TENSÕES IDENTITÁRIAS: INSTRUMENTO TERMINOLÓGICO QUESTÃO RACIAL E FEMINISMO
A centralidade da crítica na visão feminista está posta na forma de olhar a organização do
mundo social e natural materializados nas relações sociais, cognitivas, éticas e políticas
entre homens e mulheres, assim como nas suas expressões e significados no mundo
simbólico (MORAES, 2014).
Identificam como características da crítica feminista a posição que consiste em não
aceitar totalidades universais ou balizas fixas. Tal posicionamento busca historicizar os
conceitos com que se trabalha, tais como os de feminino, reprodução, família, público,
particular, cidadania, sociabilidades a fim de transcender definições estáticas e valores
culturais herdados como inerentes a uma natureza feminina.
Estas condições, no entanto, não foram estritamente observadas na construção do
primeiro Tesauro de Estudos de Gênero e da Mulher no Brasil, que mesmo assumindo um
discurso feminista, evidencia que o mesmo é hegemônico e mantém no esquecimento, a
herança cruel que coube às mulheres negras no Brasil.
Os legados da escravidão no Brasil em termos de dominação racial e de gênero e as
desigualdades da sociedade pós-abolição conduziram a experiências sociais diferentes
para mulheres negras e brancas: problemas presumivelmente comuns, como
sexualidade, saúde reprodutiva e trabalho remunerado passaram a ter significações
diferentes para mulheres negras e brancas. Desde a era colonial, as mulheres foram
diferenciadas por praticas patriarcais que associaram matrimonio a mulheres brancas e
relações sexuais mais ilícitas a não brancos. Enquanto as brancas eram designadas para
o reino da sexualidade legitima e honrada, nos papéis de esposas e mães, mulheres
africanas escravizadas, e depois as mulatas, eram associadas a praticas sexuais
ilegítimas e desonrosas.
Ao reconhecer essas diferenças, as mulheres negras no movimento feminista passaram
a desafiar noções generalizadas da opressão de mulheres que não levavam em conta a
relação entre ideologia patriarcal e racismo, que o racismo é um fenômeno Individual, e
não um fenômeno estrutural.
Em suas tentativas de trabalhar com as dimensões raciais de opressão da mulher,
feministas negras focalizaram assuntos como controle de natalidade e saúde reprodutiva.
Preocuparam-se com taxas, aliás, de esterilizacão entre mulheres pobres, lembrando que
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a maioria das mulheres pobres é negra. Seus esforços para combater a esterilização
feminina acabaram chamando atenção para a relação entre raça, gênero e classe. Elas
discutiram também a tendência das feministas brancas a acusar a divisão sexual do
trabalho, porém negando a questão racial. Esse foco no duplo impacto da divisão racial e
sexual de trabalho produziu Insights adicionais sobre o posicionamento das mulheres
negras no fundo da estrutura socioeconomica brasileira
2 O instrumento terminológico como referência discursiva
Pereira e Bufrem (2005, p.22) já contextualizavam que a discussão de questões ligadas a
princípios e métodos de organização e representação de conceitos em Linguagens
Documentárias (LD) converge para o entendimento que documentalistas trabalham com
Documentação e Linguística devido à sua intermediação entre pessoas e sistemas de
significação o que pressupõe melhor compreensão da percepção dos profissionais sobre
suas bases linguísticas, sociais e culturais de modo a favorecer os modos de
representação do conhecimento e aperfeiçoar a práxis, pela intermediação entre pessoas
(sujeitos) /usuários-clientes e processos.
Segundo Le Moigne (1997, p.135 apud Campos e Campos, 2003) existe nos processos
de modelização de um domínio do conhecimento, para fins de sua representação, a
identificação de grupos de relações entre conceitos. O primeiro processo consiste na
verificação da existência de relações categoriais, ou seja, a existência de conceitos
abrangentes e mais genéricos; o segundo, na verificação dos modos de relação entre
objetos de mesma natureza; o terceiro, na análise de como “o objeto se constitui”, ou seja,
quais são suas partes e elementos; o quarto, no qual se verifica como objetos de natureza
diferente se relacionam e a forma mais consistente de representar esse relacionamento, a
partir da determinação de alguns critérios prescritivos e finalmente o quinto verifica um
dado tipo de relação que não mais se constitui entre conceitos, mas entre eles e a forma
de expressá-los, ou seja, se dá no âmbito da língua, a chamada relação de equivalência.
Segundo este modelo de Le Moigne, a identificação das relações implica em uma
hierarquização entre termos ou conceitos identificados na literatura de um determinado
campo de estudo. Além desta hierarquização, existem as relações por contiguidade e por
produção de sentido, também conhecidas sintagmáticas.
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Modelar ou Representar um domínio do conhecimento é o resultado de uma prática
iniciada com a análise do texto, e conforme Pereira e Bufrem (2005, p.24) “A síntese e a
representação advindas desse processo balizam-se por critérios como a padronização e a
univocidade, qualificadores das principais formas ou produtos que o representam: o
resumo e o índice”. Considerada um modo de intermediação entre emissor e receptor, a
representação é concretizada pelos processos e produtos da condensação de conteúdos
informativos e ilustrada pelos componentes documentais , segundo mapeamento de
Dodebei (2002, p. 42-43).
A representação como reapresentação é um processo de ressignificação no qual a
palavra, tomada da linguagem natural, ou controlada por um sistema que a legitima para
representar conceitos, converte-se em fim e meio para o autor, o leitor e o profissional
mediador. Seus desdobramentos definem o campo da análise e representação
documentais do conteúdo dos textos, seja numa frase, num fragmento de um diálogo, em
textos ou contextos específicos, apontam as autoras.
No Brasil, a elaboração do primeiro Tesauro de Estudos de Gênero e da Mulher,
conforme o relato de Bruschini (1998, p.7), surgiu da ideia de constituir uma rede de
informações bibliográficas no campo dos estudos de gênero entre feministas e estudiosas
da área, mais exatamente em dezembro de 1990, num seminário realizado em São
Roque, SP. Ela foi apresentada no bojo de um conjunto de propostas, tais como a de uma
revista científica e a de cursos itinerantes, que visavam ampliar e fortalecer os estudos de
gênero, tema que começava a ganhar espaço na academia. Começava a amadurecer e
ganhar forma a ideia de que a constituição de uma rede só seria viável após a construção
de uma linguagem ou vocabulário bibliográfico comum. Com a convicção de que, sem
uma linguagem comum pré-construída, a formação da rede não teria nenhum sentido, o
grupo focou a construção de um Tesauro temático para estudos de gênero e sobre
mulheres.
A ideia seria retomada mais tarde, durante o Encontro Nacional de Núcleos Universitários
de Estudos sobre Relações Sociais de Gênero, realizado na Universidade de São Paulo,
em março de 1991, desta feita no âmbito de uma proposta mais ampla sobre a
constituição de uma rede de núcleos. O Programa de Dotações para Pesquisa sobre
Mulheres e Gênero, coordenado pela Fundação Carlos Chagas, viabilizou a formulação
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posterior, por meio de comissões formadas durante esse evento, dos seguintes projetos:
um curso de teoria e metodologia de gênero, uma revista científica, uma rede de
informações bibliográficas e a formação de uma rede de núcleos (BRUSCHINI, 1998, p.7).
Da rede de informações bibliográficas, faziam parte Maria Lygia Quartim de Moraes
(àquela época da UNESP), Heloísa Buarque de Hollanda (UFRJ), Françoise Dominique
Valérie (UFRGN), Glaura Miranda (UFMG), Eva Blay e Tamara Cianciarullo (ambas da
USP). Cynthia Sarti, então pesquisadora visitante na Fundação Carlos Chagas, passou a
ser coordenadora executiva do projeto, enquanto Sandra G. Unbehaum integrou-o como
assistente de pesquisa, e como coordenadora, Cristina Bruschini.
De acordo com Bruschini, Ardaillon e Unbehaum (1998, p.12), o TEG é o instrumento
terminológico adequado não apenas para uma indexação mais precisa de acervos sobre
gênero e mulheres de qualquer biblioteca, mas também para facilitar o acesso a
informações sobre a condição feminina, ou ainda para agilizar levantamentos
bibliográficos e eventuais mapeamentos dos estudos de gênero.
Conforme a narrativa de Bruschini (1998, p.7), era mais do que clara, para todas as
pesquisadoras envolvidas, a necessidade de reunir e sistematizar, em um centro
informatizado, referências bibliográficas que cobrissem a produção científica sobre
mulheres e relações de gênero no Brasil, para posterior disseminação por todo o país.
Este era o objetivo do projeto, que apontava também para a necessidade de definir
critérios pré-estabelecidos para a indexação dos títulos, tendo sido sugerida a utilização
do Tesauro da UNESCO, adaptado aos interesses de uma rede de títulos referentes a
mulheres e gênero.
Conta Bruschini que os primeiros passos na orientação sobre sua utilização como
instrumento de indexação bibliográfica foram demonstrando seu potencial como
instrumento de discussão teórico e metodológica no campo dos estudos de gênero, uma
vez que ele não se constituiu em uma mera lista de palavras, mas uma complexa
inter‐relação de conceitos e áreas temáticas. (BRUSCHINI, 1998, p. 8‐9).
Na avaliação do grupo, o Tesauro para Estudos de Gênero e sobre Mulheres (TEG) tinha
a função eminentemente didática de difundir uma linguagem menos sexista que permitiria
apreender um mundo menos discriminatório em relação às mulheres. Além disto, na
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perspectiva de que sendo vocabulário, ele nomeia e dá forma às instituições que
estruturam a maior parte de nossas vidas, lembrando que a língua é uma atividade
humana ao mesmo tempo íntima e política. É a língua que nos constrói e é por meio dela
que construímos o mundo e nossas relações com ele, comenta Bruschini (1998, p.13).
No caso do Tesauro aqui revisitado, trata-se do registro de uma prática discursiva de um
campo em que as reflexões de mulheres acumuladas no decorrer dos séculos sobre a
experiência prática cotidiana de sua condição subordinada foram constituindo um corpo
teórico que inspirou a epistemologia e a metodologia de pesquisa feminista e que permitiu
a revisão da natureza do saber acadêmico em todos os campos dos estudos sobre as
relações sociais entre os sexos.
No entanto, em uma postura crítica, observamos que o instrumento terminológico
construído neste processo evidencia a representação de um feminismo hegemônico, de
classe média e branca, gestado no meio acadêmico, e que o mesmo torna o feminino nele
definido como uma ideia universal sem explicitar qualquer conflito, ou a variedade da
práxis feminina. Isto porque, segundo Caldwell (2000,p.2),
Desde o final dos anos 70, mulheres não brancas na Inglaterra, no Canadá
e nos Estados Unidos desafiaram modelos unitários de gênero e exigiram
noções sobre o "ser mulher” que levassem em conta raça, etnia, classe e
sexualidade. A terceira fase do feminismo, nas décadas de 80 e 90,
desafiou os paradigmas unitários de gênero desenvolvidos por feministas
brancas de classe média nos anos 60 e 70. (...)0 desencanto com modelos
e discursos que estavam sendo desenvolvidos por feministas brancas de
classe média levaram as não brancas a usar suas próprias experiências de
exclusão e discriminação para desenvolver suas próprias formas de
conceituar o gênero e o feminismo.
Caldwell (2000) também busca problematizar a ausência da raça na maioria das
pesquisas sobre mulheres brasileiras e examinar conceitos alternativos desenvolvidos por
feministas negras no país.
3 Identidades da práxis feminista
É notável a transformação da ocupação dos espaços pelas mulheres na sociedade
contemporânea, que afetou profundamente a organização da família, bem como os
espaços ocupados e reservados aos homens, tanto na vida pública, como também na
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vida privada, com profundos reflexos em sua própria construção identitária.
(FERNANDES, BORGES, LOBO, 2017)
Foucault, em vários momentos da sua trajetória, demonstra sua noção de formação do
sujeito, criando-se uma base teórica na análise das relações de poder que se
estabelecem no âmbito das relações de gênero e da afirmação das sexualidades. Em sua
obra, o autor busca produzir uma história dos diferentes modos de subjetivação do ser
humano dentro da nossa cultura, a cultura ocidental a partir das formas de objetivação e
formas de subjetivação em relação à constituição do indivíduo. Foucault trabalha a
questão do indivíduo e do sujeito, e a eles são atribuídos significados diferenciados, pois
os processos de objetivação e subjetivação que concorrem conjuntamente na constituição
do indivíduo, se distinguem por ser o primeiro, um processo em que se constituem
enquanto objeto dócil e útil e o segundo, enquanto sujeitos e estes enquanto indivíduos,
presos a uma identidade que reconhecem como sua.
Sendo assim, sempre que houver referências aos processos de objetivação e
subjetivação serão em relação ao indivíduo e o termo sujeito expressará o resultado da
constituição do indivíduo ante os mecanismos de subjetivação presentes na atualidade.
Fonseca (2003) explica que, para Foucault, na sua preocupação com modos de
objetivação do indivíduo, não há uma desvinculação com o poder, visto que, para ele, o
sujeito está preso a relações de produção e de significações, sendo assim, também está
preso a relações complexas de poder.
O filósofo francês aponta que a compreensão de uma nova economia das relações de
poder consiste em vislumbrar a conexão entre as formas de resistência aos diferentes
tipos de poder evidenciadas em suas manifestações, e nos conflitos poder/resistência.
Esse confronto de estratégias entre o poder e a resistência pode encontrar-se nas
relações entre minorias, tais como a luta das mulheres negras no campo do feminismo e
que se distingue pela busca o empoderamento no reconhecimento de um feminismo
negro.
Conforme Moreira (2006, apud Zirbel 2007), no Brasil a tensão das mulheres negras com
o movimento feminista “hegemônico” se estabelece a partir do III Encontro Feminista
Latino-americano ocorrido em Bertioga em 1985, quando surgem os primeiros Coletivos
de Mulheres Negras, época em que aconteceram alguns Encontros Estaduais e Nacionais
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de Mulheres Negras. Conforme seu relato, foram contabilizados no III Encontro, de um
total de 850 participantes, 116 mulheres inscritas se declararam como negras e/ou
mestiças e chegou um ônibus lotado de mulheres negras que não estavam inscritas. Há
registros da participação de mulheres negras durante o Congresso de Mulheres
Brasileiras em junho de 1975 e no Encontro Nacional de Mulheres, em março de 1979.
No entanto, Caldwel (2000) destaca como resultado destes encontros a existência de um
manifesto que chamou a atenção para as especificidades das experiências de vida, das
representações e das identidades sociais das mulheres negras uma vez que a maioria
dos estudos feministas brasileiros não reconheceu a importância da raça e das diferenças
raciais na constituição do gênero e das identidades das mulheres, e elegeu como marco
da resistência a participação de mulheres negras durante o Congresso de Mulheres
Brasileiras em junho de 1975 quando foi lançado o manifesto das Mulheres Negras:
A apresentação do Manifesto das Mulheres Negras durante o Congresso
de Mulheres Brasileiras em junho de 1975 marcou o primeiro
reconhecimento formal de divisões raciais dentro do movimento feminista
brasileiro. [...] Porém, como o Manifesto de Mulheres Negras sugeriu,
qualquer suposta unidade entre mulheres brasileiras de raças diferentes já
era alvo e debate. O manifesto chamou atenção para as especificidades
das experiências de vida, das representações e das identidades sociais
das mulheres negras e sublinhou o impacto da dominação racial em suas
vidas. Além disso, ao desmascarar o quanto a dominação racial é marcada
pelo gênero e o quanto a dominação de gênero é marcada pela raça, o
manifesto destacou que as mulheres negras foram vítimas de antigas
práticas de exploração sexual. (CALDWELL, 2000, p. 97-98)
Esta resistência do feminismo negro deu visibilidade à ausência, nos estudos de gênero e
da mulher desenvolvidos no Brasil nas décadas de 80 e 90 do século XX, da questão raça
e gênero e a outros detalhes que veremos a seguir. Segundo Caldwell (2000), constata-se
uma ausência histórica no debate público e acadêmico sobre raça e racismo no Brasil, e
esta lacuna resultou no “esquecimento” das realidades de dominação racial, com impacto
no campo dos estudos sobre as mulheres brasileiras,” ao retratar as mulheres brasileiras
em termos monolíticos, esse campo reforça a imagem do Brasil como uma sociedade em
que as diferenças raciais têm uma importância mínima”
Cameiro e Santos (1985) realizaram uma abrangente análise estatística do status das
mulheres negras no Brasil e enfrentaram a insuficiência de informação estatística no país,
já que os dados sobre raça estiveram ausentes do censo nacional de 1970 e foram
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coletados e processados em número limitado pelo censo de 1980. Enfrentaram, ainda,
inconsistências na coleta desses dados nos censos de 1950, 1960 e 1980 que
contribuíram para a falta de informação quantitativa adequada sobre a população negra
no pals. Estes obstáculos impactaram de forma que a variável cor não foi incorporada de
maneira sistemática na produção teórica brasileira, de maneira que os estudos sobre
gênero e sobre mulheres negras pudessem trazer mais luz à condição feminina negra.
Segundo Caldwell (2000), em suas tentativas de fornecer um perfil quantitativo e
estatístico do status profissional e educacional das mulheres negras, Carneiro e Santos
(1985), apresentaram uma rara análise estatística da posição socioeconômica de
mulheres negras, que oferece também uma base para se entender o quanto os perfis
socioeconômicos divergentes de mulheres brancas e negras têm gerado tensões e
conflitos, mais do que uma pretensa unidade fundada numa noção compartilhada da
feminilidade. Neste perfil é mostrado que as mulheres brancas eram as maiores
beneficiárias da diversificação profissional ocorrida de meados dos anos 60 a meados dos
80 e tiveram vantagens claras em termos de acesso à educação, ao mercado profissional
e à remuneração, o que resultou em diferenças quantificáveis de status em relação às
negras.
4 Representação discursiva liberal da condição feminina e outras contradições
Ao se analisar o Tesauro de Estudos de Gênero e das Mulheres, produzido na década de
90, percebemos que ele, mesmo sendo usado até hoje, para difundir uma linguagem
menos sexista no espaço acadêmico, onde mulheres estão cada vez mais conquistando
seu lugar, e ter impulsionado muitas pesquisas sobre o tema na Fundação Carlos
Chagas, se restringiu a organizar o campo semântico deste campo representando uma
visão liberal, na qual o feminismo é algo individual, cada mulher com a sua luta.
Foi realizado um panorama temporal sobre o feminismo e gênero para poder chegar ao
objetivo da pesquisa que é centrado na década de 90. A década de 90 está presente na
terceira onda do feminismo, que se iniciou no final dos anos 80. Algumas características
da terceira onda, presente na década de 90, são: desenvolvimento de um conceito liberal
dentro do feminismo, o qual definia que a luta de gênero e pelas mulheres não é coletiva,
não é pública e não é política, é algo individual. Sobre este aspecto de uma visão liberal
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da luta feminista, segundo Costa (2005 apud Zirbel ,2007): “a bandeira do pessoal é
político, mobilizava para as lutas do movimento de mulheres e, ao mesmo tempo,
questionava os parâmetros conceituais do político, até então identificado pela teoria
política com o âmbito da esfera pública e das relações sociais que aí acontecem”. Um
exemplo da bandeira “do pessoal é político” são os estudos sobre saúde da mulher que
geraram uma bibliografia marcada por uma visão "feminina" do corpo e da especificidade
distintiva desta nossa condição de protagonistas da reprodução, mas tal como os estudos
de e sobre mulher em outras áreas (e tal como a participação feminina neoacadêmica na
elaboração cultural humana), foram aí impressas novas dimensões.
Também ilustrando esta tendência do pessoal é político, Zirbel (2007) relata que as
organizadoras do material e integrantes do corpo de pesquisadoras da Fundação Carlos
Chagas autoras, Cristina Bruschini e Fúlvia Rosenberg, na Introdução ao livro Vivência.
Historia, sexualidade e imagens femininas (1981), comentam sobre a prática de seu
grupo, onde as vidas pessoais e cotidianas eram “trazidas à pauta” no intuito de estimular
as reflexões (p.9): “éramos mulheres estudando mulheres ,pesquisadoras estudando
mulheres, feministas estudando mulheres [...] por vezes escolhíamos integrar nas
discussões a esfera do privado e do profissional”.
Para se ter uma dimensão da extensão desta visão na construção do TEG, podemos
exemplificar com a frequência dos termos corpo/corpos, que aparecem 97 vezes entre as
entradas do Tesauro, sendo que o termo cor inexiste neste vocabulário e o termo raça
aparece 57 vezes.
No TEG, o termo Feminismo é definido como “teorias e práticas de igualdade política,
social e econômica entre os sexos” e ele está subordinado a uma categoria que inclui no
mesmo nível áreas do conhecimento e disciplinas como Ciências Sociais e Cultura
História e Mudança Social. Como termos específicos de Feminismo, são relacionados o
eco feminismo; feminismo liberal; feminismo marxista; feminismo radical; feminismo
socialista. O feminismo negro não aparece como uma espécie identificada.
feminismo
SN Teorias e práticas de
igualdade política,
social e econômica
entre os sexos.
SG Ciências Sociais e Cultura
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História e Mudança Social
NT ecofeminismo
feminismo liberal
feminismo marxista
feminismo radical
feminismo socialista
RT antifeminismo
direitos das mulheres
Outra constatação das contradições do instrumento elaborado se dá a partir da sua
estrutura e dos relacionamentos estabelecidos entre os termos que constituem o
instrumento. O primeiro aspecto contraditório na construção do Tesauro para Estudos de
Gênero e sobre Mulheres (TEG) diz respeito ao que se encontra sugerido pela revisão de
literatura notadamente em Barité e Fernández-Molina (2012) com relação à melhor
maneira de construir instrumentos terminológicos que funcionam como linguagens
documentárias em campos interdisciplinares. Neste caso as facetas ou categorias no
primeiro nível, ou o mais abrangentes, devem conter tópicos que representem um
conjunto de fenômenos do campo que se quer representar, ao contrário de Disciplinas do
campo do conhecimento, que tradicionalmente resultam de uma visão de mundo marcada
pelo patriarcalismo científico. Esta recomendação dos autores é explicitada
principalmente no caso de Estudos de Gênero, como se pode comprovar na revisão de
literatura e no quadro 1 abaixo. Por ser interdisciplinar este campo não deveria estar
enquadrado em uma hierarquia em que as categorias mais abrangentes reforçam a
disciplinariedade na representação do conhecimento.
A forma como foi concebida a estrutura conceitual do Tesauro para Estudos de Gênero e
sobre Mulheres (TEG), em 09 categorias temáticas conforme quadro 1, não vai ao
encontro de uma perspectiva crítica de representação de um novo campo de
conhecimento, reproduzindo hierarquias próprias do conhecimento científico vigente.
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Quadro 1 Estrutura hierárquica do TEG em áreas temáticas mais abrangentes
Nível Categorias / Disciplinas
1 Ciência e
Tecnologia
Ciências
Naturais e
Saúde
Ciências
Sociais e
Cultura
Comunicação, Artes
e Espetáculos
Economia
e
Emprego
Educação História e
Mudança
Social
Lei,
Governo
e
Políticas
Públicas
Linguagem,
Literatura,
Religião e
Filosofia
Fonte: TEG
5 Considerações Finais
A partir da estrutura hierárquica do TEG, a representação deste campo evidencia um
arranjo do seu campo semântico que contradiz uma epistemologia crítica, reproduzindo
alguns conceitos que não condizem com as mudanças na visão de mundo que o
movimento feminista se propôs. Além disto, este vocabulário controlado não contempla o
conceito de “Interseccionalidade”, que estuda as interações nas vidas das minorias, entre
diversas estruturas de poder e serve como categoria de análise para estudar a condição
não apenas da mulher, mas o fato de ser negra, ser LGBT (lésbicas, gays, bissexuais,
travestis, transexuais e transgênero). O termo “lésbicas” foi relacionado a “amazonas” e
imagens de mulher”, apontando para uma relação um tanto sem sentido. Além disso,
foram encontrados poucos termos que representassem o protagonismo e empoderamento
do feminismo negro.
Ademais, a análise do TEG apontou que a representação vinculada aos assuntos
referentes à mulher e às questões de gênero indica a existência de dissimetrias baseadas
nos papéis sexuais. Denota-se, portanto, como a hierarquização de descritores nos
tesauros reflete tal padrão. Compreende-se que as abordagens que englobam a criação
de um tesauro podem facilitar bem como dificultar a quebra desse padrão de forma a
permitir ou embarreirar a inserção de novos termos. Como salienta Barité (et al., 2010), há
de se confirmar que instrumentos terminológicos como os tesauros se encontram
norteados pelo padrão patriarcal comum à literatura produzida nos marcos
epistemológicos dominantes.
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IDENTITY TENSIONS: TERMINOLO
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