central compreender as motivações para a produção e consumo da beleza humana e sua operacionalização. Atenta também para generalizações sobre tais temas que, por serem comuns a todas as sociedades humanas, são percebidos como fenômenos sociais importantes. Anedotas, provérbios e aforismos são tomados como dados estratégicos para a consecução destes objetivos.


anedotas; atratividade sexual; beleza; feiúra; juventude; provérbios; sedução; velhice


This article deals with subjectivity and objectivity in the perception of beauty. The central analysis is on motivations for the production and consumption of human beauty as it is put into practice. It also considers generalizations on themes which, being common to all human societies, are perceived as important social phenomena. Anecdotes, proverbs, and aphorisms are taken as strategic data for the attainment of these objectives.


anedoctes; beauty; old-age; proverbs; seduction; sexual attraction; ugliness; youth


ARTIGOS


Produção e consumo social da beleza


Sérgio Alves Teixeira


Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Brasil


RESUMO


Este artigo apresenta a argumentação básica a respeito da subjetividade e da objetividade na percepção da beleza e tem por preocupação central compreender as motivações para a produção e consumo da beleza humana e sua operacionalização. Atenta também para generalizações sobre tais temas que, por serem comuns a todas as sociedades humanas, são percebidos como fenômenos sociais importantes. Anedotas, provérbios e aforismos são tomados como dados estratégicos para a consecução destes objetivos.


Palavras-chave: anedotas, atratividade sexual, beleza, feiúra, juventude, provérbios, sedução, velhice.


ABSTRACT


This article deals with subjectivity and objectivity in the perception of beauty. The central analysis is on motivations for the production and consumption of human beauty as it is put into practice. It also considers generalizations on themes which, being common to all human societies, are perceived as important social phenomena. Anecdotes, proverbs, and aphorisms are taken as strategic data for the attainment of these objectives.


Keywords: anedoctes, beauty, old-age, proverbs, seduction, sexual attraction, ugliness, youth.


Introdução


Falar de beleza é a um só tempo tratar de alguma coisa muito real, que desperta sentimentos intensos e inspira ações que vão da contemplação reverencial e silenciosa a ousadias de ordem conceitual e/ou material para desfrutá-la e/ou produzi-la, mas que também se furta a uma definição objetiva. As concepções que abrem este enunciado, como verdadeiros axiomas, dispensam demonstração. Já a que o fecha encontra suporte nas definições que lhes dão dois consagrados dicionários: o brasileiro Aurélio e o francês Larousse. Respectivamente, eles registram beleza como "coisa bela, muito agradável, ou muito gostosa" e "harmonia física, moral ou artística, que inspira admiração e encantamento". Resulta evidente de tais registros que não só os cinco sentidos mas, também outros elementos, como cânones estéticos, códigos morais e políticos e mesmo idiossincrasias, atuam como filtros através dos quais se percebe a presença ou a ausência de beleza em pessoas, animais, coisas e fatos.


Tais dados, se por um lado restringem, por outro reforçam a validade da expressão consagrada de que a beleza está nos olhos do observador. A restrição se dá em sua dimensão mais formal, pois a beleza pode ser percebida tanto pela visão como pelos demais sentidos, como já disse; já o reforço se dá em seu espírito, enfatizando a subjetividade apresentada como inerente à percepção da beleza. Por sua geral indisposição em privilegiar dados biológicos como matriz de comportamentos sócio-culturais é congruente que este seja entendimento que impera na Antropologia1 a respeito da percepção da beleza. Tudo muito afim com o relativismo cultural, tão caro à generalidade dos antropólogos, e com a concepção durkheimiana de que o social gera o social.


A diversidade dos cânones de beleza mais formalizados, assim como as discrepâncias na avaliação de algo como mais ou menos belo, através dos tempos e lugares e por distintos grupos sociais de uma mesma sociedade está no centro da argumentação sobre a subjetividade inerente à sua percepção.


O juízo simplório de uma portuguesa proprietária de uma padaria em Luanda, em Angola, sobre o valor estético da Vênus de Milo, que ela viu no Museu do Louvre, e que sem dúvida é compartilhado por milhões de pessoas, em contraste com o encantamento que a mesma escultura desperta na multidão diária de visitantes do museu, serve como ilustração pontual desta subjetividade. Ela me disse2, textualmente3, "não entendo o que toda aquela gente vê de bonito naquela mulher sem braço e todo cheia de bexiguinhas4." Ainda numa crítica ao museu, disse que ao menos poderiam "tapar as bexiguinhas para ficar menos feia."


Todavia, ainda que explicação da percepção da beleza pela subjetividade seja largamente acatada por especialistas e leigos na matéria, ela convive com um outro entendimento que lhe é oposto. De caráter objetivo, visto que tem por fonte certas disposições do cérebro humano, determinantes, por exemplo, como a que faz, que "os traços gerais geométricos de um rosto, que dão origem à percepção da beleza, podem ser universais" (Etcoff, 1999, p. 33). Para afirmação tão peremptória Etcoff se reporta, inclusive, a comprovações experimentais fornecidas por outros pesquisadores, como as que seguem:


Através da eletrofisiologia do cérebro, cujos "[...] sinais eletrofisiológicos [...] mostram maior amplitude quando as pessoas olham rostos de mulheres bonitas, o oposto do que acontece quando olham rostos feios" (1999, p. 191).


"Bebês de três e seis meses encararam por um tempo consideravelmente mais longo os rostos (em fotos, de indivíduos de distintos grupos étnicos) que os adultos acharam atraentes", em relação a outros que foram julgados pouco atraentes. "Isso sugere não somente que os bebês têm detentores de beleza, como também que rostos humanos podem partilhar traços universais de beleza em feições variadas." (1999, p. 42).


Crianças já a partir dos "quatro meses, preferem música harmoniosa à dissonante." Ao ouvirem "[...] melodias dissonantes, os bebês franziram o nariz mostrando repulsa. [...] Podemos gostar da dissonância, mas trata-se de um gosto adquirido." (1999, p. 42).


Por trabalhar com dados biológicos como matriz de comportamentos sociais importantes, é natural que a percepção da beleza como um fato essencialmente objetivo tenha amplo acolhimento na área da Psicologia, inversamente, ao que se dá com a Antropologia, como já vimos. O peso que na Psicologia é atribuído aos dados biológicos no desenvolvimento da cultura é bem apresentado por Etcoff quando diz, depois de citar manifestações de pesquisadores com entendimento da mesma ordem, que "claramente, a cultura não pode simplesmente brotar não se sabe de onde; deve ser moldada pelos, e ser sensível aos instintos humanos básicos e preferências inatas" (1999, p. 33).


Alargando a abrangência de tal noção, biólogos e psicólogos estendem o interesse pela beleza a certas espécies animais. O caso do pavão, mais precisamente pela sua cauda, é apresentado como emblemático a partir de considerações de Charles Darwin sobre a seleção sexual pela escolha do parceiro. Neste processo a ênfase é dada não à sobrevivência do mais apto, mas à maior atratividade sexual dos parceiros em potencial. A respeito da exuberante cauda do pavão é dito, em síntese, que apesar dela ser prejudicial5 à sua sobrevivência, ainda assim ela se desenvolveu como tal pela preferência das fêmeas por parceiros com caudas grandes e coloridas. Etcoff (1999) e Miller (2000) citam também outras numerosas espécies de animais cujas fêmeas são atraídas para o acasalamento por um ou mais atributos de beleza exibidos pelos machos.


Compreensivelmente, considerações desta ordem são estendidas aos humanos, porém com maior amplitude, pois mulheres e homens buscam atributos de beleza em suas potenciais parcerias. Tratarei do tema mais adiante.


Independentemente da razão quanto à percepção da beleza estar com os que enfatizam sua objetividade ou sua subjetividade, é inquestionável que o interesse pela beleza diz respeito a todos os indivíduos em todas as sociedades. Pessoa alguma será indiferente a uma expressão de beleza. Isto se apresenta como inevitável porque, como disse Platão "a beleza é uma superioridade natural" (apud Manero, 1958, p. 98). Este é também o sentido do oportuno título de um livro de Frederick Turner, Beauty: the Value of Values. Assim, bem se vê, é legítimo pensar a beleza como algo que tem valor em si.


Tal entendimento torna natural que a beleza desperte atenção especial, por motivações e formas diversas, mesmo quando vinculada a locais, circunstâncias, etc. que, supostamente, numa análise mais superficial, não predispõem àquela atenção, como se dá nos casos a seguir.


Nas peças publicitárias de dois cemitérios-parque, um de Porto Alegre e outro de Curitiba, que destacam, respectivamente, a beleza de seus jardins e da vista que dele se descortina.


Nas transmissões pela televisão de eventos, de religiosos a profanos, que costumam projetar com destaque, tomadas de rostos bonitos, captados entre até milhares de assistentes, como em competições esportivas.


Nos primeiros registros sobre a beleza de índios do Brasil, feitos por Pero Vaz de Caminha, naquele que viria a ser o mais célebre documento da história brasileira: sua carta ao Rei Dom de Manoel de Portugal, informando o descobrimento, em 22 de abril de 1500, de território6 que viria a fazer parte do Brasil. Escrivão da armada chefiada por Pedro Álvares Cabral, que realizou tal descoberta, na carta7, juntamente com outros dados mais afins com os interesses do projeto português de expansão ultramarino em curso na época, ele informa a respeito da beleza da população nativa que aí encontraram. Diz o famoso escrivão sobre "os homens da terra [...] A feição deles é parda, algo avermelhada; de bons rostos e bons narizes. Em geral são bem feitos [...] E uma daquelas moças era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha - que ela não tinha! - tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, provocaria vergonha, por não terem as suas como a dela [...] Os seus corpos são tão limpos, tão gordos e formosos, a não mais poder."


Das numerosas questões vinculadas à beleza que podem, mais diretamente, interessar à Antropologia escolhi, por interesse pessoal, para abordar neste estudo, a produção e o consumo social da beleza humana. Como estas são questões presentes em todas as sociedades é natural que este trabalho se preocupe com generalizações sobre o tema. Em sintonia com esta preocupação os dados em que se apóia minha análise são de larga abrangência e provêm de múltiplos universos sociais.


Dentre os dados com que trabalhei destaco, por particularmente estratégicos, anedotas, pensamentos/máximas/aforismos e provérbios.


Tais elementos são duplamente estratégicos: por seus conteúdos e por eles mesmos como veículos. Pelos conteúdos porque fornecem informações ou teorizam, o mais das vezes com perspicácia, sobre pessoas, fatos e/ou temas importantes. Como veículos, porque fazem circular amplamente e quase livre de censuras, temas e idéias de interesse e/ou acatamento generalizado.


As anedotas, em permanente processo de renovação e atualização, por novas histórias e novas versões, por trazerem à luz e com naturalidade, temas e juízos que despertam ávido e geral interesse, mas mantidos na penumbra pelo controle social. Este interesse, somado à jocosidade, ironia e manifestação de certa dose de hostilidade a determinados comportamentos, gostos, etc. e a indivíduos, tipos sociais e grupos, como coisas inerentes às anedotas, asseguram tal naturalidade. Mesmo quando aqueles temas e juízos, como se dá o mais das vezes, são apresentados em linguagem livre e com forte apelo ao politicamente incorreto.


Os pensamentos por serem citados freqüentemente para legitimar ou reforçar determinados entendimentos. O renome do autor do pensamento costuma ter grande peso para a consecução de tais objetivos. Os numerosos dicionários dedicados a tais máximas também se constituem em bom indicador do interesse que despertam. O título e o tamanho do consultado para este trabalho, por si só, demonstra a abrangência que tais obras podem atingir: Diccionario Antologico del Pensamimento Universal, de Antonio Manero, com 978 páginas, abordando cerca de 400 temas. Sobre beleza ele apresenta 112 pensamentos, de 70 autores.


Os provérbios, pela generalizada e quase atemporal credibilidade que desfrutam, por terem uso intenso através dos tempos. Tais afirmações são exemplarmente apoiadas pelo conteúdo e uso, tempo a fora, do provérbio que diz que vox populi vox Dei. Esta mesma credibilidade também é reconhecida por Francis Bacon quando diz que "o espírito das nações está em suas máximas e provérbios" (apud Manero, 1958, p. 590). Já a perenidade também é comprovada por muitos dos provérbios a serem aqui citados que, com formulação idêntica ou de mesmo sentido, constam no livro de Perestrello Câmara, segunda edição8, de 1847 e intitulado Coleção de Provérbios, Adágios, Rifãos, Anexins, Sentenças Morais e Idiotismos da Língua Portuguesa9. Varona anda na mesma direção quando diz que "o aforismo é um raio de luz que palpita de consciência em consciência através das idades" (apud Manero, 1958, p. 592).


Esta credibilidade tem sólida base estrutural: independente da origem e trajetória reais da consolidação de cada provérbio, eles são pensados como sendo expressão coletiva de sentimentos e entendimentos comuns e mesmo inerentes à vida sócio-cultural. A inquestionável ausência de autoria reforça este entendimento.


Para bem distingui-los, aqui todos os provérbios serão grafados em itálico.


Pelos interesses deste trabalho enfatizo que aqui não me ocuparei com medidas, proporções, luz, sombra, colorações, harmonia, posturas, nuances e elementos do gênero, que integram o vasto rol dos elementos mobilizados de modo mais ou menos consciente para captar beleza em pessoas e coisas. Portanto, acatarei como tendo beleza tudo o que assim for considerado pelos operadores trazidos à cena pelos meus dados.


Sobre a beleza humana


As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.


(Vinicius de Moraes - Receita de Mulher)


Tomo como ponto de partida para estas considerações os anúncios de ofertas de empregos que, mundo afora, freqüentemente requerem boa aparência como uma das credenciais dos candidatos às vagas ofertadas, por trazerem à cena duas questões importantes associadas à beleza corporal humana.


Uma é que ao procurarem pessoas com tais credenciais, para tratar dos mais diversos assuntos e com pessoas dos mais diversos tipos sociais, eles afirmam o valor generalizado dispensado à beleza humana. A outra é que assim mostram a continuidade do grande valor dispensado àquela que foi, seguramente, a primeira manifestação de beleza que interessou nossos ancestrais. Faço tal afirmação considerando que a atratividade sexual, obviamente presente desde o início da vida, tem na beleza corporal das parcerias potenciais um peso relevante.


Como se depreende dos casos em pauta, a obtenção de emprego e a escolha de parceria sexual (naturalmente se for também do interesse da pessoa escolhida), a beleza corporal dá retorno ao seu portador. Retorno este que pode ser maiúsculo.


É exatamente nesta recompensa à beleza corporal que reside a explicação para os quase incontáveis tipos de procedimentos para adquiri-la, aumentá-la e/ou preservá-la. O que se dá através dos tempos e em todas as sociedades de que se tem registro. Pinturas, tatuagens, escarificações, deformações10(como as cranianas, dentárias, dos pés), cirurgias, implantes, ornamentações, cosméticos, vestimentas, exercícios, regimes alimentares, elixires, magias, rezas, compõem uma amostra bastante significativa de formas básicas de tais intervenções. Note-se que cada uma delas comporta múltiplas variedades, técnicas e nuances.


Mesmo que tais procedimentos possam ter altos custos emocionais, físicos e/ou financeiros, eles se justificam amplamente pelas recompensas emocionais, sociais e/ou materiais proporcionadas pela beleza ou pela dissimulação de imperfeições propiciadas por eles.


Em matéria intitulada Beleza sem Fronteira, que apresenta uma entrevista com Andrea Jung, presidente mundial da Avon, publicada pela revista Veja (2001b, p. 11-15), encontram-se importantes dados e considerações sobre cosméticos, que interessam a este trabalho. Abrindo a matéria e comprovando que a Avon é uma das maiores multinacionais da área, encontra-se que ela está presente em 140 países e tem um faturamento anual em torno de 7 bilhões de dólares.


Da entrevista destaco: atestando a crescente uniformização em assuntos de beleza, diz que nos últimos seis anos os produtos de consumo globalizado da empresa passaram de 11% para 70%.


Destacando a valorização da juventude, afirma que na área dos cosméticos "qualquer um que inventar um produto rejuvenescedor pode transformar-se da noite para o dia... num bilionário."


O mercado masculino para cosmético, mesmo apresentando crescimento nos últimos tempos, continua muito reduzido. No caso da "Avon ... 97% são produtos para mulheres."


A Avon, em todo o mundo, tem 3.4 milhões de representantes (vendedores em domicílio), a maioria do sexo feminino, que no Brasil o número de pessoas envolvidas nas vendas na última década passou de 200.000 para 700.000, sendo o Brasil o segundo mercado para seus produtos, atrás do Estados Unidos.


"Recentemente, fizemos uma pesquisa com 30.000 mulheres em 33 países... Dessas, 82% disseram que produtos de beleza são uma necessidade, e não um luxo. A vaidade é um valor universal."


No mesmo sentido, em entrevista na televisão, apontam considerações do jornalista Fábio Pannunzio, autor do livro A Última Trincheira, centrado na sua vivência com guerrilheiros das FARC11. O jornalista informou que mesmo em meio aos constantes deslocamentos do pessoal das FARC, seus comandantes favorecem material de maquiagem e cuidados corporais para as mulheres que as integram, como estratégia para manter elevado a moral de suas forças.


Em se tratando de cirurgias estéticas é significativo registrar, no Brasil, mudança de orientação a seu respeito por parte de agências de saúde pública. Por reconhecer que certas imperfeições estéticas podem trazer graves constrangimentos a seus portadores, muitas destas agências, contrariando orientação consagrada de não autorizar cirurgias estéticas reparatórias, vêm autorizando-as com freqüência crescente. Ficando só plano emocional, é útil lembrar que apelidos que remetem às imperfeições estéticas podem ser cruéis e acompanhar suas vítimas ao longo de quase toda vida. Isto é o que pode se dar com portadores de nariz acentuadamente adunco e de lábio leporino, apelidados, por exemplo e respectivamente, de Bico de Corvo/Papagaio ou de Três Beiços.


Embora nos dias atuais todas as formas de intervenções realizadas a favor da beleza, como regra, sejam efetivadas sem a preocupação de ocultá-las ou, mais ainda, até sejam divulgadas pelos próprios beneficiados, as coisas nem sempre foram assim, como se vê pelos dois casos a seguir.


Ao noticiar a morte, ocorrida em 4/9/2001, de Yolanda Pereira12, primeira Miss Universo brasileira, eleita em 7/9/1930 no Rio de Janeiro, o jornal Zero Hora destacou que naquele concurso "não era sequer permitido o uso de maquiagem", que as concorrentes, de diversos países, "foram avaliadas pelo rosto, pelo corpo e pelo porte" e que a vencedora "recebeu nota máxima em todos os quesitos" (2001b, p. 37). Lembro dela haver declarado em entrevista publicada anteriormente pelo mesmo jornal, que todas as candidatas, naquele concurso, lavaram o rosto na frente do júri, para comprovar não estarem maquiadas.


Conforme informações de dois cirurgiões plásticos por mim consultados, até por volta da metade da década passada, no Brasil e em outros países, as cirurgias estéticas, especialmente as para eliminar rugas e diminuir os seios eram tratadas com grande reserva pelos/pelas pacientes. Sendo que no caso da redução dos seios, realizadas de fato para atender à moda da época, a justificativa formal apresentada a um público mais externo, para se preservar de prováveis críticas, era a de recomendação médica, para evitar danos à coluna.


Em contraste com tais fatos, no Brasil, de uns tempos para cá, quase que diariamente se vê nos meios de comunicação, como casos exemplares, personalidades do mundo dos espetáculos e/ou freqüentadoras das colunas sociais, admitindo abertamente a realização de uma ou mais de tais intervenções bem como a disposição de continuarem realizando-as, sempre que julgarem necessárias.


Em reportagem especial intitula Brasil, Império do Bisturi a revista Veja (2001a, p. 84, 97), apresenta vários de tais casos e dados estatísticos que mostram a grande relevância das cirurgias estéticas nos dias atuais no país. Diz que em 2000 no mínimo 350.000 pessoas recorreram a elas, com um aumento de 580% em dez anos. O percentual de homens que recorreram a tais cirurgias em 5 anos saltou de 5% para 30%. No computo geral dá 207 cirurgias por grupo de 100.000 habitantes, contra 185, nos Estados Unidos, que tradicionalmente lideravam esta classificação e 40 na Alemanha e Inglaterra, para o mesmo grupo de habitantes.


Assim se vê que, como se deu anteriormente com a maquiagem e pintura de cabelos, as cirurgias estéticas também entraram no rol das práticas usuais e legitimadas a favor da beleza.


Exemplo emblemático de tal fato é o da miss Rio Grande do Sul e Brasil de 2001, Juliana Dornelles Borges, de 22 anos. Seu caso, por ter realizado alegadas dezenove destas cirurgias, ganhou ampla cobertura na imprensa brasileira antes e após a conquista destes títulos. Dentre as muitas matérias a respeito, cito a do jornal Folha de São Paulo, de 21 de janeiro, página C 3, por apresentar uma entrevista com ela.


Na entrevista, entre outras declarações, ela diz:


"Adorei todas as plásticas. Uma maravilha."


"Gostaria que as pessoas superassem preconceitos (contra as plásticas). Ser miss é meu trabalho. A plástica serve como um aperfeiçoamento." Assim como outros profissionais fazem cursos, "as misses fazem plásticas."


"Tem um pouquinho de marketing nisso", diz, referindo-se às dezenove plásticas alardeadas por seus cirurgião e empresário. Pelos critérios da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, seriam dez as cirurgias, pois "a praxe é contar as intervenções por região anatômica e não por procedimento médico," como foi contabilizado para atingir aquele total.


A mesma matéria registra também que seu empresário, auto-definido como missólogo, "mantém em Porto Alegre uma escola que orienta jovens interessadas na competição." Ele declarou que "a mulher nasce bela, mas não perfeita [...] Só a cirurgia estética conduz à perfeição."


Que na "América Latina, [...] sobretudo na Venezuela [...], raramente se encontra uma 'rainha da beleza' que não enfrentou o bisturi. O artifício compensa: as venezuelanas levam maioria dos prêmios internacionais."


A miss Rio Grande do Sul 2002, Josiane de Oliveira, com 20 anos, eleita em 7/10/2001, em matéria publicada já no dia 14, por Zero Hora, no Caderno Donna, informa que ela também recorrerá às cirurgias estéticas, como parte da preparação para o concurso de miss Brasil 2002. Para tanto contará também com o apoio do mesmo missólogo de Juliana. Diz ele que "Josiane tem plástica perfeita. Vamos mexer só em alguns detalhes e conseguir o bicampeonato" (2001c, p. 3).


Bem antes de tais coisas se darem no Brasil, a imprensa já informava que o mesmo se dava com personalidades internacionais, como atrizes de Hollywood.


Tudo isto põe em primeiro plano duas coisas básicas. Uma é que estas práticas estão afinadas com a época, em que os avanços científicos nas áreas médicas e biológicas tornam fatos como implantes, transplantes de orgãos, inseminações in vitro, e façanhas de engenharia genética parte de nosso cotidiano. A outra, mais afim com os interesses deste trabalho, é o grande valor inerente à beleza corporal, que estimula e legitima a busca de procedimentos para produzi-la, ampliá-la e preservá-la.


Retornando às recompensas aos aquinhoados com a beleza, constata-se que elas são de larga abrangência, pois tais pessoas despertam simpatias, merecem confiança, recebem auxílios, conseguem parcerias afetivas e/ou sexuais e econômicas e outras, tudo com maior grau de facilidade do que se dá com pessoas feias. Tal pode se dar inclusive em relação às preferências de pais por filhos (Etcoff, 1999, p. 125) e em julgamentos judiciais. Queiroz e Otta reportam-se a estudos que demonstram uma certa tendência por parte de magistrados e júri de serem mais benevolentes com acusados bonitos. Dentre outros dados citam o princípio seguido pelo "magistrado napolitano, criador do 'Édito de Valério': ... 'quando se tem dúvida entre dois presumidos culpados, condene-se o mais feio'." (2000, p. 60).


Em sintonia com tais coisas Turner afirma "que a beleza sempre abre um novo espaço" (1991, p. 5). Eventos tão distintos como o Kula e a instalação de uma fábrica da Mercedes-Bens fornecem bons exemplos para ilustrar a validade desta afirmação.


A fonte do primeiro, muito naturalmente, é Malinowski. Tratando da magia realizada nos cosméticos a serem usados pelos integrantes de uma expedição naquele circuito de trocas, ele diz que seu objetivo é "tornar os nativos bonitos, atraentes e irresistíveis a seus parceiros no Kula" (1976, p. 254).


A fonte do segundo é Pereira (2000, p. 86), que diz que como parte da estratégia para que aquela empresa instalasse na cidade de Juiz de Fora, no Estado de Minas Gerais, uma fábrica, disputada no Brasil por outras 140 cidades, "os mineiros chegaram a contratar ... modelos para andarem naturalmente nas ruas de Juiz de Fora, próximo aos locais por onde transitavam os alemães. 'Assim eles tinham a impressão de que o povo da cidade era ainda mais bonito do que é.'"


Ainda que a recompensa e retorno à beleza se dê, com maior ou menor intensidade em todas a esferas da atividade humana, talvez seja no campo da sedução que ela ofereça a maior garantia de retorno. Na atração de parcerias para namoro, casamento ou especificamente para relacionamento sexual a beleza da parceria se constitui em estímulo da maior relevância para a primeira aproximação. Sem dúvida foi a observação de fatos como estes que levaram Schopenhauer a dizer que "a beleza é uma carta de recomendação aberta que de antemão conquista os corações" (apud Manero, 1958, p. 98). Etcoff cita pesquisas de psicólogos que confirmam tal entendimento. Dentre elas há uma com "mais de 10 mil pessoas, de 37 culturas... (que mostrou que) a atratividade física e a boa aparência ocuparam o topo das dez qualidades mais importantes e desejáveis (1999, p. 71). Ela também cita "Devendra Singh [que] acredita que os homens têm preferência inata por corpos femininos com cintura fina e quadris fartos, que assinalam alta fertilidade, alto estrogênio e baixa testosterona." Tanto assim que em 18 culturas por ele pesquisadas "a maioria esmagadora dos homens escolheu a mulher de peso médio, com a proporção (cintura-quadris) 0,7, como a mais atraente" (1999, p. 224). Tais coisas, sem dúvida, concorrem para dar razão a Apuleio, quando afirma que "a mulher formosa, mesmo que seja pobre, já possui dote bastante" (apud Manero, 1958, p. 95).


A divulgação de dados experimentais quando este número de Horizontes Antropológicos já estava em processo de editoração13 me permitiu agregá-los aos da observação, que mostram que o interesse do homem é mais intenso pela beleza da mulher do que o inverso, como eu já havia registrado. Refiro-me a dados fornecidos por "pesquisadores da Universidade de Harward [que] mapearam a atividade do sistema nervoso central de homens heterossexuais, de 21 a 35 anos, e descobriram que a visão de uma mulher atraente causa frisson em algumas das áreas mais primitivas do cérebro. Do ponto de vista cerebral (masculino heterossexual, enfatize-se), uma mulher bonita causa as mesmas reações da cocaína em cocainômanos e da aposta em dinheiro em jogadores inveterados" (Veja, 2001d, p. 108).


Em matéria sobre como aumentar a audiência dos programas de televisão nos sábados à noite, no Brasil, esta mesma revista mostra que todas as emissoras apelaram para a presença de mulheres lindas e com pouca ou nenhuma roupa. Justificando tal estratégia, o diretor de um destes programas declarou: "Não adianta reclamar. Nada segura um espectador perdido como uma mulher bonita, de preferência sem roupa" (Veja, 2000, p. 150).


O episódio e a fotografia que se seguem ilustram de modo exemplar a atração que uma mulher bonita exerce sobre os homens.


O episódio assistido por mim, ocorreu na década de 60 do século passado, no início de uma tarde quente de verão, em Porto Alegre. Em companhia de mais uns poucos passageiros seguia de bonde, que se deslocava muito devagar (fazendo tempo para pegar mais passageiros), quando o motorneiro parou o veículo para fazer o galanteio (integralmente justificado) mais espontâneo e desinteressado que conheço. Chegando à porta do bonde, ao mesmo tempo em que tirava o quepe que compunha seu uniforme disse, textualmente14, para uma linda mulher mulata que, usando vestido branco e decotado, caminhava devagar pela calçada ao lado, em sentido oposto ao nosso:


- Boa tarde e com licença. Minha homenagem à beleza.


Ela sorriu, todos os passageiros aprovaram o galanteio e o bonde seguiu.


Como se vê, a beleza de parar o trânsito, saiu do campo da metáfora para o da realidade.


A fotografia capta em feliz instantâneo a admiração única que uma mulher bonita desperta nos homens. Note-se que dos quinze homens que nela aparecem, apenas dois não têm o olhar atraído pela bela jovem. Todavia, a foto também capta o constrangimento que a manifestação de admiração pode causar para quem a recebe, se expressa de forma agressiva e desrespeitosa, como no caso.



Como as mulheres conhecem o alto potencial de atratividade de sua beleza sobre os homens, elas mais do que eles, se preocupam com o embelezamento próprio para atrair parceiros. Como, talvez por isto, elas mais do que eles, também gostam de ser bonitas e necessitam ser reconhecidas como tal, com estes elementos elas fornecem uma sólida base estrutural para a mais básica e eficaz "cantada" masculina: dizer para a mulher desejada que ela é bonita.


Malinowski contribui para a compreensão da eficácia desta "cantada" quando afirma que "as palavras não dizem simplesmente algo sobre o estado das coisas; em nove entre dez casos, as palavras têm conseqüências: elas alteram o estado das coisas" (apud Leach, 1983, p. 140). Simplificando, no caso a "cantada" não só confirma como aumenta a beleza de seu alvo, o que predispõe, pela chamada "massagem no ego", a ceder aos apelos do galanteador, que, por meio dela, se torna avalista e mesmo fonte da beleza que proclama. Um outro modo de explicar a eficácia desta "massagem" é que a mula e a mulher, com afagos fazem o que o homem quer.


Sem pôr em causa a sinceridade do galanteador e a sensibilidade despertada por ele, tanto mais que a quem ama o feio bonito lhe parece, recorro a Mauss para uma compreensão mais abrangente do tema. Isto porque ele mostra com clareza que situações rituais - e fazer a corte é uma delas - exigem certas demonstrações por parte de seus atores. Em suas palavras: "... toda uma série de expressões orais de sentimentos não são fenômenos exclusivamente psicológicos ou fisiológicos, mas sim fenômenos sociais, marcados por manifestações não-espontâneas e da mais perfeita obrigação" (1979, p. 147). Neste quadro é imperativo não só elogiar a beleza das mulheres cortejadas mas, também, a de todas as noivas pois, se não há mulher formosa no dia da boda senão a noiva, conseqüentemente, todas as noivas são belas.


Como tudo na vida tem as suas nuances, a "lábia que massageia o ego" com seu alto potencial de sedução pode ser substituída ou complementada por outros atributos também eficazes. Refiro-me a coisas como fama, poder e dinheiro. Quando tais atributos se concentram numa só pessoa e, ainda mais, se somam àquela "lábia", não só tornam praticamente irresistíveis as investidas dos conquistadores, como "conquistas" se lhes oferecem. Assim é fácil compreender que, como a riqueza costuma gerar poder e fama, quem tiver dinheiro faz o que quiser.


Pela afinidade com os interesses deste trabalho, no Brasil, as chamadas loiras de jogador de futebol, ou marias-chuteiras, no geral namoradas por curtos períodos, loiras (naturais ou não) em moda nesta época, e bonitas por definição, que eles exibem juntamente com seus carrões, como emblemas ambulantes do alto status conquistado, ilustram bem o potencial de atração de mulheres bonitas e o de sedução de homens com dinheiro e fama. Tanto mais porque, como regra, eles são de extração social inferior a delas.


Falando a respeito do assédio que elas fazem aos jogadores, o treinador da Seleção Brasileira de Futebol, Luiz Felipe Scolari, disse que atualmente "as moças são mais liberais e desejam os craques por uma série de motivos. Os jogadores fazem ginástica todo o dia, têm pernas fortes, são jovens, possuem seus carros, jóias, dinheiro, aparecem na TV a toda hora. É esse conjunto que atrai as 'marias-chuteiras'." (Veja, 2001c, p. 14).


Já sobre o potencial de sedução do poder, como do político, Miller diz que "durante toda a história americana os presidentes têm apresentado uma tendência para praticar sexo de modo mais polígono que os homens com menor status político... [embora] músicos populares como Bob Marley e Mick Jagger têm a reputação de se comportarem de forma mais polígina que os presidentes" (2000, p. 88). Mesmo que nada informe quanto à beleza e fama de suas parceiras, a julgar por Marilyn Monroe, no caso do presidente John Kennedy e da modelo Luciana Gimenez15, no caso de Mick Jagger, consagradas publicamente como famosas e bonitas e, considerando o potencial de sedução de tais personalidades, dentre as mulheres atraídas por eles deve haver muitas outras que ostentam os mesmos atributos. O fato de Jagger ser 27 anos mais velho do que Luciana e, reconhecidamente feio, só faz ressaltar o poder de atração de uma personalidade rica e famosa como ele.


Embora com menor visibilidade e, seguramente em menor número do que os homens, mulheres com poder, riqueza e prestígio, mesmo com idade mais avançada, por estas credenciais também atraem homens jovens como parceiros sexuais. No passado, Elisabete I da Inglaterra e Catarina, a Grande, da Rússia, são bons exemplos. No presente, a imprensa fornece exemplos abundantes.


A propósito do tão divulgado affair do presidente Bill Clinton com a estagiária Mônica Lewinsky, que de modo muito enfático colocou em primeiríssimo plano o imenso poder de sedução de uma personalidade política de primeira grandeza, entendo oportuno o registro a seguir.


Pelo meu conhecimento, na única vez em que Mônica Lewinsky, na amplíssima cobertura jornalista deste assunto, foi identificada como judia, o foi para associá-la com uma judia bonita, que teve atuação decisiva para que os judeus, durante o cativeiro na Pérsia, não fossem exterminados por conta de intrigas palacianas, conforme já havia determinado o rei Xérxes. Refiro-me a Ester que, por ser bonita, satisfez a condição inicial para ser avaliada como possível esposa daquele rei, o que se sucedeu, tornando-se, portando, rainha. Tendo-a como referência, as associações judaicas costumam chamar de Concurso Rainha Ester seu mais importante concurso de beleza feminina. Que também é nome do título dado à vencedora.


A associação a que aludi há pouco foi que, devido à intensificação de procedimentos no processo que investigava aquele affair, a reunião do então primeiro ministro de Israel, Ehud Barak e do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, patrocinada por Clinton, para tratar do conflito Israel/Palestinos, foi suspensa, quando os dois primeiros já se encontravam em Washington, onde ela seria realizada. Como era dado por certo que Israel, pressionado pelos Estados Unidos, deveria fazer concessões importantes, a não realização da reunião evitou que tal sucedesse. Em razão disso Mônica Lewinsky foi chamada de a nova Rainha Ester.


Mesmo que certos atributos, entre eles a beleza, como acabamos de ver, favoreçam a escolha/obtenção de parcerias afetivas/eróticas, nem por isto os mais carentes de tais atributos estão condenados ao desamparo permanente neste campo das relações sociais. Pois sabemos todos, nunca faltará um chinelo velho para um pé torto, uma vez que, viver e casar, cada qual com seu igual.


Se pelo que já vimos e, numa espécie de redundância necessária, o bonito da mulher é ser bela, com homem pode se dar o inverso, já que o bonito do homem é ser feio. Os concursos para escolha do homem mais feio, que eventualmente aparecem na imprensa, se constituem em manifestação pública e ritual de tal entendimento. Em outro trabalho (Teixeira, 1988, p. 25), abordo a dinâmica de um destes concursos. Tanto pelo que já foi como pelo que será considerado, é impensável um concurso para a escolha da mulher mais feia.


Mais do que os fundamentos sociológicos de tais fatos, no meu entendimento, básica e simplificadamente, centrados no papel reprodutivo da mulher e de provedor (mesmo que parcial) do homem, que dá a ele uma posição dominante no relacionamento entre ambos, interessa a este trabalho um dado cultural associado àqueles fatos. Digo isto pensando na freqüente exaltação pública da beleza da mulher pelo homem e por ela própria, enquanto o inverso, pelos meus dados, se dá em escala muito mais reduzida. Meu referencial para tanto são letras de canções da música popular brasileira, ou MPB, como é freqüentemente referida em seu próprio meio e na imprensa, e anúncios de prostituição. Por entender que ambos são espaços privilegiados para àquela exaltação, conseqüentemente, também tenho por significativo o que eles mostram a respeito.


Examinei 155 letras16, da chamada MPB, das quais 144, de 43 autores e 11 de 3 autoras. Enquanto 27 das primeiras exaltavam a beleza feminina, nenhuma das segundas fazia o mesmo com a beleza masculina. A disparidade entre o número de autores masculinos e femininos examinados se deve, muito naturalmente, ao imenso predomínio dos primeiros.


Já, quanto à prostituição, examinei anúncios publicados em 12 dos principais jornais de 8 capitais brasileiras. Parte deles foram coletados para um trabalho anterior, mais centrado nos nomes utilizados pelas pessoas para se anunciarem (Teixeira, 1992), e serviram para estabelecer uma comparação com anúncios recentes. No que respeita aos interesses deste trabalho eles não apresentam variações significativas. Pelo mesmo interesse me reportarei basicamente aos dados estéticos anunciados.


Os prostitutos costumam indicar altura (nunca inferior a 1,75 m), peso (sempre proporcional), cor dos olhos e idade entre 18 e 25 anos. Muitos dizem que têm coxas grossas e/ou corpos sarados. Poucos se proclamam bonitos ou "gatos". Reforçando a imagem máscula se identificam por nomes "fortes", de uso tradicional na sociedade no Brasil e se dizem "bem dotados". No trabalho recém citado dedico todo um capítulo à semântica simbólica dos nomes usados em anúncios por prostitutos, travestis e prostitutas.


Os travestis costumam se apresentar como pessoas bonitas, quase sem fornecer outros dados. Se identificam por nomes do mesmo padrão utilizados pelas prostitutas.


As prostitutas, além de altura, peso, cor do cabelo e idade, predominantemente entre 18 e 22 anos, costumam acrescentar outros dados físicos, com destaque para o tamanho de bumbuns e seios. Com freqüência acrescentam informações completares sobre tais dados. Informam sobre comprimento/corte do cabelo, formato/consistência dos seios e bumbuns. Em geral são apresentados como "durinhos e arrebitados". É usual se proclamarem bonitas ou mesmo lindíssimas e comum indicar serem do tipo de certas mulheres bonitas e famosas do mundo dos espetáculos, arrogando-se mesmo a condição de sósias de tais personalidades. Com a intenção de compor um perfil de pessoas sofisticadas se identificam por nomes não convencionais, o mais das vezes grafados em desacordo com a ortografia do português. Fazem uso intenso de letras duplas, th e y. Embora com menor freqüência, também informam terem sido capa ou destaque de revistas do tipo Playboy, finalistas ou vencedoras de concursos de beleza. Algumas oferecem comprovação de tais informações. Casas noturnas também costumam publicar anúncios informando a contratação de pessoas com credenciais deste tipo.


Este último dado aponta para um fenômeno semelhante ao que se dá na área das artes, onde um atestado consagra ou desqualifica uma dada obra, pela simples afirmação de autoria distinta da até então aceita ou de comprovação ou não de proprietário anterior, sem que nada lhe seja acrescentado ou retirado. O último caso é muito bem desenvolvido por Price, em relação à chamada arte primitiva. Ela mostra que nos círculos intelectuais "... conta apenas as mãos Ocidentais pelas quais o objeto passou," para ele adquirir mais ou menos pedigree, pelo conhecimento que o proprietário anterior têm de arte (2000, p. 147). O mesmo se dá em relação à beleza das pessoas que fornecem aqueles indicadores externos de sua beleza. Assim, se vê que estes atestados têm imenso valor. No mesmo rumo das considerações de Malinowski sobre o poder das palavras, apresentadas anteriormente, eles condicionam os sentimentos que são desenvolvidos em relação às coisas e pessoas a que se referem.


As duas anedotas a seguir ilustram bem tal condicionamento. Ambas me foram contadas logo após o lançamento no Brasil do filme Instinto Selvagem (Basic Instint17), com Sharon Stone no principal papel feminino. Para quem não lembra ou não viu o filme, informo que nele sua personagem, uma desinibida, liberada e linda mulher, usando vestido curto, sem calcinha e sentada, com cruzadas e descruzadas de pernas, deixando aparecer a genitália, dominava os policiais que a interrogavam por suspeita de assassinato. Com o filme e, esta seqüência em particular, ela que já era reconhecida como mulher bonita teve ampliado este reconhecimento e foi consagrada também como símbolo sexual.


Primeira anedota:


Um homem comum fica sozinho com Sharon Stone numa ilha deserta. Passado algum tempo eles acabam transando. Em êxtase pelo ocorrido, ele convence-a a se vestir como homem. Para maior autenticidade lhe pinta um bigode e pede para ela contornar a ilha caminhando por uma dada direção, enquanto ele faria o mesmo, seguindo direção oposta. Como a ilha era pequena se aproximam pouco depois, caminhando um na direção outro. Quando já estão bem próximos, ele levanta os braços e, eufórico, diz para ela/ele:


- Preciso te falar uma coisa. Adivinha quem eu ando comendo, todos os dias.


- A Sharon Stone.


Respondeu ele mesmo, de imediato e exibindo um sorriso de plena satisfação.


Segunda anedota:


Com o mesmos personagens e nas mesmas circunstâncias. Depois de assediá-la durante um mês para transarem, sempre com respostas negativas, por fim ela cede, mas com uma condição. Que ele jurasse que, quando saíssem da ilha não contaria para ninguém terem transado. Ele rejeita a condição imposta dizendo que pouco lhe valeria comer uma mulher como ela, se não pudesse alardear o fato.


As mesmas anedotas circulam em diversas versões e sempre com símbolos sexuais femininos em evidência no momento.


As situações hipotéticas apresentadas pelas anedotas, de dar publicidade à transa com uma personalidade de tal quilate, ou de não poder fazê-lo, mostra que tal transa se afigura para o homem como uma proeza maior. Tão grande que ele deve torná-la pública para que possa colher os louros de provocar inveja e admiração. Isto põe em evidência um dado de primeira grandeza do imaginário sexual masculino: transar com uma personalidade deste quilate. No caso, o emprego do verbo "comer" ressalta o fato. Isto porque, no Brasil, quem "come" no relacionamento sexual assim como na disputa esportiva, domina quem é comido/comida. Fry aborda a questão no contexto das relações homossexuais nos cultos afro-brasileiros (1982, p. 67-68).


É bem sabido que a divulgação de um fato como este se dá na vida real para o autor da inconfidência colher louros pelo seu feito. Ainda que às custas da quebra do princípio da reserva mútua inerente à cumplicidade sexual e de uma afronta ao cavalheirismo. Bom exemplo encontra-se nas revelações do instrutor de equitação da princesa Diana, sobre o envolvimento sexual entre ambos. No caso, agravado duplamente: por ela já ter morrido e ele ganhar dinheiro com suas inconfidências. Para o homem comum da anedota e para o instrutor de equitação a proeza se torna maior ainda pela disparidade entre eles e suas parceiras. Não fossem as circunstâncias elas seriam "areia demais para os caminhõezinhos deles", para usar uma gíria atual e expressiva18.


Quando Sharon Stone declarou19 que após o imenso sucesso do filme, com a conseqüente consagração pública de sua atratividade, diminuíram os convites dos homens para ela sair com eles, ela confirma que tal atratividade pode ser inibitória para alguns. Já para outros, ela é estimulante. O assédio a homens e mulheres transformados em símbolos sexuais ilustra o caso. Como o acesso efetivo a tais celebridades sempre será infinitamente menor que a imensa atenção que elas despertam, isto estimula o acesso virtual. O que se dá, em especial, através de revistas de futilidades e eróticas, com destaque maior para as últimas, destinadas ao público masculino. Em linguagem mais livre, as chamadas revistas de mulher pelada. Sempre com fotografias de mulheres nuas em evidência como símbolos sexuais.


Embora a beleza seja condição necessária para alguém ser reconhecido como símbolo sexual ela não é suficiente para tal. Para isto é necessário que a pessoa em questão também exiba certos dados biográficos que concorram para tanto. No terreno da ficção, a já apresentada personagem interpretada por Sharon Stone é ilustrativa. Na vida real, é bom exemplo o caso de Vanessa Schütz, ex-namorada do tenista Gustavo Kuerten, o Guga, que justificando sua escolha para capa de um número de Playboy e, referindo-se ao mesmo, declarou: "ele me mostrou para a mídia, mas os olhos verdes e o bumbum são meus." (Zero Hora, 2000, p. 57).


Coerentemente com considerações já apresentadas, a exigência de beleza para o homem ser reconhecido como símbolo sexual pode ter peso menor do que se dá em relação à mulher.


Por trazer importantes considerações afinadas com os interesses deste trabalho é oportuno apresentar sentença judicial, em processo motivado por reprodução não autorizada de uma fotografia.


Em matéria sob o título "O problema é ser bela", a revista Cláudia (2000), registra que a atriz Maitê Proença entrou com uma ação judicial contra o jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, por ele haver reproduzido em 1996, em página inteira e sem sua autorização, uma foto em que ela está nua, pouco depois da mesma ter sido publicada pela revista Playboy. A atriz pedia indenização por uso indevido da imagem e por danos morais. A sentença saiu em 2000, determinando uma indenização de R$ 50.000,00 pelo uso da imagem e não reconhecendo danos morais. Explicando o porquê de sua decisão, o desembargador autor da sentença diz: "Fosse uma mulher feia, gorda, cheia de estrias, de celulite, de culote e de pelancas, a publicação de sua fotografia desnuda certamente lhe acarretaria um grande vexame [...] Tratando-se, porém, de uma das mulheres mais lindas do Brasil, nada justifica pedido dessa natureza." Reagindo a tal entendimento os advogados da atriz entraram com recurso e a presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher disse que, pela sentença, "é como se a mulher não tivesse o direito de dispor de seu corpo como quisesse" (p. 51).


O interesse generalizado dos homens pela mulher bonita como namorada/esposa/amante, tem expressivas manifestações tanto nos grupos populares como nos intelectuais. Na chamada "filosofia de caminhão"20 e na literatura poética encontram-se bons exemplos, como os que cito a seguir.


Marido de mulher feia odeia feriado.


Mulher feia é como ventania, só quebra galho.


Estrada reta é como mulher sem curvas, dá sono.


Teu corpo claro e perfeito,


- Teu corpo de maravilha,


Quero possuí-lo no leito


Estreito da redondilha... [...]


Teu corpo é tudo que brilha,


Teu corpo é tudo que cheira...


Rosa, flor de laranjeira


(Manoel Bandeira - Poemeto Erótico)


Mesmo ofendendo com rudeza as mulheres feias e com delicadeza exaltando a beleza da mulher, as sentenças populares e a poesia do erudito, no essencial, dizem a mesma coisa: a beleza da parceira é relevante para o sexo.


Como se dá com muitas outras coisas muito valorizadas, a beleza também pode envolver certos perigos. Daí, determinadas recomendações e cautelas para se tratar com todas elas, do tipo: não dar o passo maior do que podem as pernas; não ter os olhos maior do que a barriga; nem tudo que reluz é ouro. Enquanto as primeiras sentenças se reportam genericamente a tudo que pode ser desejado, a última se refere de modo específico a todas as expressões da beleza.


Porque este trabalho tem seus interesses centrados na beleza humana impõe-se considerar cautelas em relação a certos perigos representados por ela, em especial em determinadas áreas críticas, como na escolha de cônjuges, por ambos os sexos.


Beleza não põe mesa é uma advertência específica para as mulheres, nos grupos onde o homem deve ser o provedor do lar.


Já quem vê cara não vê coração21 é alerta para os homens, dizendo que os bons sentimentos de uma mulher podem compensar a beleza que ela não tem. Como se vê, discordo integralmente de Queiroz e Otta (2000, p. 45) que, ao considerarem esta mesma expressão, dizem que coração é um "eufemismo para bunda". Todavia, há um outro ditado que expressa integralmente este último entendimento: por causa de uma cara feia pode se perder um bom rabo.


Sem prejuízo de consideração anterior, que inclui entre as recompensas dadas às pessoas bonitas a confiança generalizada que recebem a priori, esta mesma beleza também pode despertar sentimentos opostos. Isto se dá quando se pensa que tal confiança é utilizada como instrumento de fraude. Tal situação, como se sabe, não só ocorre com freqüência, por parte de homens e mulheres, como tem sua lógica. Afinal, em especial na área da fraude, cada um faz uso dos instrumentos de que dispõe para atingir seus objetivos.


Todavia há uma desconfiança quanto à beleza que atinge exclusivamente as mulheres. Refiro-me à crença quanto a maior disponibilidade sexual das bonitas. Ovídio, especialista na arte de amar, pensa de modo semelhante quando afirma que "a formosura e o pudor não costumam andar juntos" (apud Manero, 1958, p. 97) O que, coerentemente com o que vimos, tem igualmente sua lógica. Afinal, como os homens se interessam mais por mulheres bonitas para parceiras sexuais, elas são mais assediadas. Assim, suas chances de também encontrarem parceiros que lhes agradem são maiores do que as das feias. Também contribui para o entendimento da questão ter presente que água mole em pedra dura tanto bate até que fura e que moça de hotel é como fruta verde, apertando amadurece22.


Um filme recente, com o título de Malena23, que também é o nome da sua principal personagem feminina, representada pela atriz Mônica Bellucci, apresenta muito bem aquela desconfiança. Ambientado numa cidade da Sicília durante a Segunda Guerra, a trama é centralizada nas agruras vividas por Malena, uma jovem e linda mulher, cujo marido foi para a guerra. Praticamente, e tudo por suposições, toda a população local inferniza sua vida, baseada na associação de sua beleza à sua pressuposta disponibilidade sexual, ampliada pela ausência do marido. Suposição tanto mais sem fundamento porque ela levava uma vida extremamente recatada em companhia do pai e sozinha, após a morte dele. Os homens a infernizavam pelo assédio sexual explícito; as mulheres, pelas ofensas, por acreditarem que seus maridos as traíam com ela, muito antes que, de fato, isto viesse a correr. O que se deu como recurso extremo para contornar carências materiais agudas ocasionadas pela guerra. Confirmado o caso, ela foi ofendida, fisicamente maltratada e expulsa da cidade.


Como conflitos desta ordem tendem a se manifestar em qualquer sociedade, "no passado, para evitar brigas dentro das aldeias Bororo, jovens solteiras muito bonitas e cobiçadas eram obrigadas a prestar serviços sexuais a todos aqueles que as desejassem... Em troca, essas moças..., ao engravidarem, tinham o direito de escolher um marido dentre os seus vários parceiros sexuais" (Viertler, 2000, p. 177).


A beleza também pode ser pensada como potencialmente perigosa porque pode despertar vaidade e inveja.


Na área da mitologia, as histórias de Narciso e Branca de Neve se constituem em bons exemplos. Os castigos sofridos por ele e pela madrasta de Branca de Neve indicam que, por mais que as sociedades valorizem a beleza, elas também fazem críticas a certos comportamentos despertados por ela.


Especificamente em relação à história da Branca de Neve entendo que sua inquestionável validade atemporal, sem entrar no mérito de interpretações psicanalísticas que apontam na mesma direção, como a de Bettelheim (2000), tem no castigo à vaidade, à inveja e à maldade e prêmio à beleza e à bondade, elementos de peso.


Ainda quanto à questão de vaidade em função da beleza, cito um caso de meu conhecimento pessoal que julgo importante. No final da década de quarenta do século passado, uma lindíssima adolescente, aluna interna num colégio de freiras no Rio Grande do Sul, foi obrigada a incluir em seu enxoval de internato uma camisola para tomar banho24. A explicação dada a seus pais para tal exigência foi de que, sendo ela muito bonita, poderia se impressionar com a própria beleza, o que seria um pecado. Registre-se que de todas as aproximadamente 60 alunas do dito colégio, tal exigência foi feita só para ela. Em tempos anteriores esta exigência se estendia a todas as alunas, e era regra em colégios do mesmo tipo, como norma de recato.


Como se depreende de muitos dados aqui apresentados, há como que uma necessária associação entre beleza e juventude. Por conseqüência, é coerente pensar que associação inversa se dá com a velhice.


A linha divisória entre juventude e não-juventude que interessa a este estudo é a socialmente traçada. Portanto, trata-se de fenômeno em que um dado da natureza é mediado pela cultura. Daí que o limite resultante desta mediação não só será sempre impreciso como também variável de um universo social para outro. Ainda assim juventude e não-juventude são categorias mobilizadas cotidianamente para regular assuntos importantes da vida sócio-cultural. Tudo em conformidade com a percepção que os operadores têm a seu respeito e de modo análogo ao que se dá com a operacionalização da beleza, considerado na introdução. Pelos interesses deste trabalho elas serão tomadas em exata conformidade com o entendimento de seus operadores.


Uma vez que é consensual na crítica literária o entendimento de que em boa medida os romances "espelham ou representam a sociedade, descrevendo os seus vários aspectos", como diz Antonio Cândido (1980, p. 10), e porque, como regra, os romancistas descrevem de maneira bem precisa a aparência física de seus personagens principais, eles se constituem em operadores estratégicos daquelas categorias.


Interessado pela beleza da mulher na literatura brasileira Queiroz Junior (2000) fez um levantamento sobre o tema que se mostra de utilidade para este estudo. Ele analisou onze romances publicados pela primeira vez ao longo de 114 anos, de 1844 a 1958. Em dez deles a principal e bela personagem feminina se situa na faixa do 15-20 anos (p. 139, 142). Escultores e pintores são pródigos em exemplos da mesma ordem. Por emblemáticos, basta citar os casos de Miguel Ângelo com Davi e Sandro Botticelli com o Nascimento de Vênus.


No universo das pessoas reais os exemplos da associação de beleza com juventude são igualmente numerosos e convincentes. Por também serem emblemáticos é suficiente citar os casos de modelos e concorrentes em concursos de beleza, os dois para ambos os sexos. Tanto assim que, modelos (de moda e fotográficos), em especial femininos, com mais de 25 anos são raridades, e concorrentes em concursos de beleza, quase que por definição, têm até 23 anos25. Shakespeare contribui para o entendimento do tema quando diz que "a juventude é mais eloqüente que um mensageiro de aspecto grave" (apud Manero, 1958, p. 517). Os eventuais concursos de beleza para pessoas mais velhas, em geral com idade acima dos 50 anos, do tipo Miss Terceira Idade, como verdadeiras caricaturas dos concursos sérios, não chegam a se constituir em exceções que confirmam a regra. Tais eventos se apresentam como caricaturas porque quando não têm a marca da jocosidade têm a do ridículo.


Continuando com a associação idade/estética é oportuno ter presente que, ao contrário do que se dá com a juventude, que é condição necessária para a beleza, a velhice se apresenta como condição quase que suficiente para sua ausência. Condição esta que se intensifica à medida que a idade avança. A razão para isto é evidente: a velhice, que deteriora o corpo, acentua o que já não era belo ou lhe retira a beleza que ostentava. O amplo repertório de juízos consagrados a respeito de tais metamorfoses é indicador da intensa atenção que elas despertam. Refiro-me a juízos do tipo: parece outra pessoa; está irreconhecível; que pena, era tão linda; no seu tempo, encantava a todos; não guarda mais nada do que foi. Daí ser congruente que as revistas de futilidades e as secções de crônicas da vida mundana presentes na quase totalidade dos jornais, reservem os adjetivos de belas, lindas, etc. para a mulheres jovens e elegantes, chiques, charmosas, etc, para as mais velhas.


O escritor Luis Fernando Veríssimo contribui de modo exemplar para o entendimento da questão quando diz que "sobre o que o tempo faz com as celebridades ninguém escreveu coisa mais pungente do que o ator David Niven. Contou que um dia foi examinado longamente dentro de um elevador por uma mulher, que finalmente não se conteve e perguntou:


- Você não era o David Niven? (Zero Hora, 2001a, p. 3).


Para bem dimensionar o sentido da associação idade/estética chamo a atenção para o fato de que ela enfoca as noções de juventude e velhice como sendo questões de mérito e não de biologia. Por conta disto, moço/moça e velho/velha, como vocativos, podem ser entendidos como elogios26 ou ofensas27.


Tais coisas concorrem para validar o entendimento do escritor austríaco Robert Mussil (1880-1942), quando diz que "nenhuma fronteira atrai mais para a escamoteação do que a fronteira da idade" (Caras, 2001, p. 37).


Mesmo sendo este um estudo centrado na beleza ou, talvez por isto, vejo como oportuno confrontá-la com seu oposto, em torno de uma noção que julgo importante. Tenho em mente as associações de feiúra com sentimentos de maldade e falsidade e de beleza com sentimentos de justiça, de verdade, de perfeição moral. Tudo muito afim com a concepção platônica de beleza. A multiplicidade das manifestações que expressam estes sentimentos em universos sociais tão distintos como Grécia Clássica, sociedades ágrafas28 e industrializadas contemporâneas, mais do que atestar a abrangência e perenidade de tais associações apontam para sua essencialidade. A abundância e a utilização regular dos veículos que as propagam apontam na mesma direção.


Bruxas, feiticeiras, vilões de histórias infantis, incluídos aí também desenhos animados; o velho do saco, invocado para inibir teimosias de crianças; todos personagens feios e maldosos por definição, assim como chamar o pai ou a mãe de feio/feia, como forma de consolar uma criança por contrariedade provocada por algum deles, são modos de mobilizar a feiúra com tais associações no meio infantil. Vê-se, assim, que isto já se faz presente muito cedo no processo de socialização.


No mundo dos adultos bom exemplo é fornecido pelas lutas de catch, como mostra Barthes. Suas palavras mostram na plenitude como tudo se dá.


Thauvin, qüinquagenário obeso e flácido, cuja hediondez..., expõe, na sua carne, as características do ignóbil, visto que seu papel é figurar no conceito clássico do "salaud"29 (conceito-chave de todos os combates de catch), que se apresenta como organicamente repugnante.


Ele completa dizendo que na luta esta criatura tão feia não decepcionará os espectadores: executará "[... ] todos os gestos de uma certa baixeza... para preencher a imagem do mais repugnante dos 'salauds'" (1982, p. 13).


Já príncipes, princesas, fadas, heróis e outros personagens de histórias infantis, também por definição, bonitos, verdadeiros, justos, assim como estimular crianças a conter o choro dizendo que menino/menina bonito/bonita não chora, mobilizam a associação de beleza com sentimentos positivos no meio infantil e, também, desde muito cedo.


A representação dos heróis faz o mesmo, porém para um universo etário mais amplo, que se inicia com o começo da escolaridade e segue pela vida afora.


Vinculei tal fato às primeiras etapas da vida escolar pensando em especial nos livros textos, que abordam a respectiva história nacional de qualquer país. Neles há uma plena compatibilidade entre as virtudes dos heróis e suas representações icnográficas, nos termos aqui propostos. O exame de tais livros mostra que heróis não podem ser feios, nem de conduta na vida, nem de fisionomia. Ou, dito de outro modo, os heróis devem ser bonitos, nos dois sentidos. Daí que tudo de negativo/feio que eles possam apresentar são suprimidos ou suavizados em suas representações. Pois, como afirma Virgílio, "mesmo a virtude é mais formosa em um corpo formoso" (apud. Manero, 1958, p. 99). Assim é inerente a todas as representações que eles sejam apresentados como personalidades bonitas e/ou corretas, dependendo dos veículos para tanto utilizados.


Na representação dos santos, como uma espécie de heróis que são, é natural que tais cânones também se façam presentes. Fagundes (1987), aborda o tema através do caso de três mulheres belas, bondosas e que mesmo sendo tidas como prostitutas ou sexualmente promíscuas, foram "canonizadas pela devoção popular." Ele mostra que o sofrimento pelo assassinato com crueldade de que foram vítimas ainda quando jovens, redimiu-as da falha de conduta. Para tanto buscou suporte teórico na noção dos poderes místicos dos fracos, desenvolvida por Victor W. Turner30.


Os filmes da série 007, através de seu agente James Bond, se constituem em casos emblemáticos da representação de heróis em tais moldes. De fato, este personagem, independente do ator que o represente, é um tipo saudável, de compleição mediana ou pouco maior, astuto, corajoso e bonito. Tanto mais que, mesmo se envolvendo em lutas e peripécias, sempre sai delas incólume e se mantém alinhado e bonito. Quer enfrente brutamontes ou situações de alto risco, vence tanto pela coragem, inteligência e habilidades, como pela justeza das causa que defende. É a legitimidade desta que lhe concede o direito de matar, o que faz com freqüência, naturalidade e aprovação geral dos espectadores. Certamente que o sucesso mundial destes filmes tem muito a ver com tais coisas.


Não obstante as associações de beleza a sentimentos positivos se apresentarem como coisas naturais, as belas espiãs com as quais James Bond invariavelmente se envolve, embora sempre as domine, tornam oportuna a observação de Tolstoi, de que "é uma estranha ilusão acreditar que a beleza é bondade." (apud Manero, 1958, p. 99). Os freqüentes registros nas páginas policiais dos jornais de que pessoas bonitas, por não despertarem suspeitas, tiveram facilidades para cometer delitos, inclusive muitos graves, caminha na mesma direção.


Encerro esta questão e este trabalho me reportando às considerações do escritor e historiador Moysés Vellinho a respeito da representação icnográfica do herói Rafael Pinto Bandeira31. Diz ele:


A tradição oral pinta-nos o guerrilheiro... Estatura avantajada... de invencível irradiação. Nem de outra forma lhe era possível fazer-se valer perante seus homens,... que ele mesmo recrutava, e com eles construir a vibrante história de sua vida... Essa, não outra, a imagem a ser resgatada, do emaranhado dos feitos históricos, pelo poder da recriação da arte. [...] Mas, por desgraça, a figura que hoje se mostra como a dele, único testemunho icnográfico do grande campeador - aquela cara balofa e estúpida, sob o bicorne ridículo, enterrado até os ombros - é a única que circula, [...] numa verdadeira afronta à representação votiva do chefe ardente e astuto, cujos golpes e ardis, eram o constante tormento dos espanhóis. [...] Não há dúvida que a tacanha figura que corre mundo como se fosse a imagem de Rafael Pinto Bandeira nada tem a ver, sob o ponto de vista da verossimilhança histórica, com o herói de tantos... feitos que a epopéia das nossas lutas de fronteira deve ao campeador rio-grandense. (1975, p. 142-145).


Tais considerações sobre a representação icnográfica de Rafael Pinto Bandeira são consistentes com o entendimento de Weber a respeito da dominação carismática: ele inclui a beleza dentre os atributos pessoais que podem ser mobilizados para exercitá-la (1991, p. 158-159).


O poder de recriação da arte, que Vellinho reclama para a representação de Pinto Bandeira, não faltou naquela que, possivelmente, é a mais célebre representação de um episódio da história política do Brasil: O Grito do Ypiranga, pintura de Vitor Meireles de Lima (1832-1903), que representa a Proclamação da Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, pelo Príncipe Regente, Dom Pedro.


Além de ser fácil de imaginar que no curso de uma viagem em montaria, por mais de 400 km, quando ele deu o Brado de Independência ou Morte, que o Príncipe e sua comitiva não deveriam apresentar muito boa aparência e animação32, é sabido que o mesmo, na oportunidade, montava uma mula. Se esta era sua montaria, provavelmente, ao menos alguns de seus acompanhantes também não deveriam montar cavalos. No entanto, no quadro que representa o episódio, não só o Regente, como todos os demais, alinhadamente vestidos, montando belos cavalos33, com porte altivo e com ele à frente, compõem um belo quadro. Vestimentas alinhadas e belas montarias, juntamente com os gestos e rostos dos personagens são elementos importantes utilizados pelo artista para compor a solene altivez dos personagens e a grandiosidade do episódio, essencial para a composição épica pretendida e alcançada por ele.


1

O que não impediu a utilização de tais dados para trabalhos relevantes como os de Lévi-Strauss, sobre sistemas de classificação.

2

No transcorrer de uma viagem de Lisboa para Luanda.

3

Tive o cuidado de anotar suas palavras.

4

Pequenas irregularidades na superfície do mármore, provocadas pela ação do tempo.

5

Por consumir mais energia para crescer, cuidados com limpeza e dificultar a fuga de predadores.

6

Na região de Porto Seguro, no litoral sul do Estado da Bahia.

7

O exemplar aqui utilizado é o publicado por Castro (2000).

8

Não registra o ano da primeira edição.

9

Por tratar-se de obra rara e, com o intuito de colaborar com eventuais interessados na mesma, informo que o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, dispõe de um exemplar.

10

Entendidas em seu sentido literal, de mudanças de formas, para outras julgadas mais bonitas.

11

Forças Revolucionárias da Colômbia.

12

Nascida em 16/10/1916, em Pelotas, no Rio Grande do Sul.

13

Agradeço a boa vontade dos responsáveis por aquele trabalho, que me permitiu fazer este acréscimo.

14

Ocupando um dos primeiros bancos, acompanhei todo o episódio e registrei as palavras que foram ditas.

15

Cito esta por tratar-se de caso recente e muito divulgado pela mídia.

16

Escolhidas aleatoriamente.

17

De Paul Verhoeven, Estados Unidos, 1992.

18

Expressa a idéia de que alguma coisa ultrapassa a capacidade de alguém para obtê-la.

19

Li em jornal que não registrei, pois na época o assunto não era de meu interesse

20

Frases/provérbios escritos nas traseiras dos caminhões, sobre os mais diversos assuntos. Presentes na maioria dos caminhões, foram proibidas pelo Código de Trânsito Brasileiro em vigor desde 1998, como medida para prevenir acidentes nas estradas, sob a alegação de que o interesse por sua leitura desviava do trânsito a atenção dos motoristas que seguiam atrás.

21

Tenho presente que esta expressão pode se aplicar a outras situações que não a escolha de esposa.

22

Ditado turco.

23

De Giusepe Tornatore, Itália, 2000.

24

Ela disse que nunca usou a camisola. Simplesmente molhava-a por ocasião do banho.

25

Digo isto com base em levantamento feito em 27 destes eventos, realizados entre 1998 e 2001, sendo 22 no Brasil e 5 no exterior.

26

Vale como exemplo fato ocorrido no mesmo dia em que desenvolvia este tópico. Disse para uma colega (com idade aproximada de 50 anos), de academia de ginástica que determinado exercício era adequado para uma guria nova como ela. Encantada, ela respondeu: - Guria nova! Ganhei o dia.

27

O uso de expressões tidas por politicamente corretas para designar velhice e velhos, como terceira idade e idosos, se constituem em eufemismos para mascarar o sinal negativo vinculado a velho.

28

Viertler aborda manifestações do tema em sociedades indígenas no Brasil (2000, p. 158-160).

29

"Termo da gíria francesa que designa o canalha, o vilão, o indivíduo desprovido de escrúpulos e capaz de qualquer baixeza."

30

Ver Turner, V. (1974).

31

Trata-se de personagem histórico (1740-1794), nascido e morto em território então sob o domínio de Portugal e hoje território do Estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil. Ele destacou-se como maior chefe militar sob a égide Portugal, nas disputas com a Espanha, pela posse daquele território, na segunda metade do século dezoito. Foi sempre um vencedor.

32

Situação agravada no caso de Dom Pedro, pelos desconfortos de complicações intestinais na ocasião.

33

Em outro trabalho (Teixeira, 1997), discuto porque, como regra muito geral, nas pinturas e estátuas que representam heróis, eles montam cavalos não castrados.

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______. Porto Alegre, 14 out. 2001c.

1 O que não impediu a utilização de tais dados para trabalhos relevantes como os de Lévi-Strauss, sobre sistemas de classificação. 2 No transcorrer de uma viagem de Lisboa para Luanda. 3 Tive o cuidado de anotar suas palavras. 4 Pequenas irregularidades na superfície do mármore, provocadas pela ação do tempo. 5 Por consumir mais energia para crescer, cuidados com limpeza e dificultar a fuga de predadores. 6 Na região de Porto Seguro, no litoral sul do Estado da Bahia. 7 O exemplar aqui utilizado é o publicado por Castro (2000). 8 Não registra o ano da primeira edição. 9 Por tratar-se de obra rara e, com o intuito de colaborar com eventuais interessados na mesma, informo que o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, dispõe de um exemplar. 10 Entendidas em seu sentido literal, de mudanças de formas, para outras julgadas mais bonitas. 11 Forças Revolucionárias da Colômbia. 12 Nascida em 16/10/1916, em Pelotas, no Rio Grande do Sul. 13 Agradeço a boa vontade dos responsáveis por aquele trabalho, que me permitiu fazer este acréscimo. 14 Ocupando um dos primeiros bancos, acompanhei todo o episódio e registrei as palavras que foram ditas. 15 Cito esta por tratar-se de caso recente e muito divulgado pela mídia. 16 Escolhidas aleatoriamente. 17 De Paul Verhoeven, Estados Unidos, 1992. 18 Expressa a idéia de que alguma coisa ultrapassa a capacidade de alguém para obtê-la. 19 Li em jornal que não registrei, pois na época o assunto não era de meu interesse 20 Frases/provérbios escritos nas traseiras dos caminhões, sobre os mais diversos assuntos. Presentes na maioria dos caminhões, foram proibidas pelo Código de Trânsito Brasileiro em vigor desde 1998, como medida para prevenir acidentes nas estradas, sob a alegação de que o interesse por sua leitura desviava do trânsito a atenção dos motoristas que seguiam atrás. 21 Tenho presente que esta expressão pode se aplicar a outras situações que não a escolha de esposa. 22 Ditado turco. 23 De Giusepe Tornatore, Itália, 2000. 24 Ela disse que nunca usou a camisola. Simplesmente molhava-a por ocasião do banho. 25 Digo isto com base em levantamento feito em 27 destes eventos, realizados entre 1998 e 2001, sendo 22 no Brasil e 5 no exterior. 26 Vale como exemplo fato ocorrido no mesmo dia em que desenvolvia este tópico. Disse para uma colega (com idade aproximada de 50 anos), de academia de ginástica que determinado exercício era adequado para uma guria nova como ela. Encantada, ela respondeu: - Guria nova! Ganhei o dia. 27 O uso de expressões tidas por politicamente corretas para designar velhice e velhos, como terceira idade e idosos, se constituem em eufemismos para mascarar o sinal negativo vinculado a velho. 28 Viertler aborda manifestações do tema em sociedades indígenas no Brasil (2000, p. 158-160). 29 "Termo da gíria francesa que designa o canalha, o vilão, o indivíduo desprovido de escrúpulos e capaz de qualquer baixeza." 30 Ver Turner, V. (1974). 31 Trata-se de personagem histórico (1740-1794), nascido e morto em território então sob o domínio de Portugal e hoje território do Estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil. Ele destacou-se como maior chefe militar sob a égide Portugal, nas disputas com a Espanha, pela posse daquele território, na segunda metade do século dezoito. Foi sempre um vencedor. 32 Situação agravada no caso de Dom Pedro, pelos desconfortos de complicações intestinais na ocasião. 33 Em outro trabalho (Teixeira, 1997), discuto porque, como regra muito geral, nas pinturas e estátuas que representam heróis, eles montam cavalos não castrados.

Datas de Publicação

 Publicação nesta coleção

20 Set 2005

 Data do Fascículo

Dez 2001

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Corporeidades silenciadas: reflexões sobre as narrativas de mulheres violadas Corporealities silenced: reflections about the narratives of violated women Jane Felipe Beltrão Camille Gouveia Castelo Branco Barata Mariah Torres Aleixo Sobre os autores » Resumo » Abstract » Text» De traduções olvidadas e diálogos “surdos” » Os segredos da escuta » O veneno da dor » As categorias sobre violência: enredamentos na narrativa das mulheres » As categorias relativas à agência: a resistência das/entre mulheres » Entre oitivas e traduções » Por diálogos e justiças » Referências bibliográficas » Datas de Publicação » Histórico Resumo Refletir sobre as formas de narrar as violências enfrentadas por indígenas e quilombolas mulheres/mulheres indígenas e quilombolas é a proposta do texto para discutir a possibilidade de tradução etnográfica das categorias nativas em confronto com as categorias acadêmicas para referir as mulheres em situação de violência, identificando as agências das protagonistas. indígenas; quilombolas; violência Abstract Reflect about the ways of narrate the violence faced for indigenous and maroons women/women indigenous and maroons is the propositions of the article to discuss the possibility of ethnographic translation of native categories in confrontation with the academic categories to refer women in violence situations, identify the agencies of the protagonists indigenous; maroons; violence De traduções olvidadas e diálogos “surdos” No ensaio que hoje pode ser considerado clássico para o que se convencionou chamar Antropologia Jurídica ou Antropologia do Direito2 , Geertz (2013) enuncia que o Direito é construído à luz de saberes e artesanatos locais, isto é, tem a ver com a cultura na qual ele tem vida, onde “funciona.” Segundo o autor, há diversos sentidos de direito e justiça – o que ele denomina de sensibilidades jurídicas – as quais, no contexto contemporâneo, são obrigadas a conversar, em suas palavras, “... uma iluminando o que a outra obscurece.” (2013, p. 237) De acordo com essa afirmação, o estudo e a prática do Direito devem ser feitos por meio da tradução cultural, buscando compreender as sensibilidades jurídicas que estão em jogo nas contendas, seja aquelas levadas à justiça estatal, seja as que são discutidas e resolvidas à luz das normas comunitárias e, principalmente, as que caminham na fronteira entre tais normatividades. Partimos desse pressuposto para compreender as maneiras pelas quais mulheres indígenas e quilombolas/indígenas e quilombolas mulheres3 da Amazônia paraense resistem às violências do cotidiano e perscrutar suas sensibilidades em meio às situações de violência. Não se trata aqui de analisar estratégias de movimentos de mulheres indígenas e/ou quilombolas para conseguir alcançar suas reivindicações políticas, o que não deixaria de ser importante objeto de reflexão, mas sim de entender as próprias corporeidades das protagonistas como estratégias de resistência. Esta última, que pode parecer mais individualizada e circunstancial num primeiro olhar, ganha contornos coletivos quando se observa o compartilhamento de histórias, as redes de ajuda e solidariedade criadas pelas mulheres, entre outras agências, como veremos a seguir. Temos em conta que esse diálogo entre noções de justiça não ocorre com paridade de armas, pois o Estado brasileiro se constituiu olvidando etnicidades e engendrando políticas de homogeneização e integração dos grupos diferenciados à “sociedade nacional.” A conversa entre as sensibilidades jurídicas no país ocorre na forma do que Yrigoyen Fajardo (2011) denomina pluralismo jurídico subordinado colonial, isto é, de modo a não reconhecer noções de direito que não sejam as provenientes do Estado. Quando se pensa em questões relativas às mulheres etnicamente diferenciadas a questão se complexifica. A promulgação de leis específicas às mulheres, que consideram a violência como crime4 , fruto de anos de reivindicações e estudos promovidos por organizações e coletivos feministas, diz pouco sobre diferenças de ordem cultural, étnica e racial. Diante disso, compreender noções de violência bem como as estratégias de resistência das protagonistas se impõe. Os segredos da escuta Assim, nosso objetivo é refletir sobre as formas de narrar a violência que atinge os corpos das interlocutoras que pertencem a povos indígenas e coletivos quilombolas e debater acerca das possibilidades de tradução etnográfica a partir da identificação das categorias nativas que compõem a enunciação das interlocutoras, considerando as diferenciadas noções de justiça presentes entre as mulheres que emprestam seus depoimentos às autoras do texto. Para alcance dos objetivos, procura-se compreender como se dá a construção da corporeidade entre as mulheres indígenas e quilombolas/indígenas e quilombolas mulheres, pela possibilidade de demonstrar como o corpo se apresenta entre elas como território privilegiado de resistência e luta. A marca do presente trabalho são as reflexões que ressaltam e problematizam as categorias que integram a epistemologia e o olhar nativo sobre corpo e violência. Para os limites da reflexão proposta, é importante esclarecer que os depoimentos oferecidos pelas interlocutoras foram ditos às pesquisadoras em diversos momentos, os quais compreendem um lastro de 15 anos de pesquisa, sem que estas tivessem a intenção de trabalhar especificamente violência e violação de corpos, entretanto, os depoimentos foram como que aflorando pela impossibilidade – estatal e/ou comunitária – de oitiva das mulheres em situação de violência. Selecionou-se depoimentos de mulheres indígenas pertencentes aos povos Tembé Tenetehara5 , hoje moradores do município de Santa Maria do Pará, Xipaya6 e Kuruaya7 que vivem no médio Xingu e, no caso das quilombolas, selecionamos as interlocutoras moradoras das diversas comunidades localizadas no arquipélago do Marajó, também no estado do Pará. Destacam-se trajetórias e memórias que marcam de modo indelével o etnocídio praticado via colonização (Beltrão, 2012), que até o presente atinge os corpos e as vidas de pessoas indígenas e quilombolas via colonialidade.8 Nesse sentido, é latente na narrativa das interlocutoras a referência ao processo de expulsão territorial, sequestro de crianças indígenas e quilombolas pela ação missionária e/ou do Estado, tentativas reiteradas e violentas de genocídio, em face da tentativa de homogeneização e apagamento das pertenças. Vale, porém, ressaltar que a colonialidade incide de forma específica e brutal necessariamente sobre os corpos das mulheres, pois esta, segundo Lugones (2008) , se instituiu também como colonialidade gênero, que instituiu o sistema de gênero colonial/moderno, baseado nas dicotomias homem/mulher e público/privado, como o padrão. Isso ocultou sistemas de organização dos “mundos sexuais” nativos, em que muitas vezes as fronteiras entre masculino e feminino eram fluídas e as mulheres exerciam papéis importantes na vida coletiva. Não tratamos aqui de perscrutar esses sistemas “originais” e nem acreditamos que, hoje, isso seja possível. Porém, importa ter isso em consideração para um olhar etnográfico mais apurado. O ponto nevrálgico, locus em que os caminhos etnográficos se tornam mais “nebulosos”: ter o corpo marcado, como é o caso de indígenas e quilombolas mulheres/mulheres indígenas e quilombolas, pela violência física e sexual, muitas vezes infringida pelos próprios “parentes”, ou ainda por pessoas não indígenas e quilombolas, fato que mobiliza sentimentos como dor, sofrimento e vergonha. A possibilidade de ouvir (com tudo o que o ato da escuta representa para a Antropologia) implica em cuidados9 redobrados na interpretação de atos e falas que não são ditos a qualquer pessoa, nem em qualquer lugar. Os processos de violação dos corpos, vividos como eventos devastadores, segundo as interlocutoras, também formam seus modos de narrar, de liderar e de agir politicamente. De alguma forma, somos “ouvintes” privilegiadas, considerando a confiança com a qual fomos brindadas, portanto nosso compromisso com a ocultação das identidades é fato. O veneno da dor Veena Das (2008a), em seus escritos, problematiza a correlação entre dor e linguagem. Segundo a autora, por meio da expressão da dor, é possível sair da privacidade sufocante que ela produz na vítima. De acordo com Das (2008a), eventos devastadores produzem um tipo de conhecimento que só é alcançado pela experimentação do sofrimento, um conhecimento venenoso. Portanto, violências extremas não seriam apenas responsáveis pela destruição de vidas e corpos. Atuam, também, na construção de sujeitos e linguagens da dor. A enunciação da dor pede, portanto, admissão e reconhecimento, o que nem sempre ocorre. Trata-se, nos termos da autora, de sentir a dor no corpo do outro. Essa é a proposta ao fazer antropológico, requisitado de forma envergonhada, mas insistente por nossas interlocutoras. De acordo com Michael Taussig (1993), a reprodução da imagem dos povos indígenas como selvagens, irracionais e violentos é o que possibilita a propagação do terror colonial. E no caso dos coletivos quilombolas a estratégia de resistência e luta dos negros é imperdoável ao mundo colonial, afinal, os africanos são equiparadamente considerados, como os indígenas, pessoas desprezíveis. Trata-se uma operação mimética por parte do colonizador, que conduz a atos de extrema violência, não importando se esse imaginário é verdadeiro ou não. As culturas do terror criam, desse modo, o que o autor denomina como espaços de morte, nos quais indígenas, africanos e brancos viram nascer o Novo Mundo. Segundo Taussig (1993) o terror é o mediador por excelência da hegemonia colonial e acrescenta-se da discriminação presente em nossa sociedade. O autor afirma ainda que “... as culturas do terror são nutridas pelo entremesclar do silêncio e do mito.” (Taussig, 1993, 30) Os efeitos paralisantes e silenciadores do terror encontrariam na narrativa sua primeira possibilidade de cura. Quando decidiram falar sobre as violências que marcaram de forma mais ou menos severa suas trajetórias, nossas interlocutoras começaram a vencer a primeira imposição do terror, o silêncio. Como diz Maria Aparecida, quilombola, que por ser estudante universitária, escreveu seu depoimento: “não vou falar e também nunca escrevi, mas faço [o texto] porque não consigo explicar porque aconteceu comigo, talvez não haja explicação, e mesmo que tivesse jamais iria me fazer esquecer aquele homem imundo que me rasgou e tudo que aconteceu comigo. Neste caso, a forma de prevenção pra que não possa acontecer com outras mulheres é contar e contar do massacre que sofri. Mas para isso tenho que ter coragem para dar o testemunho, mas tenho muita vergonha por isso escrevo. Peço que a senhora conte, leve adiante, o massacre não pode continuar.” Para compreender o que diz Taussig (1993), traz-se à consideração e em complemento à Maria Aparecida, o depoimento de Maria Dolores, de pertença Kuruaya, que narra seu pânico no dia da violação, praticada dentro de sua casa, na frente do marido e das filhas, que à época tinham respectivamente oito anos e dois anos: “Dormi, como todas as noites, com meu marido e minhas filhas na minha cama. De madrugada acordei e levei o maior susto da minha vida, me deparei com um homem passando da sala pra cozinha, pois a porta do quarto ficava entre aberta durante a noite, então no primeiro momento imaginei que pudesse ser alguém de fora, pensei que fosse meu marido, então olhei na cama e vi as meninas e ele, percebi que tinha alguém na casa e não era o meu marido, ele dormia com as crianças. Logo depois minha filha de oito anos acordou e percebeu que eu estava bastante assustada e nervosa, então falei que tinha alguém na casa, pedi que ela não fizesse escândalo. Na hora, eu só pedia a Deus proteção pra minha família e, ao mesmo tempo, sem saber o que fazer e como agir naquela situação de angústia e muito muito medo.” Na sequência dos acontecimentos, Dolores se apercebe do perigo e evoca Deus: “... com toda Tua sabedoria me traz tranquilidade e, nas minhas orações, pedi que Deus fizesse aquela pessoa ter compaixão e não fizesse nada com meu marido e com as minhas filhas, eu coloquei minha vida nas mãos Dele. Eu dizia: Deus coloco minha família em suas mãos me proteja e me ilumine nesta noite, pois sei que corro perigo, me abençoe, te peço em amém. Dona a senhora já teve medo?” Dolores prossegue a narrativa, ofegante, e esclarece, “... agradeço todos os dias a Deus, eu esqueci parcialmente o fato, só que por mais que os anos passem, eu não consigo falar com as pessoas sobre o assunto, por medo e até mesmo vergonha.” O relato foi adiante, entrecortado pelo choro às vezes discreto, outras vezes convulsivo a ponto de interromper a narrativa. Ela segurava as minhas mãos10 com força, de certo ainda sentia pânico e as marcas corporais que se apresentavam vivas, intensas! O relato é bastante longo, mas importante para compreensão da dor, silenciada pelas circunstância e sobretudo pela vergonha. Diz a Kuruaya: “... trabalhei o dia inteiro, sou professora no bairro dos índios, local tomado pela violência. Nunca tive medo de nada. A casa é pequenininha. Toda noite eu tenho o costume de verificar portas e janelas, e nesse dia não foi diferente, entretanto nunca imaginei que alguém pudesse entrar na casa de alguém pelo telhado, por onde entrou o bandido. Quando me dei conta do perigo fingi que estava dormindo e observei por baixo do travesseiro que ele [o bandido] se aproximava e logo entrou no quarto meio agachado, ficando em volta do berço da minha filha. Chegou perto da cama e pôs a faca no meu pescoço, daí eu gritei e ele se debruçou em cima da cama fazendo ameaças, dizendo pra não gritar se não iria matar todo mundo caso eu não trepasse [mantivesse relações sexuais] com ele.” Dolores informou que ele estava visivelmente muito perturbado andando de um lado para o outro, parecia não saber o que fazer, aparentando transtornos. Tinha aparência de drogado, exalava mal cheiro, mas não parecia bêbado e nem cheirava a álcool. Ela continua: “... depois da ronda pela casa, ele saiu um momento do quarto e eu disse ao meu marido finge que dorme e cuida das meninas, pois ele vai voltar. Minha filha que estava acordada chorava muito e falei pra ela ficar bem caladinha como se estivesse dormindo foi o que ela fez, ficou quietinha abraçada à irmã e ao pai. Ele voltou e me obrigou a manter relações sexuais com ele. Sem saber o que fazer, pedia ajuda a Deus. Aquilo foi uma humilhação muito grande, na minha cama, com o meu marido vendo tudo e as minhas filhas então? Até hoje não sei “transar” como antes, a lembrança me perturba, tenho problemas, passo mal, meu marido não se conforma, reclama. Temo que me abandone por isso. Com os olhos distantes, como se voltasse à cena do crime, Dolores informa: “... pela conversa dele, percebi que ele não falava coisa com coisa, às vezes parecia tranquilo, daí a pouco se exaltava e com a faca na mão, junto do meu pescoço. Que medo! Quando ele falou que iria fazer sexo comigo, tornei a me apavorar e, na hora, pensei na família e o quanto seria pior se fossem com as minhas filhas, pensei que era melhor eu ceder do que ele fazer algo pior conosco, ele sentou na cama e falou que não era pra eu gritar, era melhor pra mim. Ele se serviu de mim duas vezes e perguntava, gostou cachorra, tu foste pega no dente, índia é tudo assim ... Eu desesperei, além de me usar me humilhava e minhas filhas e meu marido assistindo, acho que a pequena não acordou, nem sei ... quando percebi que ele tinha saído da minha casa parece que o mundo caiu sobre mim, não tinha reação de nada lembro que peguei o celular, mas não tinha condições de ligar pra ninguém, acho que ainda não tenho mundo.” Abalada, Dolores confessou que teve dificuldade de identificar o criminoso, mas o fez. Ele respondeu processo e foi condenado, o fantasma à época era a saída do agressor da cadeia. Ela ainda vive aos sobressaltos, pois se aproxima o final do cumprimento da pena. As categorias sobre violência: enredamentos na narrativa das mulheres Nos diálogos estabelecidos com as interlocutoras é possível detectar em seus depoimentos e mesmo discurso de indígenas e quilombolas, uma série de categorias a respeito de eventos que, do ponto de vista antropológico, poderiam ser definidos analiticamente como situações de violência, embora dificilmente nossas interlocutoras tenham usado explicitamente o termo violência, as protagonistas referiram-se a todo momento a situações que atingiam seus corpos individual e coletivamente. Os corpos são atingidos de forma coletiva na medida em que a corporeidade e construída socialmente e as violações são estruturais e não individuais, além de engendrarem dor e resistências. Os fatos narrados aproximam-se da definição de violência proposta por Paula Lacerda (2015) que a entende como: [...] um amplo conjunto de situações que poderiam ser percebidas, de outro ponto de vista, como ‘causadoras de sofrimento’, pessoas se apresentam como ‘vítimas de violação de direitos’, o que as transforma em sujeito e potencializa o alcance de suas reivindicações.” (2008, 28) A primeira categoria que se refere a tais processos diz respeito a violência enfrentada coletivamente pelo povo Tembé Tenetehara na Colônia Santo Antônio do Prata, educandário que recebia as crianças indígenas sequestradas de suas comunidades e apartadas de seus parentes para serem educadas, catequizadas e “civilizadas” com base na pedagogia cristã dos missionários Capuchinhos. Posteriormente, a Colônia foi transformada em Leprosário e a ameaça de contrair a doença afastou ainda mais os Tembé Tenetehara do território que tradicionalmente ocupavam. No período de instalação do Leprosário, conforme conta Dona Maria Joana, circulava na região o boato de que era possível curar a hanseníase se o doente comesse o fígado de uma pessoa saudável. Na época chegaram a ser encontrados na mata cadáveres com o fígado retirado, o que reforçava ainda mais o temor de que uma das pessoas a serem mortas pudessem ser Tembé Tenetehara. É desse cenário que emerge a categoria massacre: as interlocutoras constantemente reafirmam, ao dizer dessas memórias que “o nosso povo foi muito massacrado no Prata”. A noção de massacre parece elucidar mais enfaticamente os acontecimentos que a categoria violência, uma vez que as violações enfrentadas coletivamente pelos Tembé Tenetehara – ditos de Santa Maria – incluem espoliação territorial, epistemicídio, quebra dos laços de parentesco e, em última instância, o adoecimento e a morte dos membros do povo. O mesmo ocorre com as mulheres Xipaya e Kuruaya que, expulsas de seus territórios no médio Xingu, vieram à cidade e vivem presas a espaços, onde sequer podiam, há 10 anos, se declarar indígenas. Eram, como referem algumas das interlocutoras, impedidas de falar a língua materna, enfrentaram o massacre da discriminação, produzida pelo racismo que se apresenta em estratégias de dominação de ordem material e ideológica, utilizada pelas estruturas coloniais para manter status privilegiado de membros do grupo dominante, produzindo a perene subalternidade dos povos etnicamente diferenciados (Moreira, 2016 ), não fosse a luta que empreendem diuturnamente. No caso das quilombolas o massacre foi/é pesado e reproduzido nas diversas narrativas. A segunda categoria que diz de processos de violência é a de escravidão. Conforme explica Maria da Paz: “os antigos do nosso povo tratavam a mulher como escrava. Ela só servia para ter filho, cuidar da casa e da roça, ser usada pelo marido e trabalhar pro pai. Hoje não pode mais ser assim, mas muitos homens no nosso povo e de fora querem tratar as mulheres nessa escravidão.” A categoria escravidão parece dizer respeito a crítica que as mulheres indígenas fazem sobre a condição feminina dentro das diversas comunidades. O entendimento de que as mulheres eram e são tratadas como escravas, guarda em seu interior a reivindicação de que sejam entendidas como sujeitos, dotadas de direitos, vontades e voz. Tal categoria diz respeito a forma como as interlocutoras pensam a mulheridade e a crítica que fazem por não serem reconhecidas de tal forma. Entre as quilombolas a condição de escrava é mencionada por conta das avós e das bisavós, entretanto, algumas vezes, a condição passada é negada para não comprometer a luta e favorecer a discriminação. A terceira categoria nos parece a que possui maior tensão ao ser utilizada analiticamente: trata-se da categoria maldade. Durante muito tempo do percurso das pesquisas que apontavam para as categorias nativas, evitou-se conjecturar sobre a mesma, por receio de que escrever sobre o assunto pudesse “dar munição” para os antagonistas em relação aos povos tradicionais. Entretanto, ao buscar as noções de justiça que permitem a luta política das mulheres, a maldade atravessou o percurso da problematização. As interlocutoras com quem se dialogou nomeiam como “homens maus” aqueles que agridem seus corpos, física e/ou sexualmente. E, a essas agressões, as mulheres indígenas dão o nome de maldades. As quilombolas, algumas vezes referem-se às violações dos homens maus, como malinesas. Denominam malinesas às penas impostas, pelos encantados, a homens (e também à mulheres) que vivem fora das normas tradicionais, malinesas que trazem como consequência efeitos deletérios às relações sociais. Malinos são os encantados que castigam os transgressores com o mal, tornando-os perniciosos ao convívio social. Os encantados que “jogam a malinesa” vivem nas matas e nos cursos d’água e por serem donos dos espaços, exigem reverências e cumprimento de obrigações, nem sempre observadas pelos homens maus que terminam “malinando” com as mulheres (ou mulheres que malinam com homens). No caso da maldade ou da malinesa entre indígenas e quilombolas, uma e outra não integram a essência dos humanos, são tomadas pelas interlocutoras como condição que, dependendo do comportamento, pode ser afastada dos humanos, sempre que, arrependidos, voltem a cumprir as obrigações com os encantados. A tensão reside no fato de que muitas vezes os homens maus ou malinos podem ser companheiros das mulheres indígenas e quilombolas ou lideranças dos referidos coletivos. Duas situações parecem ilustrativas de como a categoria maldade é posta em ação. A primeira delas diz respeito a história contada por Maria Laura, que teve a filha Maria Conceição sequestrada por um homem que circulava na comunidade. A menina passou oito dias em cativeiro submetida a violência física e sexual pelo agressor. Por fim, depois de espancá-la quase até a morte, o criminoso abandonou-a sozinha na casa onde a escondia. Embora Maria Conceição tenha sido encontrada com vida e acolhida sob o modo Tembé de cuidar do corpo, a marca da violência permanece para o resto da vida e o fato de o agressor ter muito dinheiro, à época, assegurou-lhe a impunidade. Ao contar a história de sua filha, Maria Laura referiu-se ao criminoso como um “anjo mau”, aproximando-o do mito bíblico que conta a história de Lúcifer. A mesma categoria foi utilizada pela filha de Maria da Paz, Maria Lídia, para referir-se ao seu pai. Na época ele se encontrava doente, com desmaios e fraquezas constantes, e as causas não puderam ser identificadas pelos médicos que a família procurou. Maria da Paz, desde que a conhecemos, narra as agressões cometidas pelo marido, que espancava ela e os filhos e dizia constantemente a todos palavras duras, que “machucavam” quem as ouvia. Conversando com Maria da Paz e Maria Lídia, a filha afirmou que a doença do pai era um “castigo por todas as maldades que ele fez com a gente”, com o que Maria da Paz concordou. A noção de maldade parece ter um sentido diferenciado para as mulheres indígenas se comparada aos usos que assume na sociedade dita ocidental. Enquanto no ocidente a maldade é frequentemente tomada como propriedade de pessoas perversas, entre as protagonistas indígenas a categoria parece se aproximar do que a Antropologia e os movimentos de mulheres tem chamado de machismo ou violência de gênero. Atentar para o uso diferenciado do termo pelas interlocutoras só foi possível em função do envolvimento etnográfico no contexto em que estas se inserem e por meio do diálogo e inflexão mantida pelas autoras. Por fim, a última categoria percebida como o sinônimo nativo para a violência é a de machucar. Frequentemente usada na sociedade ocidental para designar ferimentos físicos, sejam acidentais ou infringidos, machucar entre as mulheres indígenas refere-se ao ato de dizer palavras ofensivas e duras, que atacam a honra e o caráter das pessoas atingidas. Nos relatos de violência dentro das relações com os maridos – sejam eles indígenas ou não – as interlocutoras afirmam que as palavras duras são tão dolorosas e machucam tanto quanto agressões físicas. Tendo em conta a lei brasileira sobre violência doméstica, temos que o “machucar” talvez possa ser compreendido como violência psicológica11 , uma entre as possibilidades de violência contra a mulher, deslindadas nesse diploma legal. Entre as quilombolas há narrativas que informam que as palavras ofendem mais que serem marcadas por paus, chicotes e outros instrumentos de agressão. As marcas físicas podem ser tratadas, curadas, mesmo que levem tempo, mas as marcas dos machucados ferem a alma (para além do corpo) e permanecem na memória das interlocutoras e nada nem ninguém faz desaparecer. Abaixo as correspondências relativas às categorias éticas e êmicas. Thumbnail  Quadro 1 : Categorias éticas e êmicas sobre violência As categorias relativas à agência: a resistência das/entre mulheres Uma das principais questões que se tornaram visíveis no diálogo com as interlocutoras diz respeito ao fato de que as violações que atingem os corpos das mulheres jamais foram aceitas de forma passiva, elas não se deixam paralisar. Os processos de agência – aqui utilizada no sentido atribuído por Pierre Bourdieu (1983) e Anthony Giddens (1984) – e resistência, sempre estiveram presentes nas trajetórias das indígenas e quilombolas. O silenciamentos via etnocídio atingiu seus corpos e vidas, mas não se consolidou na medida em que as protagonistas sempre estiveram dispostas a buscar alternativas e resisitir. É com o intuito de romper com o etnocídio e a destituição da memória de seus coletivos que as mulheres indígenas ou quilombolas contam histórias de extrema violência no contexto da pesquisa; supomos que elas acreditam que por meio do registro na produção antropológica, as interlocutoras mantém a expectativa de que as memórias não sejam esquecidas nem apagadas, mas que, pelo contrário, permaneçam vivas na luta por direitos coletivos e por reconhecimento. Relatar as estratégias de agência e resistência e o protagonismo das interlocutoras frente a situações de poder assimétricas coaduna-se com o objetivo de “contar para prevenir”, como disse Maria dos Anjos, há anos, quando em uma roda de conversa aconselhou as jovens presentes: “... não guardem segredos, eles envenenam a vida. Não façam como eu que evitei contar as malinesas, daí não consegui domei os maus [homens] da minha vida. Nem os de casa, nem os da rua e ninguém deve machucar nossas almas, somos pessoas, [e olhando firme as meninas moças da roda] devemos reagir, assim as malinesas vão pra longe da comunidade.” De fato, contar a história parece uma das principais categorias que distinguem a agência das mulheres diante da violência sofrida. O trabalho das autoras, membros da equipe de antropólogos do Grupo de Pesquisa Cidade, Aldeia & Patrimônio só teve início a partir do convite dos membros da comunidade para que os pesquisadores escrevessem a história do povo Tembé Tenetehara e de outros povos indígenas e quilombolas, como informamos à partida. Quando na comunidade, muitos pesquisadores foram “intimados” a entrevistar os membros mais velhos da comunidade, para garantir que as histórias que estes se lembravam fossem registradas antes que se perdessem com seu falecimento. Maria Laura, com o início das pesquisas na comunidade, decidiu começar a escrever diários, onde poderia registrar suas memórias pessoais e coletivas e repassar para os pesquisadores do grupo. Outra categoria importante nos processos de agência das mulheres indígenas, especialmente as Tembé, é a do cuidado. Conforme elucida Maria Laura: “... o nosso povo foi muito massacrado no Prata. Morreu muita gente. A gente jamais podia dizer que era índio, até hoje nós vivemos discriminados. Hoje tá muito melhor, a gente vive junto, faz nossas festas, cuida uns dos outros e o nosso povo se alegra. Mas vive com a discriminação. Não podemos usar uma roupa, que já dizem que nós não somos índios. Eu vou dizer que eu sou uma portuguesa, sendo que eu não sou? Até tem gente que diz, mas eu não digo. Eu digo o que eu sou, eu sou Tembé. Mas tem que viver com a discriminação.” Ao contrário da visão de cuidado amplamente discutida na literatura produzida na área da Enfermagem, pautada na atenção e medicalização de pessoas com doenças, ou deficiência, o cuidado tembé e das demais etnias é holístico e alimenta o corpo de forma completa, por meio do sistema tradicional de ação para saúde, que contempla não apenas o cuidado com o corpo, mas a proteção espiritual, e as lutas políticas por uma vida melhor, que acarretam uma corporeidade saudável. E esse corpo não se estrutura desconectado do ser indígena, com toda a carga política e epistemológica que a identidade enseja para as tembé, xipaya e kuruaya. Cuidar de si e dos seus implica em se proteger de violações e fortalecer o grupo para que as lutas políticas possam ser continuadas. Nesse sentido, o cuidado de si constitui um empreendimento que conforma resistências políticas, materiais e epistemológicas, em um contexto no qual o corpo vem à cena tanto como território de lutas e afirmações identitárias, quanto como alvo de opressões e estigmas. Com as mulheres quilombolas a situação é semelhante, sempre que alguém se machuca a cura vem via sistema tradicional de ação para saúde, mesmo que a pessoa machucada e violada receba atendimento dentro do sistema ocidental de ação para saúde. Outra categoria percebida como forma de agência das mulheres nas tensões que envolvem os maridos diz respeito a educação dos filhos. Segundo Maria Laura: “... a mulher é que educa o filho. Se ela não mandar ele ir lá, tomar a bença do pai, fazer um carinho no pai, ele não vai, não, fica na dele. Foi por causa de um dos meus filhos que meu marido parou de me bater. Um dia, ele era novinho, magro, magro... Ele virou pro pai e falou: “O senhor nunca mais vai bater na mamãe, hoje foi o último dia”. O pai perguntou: “E o que tu vai fazer?”. E ele disse: “Eu não sei, mas o senhor não encosta mais um dedo nela”. Depois disso, nunca mais ele me bateu.” Uma das filhas de Maria Laura, ao ver o pai com outras mulheres na rua: “... fazia um escândalo, batia nela. Uma vez enchi as coisas da mulher de areia, ficou tudo sujo. Depois ele metia a porrada em mim quando chegava em casa, mas eu nunca deixava barato.” Atualmente as crianças que na infância enfrentaram os pais em defesa de suas mães, criam redes de apoio e acolhimento das indígenas mulheres em situação de violência, seja recebendo-as em suas casas, rezando por elas ou conversando com os maridos e, muitas vezes constrangendo-os perante os demais parentes. Maria José, quilombola da comunidade Maria me ajude constrangia o marido, mostrando de casa em casa os ferimentos produzidos pelas surras que levava, porque teimava em estudar. A peregrinação de casa em casa produzia o recolhimento do agressor que, alcoolizado, tinha produzido as maldades, malinado a protagonista. Por fim, a última categoria percebida como característica da agência empreendida pelas mulheres tembé em relação a violência diz respeito ao processo de fechar o corpo. Prática também verificada entre as quilombolas. Em um contexto em que as violações de direitos ocorridas em hospitais são reais e prováveis, fechar o corpo contra coisas ruins é essencial. Entre as práticas frequentes, temos: rezar na cabeça de criança com febre; ministrar ervas medicinais para pessoas que adoecem ou são envenenadas; manter a gravidez ou interrompê-la quando as vidas da mãe e da criança estão ameaçadas; são exemplos de saberes e fazeres acionados no agenciamento de situações consideradas de risco, em que se sabe que o acesso ao sistema ocidental de ação para saúde não responde satisfatoriamente ou há dificuldades em acessá-lo. Fechar o corpo entre os povos tradicionais implica proteger as pessoas da comunidade tanto no plano físico quanto no espiritual. Os rituais podem ou não estar relacionados à alguma forma de religiosidade indígena afro-brasileira ou ocidental. Uma das interlocutoras, reconhecida “por ser uma das mais antigas dos nossos antepassados”, entre os Tembé, relata que nos tempos antigos, quando houve grande incidência de hanseníase na região, ela conseguiu paralisar o avanço da doença no corpo de uma das pessoas da comunidade utilizando as propriedades do mucuracaá, uma planta medicinal que também é utilizada entre os tembé para combater o mau-olhado. Outras indígenas afirmam que uma mulher grávida que estivesse sob os cuidados de Maria Carmen estaria em boas mãos, uma vez que ela acompanhava a gestação desde os primeiros meses até a hora do parto, no qual a mulher era virada de lado e dava a luz enquanto a interlocutora rezava em sua barriga. Despois do parto, a profissional de saúde permanecia na casa da parturiente até o resguardo terminar, portanto eram quarenta dias de cuidados diferenciados. Durante uma das idas a campo, a mãe de uma criança que havia nascido há pouco tempo encontrava-se aflita, pois o bebê não parava de chorar e não costumava ser assim. Nesse momento, Maria Carmen, sogra da mãe da criança, entrava na casa e, ao se dar conta da situação, perguntou se a menina havia ido tomar banho de igarapé. Como a resposta foi afirmativa, a interlocutora disse: “... minha filha pegue alho, amasse e misture com álcool e deixe um tempo. Depois passe com o dedo na palma da mão da neném, na sola do pé, no braço e na coxa, em forma de cruz. Vai ficar um cheirinho ruim, mas não tem problema, ela vai melhorar. Ela deve ter visto alguma coisa no igarapé, criança é muito sensível, parece um pintinho novo. Quando eu era pequena, minha tia levava a gente pro igarapé, mas ela entrava primeiro, pedia licença pra mãe da água pra gente entrar e jogava o alho na água, aí o banho era sossegado.” O alho é antídoto (combate o veneno) para os encantados que “jogam malinesa” quando as pessoas não reconhecem as regras, que não se referem apenas aos espaços de domínio dos mesmos, mas às horas proibidas do dia e da noite. A paçoca de gergelim preto “pisada” com hortelã é utilizada para “botar pra fora” (as indígenas não utilizam o termo “aborto”, as quilombolas usam expulsar), principalmente quando a gravidez ameaça a vida da mãe ou quando o parto é de risco. Para mulheres grávidas que sentem dores, ministra-se chá de gengibre. Para inflamações, especialmente em casos de problemas de próstata, o caroço de abacate mostra-se eficaz. Crianças, quando morrem antes do batismo, segundo os católicos, choram durante sete dias e precisam ser batizados para que “descansem”. A última prática mostra-se elucidativa da forma tembé de pensar a construção da “pessoa”, a partir do ato de batizar a criança morta. Para os Tembé Tenetehara não se deve negar às pessoas mortas, quando oriundas de famílias cristãs, o direito ao ritual de batismo que as forma e legitima. As situações acima descritas, integrantes das observações de campo, revelam que mesmo enfrentando situações de precariedade e violência, as mulheres exercem seu protagonismo, instituindo o “ser sujeito” e encontram alternativas para agenciar situações de violência. O corpo e as múltiplas corporeidades que coexistem entre as interlocutoras são territórios privilegiados da resistência de indígenas e quilombolas mulheres e das formas de cuidar de si mesmas. Thumbnail  Quadro 2 : Categorias êmicas e éticas sobre agência Entre oitivas e traduções Os diálogos em campo demonstram que os atos e falas das interlocutoras são ferramentas importantes para a compreensão de suas realidades. Ao mesmo tempo, analisar o discurso no contexto das relações antropológicas passa a ser um desafio, na medida em que aponta para a necessidade de proceder o controle das dificuldades de tradução etnográfica, dos etnocentrismos ocidentais e do viés da colonialidade vigente. Em trabalho de grande influência e repercussão, Gayatri Spivak (2010) questiona criticamente a (im)possibilidade de fala de determinados grupos. A autora constata que os subalternos em geral, e o sujeito historicamente emudecido, a mulher subalterna em particular, foram e são, ao longo da história, mal compreendidos ou mal representados pelo interesse pessoal dos que têm poder para representar. A proposição instigante de Spivak (2010), além de elucidar silenciamentos, colonialismos e violências, também aduz escutas anti-hegemônicas, epistemologicamente desobedientes, pós-coloniais. Inspirada pela reflexão provocativa da filósofa indiana, Lacerda (2014) considera que em meio a tentativas de silenciamento, os grupos e sujeitos subalternizados – e esse é um deslocamento analítico fundamental para que a subalternidade não seja entendida como lugar paralisante e intransponível – estão falando. Superando a perspectiva colonialista que pretende “dar voz” aos grupos subalternizados por meio da pesquisa, Lacerda (2014) tensiona a questão que orienta Spivak (2010): como o não subalternizado, o privilegiado, pode escutar? As posições teórico-epistemológicas (que também possuem caráter político) adotadas na presente discussão objetivam favorecer a escuta etnográfica mais responsável, capaz de superar estereótipos de passividade e compreender indígenas e quilombolas como sujeitos de suas próprias histórias. A estruturação do olhar antropológico sobre o campo, em diálogo com os conceitos e categorias referidas, foi essencial para compreensão das interlocutoras como protagonistas de suas próprias histórias, não como vítimas passivas, desagenciadas e paralisadas diante de violações. Qualquer procedimento em sentido contrário seria uma prática etnocêntrica. Atentar para as narrativas das mulheres indígenas e quilombolas, a partir do que foi explicitado, é um esforço que vai além de retomar o protagonismo de vozes subalternizadas. Trata-se de uma tentativa de constituição de possibilidades de outra epistemologia, outras referências e sensibilidades, diferentes das que o pensamento colonial afirma serem as únicas dignas de serem aprendidas e respeitadas. A partir das falas desses sujeitos, confrontamos a tentativa histórica de epistemícidio (Santos, 2010) e assimilação que incide sobre os povos indígenas e quilombolas, e, mais especificamente sobre mulheres indígenas e quilombolas/ indígenas e quilombolas mulheres. Trata-se de uma opção metodológica que abriga dimensões e responsabilidades políticas, de contemplar enunciações ditas e tomadas como periféricas e arbitrariamente alijadas pelo pensamento ocidental e colonial. Por diálogos e justiças A diversidade das agências e possibilidades de justiça nos permite esterçar para diferentes lados saindo dos limites de nossos axiomas, verdades que consideramos inquestionáveis e supostamente válidas universalmente. Axiomas estes que muitas vezes são utilizadas como princípios que mantém privilégios de uns em detrimentos de outros secularmente subalternizados. Não se trata de atribuir valor superior aos conhecimentos tradicionais ou mesmo de aderir a eles, mas de considerá-los em diálogo para produzir a melhor justiça, sem diluí-los na ciência desenvolvida na academia. A importância das reflexões que se faz é tentar indicar que as agências das mulheres e modos diversos de conhecimentos, é indicar também que se pode pensar de outro modo e que os variados sistemas de justiça precisam, de fato, dialogar. Sabemos que os estudos acerca da violência de gênero no país muitas vezes utilizam o termo violência sem muita precisão, como se violência doméstica, violência intrafamiliar, violência contra a mulher, entre outros, fossem capazes de abarcar reflexões sobre realidades diversas. Fazer o esforço de compreender noções êmicas do termo afasta o perigo da reificação e induz a “diálogos ouvintes”, que postulamos aqui, em contraposição aos “diálogos surdos.” Ainda sobre a questão dos termos utilizados para abordar a violência, contemporaneamente tem se preferido falar em mulheres em situação de violência ao invés de violência contra a mulher, para indicar que a violência é transitória e não um destino que as mulheres devem cumprir (Campos, 2011). Além disso, a mudança de termo e, por conseguinte, de enfoque, impele a pensar a questão fora do molde algoz versus vítima, possibilitando compreender que, mesmo sendo vítima, especialmente num sentido jurídico-estatal, não significa não ter poder e força de resistir. As narrativas e corporeidades de mulheres indígenas e quilombolas/ indígenas e quilombolas mulheres desafiam compreensões do senso comum sobre situações de violência e nos fazem compreender que vítimas são sujeitos. Dessa forma, como sujeitos que são, devem poder acionar sistemas tradicionais de justiça ou mesmo a “justiça dos brancos”, como dizem algumas. Porém, a colonialidade, especialmente a de gênero (Lugones, 2008 ) cria contextos em que os dois lados olvidam as demandas pelo fim de maldades e malinesas. Referências bibliográficas ALEIXO, Mariah Torres. 2015. Indígenas e quilombolas icamiabas em situação de violência: rompendo fronteiras em busca de direitos Dissertação de mestrado, Programa de Pós-Graduação em Direito, UFPA. (Inédita) BELTRÃO, Jane Felipe. 2012. Histórias ‘em suspenso’: os Tembé ‘de Santa Maria’, estratégias de enfrentamento do etnocídio ‘cordial’. Revista História Hoje, São Paulo, v. 1, no 2, p. 195-212. BOURDIEU, Pierre. 1983. Esboço de uma teoria da prática In: ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu: sociologia São Paulo: Ática, p.46-81. BRASIL. 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Distinção e capital cultural hoje Distinction and cultural capital today: introduction Edison Bertoncelo Michel Nicolau Netto Fábio RibeiroSOBRE OS AUTORES Neste dossiê, reunimos artigos que debatem a distinção no mundo contemporâneo, inspirados pelas pesquisas pioneiras realizadas desde a década de 1970 por Pierre Bourdieu e sua equipe. Como introdução, apresentamos um breve resumo da concepção bourdieusiana elaborada principalmente no texto clássico A distinção (Bourdieu, 1979), em que Bourdieu desenvolveu uma análise complexa e original da sociedade francesa a partir de abordagens metodológicas diversas. Em suas conclusões, enfatizou a importância do capital cultural, e do fenômeno associado da distinção, para estabelecer uma representação adequada do espaço social francês e suas hierarquias para além das análises tradicionais com foco apenas em questões econômicas no sentido estrito. Em seguida, faremos um resumo das discussões sobre o debate classe e cultura com base na leitura de uma série de textos que dialogam, mais ou menos criticamente, com Pierre Bourdieu e, em especial, com A distinção. A partir disso, apresentamos algumas implicações do que se expôs para pesquisas futuras, e destacamos as contribuições dos artigos que compõem este dossiê. Uma breve história d’A distinção Os trabalhos de Pierre Bourdieu sobre a relação entre classe, cultura e estilo de vida são o desenvolvimento de pesquisas anteriores feitas em geral sob encomenda de órgãos governamentais em busca de melhoria de políticas públicas. Em Os herdeiros (1964), Bourdieu e Jean-Claude Passeron observaram que, embora a escola pública francesa oferecesse condições similares de aprendizado, o desempenho dos alunos não era o mesmo. A diferença da origem de classe entre os que obtinham sucesso - e chegavam à universidade - e os que eram excluídos no processo precisava de uma explicação que não fosse baseada em preconceitos de classe. Os autores foram capazes de perceber que a suposta cultura universal ensinada nas escolas encontra direta correspondência com um conjunto de conhecimentos e valores típicos das classes dominantes. A socialização das crianças na cultura burguesa produzia uma experiência de continuidade entre a cultura escolar e a cultura familiar. Para explicar esse processo, Bourdieu e Passeron falam da incorporação de um capital linguístico pelas crianças com origem nas classes dominantes, que seria um conjunto de conhecimentos e competências linguísticas, estilos pessoais e atitudes (Lamont e Lareau, 1988), que criam um senso de pertencimento à escola. De forma correlata, a ausência desse capital produzia um estranhamento do ambiente escolar nas crianças oriundas de meios sociais não burgueses. A diferença em desempenho, portanto, pode ser explicada justamente pelo valor desse capital incorporado pela criança em sua socialização familiar. A relação entre escola, desempenho e origem de classe segue em A reprodução (1970). Ali, tanto quanto a partir da edição inglesa de 1979 de Os herdeiros (apudPrieur e Savage, 2013), o termo agora mobilizado é capital cultural, tido por Tony Bennett e Elizabeth Silva (2011, p. 429) como o mais criativo conceito do autor, de fato “um neologismo - e não uma reelaboração de um léxico herdado” como seria o caso de outros conceitos como campo e habitus. Simultaneamente, Bourdieu trabalhava com o universo das artes e percebia, de um lado, uma relação entre gosto e origem de classe (no caso o interesse pela fotografia, em Un art moyen, de 1965), e de outro a relação entre classe e as disposições para apreciação da arte (como no livro O amor pela arte, de 1966). Os trabalhos desenvolvidos na década de 1960 já se articulavam tanto na mente de Bourdieu quanto em suas intenções de pesquisa. Como revela Monique de Saint-Martin (2015), desde 1962 o autor francês organizava workshops para discutir os temas que em 1979 apareceriam em A distinção e que já começavam a aparecer nos textos aqui citados. Entre o final da década de 1960, com a fundação do Centre Européen de Sociologie (1968), e o começo da década seguinte, especialmente com a fundação da revista Actes de la Recherche en Sciences Sociales (1975), Bourdieu começa a adquirir condições materiais apropriadas para se lançar no plano audacioso de investigar a importância da cultura nos processos de reprodução de classe na sociedade francesa. Não se tratava mais de se pensar em espaços isolados da sociedade (na escola, no museu, na prática fotográfica), mas na sociedade de forma integral. O centro e a revista permitiram tanto um espaço de divulgação de pesquisas de interesse de seu diretor, quanto a reunião de jovens e talentosos pesquisadores, entre os quais alguns de seus antigos colaboradores, como Luc Boltanski, com quem publicou Un art moyen. Nesse momento, há uma intensificação de pesquisas e textos que vão desaguar n’A distinção, e o livro pode mesmo ser considerado “o ponto no qual pesquisa e artigos se encontram e interagem” (Saint-Martin, 2015). De fato, aparecem no livro pesquisas e reflexões anteriormente publicadas e que vão solidificando conceitos, hipóteses e metodologias. Seguindo a lista formulada por Saint-Martin, temos: “Disposition esthétique et compétence artistique” (Bourdieu, 1971), “Les fractions de la classe dominante et les modes d’appropriation des oeuvres d’art” (Bourdieu, 1974); “Anatomie du goût” (Bourdieu e Saint-Martin, 1976); “La production de la croyance” (Bourdieu, 1977a); “Titres et quartiers de noblesse culturelle: la critique sociale du jugement esthétique” (Bourdieu e Saint Martin, 1976); “Les stratégies de reconversion” (Bourdieu et al., 1973); “Questions de politique” (Bourdieu, 1977b), “Classement, déclassement, reclassement” (Bourdieu, 1978) e “Le couturier et sa griffe” (Bourdieu e Delsaut, 1975). Em “A anatomia do gosto”, de 1976, Bourdieu e Saint-Martin já constroem os espaços social e dos estilos de vida, sendo que muitos dos trechos desse ensaio aparecem integralmente ou em partes em A distinção. Bourdieu também se beneficiou do desenvolvimento da estatística, em especial da “escola francesa de análise de dados”, e das técnicas computacionais1. Na década de 1960, o grupo de Jean-Paul Benzécri cunhou o termo “análise de correspondências múltiplas”, utilizada por Bourdieu e Saint-Martin em “A anatomia do gosto” e por Bourdieu em A distinção, para a medição das distâncias relativas dos indivíduos no espaço social de acordo com o acúmulo e a estrutura de seus capitais, nessa ocasião, medindo-se os capitais econômico e cultural. É com base nessa técnica de análise de dados que Bourdieu e Saint-Martin são capazes de construir o espaço social francês e a ele sobrepor o espaço dos estilos de vida. É a coincidência entre as posições dos sujeitos de acordo com seus capitais (volume e estrutura) e a legitimidade de suas práticas culturais definidoras de seus estilos de vida que permitiu que Bourdieu lançasse a tese da homologia entre os espaços. Voltaremos à metodologia mais adiante nesta introdução, mas aqui destacamos que a possibilidade de se medirem as posições relativas dos sujeitos concretizava o pressuposto teórico de Bourdieu de que a sociedade é formada por posições objetivas relacionais, ou seja, as posições se definem umas em relação às outras. As “classes no papel” ou classes teóricas são o resultado desse esforço de classificação sociológica, a partir do qual é possível identificar conjuntos de agentes que ocupam posições relativas vizinhas no espaço social em função da distribuição dos capitais relevantes. As classes assim construídas diferem das classes preconcebidas ou pressupostas como em muitas correntes do marxismo e da economia prevalentes na época (ver Bourdieu, 2015, pp. 99-120). A estatística e a computação, assim como os estatísticos reunidos no Instituto Nacional de Estatística e dos Estudos Econômicos (INSEE) e no Centro de Pesquisa pelo Estudo e Observação das Condições de Vida (Crédoc), permitem a representação visual e geométrica da sociedade que Bourdieu e seus colegas descobriam empiricamente. Após A distinção, o tema do capital cultural permaneceu central na obra de Bourdieu, especialmente em suas grandes pesquisas dos anos 1980, Homo academicus (1984) e La noblesse d’État (1989), e foi desenvolvido também nas aulas de Bourdieu como membro do Collège de France. Nessas aulas, o sociólogo destaca as diferenças entre sua concepção e a ideia mais difundida na época de “capital humano”, associada a economistas como Gary Becker e Jacob Mincer, que buscava interpretar os resultados dos investimentos em educação apenas em relação à sua conversão direta em capital econômico. Já Bourdieu, como de costume, enfatizava o aspecto relacional e também temporal do conceito de capital cultural, que não pode ser reduzido diretamente a seu aspecto monetário (ver Bourdieu, 2016, pp. 239-257). Assim, fica mais fácil perceber a função teórica desempenhada pelo conceito de capital cultural, além da função metodológica já explicitada em obras como A distinção. Em termos teóricos, o capital cultural e sua relação com os conceitos adicionais de habitus e capital simbólico permitem a Bourdieu afastar-se tanto de uma abordagem enfatizada em particular na economia, na qual o fundamento da ação social está em indivíduos racionais que buscam maximizar seu interesse (ver Bourdieu, 2017, passim), quanto de abordagens de inspiração durkheimiana que localizam aquilo que é próprio ao social e à sociologia em instituições completamente externas aos indivíduos (Bourdieu, 2016, pp. 229-262). Da mesma maneira, a ideia de distinção ganha maior aporte teórico na abordagem bourdieusiana como o fenômeno por excelência que permite àqueles que ocupam posições dominantes em determinados campos não só recolher e acumular lucros de distinção, mas também, através das lutas dentro do campo, estabelecer a própria estrutura do campo, ou seja, a hierarquia que favoreça a reprodução do capital que eles próprios possuem - num processo em que, como Bourdieu enfatiza, nada precisa acontecer intencionalmente, na lógica do complô (Bourdieu, 2016, p. 291). Críticas e reflexões a partir dos debates sobre A distinção Dessa forma, é possível dizer que não só A distinção é o resultado de quase duas décadas de um trabalho coletivo que reuniu tanto indivíduos quanto instituições francesas, mas também continuou alimentando as pesquisas e reflexões de Bourdieu no decorrer de sua carreira. E seu resultado é proporcional ao tamanho dos esforços e trabalhos despendidos. O estudo da relação entre classe e cultura tem uma longa tradição na sociologia e remonta ao menos a Weber, Veblen, Simmel e Elias. A distinção segue essa tradição e se torna - ao menos do que nela se consolida, como conceitos, métodos etc. - objeto frequente de reflexões e questionamentos na sociologia. Nas próximas seções, tematizamos alguns debates centrais à literatura que se debruçou nessa problemática construída n’A distinção. Onivorismo e a crítica da homologia estrutural e do capital cultural Na década de 1990, quando ganhava impulso o movimento de apropriação dos estudos de Bourdieu sobre a distinção para além da França (a primeira tradução da obra para o inglês ocorreu em 1984), surgiu uma ideia que, posteriormente, viria a ser interpretada por muitos autores dentro da sociologia da cultura e da sociologia da estratificação social como uma crítica à abordagem bourdieusiana da relação entre classes sociais, gostos e estilos de vida. Essa ideia, mais propriamente um conceito “provisório” do que uma teoria ou mesmo uma hipótese, foi desenvolvida nos estudos do sociólogo estadunidense Richard Peterson com seus colaboradores (Peterson, 1992, 1997, 2005; Peterson e Simkus, 1992; Peterson e Kern, 1996). Como argumenta Gayo (2016), “a ideia do onívoro foi desenvolvida de uma posição de alto status e forte legitimidade na sociologia norte-americana” (p. 104). Peterson era então reconhecido nacional e internacionalmente entre seus pares por seus trabalhos sobre indústrias culturais e produção cultural, além de ter publicado fartamente em revistas acadêmicas de elevado prestígio, como Poetics (Ibidem). Se os debates em torno do onivorismo cultural (o termo aludindo a uma “metáfora zoológica” tão criticada por Bernard Lahire) ganharam enorme impulso, estimulando a produção de vários estudos ao longo das décadas seguintes e tornando-se ponto de passagem obrigatório para as pesquisas recentes sobre gostos e práticas culturais, parte disso se deve, certamente, ao contexto acadêmico norte-americano e à posição de Richard Peterson nele. A esses fatores também se deve o fato de que essa ideia ganhou mais tração nos debates na sociologia norte-americana do que na sociologia europeia (sobretudo a francesa): “o onívoro cultural era uma reiteração posterior de um tema familiar dentro da sociologia dos Estados Unidos que afirmava que a geração nascida após a Segunda Guerra Mundial era mais próspera, educada, aberta e tolerante do que as gerações posteriores de norte-americanos” (Idem, p. 106). É menos claro, no entanto, porque esse conceito foi interpretado posteriormente como tendo implicações críticas aos estudos de Bourdieu sobre a distinção. Ironicamente, Peterson, em seus próprios estudos (sobretudo em uma publicação recente, 2005), afirmava que o onivorismo não apontava para uma refutação, mas apenas uma reformulação dos argumentos de Bourdieu. Se os estudos de Peterson foram lidos posteriormente como sendo uma espécie de refutação ao livro A distinção, isso se deve, em parte, à forma como essa obra foi apropriada fora da França, sobretudo pela sociologia de língua inglesa. Como destaca Holt (1998), durante muito tempo a sociologia norte-americana fez uma leitura “substancialista” dessa obra, minimizando um elemento que lhe é central, seu caráter relacional. Lizardo e Skiles (2016) sustentam que o entendimento convencional de que o debate sobre o onivorismo questionou a validade empírica das ideias de Bourdieu quanto à associação entre gosto e classe está baseado em uma leitura incorreta do trabalho de Bourdieu. Tal leitura parte de dois pressupostos: i) de que as práticas culturais dos indivíduos de “status elevado” podem ser classificadas em um padrão de tipo “exclusivismo esnobe” [snobbish exclusiveness], ou seja, tais indivíduos gostam ou fazem coisas associadas à “alta cultura”, rejeitando a cultura popular; ii) A distinção pode ser lida como um estudo de como as classes superiores, fortemente ligadas à alta cultura, se distinguem das classes populares, com seus gostos e práticas vulgares (Idem, p. 91). O argumento contido na primeira premissa ignora que a aversão estética é um mecanismo de produção de fronteiras simbólicas que opera tanto vertical quanto horizontalmente; no caso da segunda premissa, minimiza-se a ênfase conferida por Bourdieu à multidimensionalidade do espaço social, que se traduz, por intermédio do habitus, em oposições no espaço simbólico. Isso implica, por exemplo, que as lutas em torno da imposição dos modos legítimos de viver são travadas não apenas entre diferentes classes, mas, sobretudo, entre diferentes frações das mesmas classes (por exemplo, o “ascetismo aristocrático” dos intelectuais em oposição ao “gosto do luxo” da burguesia proprietária e dirigente). Voltando aos estudos de Peterson, a ideia do onivorismo não parece muito complicada: a velha distinção entre alta e baixa cultura estaria sendo substituída por outra, entre onívoros e unívoros. Os primeiros, além de se apropriarem da “alta cultura”, também consumiriam “cultura popular”. Os unívoros teriam um repertório de gostos e práticas restrito à “baixa cultura”. Nesse sentido, o onivorismo apontaria para “repertórios de práticas culturais, emergindo no final do século xx, que são marcados por uma amplitude crescente de gostos e participação cultural e também por uma disposição para transgredir fronteiras previamente construídas entre itens ou gêneros culturais hierarquicamente ordenados” (Karademir e Warde, 2016, p. 77). Em alguns estudos, “onivorismo” é substituído por “ecletismo”, mas a ideia é a mesma. O desenvolvimento original do conceito aponta para mudanças nos princípios de distribuição dos gostos e das práticas culturais, do “esnobismo” para o “onivorismo”. O onivorismo implica, portanto, a combinação de gostos e práticas, que atravessam diferentes registros culturais. Não basta, portanto, para ser caracterizado como onívoro, que um indivíduo goste de muitos gêneros ou participe de muitas atividades culturais. Ocorrendo no contexto de transformações sociais e culturais - relacionadas com o aumento da oferta de bens culturais, a “estetização” da cultura popular, a maior mobilidade social -, a emergência dessa nova “orientação” em relação às formas culturais teria efeitos profundos para as estratégias de distinção, para a importância da “alta cultura” na hierarquização social etc. Antes de analisarmos esses possíveis efeitos, no entanto, é essencial investigar a validade empírica da tese de Peterson. Como argumentam Karademir e Warde, há muitas dificuldades para avaliar a suposta importância do onivorismo enquanto novo “princípio” subjacente à distribuição de gostos e práticas culturais, dificuldades que dizem respeito à falta de consenso na literatura que opera com esse conceito quanto às maneiras de defini-lo e operacionalizá-lo, aos domínios e itens culturais que devem ser considerados, às medidas de posição social (classe social, status), à necessidade de uso de dados de diferentes tipos (qualitativos e/ou quantitativos), aos procedimentos para medir mudança social e, por fim, quanto aos critérios a empregar para operacionalizar uma noção central ao onivorismo, que é aquela da abertura à diversidade. Ora, se o onivorismo, pelo menos segundo a definição original, significa o “cruzamento” de fronteiras culturais e a composição “eclética” de gostos e práticas, então é necessário adotar algum critério para determinar quais são as fronteiras relevantes e onde estão localizadas. Por exemplo, em um estudo de Peterson e Kern (1996), ópera e música clássica foram consideradas gêneros eruditos; bluegrass, country, gospel, rock e blues, gêneros inferiores; musicais da Broadway, músicas leves (easy listening) e big band, gêneros médios. Com base nessa classificação, repertórios musicais que combinassem, por exemplo, ópera e rock, ou ópera e easy listening seriam considerados onívoros. É óbvio, portanto, que o modo de construir a classificação e a hierarquização dos gêneros musicais interfere fortemente nos resultados sobre a suposta emergência e/ou crescimento de repertórios onívoros. Nos próprios estudos de Peterson, como salienta Brisson (2019), há diferentes procedimentos para produzir tais classificações musicais, dificultando a comparabilidade dos resultados, o que não seria necessariamente um problema, tivessem tais modificações tido o objetivo de incorporar evoluções temporais das hierarquias musicais (estetização, intelectualização ou popularização de gêneros ou subgêneros musicais) ou, então, nos modos como tais hierarquias são subjetivamente percebidas e internalizadas pelos indivíduos. Não foi o caso. Pelo que foi exposto, é provável que o onivorismo seja um “artefato metodológico” (Brisson, 2019, p. 10). De fato, a falta de consenso sobre o que é onivorismo e como operacionalizá-lo reduz nossa capacidade de estimar a validade empírica da tese de Peterson. Além disso, é preciso refletir se, mesmo que empiricamente válida, a tese acrescentaria algo aos debates sobre classes, gostos e estilos de vida na tradição bourdieusiana (Bertoncelo, 2019). A “tese” do onivorismo introduz implicações opostas ou radicalmente diferentes daquelas associadas à hipótese das homologias para a investigação das práticas culturais? Suspeitamos que não. No estudo d’A distinção, já está presente o argumento de que um dos principais marcadores da distinção é a propensão e a capacidade dos agentes para transpor a disposição estética para novos objetos e domínios da vida social. O “esnobe”, a quem supostamente o onívoro estaria substituindo no mundo contemporâneo, não seria mais distinto ou distintivo: ao invés disso, como sublinham Lizardo e Skiles (2016), o “esnobismo”, entendido como uma orientação que privilegia tão somente os bens culturais institucionalmente consagrados em detrimento daqueles da “cultura popular”, seria um indício da aquisição tardia da disposição estética, mais próximo da “boa vontade cultural” da pequena burguesia. Essas considerações críticas, no entanto, não invalidam por completo a importância dos debates acerca do onivorismo. Ainda que este não constitua um objeto sociológico propriamente novo e que faltem as condições adequadas para apreciar a validade empírica das mudanças apreendidas por esse conceito, o debate serviu para arejar as discussões em torno da distinção. De fato, como conceber e investigar a distinção e a formação de capital cultural em um contexto marcado pela crescente circulação global de pessoas e objetos, pela disseminação das tics, pela ampliação da esfera do simbólico, pelas mudanças nos sistemas educacionais? É possível que essa capacidade “tolerante” para transpor a disposição estética para domínios não artísticos ou culturais e para objetos não consagrados, mesmo vulgares, tenha ela própria sido transposta para outras regiões do espaço social, não se restringindo, portanto, às frações mais intelectualizadas? O estudo britânico Culture, class, distincion aponta nessa direção: […] em suma, a cultura importa para a classe média, e até mais para seus estratos mais elevados. O capital cultural objetivado e institucionalizado opera como um recurso valioso, mas não exclusivamente por meio do controle da cultura legítima. Ao invés, a orientação requerida se dirige para a apreciação reflexiva, em um espírito de abertura, de uma diversidade de produtos culturais, mas continuam a existir fronteiras além das quais não é respeitável atravessar (Bennett et al., 2009, p. 194). Diferentemente, outros estudos apontam que esse ecletismo seletivo é a manifestação de certas disposições ao consumo que “divertidamente” [playfully] atravessam fronteiras culturais estabelecidas. A combinação entre gostos “estabelecidos” e “emergentes” expressa não tanto uma orientação onívora ou um novo tipo de capital cultural, mas, ao invés disso, o domínio do simbólico que está na raiz do capital cultural teorizado por Bourdieu, que opera, no entanto, em um contexto social marcadamente diferente (Flemmen; Jarness e Rosenlund, 2018). A perda da eficácia da “alta cultura” como distintiva? Uma das principais contribuições dos debates em torno do onivorismo para a Sociologia tem a ver com a problematização dos efeitos da “alta cultura” para os processos de distinção social2. Estudos recentes evidenciam que as classes superiores, sobretudo em suas frações mais intelectualizadas e cultivadas, possuem gostos “ecléticos”, que não se reduzem à “alta cultura” assim entendida (Flemmen; Jarness; Rosenlund, 2018, 2019; Prieur; Savage, 2011; Bennett et al., 2009). Mais: o consumo da “alta cultura” vem declinando socialmente, mesmo nas classes superiores, em especial nas gerações mais novas (Gripsrud et al., 2011; Purhonen et al., 2011; Dimaggio e Mukhtar, 2004)3. Quais as implicações disso para a relação entre “alta cultura” e capital cultural? Para alguns, a “alta cultura” não representa mais (ou jamais representou, fora do contexto francês) uma forma de capital cultural (Halle, 1992; Lamont, 1992). Diferentemente, DiMaggio e Mukhtar argumentam, baseados em um estudo sobre a evolução do consumo cultural nos Estados Unidos ao longo de duas décadas (1982-2002), que a “alta cultura” permanece central para a formação e acumulação de capital cultural, ainda que exista uma tendência geral de redução de seu público consumidor, mesmo que não na mesma magnitude para todas as formas culturais assim classificadas4. Conforme esse mesmo estudo, as atividades culturais populares tiveram uma redução de seu público tão grande quanto aquela da “alta cultura”, e o consumo cultural dos menos educados caiu mais fortemente do que o dos mais educados. Tais processos evidenciam, assim, que o declínio da “alta cultura” tem mais a ver com o aumento da competição por outras formas de uso do tempo livre e de modos de consumo da cultura do que propriamente com a perda de eficácia distintiva da “alta cultura”5. De forma similar, um estudo conduzido entre estudantes de ensino superior na Noruega, que cobre um período parecido com o anterior (1998-2008), aponta que, apesar de um declínio significativo das práticas associadas à “cultura legítima tradicional” - em menor medida entre estudantes de humanidades do que de disciplinas técnicas -, elas permanecem fortemente associadas às classes superiores e ainda gozam de elevado reconhecimento, o que indicaria, segundo o estudo, a provável persistência da eficácia distintiva da “alta cultura”, ou seja, ela ainda opera como um capital cultural (Gripsurd et al., 2011, pp. 524-525). Ao mesmo tempo, a contínua redução do interesse pela “alta cultura” e de seu consumo, especialmente entre os mais jovens e mais escolarizados, tenderia a torná-la uma cultura de “nichos sociais”, não mais gozando de reconhecimento social generalizado. Conforme argumentam DiMaggio e Mukhtar, “nós suspeitamos que se a participação [na “alta cultura”] continuar a cair, em algum momento, essas formas artísticas se tornarão irrelevantes para a cultura compartilhada das famílias e grupos sociais cujas chances de vida são mais dependentes do manejo de capital cultural” (Idem, p. 191). Ainda que tal tendência se concretize, esse processo teria como consequência a irrelevância do capital cultural como um princípio de diferenciação e hierarquização social? Embora, como argumentamos, a “alta cultura” ainda goze de algum reconhecimento social para além de seu público consumidor, cada vez mais restrito às classes superiores, é pouco provável que o que se entende por “cultura legítima” se restrinja a essas formas culturais (Špaček, 2017). Uma leitura relacional do capital cultural e dos processos distintivos “abre caminho para uma definição da disposição estética parcialmente dissociada dos conteúdos nos quais ela opera” (Coulangeon, 2015, p. 56). Holt (1998) chama atenção para os riscos de uma leitura substancialista que associa a “cultura legítima” à “alta cultura”, leitura essa que leva à conclusão de que a ausência de qualquer associação significativa entre o consumo da “alta cultura”, de um lado, e o pertencimento às classes superiores, de outro, indicaria a irrelevância do capital cultural na produção de desigualdades e na construção de fronteiras simbólicas e sociais. Holt entende que tal argumento confunde os aspectos abstrato e particular do capital cultural. Para ele, enquanto o aspecto abstrato é produzido pela incorporação das estruturas sociais condicionadas pelas classes, o particular é específico do campo em que o capital cultural é articulado. Dessa forma, o que os agentes incorporam não é exatamente um gosto pela “alta cultura”, mas uma condição específica de julgamento do mundo social que se manifestará como distintivo em objetos diferentes em cada campo social. Não haveria nada, portanto, de essencial no domínio da “alta cultura” para Bourdieu, sendo isso apenas um capital particular relevante para o estudo da sociedade francesa, mas que pode não importar para outros tempos ou outras sociedades. Ao invés de pressupor, deve-se, então, encontrar qual o capital específico que importa em cada contexto. É por isso que, para Holt (1997), mais importante é o estado incorporado do capital cultural, pois é ele que criará as condições para que os agentes possam ocupar posições dominantes em diferentes campos e neles controlar seus capitais específicos. Para dar um exemplo simples, é o capital cultural incorporado que permite a membros da elite ocuparem posições dominantes em campos tão distantes como o acadêmico e o financeiro, fazendo valer esse capital abstrato para o domínio dos capitais específicos. Na mesma linha, seguiram Prieur e Savage (2013). Sem adentrarem em discussão sobre campo, eles diferenciam a visão sobre o conceito de capital cultural em flexível e fixo. Segundo eles, o fixo seria a visão que atrela o capital cultural a um objeto específico - por exemplo, à “alta cultura”. Com esse olhar, “é fácil descartar a análise de Bourdieu como obsoleta e irrelevante” (Prieur e Savage, 2013, p. 249). Contudo, para eles, Bourdieu entendia o capital cultural como flexível, ou seja, uma forma de poder de qualidades exclusivas e relacionais, que se forma em objetos específicos de acordo com a relação que eles possuem com outros objetos. Assim, se a “alta cultura” não seria mais a concretização (ou, para voltar a Holt, a particularização) do capital cultural, outros objetos o são, devendo o pesquisador identificar quais. Na próxima seção voltaremos a esse debate, apresentando o que os autores chamam de “capital cultural emergente”. Não entendemos, contudo, que devemos descartar de maneira tão radical a “alta cultura” como forma de distinção. Isso se dá por dois motivos. Um primeiro motivo se refere ao que encontramos em algumas pesquisas, mas destacamos aqui Omar Lizardo (2006). O autor estuda a relação de conversão entre capital cultural e capital social. Sua tese central é inverter a noção clássica de que capital social se converte em cultural, para mostrar que o cultural se converte, com mais frequência, em social. Entretanto, o que mais nos interessa aqui é notar que, em diferentes redes de relacionamento, há a operação de diferentes conhecimentos culturais. Segundo o autor, a cultura popular tem um “valor generalizado de conversão”. Ou seja, a cultura popular pode ser convertida em diferentes redes de relacionamento, produzindo, inclusive, redes amplas de laços fracos. Já a “cultura de elite (highbrow) […] tem um valor restrito de conversão: ela deve mais provavelmente sustentar redes de laços fortes” (Lizardo, 2006, p. 783), que permitirão maiores vantagens para seus integrantes. Em outras palavras, o ecletismo cultural da elite lhe permite formar diferentes redes de socialização, sendo essas redes dependentes do conhecimento cultural mais amplo, mas também do reconhecimento das hierarquias culturais. Essa ideia se aproxima tanto à de repertório, de Michèle Lamont, quanto de variações intraindividuais de Bernard Lahire. Para ambos os autores, os agentes mobilizam diferentes conhecimentos em contextos específicos. A diferença, contudo, é que a ideia de Lizardo, e esse é o ponto aqui, nos permite vislumbrar a permanência da relevância da “alta cultura” como forma de distinção. Esforço similar foi empreendido em artigo recente (Ábile et al., 2021), em que se argumentou que a perda da relevância da “alta cultura” foi observada em pesquisas que relacionaram a “alta cultura” ao campo propriamente artístico. O texto propõe olhar como a “alta cultura” é operada em outros campos para produzir distinções. Assim, demonstra-se que os capitais valorizados no campo artístico são mobilizados pelos campos da gastronomia e da moda para produzirem diferenciações. Estilistas e cozinheiros que se aproximam de artistas (e mesmo querem ser considerados artistas) se diferenciam dos outros, e seus produtos se tornam distintivos. Sendo práticas que recebem reconhecimento social (especialmente por programas de televisão), mas, ao mesmo tempo, exclusivas de uma elite, elas produzem distinção e operam como capital cultural. Dessa forma, argumenta-se que a “alta cultura” pode ser vista ainda operando como capital cultural, mesmo em domínios que não o artístico. Do gosto à prática: de “o quê” para “como” Uma outra forma de se pesquisar o capital cultural, mal captada especialmente por pesquisas baseadas em preferências, é a diferenciação entre “o que” se consome e o “como” se consome. Essa preocupação com a modalidade das práticas está bem exemplificada em um estudo de Vegard Jarness (2015), autor que pesquisou formas de consumo cultural e estratificação social na cidade de Stavanger, na Noruega. Segundo ele, as críticas direcionadas à noção de capital cultural ignoram a distinção entre opus operatum e modus operandi, ou seja, entre um conjunto de preferências (mais ou menos volumosas e “ecléticas”) e os esquemas de avaliação e apreciação subjacentes às escolhas. No contexto da ampliação da produção, difusão e consumo de bens simbólicos e das possibilidades de estetização da vida cotidiana, é provável que “gostar das mesmas coisas” signifique cada vez menos “ter os mesmos gostos” (Idem, p. 67). Na verdade, “quando os mesmos bens culturais comuns são apreciados de modos diferentes, isso pode tornar a prática ainda mais distintiva” (Idem, p. 77). Dessa forma, se indivíduos de diferentes classes ou frações de classe declaram preferências similares em gosto (por exemplo, musical), é possível que o modo como ouvem música ou mesmo a justificativa que dão para suas preferências possam se diferenciar, manifestando diferentes habitus incorporados e produzindo fronteiras que separam as classes e geram distinção. Formas emergentes de capital cultural e novas formas de distinção? Retornando à visão sobre capital cultural flexível ou à diferença de capital cultural abstrato e particular, alguns autores argumentam a favor da emergência de formas emergentes de capital cultural. Mike Savage e Annick Prieur argumentam que, em um contexto em que se ampliam os universos de possíveis escolhas estéticas e em que o valor do domínio da “cultura erudita tradicional” se reduz a mercados de concorrência social cada vez mais restritos, é provável que os agentes equipados com mais capital cultural privilegiem um tipo de apropriação “reflexiva”, distanciada e irônica, sustentada por uma capacidade de explicitar as razões da escolha. “Irônico” aqui implica que os agentes (re)conhecem os significantes do gosto e são capazes de associar diferentes significados a práticas mainstream. Além disso, tais agentes são capazes de se posicionar para além de certos enquadramentos nacionais, regionais ou locais, adotando uma orientação cosmopolita. Esses aspectos da prática - apropriação irônica, “reflexiva” e distanciada, a partir de um enquadramento cosmopolita - teriam um “novo” valor distintivo e, por isso, os autores utilizam o conceito de formas emergentes de capital cultural para apreendê-los (Prieur e Savage, 2011, 2013). Em suma, esse conceito apreende possíveis mudanças no gosto dominante, sobretudo nas gerações mais novas, indicando a operação de “novos” modos de distinção social não mais baseados na estética do desinteresse, que, nos trabalhos de Bourdieu, constituía o princípio subjacente à apropriação legítima das formas culturais “sérias” (Friedman et al., 2015) Por outro lado, outros estudos questionam a suposta novidade dessa modalidade de consumo que combina elementos do “tradicional” e do “contemporâneo”, argumentando que as “formas emergentes” de capital cultural ou as “novas” formas de distinção não pressupõem nada além do domínio do simbólico aplicado em novos contextos sociais (Flemmen; Jarness e Rosenlund, 2018; Atkinson, 2017). Um outro conjunto de estudos busca perceber outras formas de capital. Trata-se também da emergência de capital, mas não necessariamente cultural. É o caso mais frequente de pesquisas que se focam na aparência ou na beleza. Um conjunto de autores (Vandebroek, 2015; Anderson, Grunert, Katz e Lovascio, 2010; Holla e Kuipers, 2015) considera que tais características, ao serem avaliadas como distintivas por certos grupos, operam como um capital que denominam estético. Da mesma maneira que outras formas de capital, a condição de sua acumulação é predisposta pela posição do agente no espaço social. Uma variação dessa visão percebe que esse capital estético é mais importante para as mulheres (elas são mais frequentemente avaliadas por critérios estéticos). Contudo, mesmo a elas, esse capital é de pouca vantagem, pois é mobilizado pelos homens. Em outras palavras, o capital estético acumulado por uma mulher serve, no mais das vezes, como distinção para os homens. Ashley Mears (2015) mostra “os usos do capital corporal feminino por homens que se apropriam de mulheres como um recurso simbólico para gerar lucro, status e laços sociais num mundo exclusivo de homens de negócio” (Mears, 2015, p. 22). Seus estudos se focam na relação entre homens e mulheres em feiras e eventos internacionais de produtos. Contudo, isso pode ser relacionado com aquilo que Randall Collins chama de “trabalho goffmaniano” das mulheres. Seu foco é mostrar que, seja em casa ou em suas profissões, as mulheres tendem a se focar em trabalhos que produzem status. O diálogo com Mears é que esse status também é apropriado no mais das vezes pelo homem, seja ele o chefe, seja ele o marido. Essas duas análises colocam um ponto importante para a própria teoria dos capitais. Em geral, as pesquisas se focam na posse de capitais por agentes de acordo com suas posições sociais. Contudo, pouca atenção é dada à possibilidade de os agentes se apropriarem de capitais acumulados por outros. Ou seja, ainda que capitais sejam acumulados por determinados agentes de acordo com suas condições, esses mesmos capitais podem ser apropriados por outros em melhores condições sociais. Nas análises citadas, é o caso de capitais acumulados por mulheres e mobilizados em proveito de homens. Podemos estender esse raciocínio para outros campos, como a relação entre as altas classes e a cultura popular etc. Distinção e classe social no mundo contemporâneo O estudo da distinção nos coloca, como vimos, inúmeros desafios de natureza teórica. Ao mesmo tempo, existem dificuldades propriamente metodológicas no estudo desse tema. O conceito de distinção, tal como empregado por Bourdieu, supõe diferença e hierarquia. Há muitas evidências empíricas de que as práticas culturais são estratificadas e diferenciadas socialmente. Mais fundamentalmente, a hipótese da homologia - da correspondência estrutural entre o espaço social e o espaço dos estilos de vida - encontra sustentação empírica em estudos realizados em diversas sociedades, indicando que os estilos de vida são estruturados não apenas pelo volume de capital possuído pelos agentes, mas também por sua composição (Flemmen, Jarness e Rosenlund, 2019; Atkinson, 2017; Pereira, 2005)6. É possível, assim, não apenas diferenciar as classes superiores das classes médias e inferiores, mas também, como já demonstrado n’A distinção, diferenciar frações das classes superiores em função do peso dos diferentes recursos pertinentes a um dado universo social (Börjesson et al., 2016). E a mesma diferenciação interna pode ser encontrada para as demais classes, considerando os recursos específicos e modalidades de estilização da vida típicas a essas regiões do espaço social (Pereira, 2005). Por outro lado, uma parte importante desses estudos voltou-se para a investigação de um aspecto da distinção, aquele referente à produção, acumulação e transmissão de capital cultural7. Consequentemente, é pouco comum a utilização de uma ampla variedade de indicadores para mensurar as práticas dos agentes em diferentes domínios da vida social, restringindo-se frequentemente ao consumo da cultura entendida em um sentido bastante restrito (em parte devido às limitações decorrentes do uso de fontes secundárias). Ademais, a operacionalização da noção de espaço social, a partir da construção de diversos indicadores de formas de capital e de trajetórias sociais, tem recebido relativamente pouca atenção nos estudos de classe recentes inspirados pela tradição bourdieusiana8. Se, apesar das ressalvas anteriores, é possível dizer que o aspecto da distribuição diferencial das propriedades das práticas está, de alguma forma, bem documentado, o outro elemento da distinção, qual seja, a hierarquia, parece menos explorado nos estudos que se debruçam sobre essa temática. A mera evidência estatística da raridade de uma prática ou gosto não implica necessariamente que ele hierarquize os agentes. Os instrumentos geralmente utilizados para “mapear” os gostos e as práticas culturais não são suficientes para responder a esta questão. Os dados produzidos por meio de surveys são muito úteis (sobretudo quando produzidos a partir da problemática da pesquisa), porque possibilitam evidenciar a ocorrência empírica de homologias entre as práticas dos agentes em diferentes domínios e suas posições relativas no espaço social. É necessário, no entanto, dar alguns passos adicionais para apreendermos a problemática da distinção em sua totalidade. Como a hipótese da homologia sugere haver correspondências entre as hierarquias operantes nos diversos campos sociais, por um lado, e entre elas e as hierarquias vigentes no espaço social, por outro, uma primeira tarefa consiste em situar as práticas em seus campos específicos e reconstruir a estrutura desses campos (suas instâncias de legitimação, suas hierarquias e seus agentes, os valores que os orientam, os objetos em disputa), além das relações entre eles9. Há muitos estudos desse tipo na sociologia no Brasil e alhures10. Ademais, é preciso avançar na investigação dos aspectos subjetivos de como “as pessoas explicitamente avaliam, estimam e julgam os estilos de vida dos outros (Sølvberg e Jarness, 2019, p. 180). Como produzir dados desse tipo? Como apreender empiricamente os modos pelos quais as pessoas categorizam e hierarquizam os estilos de vida? Que técnicas de observação podemos empregar para investigar as disputas em torno do valor das propriedades dos estilos de vida e o reconhecimento pelos agentes dessas hierarquias? Essa é uma tarefa fundamental, uma vez que, para que possamos considerar determinadas práticas ou gostos como distintos e distintivos, é essencial evidenciar o amplo reconhecimento da legitimidade de tais práticas ou gostos. Como argumentam Sølvberg e Jarness, os estudos de Lamont sobre as fronteiras sociais e simbólicas nos ajudam a avançar nessas indagações. Fronteiras simbólicas são “distinções conceituais feitas pelos atores sociais para categorizar objetos, pessoas, práticas, e, até mesmo, o tempo e o espaço. São ferramentas pelas quais os indivíduos e grupos lutam para chegar a definições da realidade compartilhadas” (Lamont e Molnár, 2002, p. 168). Por sua vez, fronteiras sociais são “formas objetivadas de diferenças sociais manifestadas no acesso desigual e na distribuição desigual de recursos (materiais e imateriais) e de oportunidades sociais” (Idem, ibidem). Mapear as fronteiras simbólicas, retornando aos argumentos de Sølvberg e Jarness (2019), pode ser bastante útil para investigar empiricamente “se e como as diferenças de estilos de vida baseadas em classe estão, de fato, ligadas a processos de exclusão e inclusão” (p. 180). Em Money, morals and manners (1992), Lamont investigou o processo de construção de fronteiras de diferentes tipos (cultural, econômica e moral) com base em entrevistas em profundidade com informantes norte-americanos e franceses. O modo como as pessoas falam de si e dos outros, as categorias que mobilizam, em seus discursos, para nomear, definir, avaliar suas próprias ações e as dos outros constituem dados importantes a partir dos quais podemos apreender como as fronteiras sociais e simbólicas são construídas e reconstruídas na vida social. Ao mesmo tempo, há uma tendência quase incontornável por parte dos indivíduos de idealizar seus comportamentos em situações sociais. Por isso, em situações de entrevista, é provável que os informantes recorram à produção de narrativas “honoráveis”, por meio das quais buscam transmitir uma imagem de si como indivíduos tolerantes, minimizando as diferenças de classe e evitando julgamentos ou o uso de categorias que impliquem hierarquização ou estigmatização. Mais: para os membros das classes superiores, apresentarem-se como pessoas tolerantes, “decentes”, igualitárias contribuiria, intencionalmente ou não, para a reprodução da legitimidade cultural e das fronteiras de classe (Sølvberg e Jarness, 2019, p. 23). Para que a situação de entrevista não se transforme em uma mera instância de produção de discursos complacentes ou condescendentes, é essencial que adotemos técnicas que permitam “extrair” as chamadas narrativas “viscerais”, aquelas carregadas de sentimentos de desgosto, julgamentos morais e estéticos, de categorias que produzem hierarquias entre grupos de pessoas11. A probabilidade de produção de tais narrativas “honoráveis” ou “viscerais” pode variar conforme o contexto: onde, com quem, de quem, do que se fala. Nos estudos de Sam Friedman sobre a estruturação social do gosto por comédia, por exemplo, seus informantes de frações superiores mais dotados de capital cultural construíam, em suas falas, fronteiras simbólicas baseadas na percepção da inabilidade de certas audiências de entenderem “formas mais elevadas” de comédia. Aparentemente, quando as pessoas falam sobre “o que as faz rir”, elas se sentem menos constrangidas em marcar distância com quem não compartilham seus gostos: “a comédia parece ter um poder único para definir fronteiras simbólicas, enraizado em sua conexão às propriedades sociais do humor…” (Friedman, 2014, p. 148)12. Neste sentido, tem sido cada vez mais relevante o emprego de múltiplas técnicas de pesquisa, que captem a complexidade das relações entre classe e distinção. Muito além de buscar saber as práticas raras e comuns, as que caracterizam mais o gosto de uma classe do que de outra, essas técnicas buscam nos ajudar a responder quais as práticas e os gostos mobilizados para a produção de fronteiras simbólicas. Em uma pluralidade de práticas e gostos que caracterizam a vida dos sujeitos, quais aqueles que se tornam, para usar outra expressão de Lamont, o repertório das diferentes classes nas lutas sociais. Ao fazer esse tipo de pergunta, deslocamos o capital cultural de seu aspecto distintivo para a temática do poder. Isso significa que o interesse recai na esfera da legitimidade de gostos e práticas. E, dessa forma, importa perguntar sobre as novas e antigas instâncias de legitimidade que marcam a esfera cultural. A legitimidade cultural na França de Bourdieu era altamente marcada pelo controle do Estado (operando nas escolas, nos museus, nas salas de concerto etc.), pelo gosto burguês e pela separação de alta e baixa culturas. O que ocorre com essas instâncias com o desenvolvimento da indústria cultural, da cultura produzida por empreendimentos privados e, em especial, pelos novos meios de comunicação, como a internet? A busca de respostas a perguntas como essa e outras que fizemos aparecem nos textos reunidos neste dossiê. A temática de novas configurações do capital cultural e formas de definição das fronteiras simbólicas são observadas no texto “Consumo e capital informacional nas lógicas de distinção entre os grupos dominados”, de Ana Lúcia de Castro. A autora leva o debate sobre a distinção para as classes populares e, nelas, a cultura de consumo. Seu objeto privilegiado de análise é o movimento hype, que envolve a adoção por jovens das classes populares de um consumo de bens restritos típicos do universo do luxo, mas ao mesmo tempo um afastamento das práticas mais legítimas desse universo e da classe dominante. A autora nota como nesse movimento o capital cultural é mobilizado não a partir de seus elementos tradicionais (como a “alta cultura”), mas a partir de um conhecimento da cultura digital que produz um capital informacional. Assim, é pela mobilização desse capital que os agentes do movimento hype são capazes de traçar as fronteiras simbólicas que os diferenciam de outros membros das classes populares. O capital cultural, ela argumenta, continua operando, mas sob formas não antevistas por Bourdieu. Mas se o capital cultural continua operando, sob novas formas, também deve haver instâncias que sejam fonte desse capital na contemporaneidade. Não é estranho à obra de Bourdieu observar o papel da escola e da língua nesse contexto. Contudo, a contemporaneidade exige que repensemos a escola, em especial em relação ao processo de globalização. A isso se dedica Miqueli Michetti no texto “Bilíngues, bilíngues de verdade e global citizens: distinção e disposições no mercado educacional”. O foco agora se volta para as classes altas e sua tentativa de buscar manter o valor do capital cultural que detêm. Para tanto, a inserção dessas classes em uma suposta cultura cosmopolita produz o efeito desejado. Os filhos da elite vão estudar em escolas em que não apenas aprendem uma língua estrangeira (o inglês, em geral), mas incorporam uma disposição cosmopolita e, com ela, a noção de que uma vida desterritorializada, voltada para o mundo, é superior. Dessa forma, em torno de noções que supõem o “bem”, como diversidade cultural, a valorização da diferença, a tolerância etc., o que na verdade se produz é um capital cultural, marcado pela disposição cosmopolita, que, mais uma vez, apenas a elite é capaz de adquirir. Ainda sobre o campo educacional brasileiro, Carlos Moris, Fernando Casselato, Matheus Nascimento, Gabriela Agostini e Luciana Massi mostram outro lado da atuação do capital cultural através de uma excelente aplicação do método de análise de correspondências múltiplas, que demonstra o efeito muito forte do capital cultural nas chances de sucesso no Enem e, portanto, nas chances de acesso à universidade, remetendo aos estudos bourdieusianos clássicos sobre o tema. O tema da distinção ligado ao capital cultural das elites muda de ares e nos leva ao Chile, onde Modesto Gayo e María Luisa Méndez mostram, através de métodos quantitativos e qualitativos, a existência de uma fragmentação ideológica na elite chilena, em contraposição a teorias que pressupõem um conservadorismo inerente a qualquer grupo no topo da hierarquia social. Aproveitando-se do momento de alta tensão e conflitos na sociedade chilena, o artigo estabelece correlações que sugerem uma clivagem entre grupos de elite que apoiam a mudança constitucional e querem um papel protagonista nesse processo, e outros que temem e gostariam de impedir mudanças profundas. Esses grupos, por sua vez, podem ser correlacionados a atitudes opostas no espectro político e ideológico. Do Chile, passamos para a Argentina e o texto de Alexandra Tedesco, um trabalho de sociologia histórica centrado na figura de Victoria Ocampo, escritora fundamental para a formação do campo intelectual argentino no século XX. Através de uma análise cuidadosa de sua trajetória, percebemos também a operação do habitus e do capital cultural incorporado na formação e reprodução de mecanismos de distinção da elite cultural argentina. A relação entre classe, cultura e política reaparece no artigo de Alana Meirelles Vieira, “Entre cultura e política: a distinção da produção de opinião na mídia”. Mobilizando de modo bastante frutífero os conceitos bourdieusianos de espaço social, habitus, campo e capital, a autora problematiza as tomadas de posição no mercado de produção política, centrado na mídia, considerando as homologias das posições e das trajetórias sociais dos agentes nos campos político, jornalístico, econômico e, mais amplamente, no espaço das classes sociais. Com base na análise de dados primários produzidos a partir de entrevistas em profundidade e de pesquisa documental, o trabalho contribui para dar corpo a uma vertente da Sociologia da Cultura que não se furta aos desafios de apreender os determinantes de classe, pela mediação do habitus, nas tomadas de posição política e ideológica. O texto de Michel Nicolau Netto e Bárbara Venturini Ábile propõe a tematização das homologias das hierarquias no campo da moda e no espaço das classes sociais, a partir da investigação empírica de dois eventos de colaboração criativa entre marcas de luxo e fast fashion, entendidos como instâncias empíricas do encontro entre o “sagrado” e o “profano”. Com base em dados produzidos por meio de pesquisa de material visual e de entrevistas em profundidade, os autores argumentam que tais colaborações pressupõem (e também reproduzem) o reconhecimento pelos agentes das hierarquias simbólicas e, portanto, do valor das marcas enquanto signos de distinção nesse subespaço simbólico. Por isso, os eventos de colaboração criativa servem também como uma instância de observação da luta de classes em torno da imposição dos modos legítimos de viver, luta em que as classes superiores quase sempre detêm os recursos necessários para a preservação da raridade relativa em que se assentam seus privilégios. Fechando o dossiê, apresentamos uma entrevista realizada por e-mail com o pesquisador norueguês Johannes Hjellbrekke, que nos traz observações muito interessantes sobre o uso da metodologia bourdieusiana para a produção de projetos de pesquisa no século XXI e a relevância contínua do conceito de capital cultural em nossas sociedades, já tão distantes da França das décadas de 1960 e 70 que Bourdieu investigou. Referências Bibliográficas Ábile, B. V.; Ferreira, T. A.; Miraldi, J. C. & Nicolau Netto, M. (2021), “A arte entre estilistas e chefs: os repertórios da arte e a delimitação das fronteiras na gastronomia e na moda”. CSOn-line: Revista Eletrônica de Ciências Sociais Anderson, Tammy L.; Grunert, Catherine; Katz, Arielle & Lovascio, Samantha. (2010), “Aesthetic capital: A research review on beauty perks and penalties”. Sociology Compass, 4: 564-575. Atkinson, Will. 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Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica Elie CheniauxSOBRE O AUTOR Resumos É realizada uma ampla revisão dos estudos psicanalíticos e das mais recentes pesquisas neurocientíficas sobre os sonhos. Segundo Freud, os sonhos constituem "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Para muitos neurocientistas, eles são formados a partir de estímulos aleatórios originados na ponte e não possuem qualquer significado. Contudo, diversos estudos associam as emoções experimentadas durante a vigília e o conteúdo dos sonhos. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos dá algum respaldo à teoria freudiana. Todavia, não há dados empíricos que apóiem a existência de uma instância censora que deturpe os sonhos. É possível que os sonhos exerçam um papel na elaboração psíquica de lembranças traumáticas. Na nossa opinião, as visões psicanalítica e neurocientífica sobre os sonhos podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Sonho; fases do sono; psicanálise; neurofisiologia; literatura de revisão A comprehensive review was carried out about psychoanalytic studies and the most recent neuroscientific researches about dreams. According to Freud, dreams represent "a (disguised) fulfillment of a (repressed) wish." For several neuroscientists, they are formed based on random stimuli originated from the brainstem and do not have any meaning. However, several studies associate the emotions experienced during waking with the content of dreams. The hypothesis that the dopaminergic mesolimbic-mesocortical system, which is associated with instinctual appetitive craving states, is essential to the formation of dreams brings some endorsement to Freudian theory. Nevertheless, there is no empirical data to support the existence of an instance of censorship that distorts the dreams. It is possible that the dreams play a role in psychological working-through of traumatic memories. In our opinion, psychoanalytic and neuroscientific views about dreams can be complementary and mutually enriching. Dream; sleep stages; psychoanalysis; neurophysiology; literature review ARTIGO DE REVISÃO Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica Elie Cheniaux Professor adjunto, Faculdade de Ciências Médicas - Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCM-UERJ), Rio de Janeiro, RJ. Médico, Instituto de Psiquiatria - Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Doutor em Psiquiatria, IPUB-UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Pós-doutor, Programa de Engenharia de Sistemas e Computação, Área Interdisciplinar de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia - Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Membro associado e docente, Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ), Rio de Janeiro, RJ Correspondência RESUMO É realizada uma ampla revisão dos estudos psicanalíticos e das mais recentes pesquisas neurocientíficas sobre os sonhos. Segundo Freud, os sonhos constituem "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Para muitos neurocientistas, eles são formados a partir de estímulos aleatórios originados na ponte e não possuem qualquer significado. Contudo, diversos estudos associam as emoções experimentadas durante a vigília e o conteúdo dos sonhos. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos dá algum respaldo à teoria freudiana. Todavia, não há dados empíricos que apóiem a existência de uma instância censora que deturpe os sonhos. É possível que os sonhos exerçam um papel na elaboração psíquica de lembranças traumáticas. Na nossa opinião, as visões psicanalítica e neurocientífica sobre os sonhos podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Descritores: Sonho, fases do sono, psicanálise, neurofisiologia, literatura de revisão. INTRODUÇÃO O neurocientista e psicanalista Mauro Mancia1, num artigo publicado no International Journal of Psychoanalysis, em 1999, ressalta as diferenças entre as abordagens neurocientífica e psicanalítica dos sonhos. Enquanto os neurocientistas se dedicam ao estudo das estruturas e funções cerebrais envolvidas na produção do sonho, os psicanalistas se interessam pelo significado deste, considerando os aspectos biológicos irrelevantes para a sua compreensão. Todavia, para outros autores, como o psiquiatra Morton Reiser2, o estudo dos sonhos representa uma grande oportunidade de exploração da relação entre corpo e mente. Segundo ele, os modelos da psicanálise e da neurociência para os sonhos, embora muito distintos entre si, não devem ser vistos como antagônicos ou inconciliáveis, mas sim como complementares. Reiser acredita que uma cooperação entre esses dois campos do conhecimento poderia ser mutuamente enriquecedora. Realizamos uma revisão bibliográfica a respeito dos sonhos, na qual comparamos as visões da psicanálise e da neurociência, com o objetivo de identificar possíveis pontos de contato e de divergência entre elas. Promovendo, assim, um diálogo entre a psicanálise e a neurociência, teremos subsídios para avaliar a viabilidade e a utilidade de uma aproximação ou mesmo de uma integração entre as duas no estudo da mente humana. Iniciamos nossa pesquisa bibliográfica pelos trabalhos sobre os sonhos de Sigmund Freud, criador da psicanálise, de James Allan Hobson, neurocientista que veementemente critica a teoria freudiana, e de Mark Solms, um dos principais pesquisadores na área da neuropsicanálise, disciplina científica recém-criada que se ocupa da integração entre os conceitos psicanalíticos e neurocientíficos. Com o auxílio das bases de dados MEDLINE, LILACS e PsycINFO, e utilizando como termo de busca "sonho" (ou dream), procuramos artigos científicos sobre o tema. Também consultamos diretamente alguns dos mais importantes periódicos nacionais e estrangeiros das áreas de psicanálise e de neurociência em bibliotecas e através da Internet, no portal Periódicos da CAPES. Optamos por incluir preferencialmente artigos originais ou de revisão recentes, ou então considerados clássicos na literatura científica. A teoria freudiana sobre os sonhos "A Interpretação dos Sonhos", de 1900, é considerada a primeira obra propriamente psicanalítica de Freud. Nesse trabalho, particularmente no capítulo VII, já se encontra uma teoria geral do aparelho psíquico, formulada a partir dos estudos de Freud sobre os sonhos, que são, segundo ele, a "via régia de acesso ao conhecimento do inconsciente na vida mental"3. Para Freud, o sonho constitui "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Possui um conteúdo manifesto, que é a experiência consciente durante o sono, e ainda um conteúdo latente, considerado inconsciente. Este é composto por 3 elementos: as impressões sensoriais noturnas (por exemplo, a sensação de sede durante o sono), os restos diurnos (registros dos acontecimentos da véspera) e as pulsões do id (relacionadas a fantasias de natureza sexual ou agressiva). Esses elementos do sonho latente tendem a fazer o indivíduo despertar. E, durante o sono, em função da completa cessação da atividade motora voluntária, a repressão está enfraquecida, o que aumenta a possibilidade de as pulsões terem acesso à consciência. Todavia o sonho atua como "o guardião do sono". Em função de uma solução de compromisso entre o id e o ego - que é a instância que exerce a repressão -, é permitida uma gratificação parcial das pulsões, diminuindo a força delas e, conseqüentemente, possibilitando que o indivíduo continue a dormir. Essa gratificação se dá através de uma fantasia visual (o conteúdo manifesto do sonho), que é o resultado de um processo regressivo: o fluxo da energia psíquica, ao invés de seguir em direção às vias motoras, retorna às vias sensoriais3,4. Ainda de acordo com Freud, o conteúdo manifesto dos sonhos é aparentemente incompreensível porque consiste numa versão distorcida do conteúdo latente. Essa distorção se dá, em primeiro lugar, porque no sono há uma profunda regressão do funcionamento do ego, que faz com que prevaleça o processo primário do pensamento. Este é caracterizado pelo predomínio das imagens visuais (em detrimento da linguagem verbal) e pelos mecanismos de condensação (fusão de duas ou mais representações) e de deslocamento (substituição de uma representação por outra). Além disso, entre o inconsciente e o consciente existiria uma instância censora, que deliberadamente disfarçaria o conteúdo do sonho, para que o sonhador não reconheça sua origem pulsional, proibida3,4. Algumas contestações à teoria freudiana A teoria freudiana sobre os sonhos tem sido bastante contestada, dentro e fora da psicanálise. Questiona-se se as imagens que percebemos durante o sono representariam mesmo um disfarce ou distorção. Luborsky & Crits-Christoph5 estudaram os sonhos de um grupo de pacientes utilizando o core conflictual relationship theme method (CCRT), um instrumento que avalia o padrão de relacionamentos interpessoais de um indivíduo, tendo como base o relato deste. Comparando-se os resultados da avaliação relativos apenas ao conteúdo manifesto do sonho com aqueles obtidos quando foram consideradas também as associações livres do sonhador (que indicariam o conteúdo latente do sonho), não foram encontradas diferenças. Vários estudos empíricos encontraram uma correlação significativa entre a atividade mental durante a vigília e o conteúdo manifesto dos sonhos. Na amostra de Greenberg et al.6, os problemas sonhados eram basicamente os mesmos pelos quais os indivíduos estavam passando em suas vidas diurnas. Smith7, por sua vez, observou que separação ou morte eram a temática predominante nos sonhos de pacientes cardiopatas hospitalizados. Outros ensaios clínicos demonstraram que estímulos apresentados anteriormente ao sono - como filmes, fotografias ou jogos de palavras - reaparecem claramente nos sonhos8. Por outro lado, alguns autores não acreditam que seja possível recuperar o conteúdo latente do sonho na sessão analítica. Para eles, a associação livre ocasiona a produção de um material novo, criado a partir da relação paciente-analista9,10. Blechner10 afirma que muito do que é bizarro ou confuso no sonho não resulta de repressão: são elementos originalmente extralingüísticos, que não podem ser expressos em palavras. Para Robbins11, os sonhos expressam puramente a linguagem do processo primário; portanto, a atuação de uma instância censora, que refletiria um pensamento racional (característico do processo secundário), não seria possível. Coloca-se em dúvida, ainda, a afirmativa de Freud de que desejos seriam os instigadores de todos os sonhos. Para diversos autores1,12,13, os sonhos refletiriam não só os desejos e as defesas contra estes, mas a atividade mental como um todo, e teriam inúmeras outras funções além de descarga (da energia psíquica), como a solução de problemas (intelectuais ou emocionais)6,14,15, criatividade8, autoconhecimento1,16, integração da mente14,17, adaptação17, aprendizagem8, neutralização do estresse8, entre outras. McCarley & Hobson18, por sua vez, argumentam que, embora possam estar presentes no sonho temas relacionados a desejos, isso não significa que estes representem um fator causal no processo de formação do sonho. Por fim, alguns autores1,9,10,12,17,19,20 destacam a relação paciente-terapeuta e a transferência como os componentes principais na formação dos sonhos durante o tratamento. Em contrapartida à importância que Freud dava aos sonhos para a investigação da mente, o interesse por estes entre os psicanalistas tem diminuído significativamente nas últimas décadas. Kantrowitz17, estudando o currículo de 28 institutos psicanalíticos americanos, constatou que o número total de horas dedicadas ao estudo dos sonhos em cursos clínicos e teóricos no biênio 1998-1999 foi muito menor do que em 1980-1981. Para muitos analistas, os aspectos intrapsíquicos trazidos pelos sonhos podem ser igualmente obtidos por meio do estudo de sintomas, traços de caráter, atos falhos ou associações livres10,17. Os aspectos neurofisiológicos do sono Na década de 1950, Nathaniel Kleitman e seus alunos William Dement e Eugene Aserinsky descreveram pela primeira vez o sono paradoxal, ou sono REM1,2. Este, que compreende no adulto cerca de 20% do tempo total de sono, é caracterizado pela ocorrência de movimentos oculares rápidos (rapid eye movements, daí a sigla), perda do tônus muscular, freqüências cardíaca e respiratória irregulares e oscilações na pressão arterial sistêmica. Esses autores detectaram ser muito comum, quando uma pessoa era despertada nessa fase do sono, que ela referisse ter estado sonhando. Em 1962, Jouvet demonstrou que o traçado eletroencefalográfico durante o sono REM é muito semelhante ao da vigília: dessincronizado (irregular) e com ondas rápidas (ritmo b). Em contrapartida, no sono profundo, não-REM (NREM), em que não há um aumento da atividade autonômica periférica, predominam um traçado sincronizado e os ritmos d e t - daí ele ser conhecido também como sono de ondas lentas (slow wave sleep)1,21. Hoje em dia se sabe que, embora os sonhos sejam muito mais comuns durante o sono REM, eles podem ocorrer também durante o sono profundo: estima-se que entre 25 e 50% dos períodos de sono NREM estejam associados a sonhos21. Além disso, 5 a 30% dos períodos de sono REM cursam sem qualquer sonho22. Todavia, dependendo da fase do sono, as características dos sonhos são bem diferentes. Comparados com os sonhos da fase NREM, os da fase REM são mais vívidos e mais bizarros, apresentam uma maior participação do sonhador e uma maior estruturação espacial, são mais facilmente lembrados e relatados com um número maior de palavras. Já os sonhos do sono NREM são mais conceituais do que plásticos, compostos por fragmentos da realidade não organizados e não narráveis, raramente são lembrados e apresentam uma participação mais passiva do sonhador1,21. Durante o sono REM, o fluxo sangüíneo cortical é maior do que no sono de ondas lentas e, às vezes, maior até do que na vigília23. Estudos de tomografia por emissão de pósitrons (PET scan) mostram que, durante o sono REM, estão ativados o córtex visual extra-estriatal (associativo) e as regiões límbica e paralímbica; estando, ao mesmo tempo, desativados o córtex visual estriado (primário) e o córtex pré-frontal. Vários aspectos característicos do sonho podem ser relacionados a estes achados: a riqueza de imagens visuais, à ativação do córtex visual associativo e desativação do primário; a intensa expressão emocional, à ativação das regiões límbica e paralímbica; e a bizarrice, incoerência, perda da crítica e esquecimento, à desativação do córtex pré-frontal1,24,25. Acredita-se que a consciência da vigília seja mediada pela noradrenalina e pela serotonina, e a consciência do sonho (do sono REM), pela acetilcolina24,25. A atividade aminérgica (noradrenalina e serotonina) está elevada durante a vigília, diminui durante o sono NREM e se encontra ausente no sono REM. Já a atividade colinérgica é máxima no sono REM e na vigília e mínima ou ausente durante o sono NREM. Recentemente, descobriu-se que as hipocretinas desempenham um importante papel no ciclo sono-vigília: apresentam atividade máxima durante a vigília e ausente durante o sono, tanto no REM como no NREM26,27. Consolidação da memória durante o sono Para grande parte dos neurocientistas, os sonhos não têm qualquer função: são apenas um efeito colateral de processos de consolidação da memória dependentes do sono, a manifestação consciente destes27. Diversos dados indicam que o sono é fundamental para a memória e a aprendizagem. Em primeiro lugar, durante o sono REM, predomina a atividade colinérgica, sendo que a acetilcolina está claramente envolvida nas funções cognitivas28. Em vários estudos experimentais, alguns feitos com ratos, outros com humanos, observou-se que a privação do sono REM ocasionava um prejuízo na aprendizagem de habilidades perceptivas ou perceptivo-motoras (memória implícita), treinadas pouco antes do adormecer27,29,30. Em outros estudos, em que os animais ou humanos foram submetidos a um treinamento desse tipo, mas não foram privados do sono, detectou-se um aumento da duração total do sono REM28,31. Tal aumento só ocorria quando a tarefa era de fato aprendida28. Diante disso, passou-se a acreditar numa relação entre o sono REM e a consolidação da memória implícita32. Por outro lado, um ensaio clínico evidenciou uma diminuição na capacidade de aquisição de memórias explícitas em indivíduos privados do sono NREM30. Em estudos eletroencefalográficos realizados com ratos, pássaros e humanos, constatou-se que padrões de disparos de determinados neurônios do hipocampo registrados na vigília, enquanto se treinavam tarefas cognitivas (memória explícita), reapareciam durante o sono. Esse fenômeno de reativação neuronal, ou reverberação, ocorre predominantemente no sono NREM, mas também é observado no sono REM e mesmo durante a vigília28,33,34. Experiências com ratos evidenciaram que aqueles expostos algumas horas antes de dormir a ambientes não-familiares apresentaram um aumento da expressão do gene zif-268 - particularmente envolvido em processos de neuroplasticidade - no hipocampo e no córtex cerebral durante o sono REM, o que não ocorreu com os animais-controle34. Contudo, há questionamentos quanto ao papel do sono na consolidação da memória. Para Vertes32, parece um contra-senso que o sono, sendo um estado eminentemente amnéstico, tenha esse papel. Além disso, sabe-se que a consolidação de algumas formas de memória se dá também durante a vigília28. Em cerca de metade dos estudos de privação do sono com animais, os resultados não evidenciaram um déficit de aprendizagem32, e em diversos experimentos com humanos submetidos a atividades pré-sono de treinamento, não se observou uma duração aumentada do sono REM31. Por outro lado, critica-se a metodologia de vários estudos com ratos, pois tanto o treinamento como a privação do sono costumam provocar estresse, o qual, por sua vez, pode causar um prolongamento do sono REM e também prejuízo na aquisição de novas memórias28,31,32. Também merece destaque a observação de que os antidepressivos inibidores da mono-amino-oxidase, largamente prescritos num passado recente, embora causem eliminação do sono REM, nunca foram relacionados a um déficit de memória31,32. Siegel31 argumenta que, se o reaparecimento da atividade neuronal da vigília durante o sono estivesse implicado na consolidação das memórias dos eventos diurnos, os sonhos seriam cópias fiéis destes. Mas não parece ser assim. Fosse et al.35 examinaram o conteúdo de um total de 299 relatos de sonhos de 29 voluntários. Embora 65% dos sonhos estivessem relacionados a experiências pessoais recentes, apenas 1,4% deles continha elementos que pudessem ser considerados uma repetição dessas experiências. Segundo Francis Crick - ganhador do prêmio Nobel por suas pesquisas sobre o DNA - e Graeme Mitchison36, sonhamos não com as memórias que estão sendo consolidadas, mas com aquelas que estão sendo apagadas. Para eles, o sono REM é necessário para a eliminação de informações erradas ou inúteis armazenadas no cérebro. O sonho seria um reflexo de um processo de aprendizagem reversa, no qual determinadas sinapses são enfraquecidas. Embora esta formulação não tenha recebido muito apoio nos meios acadêmicos, ela é freqüentemente citada e parece ser coerente com o fato de os sonhos retratarem eventos bizarros ou irreais, os quais precisariam ser eliminados da memória32. A teoria de ativação-síntese A teoria de ativação-síntese, de Hobson & McCarley, apresentada como uma contestação à teoria psicanalítica sobre os sonhos, tem sido amplamente aceita entre os neurocientistas nas últimas duas décadas22. No sono REM, em função de uma diminuição da atividade aminérgica, ocorre uma desinibição do sistema colinérgico, especialmente na ponte. Isso faz com sejam geradas periodicamente as ondas ponto-genículo-occipitais (PGO), detectadas no eletroencefalograma do sono REM, as quais, para os dois autores, são os estímulos básicos dos sonhos. Elas se originam na ponte, propagam-se para o corpo geniculado lateral do tálamo e chegam ao córtex visual (occipital), ativando-o. Dessa forma, com base nos traços de memória visual armazenados, são produzidas as imagens do sonho. Como essa ativação cortical se dá de forma aleatória, são formadas imagens caóticas, as quais, num segundo momento, sofrem um processo de síntese, construindo, assim, uma narrativa seqüencial. Portanto, de acordo com a teoria, os sonhos nascem, no tronco cerebral, sem qualquer significado; eles não estão disfarçando nada, pelo contrário, expressam de forma transparente a atividade cerebral24,37,38. O sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical e o resgate da teoria freudiana Mark Solms22,39 apresenta uma teoria que é, ao mesmo tempo, uma crítica à teoria de ativação-síntese e uma tentativa de confirmação da formulação freudiana sobre os sonhos. Segundo ele, o sono REM e o sonho são estados dissociáveis: um pode ocorrer sem o outro. Pode haver sonhos na fase NREM do sono, e 5 a 10% destes são indistinguíveis dos sonhos da fase REM. Além disso, focos epilépticos em regiões têmporo-límbicas, ou seja, fora do tronco cerebral, podem causar pesadelos estereotipados recorrentes, tipicamente durante o sono NREM. Dos 22 pacientes estudados por ele que apresentavam uma lesão na ponte e, conseqüentemente, perda total ou parcial do sono REM, 18 mantinham a capacidade de sonhar. Por outro lado, Solms aponta que, na literatura científica, já foram registrados mais de 100 casos de eliminação do sonhar provocada por lesões no cérebro anterior que preservaram a ponte e o sono REM. Na maioria desses casos, foi afetada a área da junção parieto-têmporo-occipital, estreitamente relacionada à formação das imagens do sonho. Contudo, em outros pacientes, a eliminação dos sonhos se deveu a uma lesão no quadrante ventromedial do lobo frontal. Essa região, por sinal, era a acometida nas cirurgias de leucotomia pré-frontal, muito utilizadas no passado no tratamento da esquizofrenia e que comumente levavam a um prejuízo no sonhar. Pelo quadrante ventromedial do lobo frontal, passam fibras do sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, o qual envolve a área tegmentar ventral do mesencéfalo, o núcleo acumbente, o hipotálamo, o córtex pré-frontal e o córtex cingulado anterior. De acordo com Solms22, esse sistema é o gerador do sonho. Estudos de PET scan mostram um aumento da atividade nesse circuito durante o sono REM23,40. Além disso, agonistas dopaminérgicos, como o L-Dopa, podem causar sonhos especialmente vívidos e pesadelos. Tais achados reforçam a antiga concepção de uma ligação entre sonho e "loucura" - em ambos há alucinações, perda do juízo crítico, etc. -, já que existe uma clara correlação entre hiperatividade dopaminérgica e ocorrência de sintomas psicóticos22,23. O sistema mesolímbico-mesocortical está relacionado aos estados motivacionais, os quais instigam comportamentos que visam à satisfação das necessidades biológicas, como o beber, o comer e o copular. Substâncias estimulantes e que causam dependência, como cocaína e anfetamina, atuam nesse circuito, causando um aumento na liberação de dopamina no núcleo acumbente, o que, por sua vez, leva a uma sensação de prazer22. Um outro elemento que indica uma relação entre esse sistema dopaminérgico e o sonhar é a alta freqüência com que dependentes químicos em abstinência sonham estar buscando ou usando drogas41. Na concepção de Solms22, o sono REM e o sonho são controlados por mecanismos biológicos diferentes: o primeiro, pela atividade colinérgica da ponte; e o segundo, pelos circuitos dopaminérgicos do cérebro anterior. Estes são a via final comum de várias formas de estimulação cerebral. As ondas PGO freqüentemente exercem esse papel de estimulação cerebral, mas não de forma exclusiva. Ainda segundo Solms, o envolvimento na geração dos sonhos do sistema mesolímbico-mesocortical, claramente relacionado ao que a psicanálise chama de pulsões, parece confirmar a afirmativa de Freud quanto a um desejo ser o instigador do sonho. O papel do sonho na elaboração psíquica de experiências traumáticas Em "A Interpretação dos Sonhos", Freud3 argumenta que mesmo os pesadelos não contradizem a formulação de que os sonhos são realizações de desejos. Segundo ele, nesse caso, apesar da censura onírica, o conteúdo latente consegue chegar à consciência pouco deformado e é reconhecido pelo ego. Este então reage produzindo a ansiedade, com o objetivo de despertar o indivíduo. Freud cita ainda uma variante, os sonhos de punição, nos quais o ego antecipa a culpa (pela realização do desejo reprimido), e o conteúdo manifesto está representando uma fantasia de punição. Seria, portanto, a realização de um desejo do superego, e não do id. Mais tarde, porém, em "Além do Princípio do Prazer", de 1920, o próprio Freud42 aponta uma importante exceção à sua formulação: os sonhos repetitivos que sucedem eventos traumáticos e os que evocam traumas da infância não são realizações de desejos. Tais sonhos, de acordo com ele, obedecem à compulsão à repetição, que seria algo mais primitivo do que o princípio do prazer (e independente deste), e têm como função a sujeição ou dominação das excitações relacionadas à recordação do trauma. Para Ernest Hartmann43, contudo, os pesadelos não são uma exceção; ao contrário, constituem o paradigma de todos os sonhos. Ele estudou os sonhos de pessoas que passaram por experiências traumáticas importantes e observou que, no início, muitas vezes havia uma mera repetição do trauma; mais tarde, contudo, os sentimentos de medo, vulnerabilidade, culpa ou pesar continuavam presentes nos sonhos, mas num contexto inteiramente diferente. Por exemplo, sonhar estar sendo atingido por uma onda gigante ou um furação era muito comum, independentemente de como tivesse sido o verdadeiro trauma. Os sonhos desses indivíduos continham não os estímulos sensoriais relativos ao evento traumático, mas sim a emoção vivenciada. Segundo o autor, os sonhos contextualizam a emoção dominante, expressando-a através de uma representação pictórica. Para Hartmann, esse mesmo padrão é encontrado nos sonhos de pessoas que não sofreram traumas importantes, mas que estão experimentando uma emoção intensa, como em situações de estresse em geral. Ele afirma ainda que, quando não há uma emoção dominante, e várias emoções de menor intensidade estão presentes, tal padrão, embora menos evidente, persiste. Revonsuo15, por sua vez, baseou-se na teoria da evolução para tentar explicar os sonhos. Ele partiu das seguintes premissas: para os primeiros humanos, a vida era curta e cheia de ameaças; os eventos traumáticos freqüentemente são expressos nos sonhos; e os sonhos são fundamentais no processo de aprendizagem. De acordo com sua hipótese, a função dos sonhos é simular experiências traumáticas ou ameaçadoras que foram anteriormente vivenciadas durante a vigília. Tal simulação, segundo ele, leva a uma melhora no desempenho do indivíduo em relação à detecção e enfrentamento de ameaças, o que, conseqüentemente, aumenta a sua sobrevida e chances de procriação. Diversos autores9,14,19,20,44 acreditam que os sonhos são de grande importância para a elaboração de traumas e conflitos psíquicos e têm um papel terapêutico, semelhante ao da psicoterapia. Para explicar esse processo de elaboração, o seguinte modelo da neurociência computacional tem sido utilizado. Acredita-se que, no sonho, as redes neurais se conectem com mais facilidade do que durante a vigília43. Todavia, essas conexões não são feitas de forma aleatória: as emoções seriam os organizadores das redes neurais. Em outras palavras, as representações tendem a se associar a outras que possuam a mesma conotação afetiva2,43. Isso está de acordo com a regra de aprendizagem de Hebb, que diz que "a força de uma conexão sináptica entre dois neurônios aumenta sempre que os neurônios são ativados ao mesmo tempo por uma fonte externa". Enquanto dormimos, as experiências recentes são primeiro emparelhadas com eventos mais remotos, com os quais possuam alguma similaridade, para em seguida serem integradas aos registros permanentes de memória45. Dessa forma, a lembrança de um trauma (da infância ou recente) se associa a outras recordações, o que a torna menos poderosa e perturbadora43. DISCUSSÃO Os sonhos podem ser definidos como estados da consciência que ocorrem durante o sono. Mas ainda sabemos muito pouco sobre eles. Na edição comemorativa da revista Science, relativa ao seu 125º aniversário, é apresentada uma lista de 125 questões ainda não respondidas pela ciência e que irão desafiar os pesquisadores no próximo quarto de século. Entre elas, foram incluídas as seguintes: "qual é a base biológica da consciência?"; "por que dormimos?"; e "por que sonhamos?"46. A hipótese de Freud de que os desejos são os instigadores dos sonhos encontra agora algum respaldo na proposição de Solms22 de uma relação entre sonhos e ativação do sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical. Esse autor, como vimos, baseou-se na observação de pacientes com lesões no cérebro anterior, em estudos de PET scan no sono REM, no efeito de agonistas dopaminérgicos sobre os sonhos e na existência de diversos aspectos em comum entre sonhos e psicose. Todavia, algumas dúvidas ainda pairam sobre essa questão. Por exemplo, faltam dados na literatura científica sobre como os antipsicóticos, que são antagonistas dopaminérgicos, afetam os sonhos, tanto em indivíduos normais como em psicóticos. Além disso, os sonhos e a mais importante das psicoses, a esquizofrenia, possuem diferenças marcantes do ponto de vista fenomenológico: enquanto os sonhos são constituídos basicamente por imagens visuais, na esquizofrenia predominam as alucinações auditivas, sendo bem mais raras as visuais. E não se pode esquecer que o próprio Freud42 reconheceu a existência de exceções à sua regra: os sonhos repetitivos pós-traumáticos. Já a concepção de que uma instância censora deturpa os sonhos tem encontrado pouco apoio. Robins11 defende que o conteúdo manifesto é o próprio sonho, visto que o córtex pré-frontal, que seria fundamental em qualquer mecanismo mental de disfarce dos sonhos, encontra-se inativado durante a fase REM do sono. Por outro lado, a visão de muitos neurocientistas, como Hobson & McCarley37, de que os sonhos não possuem significado é desafiada pela constatação de quanto as emoções experimentadas durante a vigília determinam o conteúdo dos sonhos, como descrito no trabalho de Hartmann43. Os aspectos emocionais das recordações são codificados como memórias implícitas47, as quais provavelmente são consolidadas durante o sono REM32. E segundo Stickgold et al.27, o sono REM pode incrementar o processamento de memórias emocionais. Tudo isso é bastante coerente com a hipótese de que as emoções exercem um papel fundamental na formação dos sonhos. O modelo da neurociência computacional sobre o papel dos sonhos na elaboração psíquica é bastante semelhante ao modelo psicanalítico. O desenvolvimento de múltiplas associações para a representação do trauma corresponderia à incorporação desta ao pensamento do processo secundário, o qual é racional e obedece à lógica e ao princípio da realidade. Incrementar a modalidade de pensamento do processo secundário em detrimento do pensamento do processo primário representa um fortalecimento da capacidade do ego de dominar o id, o que, por sua vez, consiste num dos principais objetivos do tratamento analítico48. Freud3, em 1900, afirma que tanto o pensamento irracional como o racional participam da elaboração do sonho. Robins11 discorda, afirmando que os sonhos expressam unicamente o pensamento do processo primário; o relato deles é que está relacionado ao processo secundário. Mas o neurocientista Claude Gottesmann23 atesta que os sonhos da fase NREM do sono se assemelham ao pensamento do processo secundário. Surge aqui uma questão: se os sonhos são terapêuticos por ocasionarem uma ampliação do campo de atuação do ego e incremento do pensamento do processo secundário, como eles se apresentam com características do pensamento do processo primário? Na seção D do capítulo VII de "A Interpretação dos Sonhos", Freud3 diz que a transformação de pensamentos em imagens visuais favorece a ligação com pensamentos que sofreram o mesmo processo de transformação. Talvez o sonho represente uma parte apenas do processo de elaboração psíquica que ocorre durante o sono. Embora o aumento do número de associações das representações mentais se dê durante grande parte - ou a totalidade - do sono, apenas durante os sonhos, principalmente na fase REM, chegam à nossa consciência informações sobre esse processo. Como durante o sono REM o córtex pré-frontal - fundamental para a atenção e o pensamento racional na vigília - está inativado, a nossa consciência só é capaz de funcionar de acordo com o processo primário e, assim, só capta de forma parcial o processo que está se desenrolando. Em outras palavras, embora durante o sono estejam sendo criadas novas associações entre as idéias, só conseguimos sonhar com condensações ou deslocamentos. Pelo que vimos, o diálogo entre a neurociência e a psicanálise sobre os sonhos pode ser bastante profícuo: proposições da psicanálise têm inspirado e guiado investigações neurocientíficas, e achados da neurociência têm sido úteis para um maior refinamento da teoria psicanalítica. Correspondência: Elie Cheniaux Rua Santa Clara, 50/1213, Copacabana CEP 22041-010 Rio de Janeiro, RJ Tel.: (21) 2547.0670 E-mail: echeniaux@globo.com Recebido em 10/08/2005. Aceito em 26/02/2006. 1. Mancia M. Psychoanalysis and the neurosciences: a topical debate on dreams. Int J Psychoanal. 1999;80(Pt 6):1205-13. 2. Reiser MF. The dream in contemporary psychiatry. Am J Psychiatry. 2001;158(3):351-9. 3. Freud S. A interpretação dos sonhos. 2Ş ed. Rio de Janeiro: Imago; 1987. 4. Freud S. Esboço de psicanálise. Rio de Janeiro: Imago; 1975. 5. Luborsky L, Crits-Christoph P. Understanding transference: the core conflictual relationship theme method. New York: Basic Books; 1990. 6. 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