Pauliceia 2.0: mapeamento colaborativo da história de São Paulo, 1870-1940

Pauliceia 2.0: collaborative mapping of the history of São Paulo, 1870-1940 Resumo Abstract Text O projeto Um Google Maps do passado? Primeira parada: as tensas relações entre história e tecnologia Os interessados são bem-vindos Segunda parada: as tecnologias, o trabalho colaborativo e a livre circulação do conhecimento O Pauliceia 2.0 em busca de sua comunidade Terceira parada: a afirmação do provisório e a decadência do definitivo A ameaça da “invasão dos bárbaros” Quarta parada: os custos não reconhecidos da ciência aberta Considerações finais AGRADECIMENTOS REFERÊNCIAS NOTAS Datas de Publicação Histórico Resumo O artigo apresenta novas abordagens para investigar o passado usando tecnologias digitais. O projeto “Pauliceia 2.0: mapeamento colaborativo da história de São Paulo (1870-1920)” é de código aberto e visa engajar o público de maneira ampla, usando metodologias colaborativas. O texto discute a concepção do projeto, seu estágio atual e suas perspectivas. Além disso, também se oferece o Pauliceia 2.0 como um estudo de caso para discutir a relação entre tecnologias digitais e métodos históricos. O resultado desse percurso, ao menos essa é a intenção dos autores listados e dos demais integrantes da equipe do projeto, nomeados ao final do artigo, almeja ressignificar o trabalho em questão na confluência entre humanidades digitais, história pública e ciência aberta. ciência aberta; humanidades digitais; história pública; história digital; história de São Paulo Abstract This article presents new approaches for investigating the past using digital technologies. “Pauliceia 2.0: collaborative mapping of the history of São Paulo (1870-1920)” is an open-source project intended to broadly engage with the public through collaborative methodologies. This text discusses the concept, current status, and prospects of this project, and presents it as a case study to discuss the relationship between digital technologies and historical methods. The product of this journey (at least the outcome intended by the authors and the other team members listed at the end of the article) is meant to assign new meaning to the project at the juncture between digital humanities, public history, and open science. open science; digital humanities; public history; digital history; history of São Paulo O presente texto tem o objetivo de apresentar o projeto “Pauliceia 2.0: mapeamento colaborativo da história de São Paulo (1870-1940)”, discutindo sua concepção, seu estágio atual e suas perspectivas. Em se tratando de uma iniciativa aberta e colaborativa, o interesse em publicar um artigo que trate do projeto vai além de uma estratégia de divulgação de pesquisas e resultados, o que em si já se justifica como parte de um ethos valorizado e saudável do mundo acadêmico e científico. Iniciativas colaborativas podem fracassar por diversas razões, e uma das mais frequentes é bastante trivial: a falta de conhecimento da existência do projeto por parte daqueles que constituiriam o seu público-alvo prioritário. Um segundo objetivo do texto é oferecer o projeto em questão como estudo de caso que permita discutir as relações entre as tecnologias digitais e o trabalho do historiador. Para fazer isso, quatro “paradas” serão executadas ao longo do texto, fazendo a transição da discussão específica do projeto para reflexões que abordem os aspectos mais gerais das ressignificações tecnológicas da produção do conhecimento em história e ciências humanas. O resultado desse percurso, ao menos essa é a intenção dos autores, é a reapresentação do projeto na confluência entre humanidades digitais, história pública e ciência aberta. O projeto O objetivo do projeto é disponibilizar, na rede mundial de computadores, uma plataforma aberta que permita, como seu título indica, o mapeamento colaborativo da história da cidade de São Paulo durante o período de sua modernização urbano-industrial, de 1870 a 1940.1 Por meio de uma interface aberta e amigável, qualquer pesquisador interessado poderá alimentar os seus dados espacializáveis à plataforma (uma versão beta da plataforma se encontra disponível no endereço ; ver Figuras 1 e 2 ). Por um lado, o pesquisador em questão terá, de imediato, uma visualização de sua própria pesquisa, permitindo o seu uso em produções científicas, como monografias, artigos, teses etc. Por outro, a cada alimentação realizada, a base comum será enriquecida, transformando-se ela mesma em acervo de material de pesquisa passível de dar suporte a reflexões e debates historiográficos. Figura 1 : Homepage da plataforma em sua versão beta () Figura 2 : Aba dos mapas e do geolocalizador em versão beta () O recorte espaçotemporal da plataforma, a São Paulo de 1870 a 1940, foi escolhido por corresponder a um período de transformações particularmente radicais, de profundidade e intensidade quase únicas na história. De 1870 a 1940, a população da cidade passou de 31.385 a 1.326.261 habitantes (IBGE, 2011). Evidentemente, o processo explosivo de urbanização não era idiossincrasia de São Paulo no período. Muitas cidades o protagonizaram em nível global, como Rio de Janeiro, Buenos Aires, Nova York ou Chicago. Mas poucas partiram de patamares populacionais tão baixos como os de São Paulo, para chegar próximo ao primeiro milhão poucas décadas depois. Por outro lado, não é apenas o aspecto quantitativo dessas transformações que interessa, mas também os qualitativos. A cidade que emergia daquele período era uma metrópole industrial e se distanciava do “burgo de estudantes” de meados do século anterior ( Bruno, 1954 ) na mesma medida em que a modernidade se afastava da pré-modernidade. Justamente por isso, o recorte proposto possui uma considerável densidade de produção historiográfica, o que lhe confere uma justificativa adicional para a sua escolha, agora de caráter tático. Quanto maior e mais produtiva a comunidade atinente a um projeto colaborativo, maiores as suas chances de prosperar. Um Google Maps do passado? Ao propor a espacialização de dados de pesquisas envolvendo o recorte indicado, um primeiro desafio, ao mesmo tempo de caráter historiográfico e computacional, impõe-se: a geolocalização, ou seja, a transformação de um texto que informa um determinado endereço em coordenadas geográficas no mundo real. Todos aqueles que se propuseram a produzir visualizações cartográficas a partir de endereços do passado já se depararam com esse problema: o desenho do sistema viário, sua toponímia e, principalmente, a numeração dos imóveis sofreram alterações significativas durante e desde o período estudado, o que inviabiliza o uso de geolocalizadores do mundo atual, como Google Maps, Open Street Map e similares. Ainda que a criação de camadas na plataforma não se restrinja apenas a dados espacializados a partir de endereços,2 a equipe do projeto admitiu a hipótese de que esse seria o caso de parte importante dos potenciais usuários, quando não da maioria deles. Assim, não havia alternativa a não ser desenvolver um “geolocalizador do passado”, adaptado à cidade de São Paulo do período. Para fazer isso, foi estruturado um banco de dados com endereços conhecidos, a partir do qual a ferramenta faria a geolocalização, ou utilizando diretamente o ponto alimentado ao banco, ou fazendo extrapolações a partir do que ali constasse. Por “endereço conhecido” entenda-se um ponto do qual se conhecem quatro atributos: nome da rua, número do imóvel, ano ou período em que tal endereço foi válido e suas coordenadas no espaço. À equipe de historiadores do projeto cabia então o levantamento e a organização da documentação que permitisse a alimentação do banco. A equipe computacional, por sua vez, dedicar-se-ia ao desenvolvimento do algoritmo que fizesse a ferramenta funcionar adequadamente.3 Dadas a envergadura e a complexidade da construção do banco de dados em questão, destinado a cobrir todas as ruas da cidade no período do recorte, optou-se por definir uma área-piloto para ser priorizada na primeira etapa do projeto. Tal área corresponde aproximadamente ao centro da cidade, definido a partir do sistema viário indicado pela carta de 1868 ( São Paulo, 1954 ). Apenas essa área possui cerca de quinhentos logradouros, o que perfaz aproximadamente três mil pontos alimentados, já que de cada rua foram coletados três imóveis com números ímpares e três com números pares. A documentação histórica privilegiada para a construção do banco foi o “livro de emplacamento”, registro mantido pela municipalidade para justamente anotar, relativa a cada rua da cidade, a mudança da numeração dos imóveis sempre que um novo emplacamento fosse realizado. Dessa forma, com a ajuda dessa fonte, poder-se-ia coletar um conjunto de imóveis por rua dos quais seria possível saber o período em que tiveram validade. Mas persistia ainda a dificuldade em localizar esses pontos no espaço. Uma lei sobre o tema, de finais de 1929, destinada a racionalizar o sistema de numeração, implantando na cidade o chamado “sistema americano”, seria a chave para a resolução do problema (Prefeitura..., 19 nov. 1929). Como ela determinava que o número do imóvel fosse estabelecido pela distância em metros até o começo da rua (com os arredondamentos necessários), os emplacamentos a ela posteriores já passaram a incorporar, conceitual e explicitamente, a informação da localização. Como cada emplacamento indicava também o número anterior, que fora substituído, e como há um livro-índice que informa todas as datas em que cada rua recebeu um novo emplacamento, foi possível fazer retroceder a história da numeração de imóveis selecionados até o primeiro emplacamento registrado (os livros de emplacamento começaram a ser utilizados na primeira década do século XX). Para compreender o funcionamento prático do geolocalizador, imagine-se um usuário que pretenda determinar onde estaria um imóvel de número 50, de determinada rua, em 1937. Na parte A da Figura 3 estão indicados os pontos alimentados ao banco de dados (em azul) da rua hipotética, com suas respectivas numerações e períodos de vigência. Na parte B, em amarelo, aparecem os pontos utilizados para a geolocalização solicitada (os demais se referem a períodos que caem fora da data indicada pelo usuário). O ponto em vermelho que aparece na parte C é a localização determinada pelo algoritmo, obtida pela extrapolação métrica entre os imóveis de número 14 e 60.4 Figura 3 : Exemplo de geolocalização a partir do banco de dados do projeto ( Ferreira et al., 2018 , p.300) O banco de dados do geolocalizador segue em construção, os limites de sua abrangência se afastando da área-piloto inicial e buscando se aproximar cada vez mais da mancha urbana total da cidade no período. A ferramenta já se encontra operacional e disponível no portal da plataforma. O geolocalizador do projeto Pauliceia representa, assim, um primeiro exemplo de articulação entre saberes historiográficos e computacionais que implicou acomodações e negociações importantes entre as exigências de precisão das máquinas e o mundo ambíguo e matizado do passado. Primeira parada: as tensas relações entre história e tecnologia A partir do reconhecimento da onipresença das tecnologias digitais e de sua enorme capilaridade social no mundo de hoje, torna-se inevitável confrontar o tema da sua influência no trabalho dos pesquisadores em humanidades, em geral, e dos historiadores, em particular. Se, por um lado, o uso dessas tecnologias nessas áreas se difunde cada vez mais, e com elas novas e promissoras possibilidades de investigação e de circulação dos seus resultados se afirmam, por outro lado, desafios consideráveis se impõem, no mais das vezes relacionados a sérias e persistentes incompatibilidades entre o mundo dos computadores e suas exigências maquínicas e o mundo das humanidades, sempre à volta com as subjetividades e as ambiguidades inerentes à fabricação e à interpretação da vida social. Se assim é para as ciências humanas em geral, mais crítica é a situação dos historiadores, no que a isso se refere. Não apenas o objeto da história apresenta nuanças, ambiguidades e incompletudes ( Bodenhamer, 2008 , p.222), como ele é inerentemente fugidio, com seu centro de gravidade não mais no presente, mas no passado. Essas tensões intrínsecas entre tecnologia e história ajudam a entender as resistências de muitos pesquisadores ao uso da computação em seu trabalho. Os riscos de uma mistificação quantitativista do conhecimento histórico, com tonalidades fortemente positivistas, sempre acompanharam a relação dos pesquisadores do passado com as diversas tecnologias digitais (Gregory, Ell, 2007, p.13-14; White, 2008 , p.IX; Churchill, Hillier, 2008, p.62). Assim foi com a onda da história demográfica e econômica dos anos 1960 e 1970, produzida por centros de pesquisa qualificados e bem aparelhados com maquinaria de alto custo, fora do alcance da maioria dos pesquisadores mundo afora. E, em certa medida, ainda o é, mesmo após as sucessivas revoluções tecnológicas desde então, que facilitaram enormemente o acesso às estruturas e infraestruturas computacionais. Hoje, o historiador enfrenta o desafio de escolher ou persistir na negação obstinada da utilização das tecnologias digitais em seu trabalho ou explorar as possibilidades oferecidas por elas e buscar “estratégias de adaptação” que tratem das contradições referidas acima. A segunda opção parece, a um só tempo, a mais promissora e a mais realista, tanto pela pressão da facilitação generalizada do acesso às tecnologias como por questões geracionais que as tornam cada vez mais familiares aos pesquisadores mais jovens. Mas quais seriam essas “estratégias de adaptação” referidas? Primeiramente, a valorização dos metadados, ou seja, dos dados sobre os dados (Gregory, Ell, 2007, p.57-61). Todo conhecimento que é apresentado como resultado, ainda que parcial, de algum processamento computacional, carrega consigo, como que de contrabando, uma autoridade amplificada e ilegítima. Os autores da pesquisa devem deixar o mais claro possível todas as aproximações e hipóteses assumidas na produção dos resultados. Isso, em si, não é novidade para os que exercem a boa prática científica, seja em que área for. Mas se é assim em geral, para o historiador digital essa preocupação ganha prioridade adicional, pois o risco de percepções equivocadas acerca dos resultados e significados da pesquisa é relativamente maior. No que se refere às geotecnologias, mais afeitas ao projeto que ora é apresentado, o desenvolvimento de simbologias da imprecisão é outra estratégia que pode ser útil aos historiadores ( Knowles, 2008 , p.19). Por exemplo, a área de abrangência de determinado fenômeno não precisa ser delimitada por um polígono bem definido, mas por uma mancha ou um borrão, que pode dar uma ideia melhor da imprecisão de sua localização.5 Outra estratégia comum é apresentar as visualizações espaciais utilizando como mapa de fundo as imagens fotográficas de mapas históricos originais ( raster ), pois as cicatrizes do tempo, como rasgos e deformações, reforçam as percepções de imprecisão junto aos possíveis consulentes. Essa foi a opção da plataforma Pauliceia 2.0, que deixa disponíveis em seu menu de visualização sete mapas históricos da cidade de São Paulo, cobrindo o período do seu recorte temporal (além da opção do Open Street Map, referente à cidade atual). Retornando ao geolocalizador descrito acima, o resultado que o algoritmo traz de cada busca de endereço possui três graus de certeza distintos, informado por uma simbologia da imprecisão assim definida: o ícone verde indica endereço localizado no banco de dados, portanto se referindo à localização com alto grau de precisão; o ícone azul indica endereço geocodificado a partir dos pontos do banco de dados; e o vermelho indica endereço extrapolado para além ou aquém do limite dado pelos pontos do banco de dados para aquela rua. Além disso, outra imprecisão é derivada do fato de que o ponto é indicado no eixo da rua, e não junto ao imóvel supostamente localizado. Assim, o que a ferramenta da plataforma Pauliceia 2.0 oferece é o que se chama de “geolocalização relativa”, em oposição à absoluta, que retornaria da busca uma localização exata. Nesse sentido, o geolocalizador da plataforma teria o seu uso mais indicado para dois objetivos distintos: permitir o conhecimento da distribuição espacial e temporal de certos eventos ou fenômenos na cidade, para os quais a localização exata não afeta a análise e as conclusões possíveis; e atuar como ferramenta intermediária e auxiliar de pesquisa, destinada a diminuir o escopo espacial das possibilidades de um endereço específico. Como exemplo hipotético da primeira possibilidade, para um estudo das mortes por epidemias na cidade nas primeiras décadas do século XX, não faria diferença significativa a localização exata de cada incidência, mas justamente a sua distribuição espacial na cidade e a variação dela com o tempo. Já um pesquisador que busque identificar o local onde se realizou a emblemática exposição de Anita Malfatti, em 1917, a determinação de uma região aproximada não serve como resultado final da pesquisa, mas pode auxiliar para que se chegue a ele, a partir do cotejamento com outras fontes históricas.6 Outra “estratégia de adaptação” fundamental aos historiadores que trabalham com tecnologias, e que se constituiu em verdadeiro princípio metodológico do projeto Pauliceia 2.0, é o não desperdício de qualquer precisão útil que o passado em estudo possa eventualmente oferecer. Que a história é “imprecisa” por definição já está aqui suficientemente reiterado. Mas isso não quer dizer que, no percurso do pesquisador, não se imponham escolhas entre alternativas documentais mais ou menos afeitas a medidas e quantificações. Ou, em outras palavras, mais próximas dos paradigmas científicos da atualidade. No que se refere ao geolocalizador do projeto, a feliz e quase completa simultaneidade temporal entre a já referida instituição do sistema métrico para a determinação da numeração dos imóveis, oficializado em novembro de 1929 (Prefeitura..., 19 nov. 1929), e o levantamento cartográfico SARA Brasil, publicado em 1930, permitiu a construção do geolocalizador com a máxima precisão que a documentação poderia oferecer, conforme a metodologia descrita acima. No que se refere especificamente ao SARA Brasil, esse conjunto de cartas representa o melhor “custo/benefício” para qualquer projeto que pretenda fazer uso de geotecnologias para estudar a São Paulo daquele período.7 Em outras palavras, se concebêssemos um “índice técnico-histórico” que fosse resultado da multiplicação entre antiguidade e precisão, dificilmente se poderia identificar uma base cartográfica que tivesse um desempenho melhor nesse cálculo do que o SARA Brasil. Embora a metodologia assim desenvolvida tenha resolvido grande parte dos desafios históricos e computacionais implicados, a sua execução encontrava outro obstáculo importante. A complexidade do banco de dados que dá suporte ao geolocalizador impôs uma limitação ao seu alcance espacial, restrito inicialmente a uma área-piloto, que corresponde de forma aproximada ao centro da cidade, como já informado. Há que reconhecer que essa limitação pode ser causa de frustração para muitos pesquisadores que eventualmente sejam atraídos pelas possibilidades da plataforma mas não encontram a sua área de interesse no escopo do geolocalizador. Para um projeto que se pretende aberto e colaborativo, essa limitação pode ser muito prejudicial. A saída proposta pela equipe do projeto para esse problema é, justamente, aprofundar a aposta na abertura e na colaboração. Pesquisadores ou grupos interessados em incorporar regiões da cidade ao geolocalizador podem eles mesmos contribuir. Os interessados são bem-vindos Das atividades do projeto, algumas não são espacialmente dependentes, como o desenvolvimento do algoritmo do geolocalizador, ou das interfaces da plataforma. Outras atividades são dependentes do espaço, como o georreferenciamento de mapas históricos e a vetorização do sistema viário, mas podem ficar a cargo da equipe do projeto, pois não representam carga de trabalho e investimento de energia e tempo tão significativos, como se dá com a construção do banco de dados da numeração. Assim, se os interessados se encarregam dessa tarefa específica, com a assessoria da equipe do projeto, a área espacial que lhes interessa pode ser incorporada à base do geolocalizador sem grandes dificuldades. No estágio atual do projeto, já houve tempo para isso começar a acontecer: as regiões do Pari e do Bom Retiro, não pertencentes de início à área-piloto, vêm sendo integradas à base do projeto. A motivação para tal parte do interesse de uma mestranda em história da Universidade Federal de São Paulo,8 participante do grupo Hímaco,9 que pesquisa o desenvolvimento do mercado imobiliário no Pari, e de um grupo de pesquisas liderado por um dos autores do presente artigo, dedicado a estudar as relações entre a saúde pública e os perfis populacional e cultural do bairro do Bom Retiro. Ainda que ambas as iniciativas tenham relação muito próxima com a equipe do projeto, não fazem parte ostensiva do seu cronograma de trabalho e servem como abordagens experimentais para a ampliação e o aprimoramento da metodologia. O leitor pode acompanhar o andamento das incorporações de novas áreas ao projeto na própria plataforma: para isso, basta “ligar” a camada “streets pilot area”, que contém o sistema viário vetorizado até o momento. Se a pretensão da equipe do projeto fizer sentido, desde o tempo da escrita do presente artigo até o tempo da sua leitura na revista, o geolocalizador terá abrangido outras regiões da cidade, configurando um mosaico em permanente construção como a melhor imagem da base espacial do projeto. Portanto, aqui como em outras questões centrais do projeto, reitera-se a aposta no trabalho aberto e colaborativo para a superação dos inúmeros e significativos desafios interpostos.10 Segunda parada: as tecnologias, o trabalho colaborativo e a livre circulação do conhecimento É recorrente a associação das humanidades digitais com um certo ethos colaborativo e de valorização do compartilhamento e da livre circulação do conhecimento ( Greenspan, 2016 ; Spiro, 2012 ). Como afirma Patrik Svensson (2016 , p.490), “as humanidades digitais são frequentemente descritas como inerentemente colaborativas, não apenas a área, mas também suas tecnologias, projetos e pessoas. A colaboração é um parâmetro ativo e visível na narrativa e na estruturação das humanidades digitais. Não trabalhar em colaboração é muitas vezes interpretado como uma exceção”.11 As próprias tecnologias utilizadas, sem dúvida, fornecem a condição para a realização prática desses princípios teóricos. Não é novidade alguma que o trabalho científico em geral se desenvolve cada vez mais em rede, e as humanidades partilham dessa tendência, claramente suportada e estimulada pelas tecnologias digitais.12 Na verdade, esse fenômeno vai muito além do universo acadêmico e científico, como projetos do tipo da Wikipedia e do Open Street Map claramente demonstram. O que ficou conhecido como crowdsourcing sintetiza o novo cenário aberto e colaborativo que a rede mundial de computadores hoje comporta, como desdobramento da afirmação da denominada web 2.0, desde os primeiros anos desse século ( Terras, 2016 ). A nova internet assim referida é aquela em que seus fluxos passaram a ser bidirecionais, rompendo com a mão única até então predominante, que ia do produtor do conteúdo ao seu leitor/consulente.13 Retornando aos ecossistemas acadêmicos e de pesquisa, um dos impactos mais significativos dessas possibilidades exponencialmente ampliadas de publicação e participação é o questionamento das fronteiras tradicionais que historicamente separaram o produtor do consumidor do conhecimento.14 Resta à academia evitar a cegueira que nega o fenômeno e pode levar a uma inação isolacionista e procurar explorar as suas possibilidades mais interessantes e profícuas, como de resto tem sido repisado com relação ao tema do uso das tecnologias na produção do conhecimento em humanidades.15 Daí a pertinência do movimento da chamada ciência aberta, ou cidadã, que busca ampliar o alcance social da produção do conhecimento a partir da incorporação de contingentes extrauniversitários no fazer científico (Albagli, Maciel, Abdo, 2015). À perda do monopólio da produção do conhecimento pelas universidades e centros de pesquisa, a ciência aberta responde com a proposição de um deslocamento e enriquecimento das atribuições dessas instituições: além de, obviamente, continuar a produzir conhecimento, elas estão em lugar privilegiado para organizar a interlocução entre os diversos atores envolvidos.16 Por outro lado, os graus de abertura que a ciência pode experimentar são variados, indo desde um nível mais restrito, correspondendo à utilização do produto final da pesquisa pelo público em geral, até a própria concepção do projeto e de seus objetivos com a participação de comunidades envolvidas ( Parra, 2015 ). Como se verá a seguir, o projeto Pauliceia 2.0 se encontra em um ponto intermediário entre esses extremos. O Pauliceia 2.0 em busca de sua comunidade No percurso aqui desenvolvido, a metodologia proposta para ampliar o alcance espacial do geolocalizador da plataforma forneceu o pretexto para se tratar da ética aberta e colaborativa das humanidades digitais. Mas a abertura do projeto não se restringe a ela. Obviamente, o produto final do projeto, uma plataforma para o mapeamento colaborativo da história da cidade de São Paulo, já é em si um distintivo de ciência aberta. Contudo, para que a plataforma reflita as necessidades e os interesses de seus potenciais usuários depende de outras “janelas colaborativas”. Os eventos de lançamento do projeto e da versão beta, respectivamente em 4 de abril de 2017 e 30 de outubro de 2018, ambos no auditório do Arquivo Público do Estado de São Paulo, tiveram o objetivo de engajar a comunidade diretamente atinente ao objeto da plataforma, os pesquisadores da história da cidade no recorte proposto e demais eventuais interessados na discussão e nas atividades da pesquisa. No primeiro evento, por exemplo, a equipe do projeto ouviu diversas sugestões, com destaque para a demanda por incluir o upload de fotografias na plataforma, e também recebeu material de pesquisa atinente ao recorte para subsidiar os testes da equipe de computação.17 O segundo evento, em outubro de 2018, teve o objetivo de convocar interessados em testar a plataforma, de forma a acelerar a correção de problemas técnicos e aperfeiçoar suas funcionalidades e características. Esse período de testes segue aberto, tanto quando da escrita do presente texto, quando provavelmente da sua leitura, pelo que o artigo cumpre também o papel de prosseguir aquele chamamento, pois quanto maior o universo de usuários a experimentar a plataforma, mais rápido o seu aprimoramento. Cabe assinalar, aliás, que o período de testes, a rigor, não tem data de término, pois o retorno dos usuários deve ser sempre um canal privilegiado de resolução de problemas e evolução contínua de qualquer ferramenta digital, particularmente daquelas que se pretendem abertas e colaborativas. Terceira parada: a afirmação do provisório e a decadência do definitivo Aqui se expressa outra mudança das condições de trabalho dos pesquisadores em humanidades provocada por impactos tecnológicos: cada vez mais, os resultados das pesquisas tendem a ser provisórios, em processo de constante reavaliação e aprimoramento, a se distanciar do modelo clássico do deadline implacável que condicionou tradicionalmente a divulgação do conhecimento produzido. Desde a difusão de práticas de preprint em revistas acadêmicas ( Packer et al., 2018 ), até a edição intensa e permanente de plataformas que funcionam por crowdsourcing (como Wikipedia e Open Street Maps), passando por modificações constantes de publicações a partir de resenhas e críticas no próprio ambiente do texto original,18 generaliza-se uma prática mais aberta e coletiva, que reconfigura a relação dos pesquisadores com o tempo e com as noções de “término”, “definitivo”, “finalizado” e “corrigido” ( Fyfe, 2012 ). Burdick et al. (2012) fornecem uma perspectiva ainda mais polissêmica das novas configurações da era pós-impresso, aliando implicações autorais e espaciais àquelas temporais já mencionadas: O impresso oferece tipicamente um único ângulo de visão, organização linear, uma saída de pesquisa caracterizada por finitude e estabilidade e uma escala de documentação e argumentação que deve respeitar as proporções físicas do livro. A era da impressão plus-digital, ao contrário, permite alternar entre várias visualizações dos mesmos materiais ... É extensível no duplo sentido de permitir escalas aparentemente ilimitadas e de ser baseado em processo, e não em produtos. Quando um livro é impresso, ele se estabiliza em uma edição que precisa ser reeditada para ser revisada; um artefato digital pode ser alterado ou revisado em um substrato regravável que suporta taxas de atualização rápidas. O mesmo artefato digital pode levar várias vidas em várias plataformas, com vários autores. Ele pode ser remixado por outros antes, durante e depois de sua ‘conclusão’ ( Burdick et al., 2012 , p.123).19 O excerto faz a transição do tema da desestabilização temporal da apresentação dos resultados de pesquisas em humanidades digitais para a correlata perda de controle do seu conteúdo e de suas autorias. Também aqui o projeto Pauliceia 2.0 traz subsídios para o debate. A ameaça da “invasão dos bárbaros” A abertura da ciência para leigos costuma trazer implícitos medos e ansiedades com relação à qualidade dos resultados pretendidos. Mesmo a participação de pretensos especialistas, sem controle e monitoramento, pode levar à alimentação de dados sem qualidade, ocasionando eventualmente a degradação da confiabilidade da ferramenta ou publicação em questão, sem mencionar a possibilidade sempre presente de vandalismos digitais. A plataforma Pauliceia 2.0, da maneira como foi concebida, e da forma em que se encontra presentemente disponível, é plenamente acessível a qualquer pessoa interessada, seja apenas para consulta, seja para alimentação de dados (criação de camadas). Para esta, é necessária a criação de um cadastro que é, no entanto, bastante simples e que não exige qualquer qualificação ou titulação do usuário. Diante dessa configuração, dois cenários se apresentam ao destino da plataforma: ou ela resultará em estrondoso fracasso, e a auditoria da qualidade do que for (muito eventualmente) alimentado poderá ser facilmente realizada por poucos ou mesmo apenas por um ou uma especialista na história de São Paulo do período, ou ela terá sido extremamente bem-sucedida, e a enorme quantidade de alimentações implicaria uma auditoria praticamente impossível, dado o grande custo de manter uma equipe altamente qualificada para a tarefa de forma quase exclusiva. Ainda que alimentações mais grosseiramente desqualificadas possam e devam ser identificadas por monitoramentos periódicos da equipe do projeto, é evidente que ela não poderia fazê-lo de maneira extensiva e sistemática para toda e qualquer colaboração em caso de participação maciça de usuários. Kenneth Price (2016 , p.137) assim enuncia o dilema: “Como podemos negociar melhor os papéis de especialistas acadêmicos e usuários interessados e, em particular, como podemos estabelecer controle de qualidade sem desencorajar o envolvimento do usuário?”.20 Há que optar entre um controle maior da participação, e, portanto, uma garantia maior da qualidade, ou uma abertura maior à colaboração, e por conseguinte um risco de degradação da confiabilidade da plataforma. A equipe do projeto acabou por escolher a segunda alternativa, porque não vê o dilema de forma absoluta, posto que a quantidade maior de colaboradores tem também uma dimensão qualitativa, onde “mais é melhor”. Isso não significa, no entanto, que não foram desenvolvidas estratégias e concepções para minorar o risco apontado. Em primeiro lugar, a responsabilidade pela qualidade e pela confiabilidade dos dados alimentados à plataforma é do próprio usuário que os alimentou, como em qualquer publicação assinada. Em segundo lugar, há uma aposta da equipe do projeto de que o próprio caráter aberto e colaborativo da plataforma funcione como um controle da qualidade do que for alimentado. A arquitetura planejada (e já parcialmente implantada) prevê alguns mecanismos de interlocução entre os usuários da plataforma, como a possibilidade de escrever e receber notificações e de “seguir” uma camada de interesse, recebendo informações sobre as suas atualizações. Além disso, há a ideia de se trabalhar com “curadores temáticos ou espaciais”, que seriam responsáveis por estimular seus pares a colaborar com a plataforma, organizar discussões entre eles, propor publicações com o suporte de visualizações de camadas etc. Por exemplo, um especialista em história da saúde pública de São Paulo poderia cumprir esse papel e organizar dessa forma uma subcomunidade de usuários relacionados ao tema. A curadoria poderia seguir critérios temáticos, como no exemplo citado, ou espaciais, referidos à história de determinados bairros ou regiões da cidade. Se esse cenário se realiza, a hipótese consequente é a de que a própria comunidade será capaz de qualificar as informações da plataforma, não apenas as validando, mas promovendo intercâmbios de perspectivas, de sugestões e de atualizações bibliográficas etc. Quarta parada: os custos não reconhecidos da ciência aberta A ameaça da perda de qualidade não é o único custo embutido na abertura em direção à ciência aberta. Os pesquisadores envolvidos em projetos com esse perfil acabam normalmente sobrecarregados de trabalho, pois às atividades de pesquisa familiares ao seu cotidiano profissional, que normalmente compõem o cronograma desses projetos, soma-se a necessidade de organizar e praticar a interlocução com a comunidade-alvo do projeto. Ainda que tal ônus possa ser considerado pequeno em relação ao benefício que produz, justamente a realização da ciência aberta, deve-se reconhecer aqui um paradoxo incômodo: os sistemas avaliativos institucionais da produção do trabalho do docente e do pesquisador não valorizam adequadamente os resultados de muitos dos projetos de humanidades digitais. Ferramentas digitais de leitura distante, sistemas de informações geográficas, repositórios inteligentes e visualizações em realidade virtual são exemplos de produtos de projetos muitas vezes complexos e dispendiosos não necessariamente reconhecidos em avaliações de produtividade. De uma forma geral, os critérios de avaliação ainda estão presos ao paradigma do texto escrito e definitivo publicado em papel, vigente desde o aparecimento das primeiras revistas científicas no século XVII ( Fitzpatrick, 2012 ).21 Para usar um exemplo referente ao projeto aqui discutido, a própria plataforma como resultado de pesquisa não encontra muita guarida em tabelas de avaliação de produção, com valoração no mais das vezes bastante distante do que se atribui a um artigo em revista especializada, por exemplo. É evidente que essa situação não estimula o desenvolvimento de projetos inovadores de ciência aberta, caso de muitas das iniciativas em humanidades digitais. Além disso, há outras incompatibilidades entre tais projetos e as formas tradicionais de divulgar os resultados de pesquisas: a dificuldade em se publicar artigos com muitos coautores ( Edmond, 2016 , p.55). Trabalhos em humanidades digitais costumam ser interdisciplinares ( Pimenta, 2019 ) e não raro articulam saberes técnicos e teóricos em níveis tais que essa mesma distinção se torna questionável ( Burdick et al., 2012 , p.49-50). Assim como ocorre em muitas pesquisas de ciências naturais e exatas, as humanidades digitais podem fazer uso de máquinas e laboratórios, sem que por isso os seus operadores cumpram qualquer papel secundário ou subordinado na consecução dos resultados finais. Na síntese de Alexander Reid (2012 , p.356): Tipicamente, estudiosos de humanidades trabalham sozinhos enquanto pesquisam bancos de dados, arquivos e prateleiras de bibliotecas; lendo monografias, ensaios e artigos e compondo o seu conhecimento. É incomum a produção de conhecimento em humanidades aparecer com mais de dois autores, sem falar nas longas listas de autores que acompanharão o trabalho nas ciências, por exemplo. Embora a tecnologia industrial tardia não tenha determinado essas práticas, elas se tornaram parte do conjunto da produção acadêmica. E, assim como seria difícil para uma pessoa produzir conhecimento científico sem colaboradores, é um desafio colaborar nas ciências humanas. Dado que a pesquisa opera efetivamente com um único autor, é necessário inventar novas funções para participantes adicionais. Embora haja certamente exemplos de colaborações notáveis e de longa data nas humanidades, elas são a exceção à regra. À medida que as humanidades mudam para uma configuração digital, no entanto, essas práticas estão mudando, e isso já é aparente no campo das humanidades digitais, onde a pesquisa indica uma quantidade crescente de colaboração.22 Daí que se conclua que os artigos que apresentem os objetivos e os resultados de pesquisas em humanidades digitais devessem ter todos os envolvidos como autores. A experiência da equipe do projeto Pauliceia 2.0, e, antes disso, do próprio grupo de pesquisas Hímaco, é que fazer valer essa perspectiva, no ambiente das ciências humanas, ainda é bastante difícil. A maioria das revistas acadêmicas vê com maus olhos uma imensa autoria coletiva, como também muitos dos já citados sistemas avaliativos do trabalho docente. Considerações finais O que ora se apresenta é um resultado parcial de um projeto de pesquisa. Seria assim em qualquer momento, independentemente da data da publicação do presente artigo, dado o caráter “permanentemente provisório” do seu “produto final”, a plataforma Pauliceia 2.0, como discutido acima. Independentemente disso, a sua divulgação por esse e outros meios possíveis cumpre a finalidade de otimizar as possibilidades de sucesso, pois uma plataforma colaborativa necessita ser conhecida por seus usuários potenciais. Não apenas o engajamento de colaboradores dá sentido à existência da plataforma, como ele cumpre também o papel de viabilizar o seu aprimoramento contínuo, por meio de testes voluntários da atual versão beta e das críticas e sugestões a eles associadas. Para além desse objetivo ostensivo, voltado para a divulgação da plataforma, buscou-se também oferecer algum material empírico que desse suporte ao debate do uso de tecnologias nos estudos do passado. Evidentemente, a experiência do projeto Pauliceia 2.0 não dá conta das possibilidades da presença das tecnologias digitais no ambiente de trabalho do historiador, tampouco dá subsídio para refletir acerca de toda a complexidade das transformações metodológicas e epistemológicas envolvidas. Mas é pretensão da equipe do projeto que, em alguma medida, ela possa contribuir para o debate. No estágio em que se encontram as humanidades digitais, particularmente no Brasil, o intercâmbio de perspectivas e de aprendizados resultantes de iniciativas pioneiras e isoladas pode ajudar significativamente na superação dos nada negligenciáveis desafios envolvidos. Afinal de contas, é da ética da ciência aberta o compartilhamento não apenas dos resultados, mas dos problemas e das soluções que vieram antes deles. AGRADECIMENTOS O Projeto Pauliceia 2.0 teve financiamento do Programa eScience, da Fapesp (Processo 2016/04846-0), de janeiro de 2017 a janeiro de 2019. Os autores gostariam de fazer um agradecimento especial aos demais membros da equipe do projeto, aqui nomeados: Ana Maria Alves Barbour, Carlos Alberto Noronha, Cintia Rodrigues de Almeida, Denis Taveira de Lima, Eduardo Goiabeira, Ester Dantas Reis Nunes, Gabriel Sansigolo, Gilberto Ribeiro de Queiroz, Ivan Dardi, Janaina Yamamoto Santos, Luanna Mendes do Nascimento, Marta Cristina Pacoret Rodríguez, Michael Page, Monaliza Caetano dos Santos, Orlando Guarnier Farias, Priscila Machado Meireles, Rodrigo Monteiro Mariano, Vitória Martins Fontes da Silva, Wania Mazzarello e Yasmin Wassef. A atuação de todos e de cada um possibilitou os resultados alcançados pelo projeto, entre os quais o presente artigo. REFERÊNCIAS AGUIAR, Leandro Coelho de. Cultura digital e fazer histórico: estudos dos usos e apropriações das tecnologias digitais de informação e comunicação no ofício do historiador. 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(2014) . 3 Sobre esse e outros aspectos mais diretamente computacionais do projeto, evidentemente muito mais abrangentes e complexos do que o desenvolvimento do algoritmo do geolocalizador aqui discutido, consultar Ferreira et al. (2018) . 4 [Nota do editor] Imagem colorida disponível em: < www.scielo.br/hcsm> . 5 Um pesquisador que vem desenvolvendo reflexões e metodologias importantes sobre o tratamento da imprecisão no desenvolvimento de SIGs históricos é o professor Carlos Valencia, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ver, por exemplo, Valencia, Gil (2016). Nessa obra, inclusive, faz-se uso dos “borrões” como discutido (p.108, 178, 214, 250). 6 Sem utilização do geolocalizador do Pauliceia 2.0, até porque ele não se encontrava disponível à época, mas fazendo uso da mesma metodologia aqui descrita, o artista plástico Edgard Santo Moretti chegou ao endereço exato da famosa exposição de Anita Malfatti, em 1917 (Rocha, 27 jan. 2019). 7 Trata-se de um conjunto de oitenta cartas, em escalas 1:1000 e 1:5000, resultantes de um dos primeiros levantamentos aerofotogramétricos de uma grande cidade no mundo. Sobre a qualidade científica do SARA Brasil, mesmo para parâmetros atuais, ver Lima (2013) . 8 Ana Maria Barbour conta com a colaboração de Wania Mazzarello para a sua pesquisa. 9 O grupo Hìmaco (Histórias, Mapas e Computadores) faz parte da equipe do projeto e está cadastrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) desde 2011 (ver ). 10 É importante salientar que toda a tecnologia utilizada no projeto é livre e aberta, e o que foi e está sendo desenvolvido se encontra disponível para os interessados em elaborar projetos similares dedicados a outros recortes temporais e espaciais. 11 Tradução livre do original: “The Digital Humanities is often described as inherently collaborative, not just the field, but also its technologies, projects, and people. Collaboration is an active and visible parameter in the narrative and framing of digital humanities. Not working collaboratively is often construed as an exeception”. 12 No Brasil, um núcleo importante que desenvolve reflexões sobre o tema é o Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), ao qual se vincula o Laboratório em Rede de Humanidades Digitais (LarHuD). Uma produção originária desse programa e bastante pertinente à perspectiva do presente artigo é Aguiar (2012) . 13 Ainda que não caiba no escopo deste artigo ir muito além, sempre é importante ressalvar que tal fenômeno tecnológico tem outras muitas e polissêmicas consequências, bem mais obscuras, tais como os avanços da mercantilização do conhecimento ou os estados de hipervigilância que denúncias como as de Edward Snowden trouxeram à luz ( Burdick et al., 2012, p , p.80-81). 14 O que motivou o neologismo prosumer ( Burdick et al., 2012, p , p.135). No entanto, aqui também existem efeitos nem sempre desejáveis, como a degradação da autoridade científica produzida por movimentos irracionalistas do tipo do terraplanismo e contra a vacinação, por exemplo. 15 No campo da história, também no Brasil, já há experiências exitosas nessa direção, com destaque para o Atlas da América Lusa , projeto colaborativo coordenado pelo professor Tiago Gil, da Universidade de Brasília (UnB) (disponível em: < http://lhs.unb.br/atlas/In%C3%Adcio >). Para um relato do projeto, ver Gil (2019) . No âmbito da história urbana, o Pauliceia 2.0 tem muitas identidades com os projetos ImagineRio (disponível em: < https://imaginerio.org/#en >) e Mapa Histórico Digital de Belo Horizonte (disponível em: < https://mapahistoricobh.wixsite.com/historicobh >). 16 Daí a proposta das curadorias temáticas do projeto, explicada mais adiante. 17 Particularmente especial foi a contribuição das professoras Ana Lucia Duarte Lanna e Sarah Feldman, ambas da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAU/USP), que disponibilizaram dados extensivos de suas pesquisas sobre a cidade à equipe do projeto. O estudo de Feldman acerca das indústrias do Bom Retiro na primeira metade do século XX subsidiaram a criação de uma camada na plataforma. 18 Um dos casos mais interessantes é a série “Debates in the digital humanities”. Ver, por exemplo, a edição de 2019 (Gold, Klein, 2019). 19 Tradução livre do original: “Print typically offers a single viewing angle, linear organization, a research output characterized by finitude and stability, and a scale of documentation and argumentation that has to respect the physical proportions of the book. The digital print-plus era, in contrast, allows for toggling back and forth between multiple views of the same materials … It is extensible in the double sense of allowing for seemingly unlimited scale and of being process – rather than product – based. When a book goes to print, it stabilizes in a edition that has to be reissued in order to be revised; a digital artifact can be altered or revised on a rewritable substrate that supports rapid refresh rates. The same digital artifact can lead multiples lives on multiple platforms, with multiple authors. It can undergo remixing by others before, during, and after its ‘completion’”. 20 Tradução livre do original: “How can we best negotiate the roles of scholarly specialists and interest users, and, in particular, how can we establish quality control without discouraging user involvement?”. 21 Buscando subsidiar novos parâmetros que façam maior justiça a trabalhos em história digital, a American Historical Association produziu recentemente um “Guidelines for the Professional Evaluation of Digital Scholarship by Historians” (2015).

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Corporeidades silenciadas: reflexões sobre as narrativas de mulheres violadas Corporealities silenced: reflections about the narratives of violated women Jane Felipe Beltrão Camille Gouveia Castelo Branco Barata Mariah Torres Aleixo Sobre os autores » Resumo » Abstract » Text» De traduções olvidadas e diálogos “surdos” » Os segredos da escuta » O veneno da dor » As categorias sobre violência: enredamentos na narrativa das mulheres » As categorias relativas à agência: a resistência das/entre mulheres » Entre oitivas e traduções » Por diálogos e justiças » Referências bibliográficas » Datas de Publicação » Histórico Resumo Refletir sobre as formas de narrar as violências enfrentadas por indígenas e quilombolas mulheres/mulheres indígenas e quilombolas é a proposta do texto para discutir a possibilidade de tradução etnográfica das categorias nativas em confronto com as categorias acadêmicas para referir as mulheres em situação de violência, identificando as agências das protagonistas. indígenas; quilombolas; violência Abstract Reflect about the ways of narrate the violence faced for indigenous and maroons women/women indigenous and maroons is the propositions of the article to discuss the possibility of ethnographic translation of native categories in confrontation with the academic categories to refer women in violence situations, identify the agencies of the protagonists indigenous; maroons; violence De traduções olvidadas e diálogos “surdos” No ensaio que hoje pode ser considerado clássico para o que se convencionou chamar Antropologia Jurídica ou Antropologia do Direito2 , Geertz (2013) enuncia que o Direito é construído à luz de saberes e artesanatos locais, isto é, tem a ver com a cultura na qual ele tem vida, onde “funciona.” Segundo o autor, há diversos sentidos de direito e justiça – o que ele denomina de sensibilidades jurídicas – as quais, no contexto contemporâneo, são obrigadas a conversar, em suas palavras, “... uma iluminando o que a outra obscurece.” (2013, p. 237) De acordo com essa afirmação, o estudo e a prática do Direito devem ser feitos por meio da tradução cultural, buscando compreender as sensibilidades jurídicas que estão em jogo nas contendas, seja aquelas levadas à justiça estatal, seja as que são discutidas e resolvidas à luz das normas comunitárias e, principalmente, as que caminham na fronteira entre tais normatividades. Partimos desse pressuposto para compreender as maneiras pelas quais mulheres indígenas e quilombolas/indígenas e quilombolas mulheres3 da Amazônia paraense resistem às violências do cotidiano e perscrutar suas sensibilidades em meio às situações de violência. Não se trata aqui de analisar estratégias de movimentos de mulheres indígenas e/ou quilombolas para conseguir alcançar suas reivindicações políticas, o que não deixaria de ser importante objeto de reflexão, mas sim de entender as próprias corporeidades das protagonistas como estratégias de resistência. Esta última, que pode parecer mais individualizada e circunstancial num primeiro olhar, ganha contornos coletivos quando se observa o compartilhamento de histórias, as redes de ajuda e solidariedade criadas pelas mulheres, entre outras agências, como veremos a seguir. Temos em conta que esse diálogo entre noções de justiça não ocorre com paridade de armas, pois o Estado brasileiro se constituiu olvidando etnicidades e engendrando políticas de homogeneização e integração dos grupos diferenciados à “sociedade nacional.” A conversa entre as sensibilidades jurídicas no país ocorre na forma do que Yrigoyen Fajardo (2011) denomina pluralismo jurídico subordinado colonial, isto é, de modo a não reconhecer noções de direito que não sejam as provenientes do Estado. Quando se pensa em questões relativas às mulheres etnicamente diferenciadas a questão se complexifica. A promulgação de leis específicas às mulheres, que consideram a violência como crime4 , fruto de anos de reivindicações e estudos promovidos por organizações e coletivos feministas, diz pouco sobre diferenças de ordem cultural, étnica e racial. Diante disso, compreender noções de violência bem como as estratégias de resistência das protagonistas se impõe. Os segredos da escuta Assim, nosso objetivo é refletir sobre as formas de narrar a violência que atinge os corpos das interlocutoras que pertencem a povos indígenas e coletivos quilombolas e debater acerca das possibilidades de tradução etnográfica a partir da identificação das categorias nativas que compõem a enunciação das interlocutoras, considerando as diferenciadas noções de justiça presentes entre as mulheres que emprestam seus depoimentos às autoras do texto. Para alcance dos objetivos, procura-se compreender como se dá a construção da corporeidade entre as mulheres indígenas e quilombolas/indígenas e quilombolas mulheres, pela possibilidade de demonstrar como o corpo se apresenta entre elas como território privilegiado de resistência e luta. A marca do presente trabalho são as reflexões que ressaltam e problematizam as categorias que integram a epistemologia e o olhar nativo sobre corpo e violência. Para os limites da reflexão proposta, é importante esclarecer que os depoimentos oferecidos pelas interlocutoras foram ditos às pesquisadoras em diversos momentos, os quais compreendem um lastro de 15 anos de pesquisa, sem que estas tivessem a intenção de trabalhar especificamente violência e violação de corpos, entretanto, os depoimentos foram como que aflorando pela impossibilidade – estatal e/ou comunitária – de oitiva das mulheres em situação de violência. Selecionou-se depoimentos de mulheres indígenas pertencentes aos povos Tembé Tenetehara5 , hoje moradores do município de Santa Maria do Pará, Xipaya6 e Kuruaya7 que vivem no médio Xingu e, no caso das quilombolas, selecionamos as interlocutoras moradoras das diversas comunidades localizadas no arquipélago do Marajó, também no estado do Pará. Destacam-se trajetórias e memórias que marcam de modo indelével o etnocídio praticado via colonização (Beltrão, 2012), que até o presente atinge os corpos e as vidas de pessoas indígenas e quilombolas via colonialidade.8 Nesse sentido, é latente na narrativa das interlocutoras a referência ao processo de expulsão territorial, sequestro de crianças indígenas e quilombolas pela ação missionária e/ou do Estado, tentativas reiteradas e violentas de genocídio, em face da tentativa de homogeneização e apagamento das pertenças. Vale, porém, ressaltar que a colonialidade incide de forma específica e brutal necessariamente sobre os corpos das mulheres, pois esta, segundo Lugones (2008) , se instituiu também como colonialidade gênero, que instituiu o sistema de gênero colonial/moderno, baseado nas dicotomias homem/mulher e público/privado, como o padrão. Isso ocultou sistemas de organização dos “mundos sexuais” nativos, em que muitas vezes as fronteiras entre masculino e feminino eram fluídas e as mulheres exerciam papéis importantes na vida coletiva. Não tratamos aqui de perscrutar esses sistemas “originais” e nem acreditamos que, hoje, isso seja possível. Porém, importa ter isso em consideração para um olhar etnográfico mais apurado. O ponto nevrálgico, locus em que os caminhos etnográficos se tornam mais “nebulosos”: ter o corpo marcado, como é o caso de indígenas e quilombolas mulheres/mulheres indígenas e quilombolas, pela violência física e sexual, muitas vezes infringida pelos próprios “parentes”, ou ainda por pessoas não indígenas e quilombolas, fato que mobiliza sentimentos como dor, sofrimento e vergonha. A possibilidade de ouvir (com tudo o que o ato da escuta representa para a Antropologia) implica em cuidados9 redobrados na interpretação de atos e falas que não são ditos a qualquer pessoa, nem em qualquer lugar. Os processos de violação dos corpos, vividos como eventos devastadores, segundo as interlocutoras, também formam seus modos de narrar, de liderar e de agir politicamente. De alguma forma, somos “ouvintes” privilegiadas, considerando a confiança com a qual fomos brindadas, portanto nosso compromisso com a ocultação das identidades é fato. O veneno da dor Veena Das (2008a), em seus escritos, problematiza a correlação entre dor e linguagem. Segundo a autora, por meio da expressão da dor, é possível sair da privacidade sufocante que ela produz na vítima. De acordo com Das (2008a), eventos devastadores produzem um tipo de conhecimento que só é alcançado pela experimentação do sofrimento, um conhecimento venenoso. Portanto, violências extremas não seriam apenas responsáveis pela destruição de vidas e corpos. Atuam, também, na construção de sujeitos e linguagens da dor. A enunciação da dor pede, portanto, admissão e reconhecimento, o que nem sempre ocorre. Trata-se, nos termos da autora, de sentir a dor no corpo do outro. Essa é a proposta ao fazer antropológico, requisitado de forma envergonhada, mas insistente por nossas interlocutoras. De acordo com Michael Taussig (1993), a reprodução da imagem dos povos indígenas como selvagens, irracionais e violentos é o que possibilita a propagação do terror colonial. E no caso dos coletivos quilombolas a estratégia de resistência e luta dos negros é imperdoável ao mundo colonial, afinal, os africanos são equiparadamente considerados, como os indígenas, pessoas desprezíveis. Trata-se uma operação mimética por parte do colonizador, que conduz a atos de extrema violência, não importando se esse imaginário é verdadeiro ou não. As culturas do terror criam, desse modo, o que o autor denomina como espaços de morte, nos quais indígenas, africanos e brancos viram nascer o Novo Mundo. Segundo Taussig (1993) o terror é o mediador por excelência da hegemonia colonial e acrescenta-se da discriminação presente em nossa sociedade. O autor afirma ainda que “... as culturas do terror são nutridas pelo entremesclar do silêncio e do mito.” (Taussig, 1993, 30) Os efeitos paralisantes e silenciadores do terror encontrariam na narrativa sua primeira possibilidade de cura. Quando decidiram falar sobre as violências que marcaram de forma mais ou menos severa suas trajetórias, nossas interlocutoras começaram a vencer a primeira imposição do terror, o silêncio. Como diz Maria Aparecida, quilombola, que por ser estudante universitária, escreveu seu depoimento: “não vou falar e também nunca escrevi, mas faço [o texto] porque não consigo explicar porque aconteceu comigo, talvez não haja explicação, e mesmo que tivesse jamais iria me fazer esquecer aquele homem imundo que me rasgou e tudo que aconteceu comigo. Neste caso, a forma de prevenção pra que não possa acontecer com outras mulheres é contar e contar do massacre que sofri. Mas para isso tenho que ter coragem para dar o testemunho, mas tenho muita vergonha por isso escrevo. Peço que a senhora conte, leve adiante, o massacre não pode continuar.” Para compreender o que diz Taussig (1993), traz-se à consideração e em complemento à Maria Aparecida, o depoimento de Maria Dolores, de pertença Kuruaya, que narra seu pânico no dia da violação, praticada dentro de sua casa, na frente do marido e das filhas, que à época tinham respectivamente oito anos e dois anos: “Dormi, como todas as noites, com meu marido e minhas filhas na minha cama. De madrugada acordei e levei o maior susto da minha vida, me deparei com um homem passando da sala pra cozinha, pois a porta do quarto ficava entre aberta durante a noite, então no primeiro momento imaginei que pudesse ser alguém de fora, pensei que fosse meu marido, então olhei na cama e vi as meninas e ele, percebi que tinha alguém na casa e não era o meu marido, ele dormia com as crianças. Logo depois minha filha de oito anos acordou e percebeu que eu estava bastante assustada e nervosa, então falei que tinha alguém na casa, pedi que ela não fizesse escândalo. Na hora, eu só pedia a Deus proteção pra minha família e, ao mesmo tempo, sem saber o que fazer e como agir naquela situação de angústia e muito muito medo.” Na sequência dos acontecimentos, Dolores se apercebe do perigo e evoca Deus: “... com toda Tua sabedoria me traz tranquilidade e, nas minhas orações, pedi que Deus fizesse aquela pessoa ter compaixão e não fizesse nada com meu marido e com as minhas filhas, eu coloquei minha vida nas mãos Dele. Eu dizia: Deus coloco minha família em suas mãos me proteja e me ilumine nesta noite, pois sei que corro perigo, me abençoe, te peço em amém. Dona a senhora já teve medo?” Dolores prossegue a narrativa, ofegante, e esclarece, “... agradeço todos os dias a Deus, eu esqueci parcialmente o fato, só que por mais que os anos passem, eu não consigo falar com as pessoas sobre o assunto, por medo e até mesmo vergonha.” O relato foi adiante, entrecortado pelo choro às vezes discreto, outras vezes convulsivo a ponto de interromper a narrativa. Ela segurava as minhas mãos10 com força, de certo ainda sentia pânico e as marcas corporais que se apresentavam vivas, intensas! O relato é bastante longo, mas importante para compreensão da dor, silenciada pelas circunstância e sobretudo pela vergonha. Diz a Kuruaya: “... trabalhei o dia inteiro, sou professora no bairro dos índios, local tomado pela violência. Nunca tive medo de nada. A casa é pequenininha. Toda noite eu tenho o costume de verificar portas e janelas, e nesse dia não foi diferente, entretanto nunca imaginei que alguém pudesse entrar na casa de alguém pelo telhado, por onde entrou o bandido. Quando me dei conta do perigo fingi que estava dormindo e observei por baixo do travesseiro que ele [o bandido] se aproximava e logo entrou no quarto meio agachado, ficando em volta do berço da minha filha. Chegou perto da cama e pôs a faca no meu pescoço, daí eu gritei e ele se debruçou em cima da cama fazendo ameaças, dizendo pra não gritar se não iria matar todo mundo caso eu não trepasse [mantivesse relações sexuais] com ele.” Dolores informou que ele estava visivelmente muito perturbado andando de um lado para o outro, parecia não saber o que fazer, aparentando transtornos. Tinha aparência de drogado, exalava mal cheiro, mas não parecia bêbado e nem cheirava a álcool. Ela continua: “... depois da ronda pela casa, ele saiu um momento do quarto e eu disse ao meu marido finge que dorme e cuida das meninas, pois ele vai voltar. Minha filha que estava acordada chorava muito e falei pra ela ficar bem caladinha como se estivesse dormindo foi o que ela fez, ficou quietinha abraçada à irmã e ao pai. Ele voltou e me obrigou a manter relações sexuais com ele. Sem saber o que fazer, pedia ajuda a Deus. Aquilo foi uma humilhação muito grande, na minha cama, com o meu marido vendo tudo e as minhas filhas então? Até hoje não sei “transar” como antes, a lembrança me perturba, tenho problemas, passo mal, meu marido não se conforma, reclama. Temo que me abandone por isso. Com os olhos distantes, como se voltasse à cena do crime, Dolores informa: “... pela conversa dele, percebi que ele não falava coisa com coisa, às vezes parecia tranquilo, daí a pouco se exaltava e com a faca na mão, junto do meu pescoço. Que medo! Quando ele falou que iria fazer sexo comigo, tornei a me apavorar e, na hora, pensei na família e o quanto seria pior se fossem com as minhas filhas, pensei que era melhor eu ceder do que ele fazer algo pior conosco, ele sentou na cama e falou que não era pra eu gritar, era melhor pra mim. Ele se serviu de mim duas vezes e perguntava, gostou cachorra, tu foste pega no dente, índia é tudo assim ... Eu desesperei, além de me usar me humilhava e minhas filhas e meu marido assistindo, acho que a pequena não acordou, nem sei ... quando percebi que ele tinha saído da minha casa parece que o mundo caiu sobre mim, não tinha reação de nada lembro que peguei o celular, mas não tinha condições de ligar pra ninguém, acho que ainda não tenho mundo.” Abalada, Dolores confessou que teve dificuldade de identificar o criminoso, mas o fez. Ele respondeu processo e foi condenado, o fantasma à época era a saída do agressor da cadeia. Ela ainda vive aos sobressaltos, pois se aproxima o final do cumprimento da pena. As categorias sobre violência: enredamentos na narrativa das mulheres Nos diálogos estabelecidos com as interlocutoras é possível detectar em seus depoimentos e mesmo discurso de indígenas e quilombolas, uma série de categorias a respeito de eventos que, do ponto de vista antropológico, poderiam ser definidos analiticamente como situações de violência, embora dificilmente nossas interlocutoras tenham usado explicitamente o termo violência, as protagonistas referiram-se a todo momento a situações que atingiam seus corpos individual e coletivamente. Os corpos são atingidos de forma coletiva na medida em que a corporeidade e construída socialmente e as violações são estruturais e não individuais, além de engendrarem dor e resistências. Os fatos narrados aproximam-se da definição de violência proposta por Paula Lacerda (2015) que a entende como: [...] um amplo conjunto de situações que poderiam ser percebidas, de outro ponto de vista, como ‘causadoras de sofrimento’, pessoas se apresentam como ‘vítimas de violação de direitos’, o que as transforma em sujeito e potencializa o alcance de suas reivindicações.” (2008, 28) A primeira categoria que se refere a tais processos diz respeito a violência enfrentada coletivamente pelo povo Tembé Tenetehara na Colônia Santo Antônio do Prata, educandário que recebia as crianças indígenas sequestradas de suas comunidades e apartadas de seus parentes para serem educadas, catequizadas e “civilizadas” com base na pedagogia cristã dos missionários Capuchinhos. Posteriormente, a Colônia foi transformada em Leprosário e a ameaça de contrair a doença afastou ainda mais os Tembé Tenetehara do território que tradicionalmente ocupavam. No período de instalação do Leprosário, conforme conta Dona Maria Joana, circulava na região o boato de que era possível curar a hanseníase se o doente comesse o fígado de uma pessoa saudável. Na época chegaram a ser encontrados na mata cadáveres com o fígado retirado, o que reforçava ainda mais o temor de que uma das pessoas a serem mortas pudessem ser Tembé Tenetehara. É desse cenário que emerge a categoria massacre: as interlocutoras constantemente reafirmam, ao dizer dessas memórias que “o nosso povo foi muito massacrado no Prata”. A noção de massacre parece elucidar mais enfaticamente os acontecimentos que a categoria violência, uma vez que as violações enfrentadas coletivamente pelos Tembé Tenetehara – ditos de Santa Maria – incluem espoliação territorial, epistemicídio, quebra dos laços de parentesco e, em última instância, o adoecimento e a morte dos membros do povo. O mesmo ocorre com as mulheres Xipaya e Kuruaya que, expulsas de seus territórios no médio Xingu, vieram à cidade e vivem presas a espaços, onde sequer podiam, há 10 anos, se declarar indígenas. Eram, como referem algumas das interlocutoras, impedidas de falar a língua materna, enfrentaram o massacre da discriminação, produzida pelo racismo que se apresenta em estratégias de dominação de ordem material e ideológica, utilizada pelas estruturas coloniais para manter status privilegiado de membros do grupo dominante, produzindo a perene subalternidade dos povos etnicamente diferenciados (Moreira, 2016 ), não fosse a luta que empreendem diuturnamente. No caso das quilombolas o massacre foi/é pesado e reproduzido nas diversas narrativas. A segunda categoria que diz de processos de violência é a de escravidão. Conforme explica Maria da Paz: “os antigos do nosso povo tratavam a mulher como escrava. Ela só servia para ter filho, cuidar da casa e da roça, ser usada pelo marido e trabalhar pro pai. Hoje não pode mais ser assim, mas muitos homens no nosso povo e de fora querem tratar as mulheres nessa escravidão.” A categoria escravidão parece dizer respeito a crítica que as mulheres indígenas fazem sobre a condição feminina dentro das diversas comunidades. O entendimento de que as mulheres eram e são tratadas como escravas, guarda em seu interior a reivindicação de que sejam entendidas como sujeitos, dotadas de direitos, vontades e voz. Tal categoria diz respeito a forma como as interlocutoras pensam a mulheridade e a crítica que fazem por não serem reconhecidas de tal forma. Entre as quilombolas a condição de escrava é mencionada por conta das avós e das bisavós, entretanto, algumas vezes, a condição passada é negada para não comprometer a luta e favorecer a discriminação. A terceira categoria nos parece a que possui maior tensão ao ser utilizada analiticamente: trata-se da categoria maldade. Durante muito tempo do percurso das pesquisas que apontavam para as categorias nativas, evitou-se conjecturar sobre a mesma, por receio de que escrever sobre o assunto pudesse “dar munição” para os antagonistas em relação aos povos tradicionais. Entretanto, ao buscar as noções de justiça que permitem a luta política das mulheres, a maldade atravessou o percurso da problematização. As interlocutoras com quem se dialogou nomeiam como “homens maus” aqueles que agridem seus corpos, física e/ou sexualmente. E, a essas agressões, as mulheres indígenas dão o nome de maldades. As quilombolas, algumas vezes referem-se às violações dos homens maus, como malinesas. Denominam malinesas às penas impostas, pelos encantados, a homens (e também à mulheres) que vivem fora das normas tradicionais, malinesas que trazem como consequência efeitos deletérios às relações sociais. Malinos são os encantados que castigam os transgressores com o mal, tornando-os perniciosos ao convívio social. Os encantados que “jogam a malinesa” vivem nas matas e nos cursos d’água e por serem donos dos espaços, exigem reverências e cumprimento de obrigações, nem sempre observadas pelos homens maus que terminam “malinando” com as mulheres (ou mulheres que malinam com homens). No caso da maldade ou da malinesa entre indígenas e quilombolas, uma e outra não integram a essência dos humanos, são tomadas pelas interlocutoras como condição que, dependendo do comportamento, pode ser afastada dos humanos, sempre que, arrependidos, voltem a cumprir as obrigações com os encantados. A tensão reside no fato de que muitas vezes os homens maus ou malinos podem ser companheiros das mulheres indígenas e quilombolas ou lideranças dos referidos coletivos. Duas situações parecem ilustrativas de como a categoria maldade é posta em ação. A primeira delas diz respeito a história contada por Maria Laura, que teve a filha Maria Conceição sequestrada por um homem que circulava na comunidade. A menina passou oito dias em cativeiro submetida a violência física e sexual pelo agressor. Por fim, depois de espancá-la quase até a morte, o criminoso abandonou-a sozinha na casa onde a escondia. Embora Maria Conceição tenha sido encontrada com vida e acolhida sob o modo Tembé de cuidar do corpo, a marca da violência permanece para o resto da vida e o fato de o agressor ter muito dinheiro, à época, assegurou-lhe a impunidade. Ao contar a história de sua filha, Maria Laura referiu-se ao criminoso como um “anjo mau”, aproximando-o do mito bíblico que conta a história de Lúcifer. A mesma categoria foi utilizada pela filha de Maria da Paz, Maria Lídia, para referir-se ao seu pai. Na época ele se encontrava doente, com desmaios e fraquezas constantes, e as causas não puderam ser identificadas pelos médicos que a família procurou. Maria da Paz, desde que a conhecemos, narra as agressões cometidas pelo marido, que espancava ela e os filhos e dizia constantemente a todos palavras duras, que “machucavam” quem as ouvia. Conversando com Maria da Paz e Maria Lídia, a filha afirmou que a doença do pai era um “castigo por todas as maldades que ele fez com a gente”, com o que Maria da Paz concordou. A noção de maldade parece ter um sentido diferenciado para as mulheres indígenas se comparada aos usos que assume na sociedade dita ocidental. Enquanto no ocidente a maldade é frequentemente tomada como propriedade de pessoas perversas, entre as protagonistas indígenas a categoria parece se aproximar do que a Antropologia e os movimentos de mulheres tem chamado de machismo ou violência de gênero. Atentar para o uso diferenciado do termo pelas interlocutoras só foi possível em função do envolvimento etnográfico no contexto em que estas se inserem e por meio do diálogo e inflexão mantida pelas autoras. Por fim, a última categoria percebida como o sinônimo nativo para a violência é a de machucar. Frequentemente usada na sociedade ocidental para designar ferimentos físicos, sejam acidentais ou infringidos, machucar entre as mulheres indígenas refere-se ao ato de dizer palavras ofensivas e duras, que atacam a honra e o caráter das pessoas atingidas. Nos relatos de violência dentro das relações com os maridos – sejam eles indígenas ou não – as interlocutoras afirmam que as palavras duras são tão dolorosas e machucam tanto quanto agressões físicas. Tendo em conta a lei brasileira sobre violência doméstica, temos que o “machucar” talvez possa ser compreendido como violência psicológica11 , uma entre as possibilidades de violência contra a mulher, deslindadas nesse diploma legal. Entre as quilombolas há narrativas que informam que as palavras ofendem mais que serem marcadas por paus, chicotes e outros instrumentos de agressão. As marcas físicas podem ser tratadas, curadas, mesmo que levem tempo, mas as marcas dos machucados ferem a alma (para além do corpo) e permanecem na memória das interlocutoras e nada nem ninguém faz desaparecer. Abaixo as correspondências relativas às categorias éticas e êmicas. Thumbnail  Quadro 1 : Categorias éticas e êmicas sobre violência As categorias relativas à agência: a resistência das/entre mulheres Uma das principais questões que se tornaram visíveis no diálogo com as interlocutoras diz respeito ao fato de que as violações que atingem os corpos das mulheres jamais foram aceitas de forma passiva, elas não se deixam paralisar. Os processos de agência – aqui utilizada no sentido atribuído por Pierre Bourdieu (1983) e Anthony Giddens (1984) – e resistência, sempre estiveram presentes nas trajetórias das indígenas e quilombolas. O silenciamentos via etnocídio atingiu seus corpos e vidas, mas não se consolidou na medida em que as protagonistas sempre estiveram dispostas a buscar alternativas e resisitir. É com o intuito de romper com o etnocídio e a destituição da memória de seus coletivos que as mulheres indígenas ou quilombolas contam histórias de extrema violência no contexto da pesquisa; supomos que elas acreditam que por meio do registro na produção antropológica, as interlocutoras mantém a expectativa de que as memórias não sejam esquecidas nem apagadas, mas que, pelo contrário, permaneçam vivas na luta por direitos coletivos e por reconhecimento. Relatar as estratégias de agência e resistência e o protagonismo das interlocutoras frente a situações de poder assimétricas coaduna-se com o objetivo de “contar para prevenir”, como disse Maria dos Anjos, há anos, quando em uma roda de conversa aconselhou as jovens presentes: “... não guardem segredos, eles envenenam a vida. Não façam como eu que evitei contar as malinesas, daí não consegui domei os maus [homens] da minha vida. Nem os de casa, nem os da rua e ninguém deve machucar nossas almas, somos pessoas, [e olhando firme as meninas moças da roda] devemos reagir, assim as malinesas vão pra longe da comunidade.” De fato, contar a história parece uma das principais categorias que distinguem a agência das mulheres diante da violência sofrida. O trabalho das autoras, membros da equipe de antropólogos do Grupo de Pesquisa Cidade, Aldeia & Patrimônio só teve início a partir do convite dos membros da comunidade para que os pesquisadores escrevessem a história do povo Tembé Tenetehara e de outros povos indígenas e quilombolas, como informamos à partida. Quando na comunidade, muitos pesquisadores foram “intimados” a entrevistar os membros mais velhos da comunidade, para garantir que as histórias que estes se lembravam fossem registradas antes que se perdessem com seu falecimento. Maria Laura, com o início das pesquisas na comunidade, decidiu começar a escrever diários, onde poderia registrar suas memórias pessoais e coletivas e repassar para os pesquisadores do grupo. Outra categoria importante nos processos de agência das mulheres indígenas, especialmente as Tembé, é a do cuidado. Conforme elucida Maria Laura: “... o nosso povo foi muito massacrado no Prata. Morreu muita gente. A gente jamais podia dizer que era índio, até hoje nós vivemos discriminados. Hoje tá muito melhor, a gente vive junto, faz nossas festas, cuida uns dos outros e o nosso povo se alegra. Mas vive com a discriminação. Não podemos usar uma roupa, que já dizem que nós não somos índios. Eu vou dizer que eu sou uma portuguesa, sendo que eu não sou? Até tem gente que diz, mas eu não digo. Eu digo o que eu sou, eu sou Tembé. Mas tem que viver com a discriminação.” Ao contrário da visão de cuidado amplamente discutida na literatura produzida na área da Enfermagem, pautada na atenção e medicalização de pessoas com doenças, ou deficiência, o cuidado tembé e das demais etnias é holístico e alimenta o corpo de forma completa, por meio do sistema tradicional de ação para saúde, que contempla não apenas o cuidado com o corpo, mas a proteção espiritual, e as lutas políticas por uma vida melhor, que acarretam uma corporeidade saudável. E esse corpo não se estrutura desconectado do ser indígena, com toda a carga política e epistemológica que a identidade enseja para as tembé, xipaya e kuruaya. Cuidar de si e dos seus implica em se proteger de violações e fortalecer o grupo para que as lutas políticas possam ser continuadas. Nesse sentido, o cuidado de si constitui um empreendimento que conforma resistências políticas, materiais e epistemológicas, em um contexto no qual o corpo vem à cena tanto como território de lutas e afirmações identitárias, quanto como alvo de opressões e estigmas. Com as mulheres quilombolas a situação é semelhante, sempre que alguém se machuca a cura vem via sistema tradicional de ação para saúde, mesmo que a pessoa machucada e violada receba atendimento dentro do sistema ocidental de ação para saúde. Outra categoria percebida como forma de agência das mulheres nas tensões que envolvem os maridos diz respeito a educação dos filhos. Segundo Maria Laura: “... a mulher é que educa o filho. Se ela não mandar ele ir lá, tomar a bença do pai, fazer um carinho no pai, ele não vai, não, fica na dele. Foi por causa de um dos meus filhos que meu marido parou de me bater. Um dia, ele era novinho, magro, magro... Ele virou pro pai e falou: “O senhor nunca mais vai bater na mamãe, hoje foi o último dia”. O pai perguntou: “E o que tu vai fazer?”. E ele disse: “Eu não sei, mas o senhor não encosta mais um dedo nela”. Depois disso, nunca mais ele me bateu.” Uma das filhas de Maria Laura, ao ver o pai com outras mulheres na rua: “... fazia um escândalo, batia nela. Uma vez enchi as coisas da mulher de areia, ficou tudo sujo. Depois ele metia a porrada em mim quando chegava em casa, mas eu nunca deixava barato.” Atualmente as crianças que na infância enfrentaram os pais em defesa de suas mães, criam redes de apoio e acolhimento das indígenas mulheres em situação de violência, seja recebendo-as em suas casas, rezando por elas ou conversando com os maridos e, muitas vezes constrangendo-os perante os demais parentes. Maria José, quilombola da comunidade Maria me ajude constrangia o marido, mostrando de casa em casa os ferimentos produzidos pelas surras que levava, porque teimava em estudar. A peregrinação de casa em casa produzia o recolhimento do agressor que, alcoolizado, tinha produzido as maldades, malinado a protagonista. Por fim, a última categoria percebida como característica da agência empreendida pelas mulheres tembé em relação a violência diz respeito ao processo de fechar o corpo. Prática também verificada entre as quilombolas. Em um contexto em que as violações de direitos ocorridas em hospitais são reais e prováveis, fechar o corpo contra coisas ruins é essencial. Entre as práticas frequentes, temos: rezar na cabeça de criança com febre; ministrar ervas medicinais para pessoas que adoecem ou são envenenadas; manter a gravidez ou interrompê-la quando as vidas da mãe e da criança estão ameaçadas; são exemplos de saberes e fazeres acionados no agenciamento de situações consideradas de risco, em que se sabe que o acesso ao sistema ocidental de ação para saúde não responde satisfatoriamente ou há dificuldades em acessá-lo. Fechar o corpo entre os povos tradicionais implica proteger as pessoas da comunidade tanto no plano físico quanto no espiritual. Os rituais podem ou não estar relacionados à alguma forma de religiosidade indígena afro-brasileira ou ocidental. Uma das interlocutoras, reconhecida “por ser uma das mais antigas dos nossos antepassados”, entre os Tembé, relata que nos tempos antigos, quando houve grande incidência de hanseníase na região, ela conseguiu paralisar o avanço da doença no corpo de uma das pessoas da comunidade utilizando as propriedades do mucuracaá, uma planta medicinal que também é utilizada entre os tembé para combater o mau-olhado. Outras indígenas afirmam que uma mulher grávida que estivesse sob os cuidados de Maria Carmen estaria em boas mãos, uma vez que ela acompanhava a gestação desde os primeiros meses até a hora do parto, no qual a mulher era virada de lado e dava a luz enquanto a interlocutora rezava em sua barriga. Despois do parto, a profissional de saúde permanecia na casa da parturiente até o resguardo terminar, portanto eram quarenta dias de cuidados diferenciados. Durante uma das idas a campo, a mãe de uma criança que havia nascido há pouco tempo encontrava-se aflita, pois o bebê não parava de chorar e não costumava ser assim. Nesse momento, Maria Carmen, sogra da mãe da criança, entrava na casa e, ao se dar conta da situação, perguntou se a menina havia ido tomar banho de igarapé. Como a resposta foi afirmativa, a interlocutora disse: “... minha filha pegue alho, amasse e misture com álcool e deixe um tempo. Depois passe com o dedo na palma da mão da neném, na sola do pé, no braço e na coxa, em forma de cruz. Vai ficar um cheirinho ruim, mas não tem problema, ela vai melhorar. Ela deve ter visto alguma coisa no igarapé, criança é muito sensível, parece um pintinho novo. Quando eu era pequena, minha tia levava a gente pro igarapé, mas ela entrava primeiro, pedia licença pra mãe da água pra gente entrar e jogava o alho na água, aí o banho era sossegado.” O alho é antídoto (combate o veneno) para os encantados que “jogam malinesa” quando as pessoas não reconhecem as regras, que não se referem apenas aos espaços de domínio dos mesmos, mas às horas proibidas do dia e da noite. A paçoca de gergelim preto “pisada” com hortelã é utilizada para “botar pra fora” (as indígenas não utilizam o termo “aborto”, as quilombolas usam expulsar), principalmente quando a gravidez ameaça a vida da mãe ou quando o parto é de risco. Para mulheres grávidas que sentem dores, ministra-se chá de gengibre. Para inflamações, especialmente em casos de problemas de próstata, o caroço de abacate mostra-se eficaz. Crianças, quando morrem antes do batismo, segundo os católicos, choram durante sete dias e precisam ser batizados para que “descansem”. A última prática mostra-se elucidativa da forma tembé de pensar a construção da “pessoa”, a partir do ato de batizar a criança morta. Para os Tembé Tenetehara não se deve negar às pessoas mortas, quando oriundas de famílias cristãs, o direito ao ritual de batismo que as forma e legitima. As situações acima descritas, integrantes das observações de campo, revelam que mesmo enfrentando situações de precariedade e violência, as mulheres exercem seu protagonismo, instituindo o “ser sujeito” e encontram alternativas para agenciar situações de violência. O corpo e as múltiplas corporeidades que coexistem entre as interlocutoras são territórios privilegiados da resistência de indígenas e quilombolas mulheres e das formas de cuidar de si mesmas. Thumbnail  Quadro 2 : Categorias êmicas e éticas sobre agência Entre oitivas e traduções Os diálogos em campo demonstram que os atos e falas das interlocutoras são ferramentas importantes para a compreensão de suas realidades. Ao mesmo tempo, analisar o discurso no contexto das relações antropológicas passa a ser um desafio, na medida em que aponta para a necessidade de proceder o controle das dificuldades de tradução etnográfica, dos etnocentrismos ocidentais e do viés da colonialidade vigente. Em trabalho de grande influência e repercussão, Gayatri Spivak (2010) questiona criticamente a (im)possibilidade de fala de determinados grupos. A autora constata que os subalternos em geral, e o sujeito historicamente emudecido, a mulher subalterna em particular, foram e são, ao longo da história, mal compreendidos ou mal representados pelo interesse pessoal dos que têm poder para representar. A proposição instigante de Spivak (2010), além de elucidar silenciamentos, colonialismos e violências, também aduz escutas anti-hegemônicas, epistemologicamente desobedientes, pós-coloniais. Inspirada pela reflexão provocativa da filósofa indiana, Lacerda (2014) considera que em meio a tentativas de silenciamento, os grupos e sujeitos subalternizados – e esse é um deslocamento analítico fundamental para que a subalternidade não seja entendida como lugar paralisante e intransponível – estão falando. Superando a perspectiva colonialista que pretende “dar voz” aos grupos subalternizados por meio da pesquisa, Lacerda (2014) tensiona a questão que orienta Spivak (2010): como o não subalternizado, o privilegiado, pode escutar? As posições teórico-epistemológicas (que também possuem caráter político) adotadas na presente discussão objetivam favorecer a escuta etnográfica mais responsável, capaz de superar estereótipos de passividade e compreender indígenas e quilombolas como sujeitos de suas próprias histórias. A estruturação do olhar antropológico sobre o campo, em diálogo com os conceitos e categorias referidas, foi essencial para compreensão das interlocutoras como protagonistas de suas próprias histórias, não como vítimas passivas, desagenciadas e paralisadas diante de violações. Qualquer procedimento em sentido contrário seria uma prática etnocêntrica. Atentar para as narrativas das mulheres indígenas e quilombolas, a partir do que foi explicitado, é um esforço que vai além de retomar o protagonismo de vozes subalternizadas. Trata-se de uma tentativa de constituição de possibilidades de outra epistemologia, outras referências e sensibilidades, diferentes das que o pensamento colonial afirma serem as únicas dignas de serem aprendidas e respeitadas. A partir das falas desses sujeitos, confrontamos a tentativa histórica de epistemícidio (Santos, 2010) e assimilação que incide sobre os povos indígenas e quilombolas, e, mais especificamente sobre mulheres indígenas e quilombolas/ indígenas e quilombolas mulheres. Trata-se de uma opção metodológica que abriga dimensões e responsabilidades políticas, de contemplar enunciações ditas e tomadas como periféricas e arbitrariamente alijadas pelo pensamento ocidental e colonial. Por diálogos e justiças A diversidade das agências e possibilidades de justiça nos permite esterçar para diferentes lados saindo dos limites de nossos axiomas, verdades que consideramos inquestionáveis e supostamente válidas universalmente. Axiomas estes que muitas vezes são utilizadas como princípios que mantém privilégios de uns em detrimentos de outros secularmente subalternizados. Não se trata de atribuir valor superior aos conhecimentos tradicionais ou mesmo de aderir a eles, mas de considerá-los em diálogo para produzir a melhor justiça, sem diluí-los na ciência desenvolvida na academia. A importância das reflexões que se faz é tentar indicar que as agências das mulheres e modos diversos de conhecimentos, é indicar também que se pode pensar de outro modo e que os variados sistemas de justiça precisam, de fato, dialogar. Sabemos que os estudos acerca da violência de gênero no país muitas vezes utilizam o termo violência sem muita precisão, como se violência doméstica, violência intrafamiliar, violência contra a mulher, entre outros, fossem capazes de abarcar reflexões sobre realidades diversas. Fazer o esforço de compreender noções êmicas do termo afasta o perigo da reificação e induz a “diálogos ouvintes”, que postulamos aqui, em contraposição aos “diálogos surdos.” Ainda sobre a questão dos termos utilizados para abordar a violência, contemporaneamente tem se preferido falar em mulheres em situação de violência ao invés de violência contra a mulher, para indicar que a violência é transitória e não um destino que as mulheres devem cumprir (Campos, 2011). Além disso, a mudança de termo e, por conseguinte, de enfoque, impele a pensar a questão fora do molde algoz versus vítima, possibilitando compreender que, mesmo sendo vítima, especialmente num sentido jurídico-estatal, não significa não ter poder e força de resistir. As narrativas e corporeidades de mulheres indígenas e quilombolas/ indígenas e quilombolas mulheres desafiam compreensões do senso comum sobre situações de violência e nos fazem compreender que vítimas são sujeitos. Dessa forma, como sujeitos que são, devem poder acionar sistemas tradicionais de justiça ou mesmo a “justiça dos brancos”, como dizem algumas. Porém, a colonialidade, especialmente a de gênero (Lugones, 2008 ) cria contextos em que os dois lados olvidam as demandas pelo fim de maldades e malinesas. Referências bibliográficas ALEIXO, Mariah Torres. 2015. Indígenas e quilombolas icamiabas em situação de violência: rompendo fronteiras em busca de direitos Dissertação de mestrado, Programa de Pós-Graduação em Direito, UFPA. (Inédita) BELTRÃO, Jane Felipe. 2012. Histórias ‘em suspenso’: os Tembé ‘de Santa Maria’, estratégias de enfrentamento do etnocídio ‘cordial’. Revista História Hoje, São Paulo, v. 1, no 2, p. 195-212. BOURDIEU, Pierre. 1983. Esboço de uma teoria da prática In: ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu: sociologia São Paulo: Ática, p.46-81. BRASIL. 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Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica Elie CheniauxSOBRE O AUTOR Resumos É realizada uma ampla revisão dos estudos psicanalíticos e das mais recentes pesquisas neurocientíficas sobre os sonhos. Segundo Freud, os sonhos constituem "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Para muitos neurocientistas, eles são formados a partir de estímulos aleatórios originados na ponte e não possuem qualquer significado. Contudo, diversos estudos associam as emoções experimentadas durante a vigília e o conteúdo dos sonhos. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos dá algum respaldo à teoria freudiana. Todavia, não há dados empíricos que apóiem a existência de uma instância censora que deturpe os sonhos. É possível que os sonhos exerçam um papel na elaboração psíquica de lembranças traumáticas. Na nossa opinião, as visões psicanalítica e neurocientífica sobre os sonhos podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Sonho; fases do sono; psicanálise; neurofisiologia; literatura de revisão A comprehensive review was carried out about psychoanalytic studies and the most recent neuroscientific researches about dreams. According to Freud, dreams represent "a (disguised) fulfillment of a (repressed) wish." For several neuroscientists, they are formed based on random stimuli originated from the brainstem and do not have any meaning. However, several studies associate the emotions experienced during waking with the content of dreams. The hypothesis that the dopaminergic mesolimbic-mesocortical system, which is associated with instinctual appetitive craving states, is essential to the formation of dreams brings some endorsement to Freudian theory. Nevertheless, there is no empirical data to support the existence of an instance of censorship that distorts the dreams. It is possible that the dreams play a role in psychological working-through of traumatic memories. In our opinion, psychoanalytic and neuroscientific views about dreams can be complementary and mutually enriching. Dream; sleep stages; psychoanalysis; neurophysiology; literature review ARTIGO DE REVISÃO Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica Elie Cheniaux Professor adjunto, Faculdade de Ciências Médicas - Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCM-UERJ), Rio de Janeiro, RJ. Médico, Instituto de Psiquiatria - Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Doutor em Psiquiatria, IPUB-UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Pós-doutor, Programa de Engenharia de Sistemas e Computação, Área Interdisciplinar de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia - Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Membro associado e docente, Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ), Rio de Janeiro, RJ Correspondência RESUMO É realizada uma ampla revisão dos estudos psicanalíticos e das mais recentes pesquisas neurocientíficas sobre os sonhos. Segundo Freud, os sonhos constituem "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Para muitos neurocientistas, eles são formados a partir de estímulos aleatórios originados na ponte e não possuem qualquer significado. Contudo, diversos estudos associam as emoções experimentadas durante a vigília e o conteúdo dos sonhos. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos dá algum respaldo à teoria freudiana. Todavia, não há dados empíricos que apóiem a existência de uma instância censora que deturpe os sonhos. É possível que os sonhos exerçam um papel na elaboração psíquica de lembranças traumáticas. Na nossa opinião, as visões psicanalítica e neurocientífica sobre os sonhos podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Descritores: Sonho, fases do sono, psicanálise, neurofisiologia, literatura de revisão. INTRODUÇÃO O neurocientista e psicanalista Mauro Mancia1, num artigo publicado no International Journal of Psychoanalysis, em 1999, ressalta as diferenças entre as abordagens neurocientífica e psicanalítica dos sonhos. Enquanto os neurocientistas se dedicam ao estudo das estruturas e funções cerebrais envolvidas na produção do sonho, os psicanalistas se interessam pelo significado deste, considerando os aspectos biológicos irrelevantes para a sua compreensão. Todavia, para outros autores, como o psiquiatra Morton Reiser2, o estudo dos sonhos representa uma grande oportunidade de exploração da relação entre corpo e mente. Segundo ele, os modelos da psicanálise e da neurociência para os sonhos, embora muito distintos entre si, não devem ser vistos como antagônicos ou inconciliáveis, mas sim como complementares. Reiser acredita que uma cooperação entre esses dois campos do conhecimento poderia ser mutuamente enriquecedora. Realizamos uma revisão bibliográfica a respeito dos sonhos, na qual comparamos as visões da psicanálise e da neurociência, com o objetivo de identificar possíveis pontos de contato e de divergência entre elas. Promovendo, assim, um diálogo entre a psicanálise e a neurociência, teremos subsídios para avaliar a viabilidade e a utilidade de uma aproximação ou mesmo de uma integração entre as duas no estudo da mente humana. Iniciamos nossa pesquisa bibliográfica pelos trabalhos sobre os sonhos de Sigmund Freud, criador da psicanálise, de James Allan Hobson, neurocientista que veementemente critica a teoria freudiana, e de Mark Solms, um dos principais pesquisadores na área da neuropsicanálise, disciplina científica recém-criada que se ocupa da integração entre os conceitos psicanalíticos e neurocientíficos. Com o auxílio das bases de dados MEDLINE, LILACS e PsycINFO, e utilizando como termo de busca "sonho" (ou dream), procuramos artigos científicos sobre o tema. Também consultamos diretamente alguns dos mais importantes periódicos nacionais e estrangeiros das áreas de psicanálise e de neurociência em bibliotecas e através da Internet, no portal Periódicos da CAPES. Optamos por incluir preferencialmente artigos originais ou de revisão recentes, ou então considerados clássicos na literatura científica. A teoria freudiana sobre os sonhos "A Interpretação dos Sonhos", de 1900, é considerada a primeira obra propriamente psicanalítica de Freud. Nesse trabalho, particularmente no capítulo VII, já se encontra uma teoria geral do aparelho psíquico, formulada a partir dos estudos de Freud sobre os sonhos, que são, segundo ele, a "via régia de acesso ao conhecimento do inconsciente na vida mental"3. Para Freud, o sonho constitui "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Possui um conteúdo manifesto, que é a experiência consciente durante o sono, e ainda um conteúdo latente, considerado inconsciente. Este é composto por 3 elementos: as impressões sensoriais noturnas (por exemplo, a sensação de sede durante o sono), os restos diurnos (registros dos acontecimentos da véspera) e as pulsões do id (relacionadas a fantasias de natureza sexual ou agressiva). Esses elementos do sonho latente tendem a fazer o indivíduo despertar. E, durante o sono, em função da completa cessação da atividade motora voluntária, a repressão está enfraquecida, o que aumenta a possibilidade de as pulsões terem acesso à consciência. Todavia o sonho atua como "o guardião do sono". Em função de uma solução de compromisso entre o id e o ego - que é a instância que exerce a repressão -, é permitida uma gratificação parcial das pulsões, diminuindo a força delas e, conseqüentemente, possibilitando que o indivíduo continue a dormir. Essa gratificação se dá através de uma fantasia visual (o conteúdo manifesto do sonho), que é o resultado de um processo regressivo: o fluxo da energia psíquica, ao invés de seguir em direção às vias motoras, retorna às vias sensoriais3,4. Ainda de acordo com Freud, o conteúdo manifesto dos sonhos é aparentemente incompreensível porque consiste numa versão distorcida do conteúdo latente. Essa distorção se dá, em primeiro lugar, porque no sono há uma profunda regressão do funcionamento do ego, que faz com que prevaleça o processo primário do pensamento. Este é caracterizado pelo predomínio das imagens visuais (em detrimento da linguagem verbal) e pelos mecanismos de condensação (fusão de duas ou mais representações) e de deslocamento (substituição de uma representação por outra). Além disso, entre o inconsciente e o consciente existiria uma instância censora, que deliberadamente disfarçaria o conteúdo do sonho, para que o sonhador não reconheça sua origem pulsional, proibida3,4. Algumas contestações à teoria freudiana A teoria freudiana sobre os sonhos tem sido bastante contestada, dentro e fora da psicanálise. Questiona-se se as imagens que percebemos durante o sono representariam mesmo um disfarce ou distorção. Luborsky & Crits-Christoph5 estudaram os sonhos de um grupo de pacientes utilizando o core conflictual relationship theme method (CCRT), um instrumento que avalia o padrão de relacionamentos interpessoais de um indivíduo, tendo como base o relato deste. Comparando-se os resultados da avaliação relativos apenas ao conteúdo manifesto do sonho com aqueles obtidos quando foram consideradas também as associações livres do sonhador (que indicariam o conteúdo latente do sonho), não foram encontradas diferenças. Vários estudos empíricos encontraram uma correlação significativa entre a atividade mental durante a vigília e o conteúdo manifesto dos sonhos. Na amostra de Greenberg et al.6, os problemas sonhados eram basicamente os mesmos pelos quais os indivíduos estavam passando em suas vidas diurnas. Smith7, por sua vez, observou que separação ou morte eram a temática predominante nos sonhos de pacientes cardiopatas hospitalizados. Outros ensaios clínicos demonstraram que estímulos apresentados anteriormente ao sono - como filmes, fotografias ou jogos de palavras - reaparecem claramente nos sonhos8. Por outro lado, alguns autores não acreditam que seja possível recuperar o conteúdo latente do sonho na sessão analítica. Para eles, a associação livre ocasiona a produção de um material novo, criado a partir da relação paciente-analista9,10. Blechner10 afirma que muito do que é bizarro ou confuso no sonho não resulta de repressão: são elementos originalmente extralingüísticos, que não podem ser expressos em palavras. Para Robbins11, os sonhos expressam puramente a linguagem do processo primário; portanto, a atuação de uma instância censora, que refletiria um pensamento racional (característico do processo secundário), não seria possível. Coloca-se em dúvida, ainda, a afirmativa de Freud de que desejos seriam os instigadores de todos os sonhos. Para diversos autores1,12,13, os sonhos refletiriam não só os desejos e as defesas contra estes, mas a atividade mental como um todo, e teriam inúmeras outras funções além de descarga (da energia psíquica), como a solução de problemas (intelectuais ou emocionais)6,14,15, criatividade8, autoconhecimento1,16, integração da mente14,17, adaptação17, aprendizagem8, neutralização do estresse8, entre outras. McCarley & Hobson18, por sua vez, argumentam que, embora possam estar presentes no sonho temas relacionados a desejos, isso não significa que estes representem um fator causal no processo de formação do sonho. Por fim, alguns autores1,9,10,12,17,19,20 destacam a relação paciente-terapeuta e a transferência como os componentes principais na formação dos sonhos durante o tratamento. Em contrapartida à importância que Freud dava aos sonhos para a investigação da mente, o interesse por estes entre os psicanalistas tem diminuído significativamente nas últimas décadas. Kantrowitz17, estudando o currículo de 28 institutos psicanalíticos americanos, constatou que o número total de horas dedicadas ao estudo dos sonhos em cursos clínicos e teóricos no biênio 1998-1999 foi muito menor do que em 1980-1981. Para muitos analistas, os aspectos intrapsíquicos trazidos pelos sonhos podem ser igualmente obtidos por meio do estudo de sintomas, traços de caráter, atos falhos ou associações livres10,17. Os aspectos neurofisiológicos do sono Na década de 1950, Nathaniel Kleitman e seus alunos William Dement e Eugene Aserinsky descreveram pela primeira vez o sono paradoxal, ou sono REM1,2. Este, que compreende no adulto cerca de 20% do tempo total de sono, é caracterizado pela ocorrência de movimentos oculares rápidos (rapid eye movements, daí a sigla), perda do tônus muscular, freqüências cardíaca e respiratória irregulares e oscilações na pressão arterial sistêmica. Esses autores detectaram ser muito comum, quando uma pessoa era despertada nessa fase do sono, que ela referisse ter estado sonhando. Em 1962, Jouvet demonstrou que o traçado eletroencefalográfico durante o sono REM é muito semelhante ao da vigília: dessincronizado (irregular) e com ondas rápidas (ritmo b). Em contrapartida, no sono profundo, não-REM (NREM), em que não há um aumento da atividade autonômica periférica, predominam um traçado sincronizado e os ritmos d e t - daí ele ser conhecido também como sono de ondas lentas (slow wave sleep)1,21. Hoje em dia se sabe que, embora os sonhos sejam muito mais comuns durante o sono REM, eles podem ocorrer também durante o sono profundo: estima-se que entre 25 e 50% dos períodos de sono NREM estejam associados a sonhos21. Além disso, 5 a 30% dos períodos de sono REM cursam sem qualquer sonho22. Todavia, dependendo da fase do sono, as características dos sonhos são bem diferentes. Comparados com os sonhos da fase NREM, os da fase REM são mais vívidos e mais bizarros, apresentam uma maior participação do sonhador e uma maior estruturação espacial, são mais facilmente lembrados e relatados com um número maior de palavras. Já os sonhos do sono NREM são mais conceituais do que plásticos, compostos por fragmentos da realidade não organizados e não narráveis, raramente são lembrados e apresentam uma participação mais passiva do sonhador1,21. Durante o sono REM, o fluxo sangüíneo cortical é maior do que no sono de ondas lentas e, às vezes, maior até do que na vigília23. Estudos de tomografia por emissão de pósitrons (PET scan) mostram que, durante o sono REM, estão ativados o córtex visual extra-estriatal (associativo) e as regiões límbica e paralímbica; estando, ao mesmo tempo, desativados o córtex visual estriado (primário) e o córtex pré-frontal. Vários aspectos característicos do sonho podem ser relacionados a estes achados: a riqueza de imagens visuais, à ativação do córtex visual associativo e desativação do primário; a intensa expressão emocional, à ativação das regiões límbica e paralímbica; e a bizarrice, incoerência, perda da crítica e esquecimento, à desativação do córtex pré-frontal1,24,25. Acredita-se que a consciência da vigília seja mediada pela noradrenalina e pela serotonina, e a consciência do sonho (do sono REM), pela acetilcolina24,25. A atividade aminérgica (noradrenalina e serotonina) está elevada durante a vigília, diminui durante o sono NREM e se encontra ausente no sono REM. Já a atividade colinérgica é máxima no sono REM e na vigília e mínima ou ausente durante o sono NREM. Recentemente, descobriu-se que as hipocretinas desempenham um importante papel no ciclo sono-vigília: apresentam atividade máxima durante a vigília e ausente durante o sono, tanto no REM como no NREM26,27. Consolidação da memória durante o sono Para grande parte dos neurocientistas, os sonhos não têm qualquer função: são apenas um efeito colateral de processos de consolidação da memória dependentes do sono, a manifestação consciente destes27. Diversos dados indicam que o sono é fundamental para a memória e a aprendizagem. Em primeiro lugar, durante o sono REM, predomina a atividade colinérgica, sendo que a acetilcolina está claramente envolvida nas funções cognitivas28. Em vários estudos experimentais, alguns feitos com ratos, outros com humanos, observou-se que a privação do sono REM ocasionava um prejuízo na aprendizagem de habilidades perceptivas ou perceptivo-motoras (memória implícita), treinadas pouco antes do adormecer27,29,30. Em outros estudos, em que os animais ou humanos foram submetidos a um treinamento desse tipo, mas não foram privados do sono, detectou-se um aumento da duração total do sono REM28,31. Tal aumento só ocorria quando a tarefa era de fato aprendida28. Diante disso, passou-se a acreditar numa relação entre o sono REM e a consolidação da memória implícita32. Por outro lado, um ensaio clínico evidenciou uma diminuição na capacidade de aquisição de memórias explícitas em indivíduos privados do sono NREM30. Em estudos eletroencefalográficos realizados com ratos, pássaros e humanos, constatou-se que padrões de disparos de determinados neurônios do hipocampo registrados na vigília, enquanto se treinavam tarefas cognitivas (memória explícita), reapareciam durante o sono. Esse fenômeno de reativação neuronal, ou reverberação, ocorre predominantemente no sono NREM, mas também é observado no sono REM e mesmo durante a vigília28,33,34. Experiências com ratos evidenciaram que aqueles expostos algumas horas antes de dormir a ambientes não-familiares apresentaram um aumento da expressão do gene zif-268 - particularmente envolvido em processos de neuroplasticidade - no hipocampo e no córtex cerebral durante o sono REM, o que não ocorreu com os animais-controle34. Contudo, há questionamentos quanto ao papel do sono na consolidação da memória. Para Vertes32, parece um contra-senso que o sono, sendo um estado eminentemente amnéstico, tenha esse papel. Além disso, sabe-se que a consolidação de algumas formas de memória se dá também durante a vigília28. Em cerca de metade dos estudos de privação do sono com animais, os resultados não evidenciaram um déficit de aprendizagem32, e em diversos experimentos com humanos submetidos a atividades pré-sono de treinamento, não se observou uma duração aumentada do sono REM31. Por outro lado, critica-se a metodologia de vários estudos com ratos, pois tanto o treinamento como a privação do sono costumam provocar estresse, o qual, por sua vez, pode causar um prolongamento do sono REM e também prejuízo na aquisição de novas memórias28,31,32. Também merece destaque a observação de que os antidepressivos inibidores da mono-amino-oxidase, largamente prescritos num passado recente, embora causem eliminação do sono REM, nunca foram relacionados a um déficit de memória31,32. Siegel31 argumenta que, se o reaparecimento da atividade neuronal da vigília durante o sono estivesse implicado na consolidação das memórias dos eventos diurnos, os sonhos seriam cópias fiéis destes. Mas não parece ser assim. Fosse et al.35 examinaram o conteúdo de um total de 299 relatos de sonhos de 29 voluntários. Embora 65% dos sonhos estivessem relacionados a experiências pessoais recentes, apenas 1,4% deles continha elementos que pudessem ser considerados uma repetição dessas experiências. Segundo Francis Crick - ganhador do prêmio Nobel por suas pesquisas sobre o DNA - e Graeme Mitchison36, sonhamos não com as memórias que estão sendo consolidadas, mas com aquelas que estão sendo apagadas. Para eles, o sono REM é necessário para a eliminação de informações erradas ou inúteis armazenadas no cérebro. O sonho seria um reflexo de um processo de aprendizagem reversa, no qual determinadas sinapses são enfraquecidas. Embora esta formulação não tenha recebido muito apoio nos meios acadêmicos, ela é freqüentemente citada e parece ser coerente com o fato de os sonhos retratarem eventos bizarros ou irreais, os quais precisariam ser eliminados da memória32. A teoria de ativação-síntese A teoria de ativação-síntese, de Hobson & McCarley, apresentada como uma contestação à teoria psicanalítica sobre os sonhos, tem sido amplamente aceita entre os neurocientistas nas últimas duas décadas22. No sono REM, em função de uma diminuição da atividade aminérgica, ocorre uma desinibição do sistema colinérgico, especialmente na ponte. Isso faz com sejam geradas periodicamente as ondas ponto-genículo-occipitais (PGO), detectadas no eletroencefalograma do sono REM, as quais, para os dois autores, são os estímulos básicos dos sonhos. Elas se originam na ponte, propagam-se para o corpo geniculado lateral do tálamo e chegam ao córtex visual (occipital), ativando-o. Dessa forma, com base nos traços de memória visual armazenados, são produzidas as imagens do sonho. Como essa ativação cortical se dá de forma aleatória, são formadas imagens caóticas, as quais, num segundo momento, sofrem um processo de síntese, construindo, assim, uma narrativa seqüencial. Portanto, de acordo com a teoria, os sonhos nascem, no tronco cerebral, sem qualquer significado; eles não estão disfarçando nada, pelo contrário, expressam de forma transparente a atividade cerebral24,37,38. O sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical e o resgate da teoria freudiana Mark Solms22,39 apresenta uma teoria que é, ao mesmo tempo, uma crítica à teoria de ativação-síntese e uma tentativa de confirmação da formulação freudiana sobre os sonhos. Segundo ele, o sono REM e o sonho são estados dissociáveis: um pode ocorrer sem o outro. Pode haver sonhos na fase NREM do sono, e 5 a 10% destes são indistinguíveis dos sonhos da fase REM. Além disso, focos epilépticos em regiões têmporo-límbicas, ou seja, fora do tronco cerebral, podem causar pesadelos estereotipados recorrentes, tipicamente durante o sono NREM. Dos 22 pacientes estudados por ele que apresentavam uma lesão na ponte e, conseqüentemente, perda total ou parcial do sono REM, 18 mantinham a capacidade de sonhar. Por outro lado, Solms aponta que, na literatura científica, já foram registrados mais de 100 casos de eliminação do sonhar provocada por lesões no cérebro anterior que preservaram a ponte e o sono REM. Na maioria desses casos, foi afetada a área da junção parieto-têmporo-occipital, estreitamente relacionada à formação das imagens do sonho. Contudo, em outros pacientes, a eliminação dos sonhos se deveu a uma lesão no quadrante ventromedial do lobo frontal. Essa região, por sinal, era a acometida nas cirurgias de leucotomia pré-frontal, muito utilizadas no passado no tratamento da esquizofrenia e que comumente levavam a um prejuízo no sonhar. Pelo quadrante ventromedial do lobo frontal, passam fibras do sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, o qual envolve a área tegmentar ventral do mesencéfalo, o núcleo acumbente, o hipotálamo, o córtex pré-frontal e o córtex cingulado anterior. De acordo com Solms22, esse sistema é o gerador do sonho. Estudos de PET scan mostram um aumento da atividade nesse circuito durante o sono REM23,40. Além disso, agonistas dopaminérgicos, como o L-Dopa, podem causar sonhos especialmente vívidos e pesadelos. Tais achados reforçam a antiga concepção de uma ligação entre sonho e "loucura" - em ambos há alucinações, perda do juízo crítico, etc. -, já que existe uma clara correlação entre hiperatividade dopaminérgica e ocorrência de sintomas psicóticos22,23. O sistema mesolímbico-mesocortical está relacionado aos estados motivacionais, os quais instigam comportamentos que visam à satisfação das necessidades biológicas, como o beber, o comer e o copular. Substâncias estimulantes e que causam dependência, como cocaína e anfetamina, atuam nesse circuito, causando um aumento na liberação de dopamina no núcleo acumbente, o que, por sua vez, leva a uma sensação de prazer22. Um outro elemento que indica uma relação entre esse sistema dopaminérgico e o sonhar é a alta freqüência com que dependentes químicos em abstinência sonham estar buscando ou usando drogas41. Na concepção de Solms22, o sono REM e o sonho são controlados por mecanismos biológicos diferentes: o primeiro, pela atividade colinérgica da ponte; e o segundo, pelos circuitos dopaminérgicos do cérebro anterior. Estes são a via final comum de várias formas de estimulação cerebral. As ondas PGO freqüentemente exercem esse papel de estimulação cerebral, mas não de forma exclusiva. Ainda segundo Solms, o envolvimento na geração dos sonhos do sistema mesolímbico-mesocortical, claramente relacionado ao que a psicanálise chama de pulsões, parece confirmar a afirmativa de Freud quanto a um desejo ser o instigador do sonho. O papel do sonho na elaboração psíquica de experiências traumáticas Em "A Interpretação dos Sonhos", Freud3 argumenta que mesmo os pesadelos não contradizem a formulação de que os sonhos são realizações de desejos. Segundo ele, nesse caso, apesar da censura onírica, o conteúdo latente consegue chegar à consciência pouco deformado e é reconhecido pelo ego. Este então reage produzindo a ansiedade, com o objetivo de despertar o indivíduo. Freud cita ainda uma variante, os sonhos de punição, nos quais o ego antecipa a culpa (pela realização do desejo reprimido), e o conteúdo manifesto está representando uma fantasia de punição. Seria, portanto, a realização de um desejo do superego, e não do id. Mais tarde, porém, em "Além do Princípio do Prazer", de 1920, o próprio Freud42 aponta uma importante exceção à sua formulação: os sonhos repetitivos que sucedem eventos traumáticos e os que evocam traumas da infância não são realizações de desejos. Tais sonhos, de acordo com ele, obedecem à compulsão à repetição, que seria algo mais primitivo do que o princípio do prazer (e independente deste), e têm como função a sujeição ou dominação das excitações relacionadas à recordação do trauma. Para Ernest Hartmann43, contudo, os pesadelos não são uma exceção; ao contrário, constituem o paradigma de todos os sonhos. Ele estudou os sonhos de pessoas que passaram por experiências traumáticas importantes e observou que, no início, muitas vezes havia uma mera repetição do trauma; mais tarde, contudo, os sentimentos de medo, vulnerabilidade, culpa ou pesar continuavam presentes nos sonhos, mas num contexto inteiramente diferente. Por exemplo, sonhar estar sendo atingido por uma onda gigante ou um furação era muito comum, independentemente de como tivesse sido o verdadeiro trauma. Os sonhos desses indivíduos continham não os estímulos sensoriais relativos ao evento traumático, mas sim a emoção vivenciada. Segundo o autor, os sonhos contextualizam a emoção dominante, expressando-a através de uma representação pictórica. Para Hartmann, esse mesmo padrão é encontrado nos sonhos de pessoas que não sofreram traumas importantes, mas que estão experimentando uma emoção intensa, como em situações de estresse em geral. Ele afirma ainda que, quando não há uma emoção dominante, e várias emoções de menor intensidade estão presentes, tal padrão, embora menos evidente, persiste. Revonsuo15, por sua vez, baseou-se na teoria da evolução para tentar explicar os sonhos. Ele partiu das seguintes premissas: para os primeiros humanos, a vida era curta e cheia de ameaças; os eventos traumáticos freqüentemente são expressos nos sonhos; e os sonhos são fundamentais no processo de aprendizagem. De acordo com sua hipótese, a função dos sonhos é simular experiências traumáticas ou ameaçadoras que foram anteriormente vivenciadas durante a vigília. Tal simulação, segundo ele, leva a uma melhora no desempenho do indivíduo em relação à detecção e enfrentamento de ameaças, o que, conseqüentemente, aumenta a sua sobrevida e chances de procriação. Diversos autores9,14,19,20,44 acreditam que os sonhos são de grande importância para a elaboração de traumas e conflitos psíquicos e têm um papel terapêutico, semelhante ao da psicoterapia. Para explicar esse processo de elaboração, o seguinte modelo da neurociência computacional tem sido utilizado. Acredita-se que, no sonho, as redes neurais se conectem com mais facilidade do que durante a vigília43. Todavia, essas conexões não são feitas de forma aleatória: as emoções seriam os organizadores das redes neurais. Em outras palavras, as representações tendem a se associar a outras que possuam a mesma conotação afetiva2,43. Isso está de acordo com a regra de aprendizagem de Hebb, que diz que "a força de uma conexão sináptica entre dois neurônios aumenta sempre que os neurônios são ativados ao mesmo tempo por uma fonte externa". Enquanto dormimos, as experiências recentes são primeiro emparelhadas com eventos mais remotos, com os quais possuam alguma similaridade, para em seguida serem integradas aos registros permanentes de memória45. Dessa forma, a lembrança de um trauma (da infância ou recente) se associa a outras recordações, o que a torna menos poderosa e perturbadora43. DISCUSSÃO Os sonhos podem ser definidos como estados da consciência que ocorrem durante o sono. Mas ainda sabemos muito pouco sobre eles. Na edição comemorativa da revista Science, relativa ao seu 125º aniversário, é apresentada uma lista de 125 questões ainda não respondidas pela ciência e que irão desafiar os pesquisadores no próximo quarto de século. Entre elas, foram incluídas as seguintes: "qual é a base biológica da consciência?"; "por que dormimos?"; e "por que sonhamos?"46. A hipótese de Freud de que os desejos são os instigadores dos sonhos encontra agora algum respaldo na proposição de Solms22 de uma relação entre sonhos e ativação do sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical. Esse autor, como vimos, baseou-se na observação de pacientes com lesões no cérebro anterior, em estudos de PET scan no sono REM, no efeito de agonistas dopaminérgicos sobre os sonhos e na existência de diversos aspectos em comum entre sonhos e psicose. Todavia, algumas dúvidas ainda pairam sobre essa questão. Por exemplo, faltam dados na literatura científica sobre como os antipsicóticos, que são antagonistas dopaminérgicos, afetam os sonhos, tanto em indivíduos normais como em psicóticos. Além disso, os sonhos e a mais importante das psicoses, a esquizofrenia, possuem diferenças marcantes do ponto de vista fenomenológico: enquanto os sonhos são constituídos basicamente por imagens visuais, na esquizofrenia predominam as alucinações auditivas, sendo bem mais raras as visuais. E não se pode esquecer que o próprio Freud42 reconheceu a existência de exceções à sua regra: os sonhos repetitivos pós-traumáticos. Já a concepção de que uma instância censora deturpa os sonhos tem encontrado pouco apoio. Robins11 defende que o conteúdo manifesto é o próprio sonho, visto que o córtex pré-frontal, que seria fundamental em qualquer mecanismo mental de disfarce dos sonhos, encontra-se inativado durante a fase REM do sono. Por outro lado, a visão de muitos neurocientistas, como Hobson & McCarley37, de que os sonhos não possuem significado é desafiada pela constatação de quanto as emoções experimentadas durante a vigília determinam o conteúdo dos sonhos, como descrito no trabalho de Hartmann43. Os aspectos emocionais das recordações são codificados como memórias implícitas47, as quais provavelmente são consolidadas durante o sono REM32. E segundo Stickgold et al.27, o sono REM pode incrementar o processamento de memórias emocionais. Tudo isso é bastante coerente com a hipótese de que as emoções exercem um papel fundamental na formação dos sonhos. O modelo da neurociência computacional sobre o papel dos sonhos na elaboração psíquica é bastante semelhante ao modelo psicanalítico. O desenvolvimento de múltiplas associações para a representação do trauma corresponderia à incorporação desta ao pensamento do processo secundário, o qual é racional e obedece à lógica e ao princípio da realidade. Incrementar a modalidade de pensamento do processo secundário em detrimento do pensamento do processo primário representa um fortalecimento da capacidade do ego de dominar o id, o que, por sua vez, consiste num dos principais objetivos do tratamento analítico48. Freud3, em 1900, afirma que tanto o pensamento irracional como o racional participam da elaboração do sonho. Robins11 discorda, afirmando que os sonhos expressam unicamente o pensamento do processo primário; o relato deles é que está relacionado ao processo secundário. Mas o neurocientista Claude Gottesmann23 atesta que os sonhos da fase NREM do sono se assemelham ao pensamento do processo secundário. Surge aqui uma questão: se os sonhos são terapêuticos por ocasionarem uma ampliação do campo de atuação do ego e incremento do pensamento do processo secundário, como eles se apresentam com características do pensamento do processo primário? Na seção D do capítulo VII de "A Interpretação dos Sonhos", Freud3 diz que a transformação de pensamentos em imagens visuais favorece a ligação com pensamentos que sofreram o mesmo processo de transformação. Talvez o sonho represente uma parte apenas do processo de elaboração psíquica que ocorre durante o sono. Embora o aumento do número de associações das representações mentais se dê durante grande parte - ou a totalidade - do sono, apenas durante os sonhos, principalmente na fase REM, chegam à nossa consciência informações sobre esse processo. Como durante o sono REM o córtex pré-frontal - fundamental para a atenção e o pensamento racional na vigília - está inativado, a nossa consciência só é capaz de funcionar de acordo com o processo primário e, assim, só capta de forma parcial o processo que está se desenrolando. Em outras palavras, embora durante o sono estejam sendo criadas novas associações entre as idéias, só conseguimos sonhar com condensações ou deslocamentos. Pelo que vimos, o diálogo entre a neurociência e a psicanálise sobre os sonhos pode ser bastante profícuo: proposições da psicanálise têm inspirado e guiado investigações neurocientíficas, e achados da neurociência têm sido úteis para um maior refinamento da teoria psicanalítica. Correspondência: Elie Cheniaux Rua Santa Clara, 50/1213, Copacabana CEP 22041-010 Rio de Janeiro, RJ Tel.: (21) 2547.0670 E-mail: echeniaux@globo.com Recebido em 10/08/2005. Aceito em 26/02/2006. 1. Mancia M. Psychoanalysis and the neurosciences: a topical debate on dreams. Int J Psychoanal. 1999;80(Pt 6):1205-13. 2. Reiser MF. The dream in contemporary psychiatry. Am J Psychiatry. 2001;158(3):351-9. 3. Freud S. A interpretação dos sonhos. 2Ş ed. Rio de Janeiro: Imago; 1987. 4. Freud S. Esboço de psicanálise. Rio de Janeiro: Imago; 1975. 5. Luborsky L, Crits-Christoph P. Understanding transference: the core conflictual relationship theme method. New York: Basic Books; 1990. 6. 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