SYLVIA ROMANO BELEZA E FEMINILIDADE

A beleza e a feminilidade: um olhar psicanalítico Beauty and femininity: a psychoanalytic view La belleza y la femineidad: una mirada psicoanalítica Heloisa Cardoso da Silva Siloé Rey Sobre os autores » Resumos » Text » Datas de Publicação » Histórico Resumos O presente artigo refere-se a um estudo sobre os temas ideal de beleza e feminilidade, buscando investigar qual a possível função psíquica que os ideais de beleza veiculados na cultura exercem na constituição do feminino. Sendo um estudo histórico-conceitual, realizou-se uma pesquisa bibliográfica acerca da estruturação da feminilidade para a psicanálise e da relação da mulher com os ideais de beleza desde a Idade Média até a contemporaneidade. A partir das reflexões despertadas, pode-se dizer que a função que o ideal de beleza exerce na estruturação da feminilidade está relacionada à experiência singular de constituição psíquica, determinando a relação que a mulher estabelece com esse ideal. Se for profícua, a beleza pode ser concebida como uma das saídas da feminilidade, como forma de elaboração da castração. Contudo, se for escravizante, a beleza parece ser uma tentativa de encobrir a falta, em uma recusa à castração. Supõe-se, nesse caso, a existência de um conflito inconsciente relacionado a uma falha na constituição do eu ideal, e, a partir de uma imagem idealizada, busca-se atrair o olhar do outro, representado pelo olhar materno. Traços da Personalidade; Castração; Feminilidade; Psicanálise This article refers to a study on the themes of ideal beauty and femininity in order to investigate what is the possible psychic function that the ideals of beauty in culture have served in the constitution of the feminine. As a historical and conceptual study, it was carried out a literature search on the structuring of femininity in psychoanalysis and the relation of women to the ideals of beauty since the Middle Ages until the present. From the reflections aroused, we can say that the function the ideal of beauty has on the structuring of femininity is related to the singular experience of the psychic constitution, determining the relationship that women set up with that ideal. If fruitful, beauty can be conceived as one of the ways femininity elaborates castration. However, if enslaving, beauty seems to be an attempt to cover the absence, a refusal to castration. It is assumed in this case the existence of an unconscious conflict related to a flaw in the constitution of the ideal ego and, from an idealized image, women seek to attract the gaze of another, which is represented by the maternal gaze. Personality traits; Castration; Femininity; Psychoanalysis El presente artículo hace referencia a un estudio acerca de los temas ideales de belleza y femineidad, buscando investigar cuál es la posible función psíquica que los ideales de belleza enumerados en la cultura ejercen en la constitución de lo femenino. Por ser un estudio histórico-conceptual, se ha llevado a cabo una investigación bibliográfica acerca de la estructuración de la femineidad para el psicoanálisis y de la relación de la mujer con los ideales de belleza desde la Edad Media hasta la contemporaneidad. A partir de las reflexiones despertadas, se puede decir que la función que lo ideal de belleza ejerce en la estructuración de la femineidad está relacionada a la experiencia singular de constitución psíquica, determinando la relación que la mujer establece con ese ideal. Si es proficua, la belleza puede ser concebida como una de las salidas de la femineidad, como forma de elaboración de la castración. Sin embargo, si torna a la persona esclava, la belleza parece ser un intento de encubrir la falta, rehusando la castración. Se supone, en ese caso, la existencia de un conflicto inconsciente relacionado a una falla en la constitución del yo ideal y, a partir de una imagen idealizada, se busca atraer la mirada del otro, representado por la mirada materna. Rasgos de personalidad; Castración; Femineidad; Psicoanálisis ARTIGOS A beleza e a feminilidade: um olhar psicanalítico Beauty and femininity: a psychoanalytic view La belleza y la femineidad: una mirada psicoanalítica Heloisa Cardoso da Silva* ; Siloé Rey** Universidade Luterana do Brasil Endereço para correspondência RESUMO O presente artigo refere-se a um estudo sobre os temas ideal de beleza e feminilidade, buscando investigar qual a possível função psíquica que os ideais de beleza veiculados na cultura exercem na constituição do feminino. Sendo um estudo histórico-conceitual, realizou-se uma pesquisa bibliográfica acerca da estruturação da feminilidade para a psicanálise e da relação da mulher com os ideais de beleza desde a Idade Média até a contemporaneidade. A partir das reflexões despertadas, pode-se dizer que a função que o ideal de beleza exerce na estruturação da feminilidade está relacionada à experiência singular de constituição psíquica, determinando a relação que a mulher estabelece com esse ideal. Se for profícua, a beleza pode ser concebida como uma das saídas da feminilidade, como forma de elaboração da castração. Contudo, se for escravizante, a beleza parece ser uma tentativa de encobrir a falta, em uma recusa à castração. Supõe-se, nesse caso, a existência de um conflito inconsciente relacionado a uma falha na constituição do eu ideal, e, a partir de uma imagem idealizada, busca-se atrair o olhar do outro, representado pelo olhar materno. Palavras-chave: Traços da Personalidade, Castração, Feminilidade, Psicanálise. ABSTRACT This article refers to a study on the themes of ideal beauty and femininity in order to investigate what is the possible psychic function that the ideals of beauty in culture have served in the constitution of the feminine. As a historical and conceptual study, it was carried out a literature search on the structuring of femininity in psychoanalysis and the relation of women to the ideals of beauty since the Middle Ages until the present. From the reflections aroused, we can say that the function the ideal of beauty has on the structuring of femininity is related to the singular experience of the psychic constitution, determining the relationship that women set up with that ideal. If fruitful, beauty can be conceived as one of the ways femininity elaborates castration. However, if enslaving, beauty seems to be an attempt to cover the absence, a refusal to castration. It is assumed in this case the existence of an unconscious conflict related to a flaw in the constitution of the ideal ego and, from an idealized image, women seek to attract the gaze of another, which is represented by the maternal gaze. Keywords: Personality traits, Castration, Femininity, Psychoanalysis. RESUMEN El presente artículo hace referencia a un estudio acerca de los temas ideales de belleza y femineidad, buscando investigar cuál es la posible función psíquica que los ideales de belleza enumerados en la cultura ejercen en la constitución de lo femenino. Por ser un estudio histórico-conceptual, se ha llevado a cabo una investigación bibliográfica acerca de la estructuración de la femineidad para el psicoanálisis y de la relación de la mujer con los ideales de belleza desde la Edad Media hasta la contemporaneidad. A partir de las reflexiones despertadas, se puede decir que la función que lo ideal de belleza ejerce en la estructuración de la femineidad está relacionada a la experiencia singular de constitución psíquica, determinando la relación que la mujer establece con ese ideal. Si es proficua, la belleza puede ser concebida como una de las salidas de la femineidad, como forma de elaboración de la castración. Sin embargo, si torna a la persona esclava, la belleza parece ser un intento de encubrir la falta, rehusando la castración. Se supone, en ese caso, la existencia de un conflicto inconsciente relacionado a una falla en la constitución del yo ideal y, a partir de una imagen idealizada, se busca atraer la mirada del otro, representado por la mirada materna. Palavras clave: Rasgos de personalidad, Castración, Femineidad, Psicoanálisis. O presente artigo refere-se a uma pesquisa sobre a relação entre os ideais de beleza culturais e a constituição da feminilidade. Seu objetivo principal é debater essa temática a partir de um viés psicanalítico, tendo como problema central o seguinte ponto: qual a possível função psíquica exercida pelos ideais de beleza propagados na cultura ocidental contemporânea sobre a constituição do feminino? A fim de discutir essa questão, buscouse compreender como se estrutura a feminilidade investigando-se a associação histórico-cultural entre a beleza e o feminino, o que levou à reflexão sobre os fenômenos sociais associados ao culto ao corpo ideal na contemporaneidade. Para o desenvolvimento do trabalho, foi realizada uma pesquisa bibliográfica conforme as etapas propostas por Gil (2010), seguindo um caráter exploratório e uma abordagem qualitativa. Pertencendo ao campo psicanalítico, este estudo também se caracteriza por ser uma pesquisa históricoconceitual, aplicada em trabalhos que enfatizam a teoria psicanalítica, e que tem o objetivo de estudar a construção dos seus conceitos. Nesse processo, utiliza-se o material bibliográfico já elaborado e reescreve-se, conforme a temática, o perfil do fenômeno pesquisado, a fim de aprimorar os conceitos já estabelecidos e favorecer a sua compreensão teórica (Mezan, 1994). Ao se observar o cenário social da atualidade, é fácil perceber que há um grande movimento, especialmente por parte das mulheres, em busca de um ideal de perfeição estética, fundamentado em um culto ao corpo belo e perfeito. A partir desse fenômeno, surgem diversas consequências, dentre as quais se pode citar o consumo de produtos cosméticos. Embora a economia brasileira ocupe o 11° lugar no ranking mundial, o País é o sexto maior mercado nos negócios desses produtos. Além disso, apesar de o PIB nacional ter crescido 7,5%, os serviços relacionados à indústria da beleza cresceram 47% (Godoi, 2006). Outro ponto importante diz respeito à realização de cirurgias plásticas, pois, segundo Godoi, o Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos nessa questão. De acordo com uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – SBCP (2009), entre setembro de 2007 e agosto de 2008, foram realizadas aproximadamente 629 mil cirurgias plásticas no País por profissionais habilitados. Dentre elas, 73% eram estéticas, sendo que 88% das pessoas que a elas se submeteram são do sexo feminino. Conforme a pesquisa mencionada, as intervenções estéticas mais realizadas são de aumento de mama (21%), lipoaspiração (20%) e abdômen (15%), seguidas da redução de mama (12%), pálpebras (9%), nariz e plástica de face (7% cada). Quanto aos procedimentos não cirúrgicos, os mais realizados são os preenchimentos e a aplicação de toxina botulínica (91%). Essa questão é bastante instigante quando se observam as diferentes formas que a estética do corpo vem assumindo para as mulheres na atualidade, exigindo delas uma certa aparência. Pode-se perceber isso quando tais configurações ligam às formas de seus corpos várias expressões populares, tais como: (...) ser sensualmente feminina, ser desejada, ser olhada, cuidar de si, gostar-se mais, ter um corpo ideal, ter o corpo que sempre sonhou, dentre muitas outras denominações que, implicitamente, pedem e prometem a inserção num espaço de idealização da imagem do corpo feminino a ser imediatamente alcançada (Souza, 2007, p. 14, itálicos do autor) Ao mesmo tempo em que as diversas formas de intervenções estéticas se mostram como um meio de acesso ao ideal de beleza, por outro lado, revelam-se como uma via de entrada a várias configurações de inquietações psíquicas, nas quais o corpo parece expressar, simultaneamente, a chave e o enigma dessas questões. Isto é, “paralelo ao investimento em uma imagem de corpo feminino ideal, valendo-se dos recursos que a ciência dispõe para moldá-lo, ele – o corpo – parece ter se tornado o palco de muitos conflitos e questionamentos” (Souza, 2007, pp. 14-15). Em nossos dias, a identidade do corpo das mulheres equivale à harmonia entre a tríade beleza-saúde-juventude. Influenciadas especialmente pela cultura midiática, cada vez mais elas estão se colocando a serviço de seus corpos, sendo incitadas a identificar a sua beleza com juventude e juventude com saúde (Del Priori, 2009). No século XX, os meios midiáticos contribuíram para legitimar essa tríade, reforçando a concepção de que as formas redondas, antigamente associadas à saúde, agora não são bem vistas, constituindo um novo critério de feiura. Dessa forma, devido à hegemonia das imagens, “instaurou-se a tirania da perfeição física. Hoje, todas querem ser magras, leves, turbinadas ( ). Todas as mulheres parecem participar da sinfonia do corpo magnífico, quase atualizando as intolerantes teses estéticas nazistas” (Del Priori, 2009, p. 79). Nesse sentido, é importante interrogar: Por que essa necessidade de perfeição? A ilusão nos provoca mais frustrações que prazer? Não será esse tipo de imagem que leva milhares de mulheres a se submeterem à tortura de uma operação plástica, a continuarem frustradas, umas mais, outras menos, com seus corpos reais, mesmo depois da transformação? (Del Priori, 2009, p. 88) Dessa forma, diante de tais indagações, fazse necessária uma reflexão crítica frente a essas questões que surgem e se propagam na cultura e, por conseguinte, influenciam diretamente na subjetivação não só das mulheres mas também de todos os seres humanos. A feminilidade O campo da feminilidade, no decorrer dos estudos psicanalíticos a partir de Freud, foi e vem sendo investigado, especialmente por seu caráter inacabado, obscuro e enigmático. No seu texto Feminilidade, Freud (1932/2006f) salientou que a psicanálise não busca fazer a descrição do que é uma mulher, pois esse seria um trabalho difícil de ser feito, embora procure investigar como é sua formação, desenvolvimento e constituição psíquica. De acordo com Valdivia (1997), “a questão da especificidade do feminino constitui o ponto de partida da psicanálise e também o ponto de retorno constante à teoria freudiana” (p. 20), ou seja, ao longo da elaboração da sua teoria e obras, a concepção de Freud a respeito da mulher e de sua sexualidade é paulatinamente reconstruída. Ao mesmo tempo, apesar de tais modificações, suas descobertas acerca da feminilidade foram importantíssimas e definitivas, no sentido de que os demais autores se basearam e se baseiam nelas (Silva & Folberg, 2008). Nos Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, Freud (1905/2006a) apresenta sua primeira teoria sexual com a hipótese de que tanto o menino como a menina reconhecem apenas o órgão sexual masculino, isto é, o pênis no menino e o clitóris na menina como seu correspondente; emerge, portanto, o complexo de castração em ambos os sexos e a inveja do pênis na menina. Mais tarde, em A Organização Genital Infantil, Freud (1923/2006b), após suas observações e experiências, complementa essa ideia concluindo que existem diferenças na organização da sexualidade infantil e adulta, sendo esta genital, e aquela, fálica. Assim, até a puberdade, período em que a fase genital se desenvolve, a vagina não é descoberta. Em A Dissolução do Complexo de Édipo, o autor diferencia o curso no desenvolvimento da sexualidade tomado por meninos e meninas. Enquanto o complexo de castração para o menino implicará o declínio do complexo de Édipo, na menina, ele será o promotor desse complexo, fazendo-a voltarse para o pai a fim de tentar substituir a falta do pênis. O desejo de ter um filho seu, como substituto do pênis, produzirá sua entrada no complexo de Édipo, sendo que, no decorrer do tempo, a menina se afastará do pai por não poder realizar tal desejo (Freud, 1924/2006c). Em Algumas Consequências Psíquicas da Distinção Anatômica entre os Sexos, Freud (1925/2006d) postula que o reconhecimento da diferença sexual leva a menina à renúncia da masculinidade, dirigindo-se para a feminilidade. A decepção pela ausência do pênis a leva a afastar-se da mãe, substituindo o desejo de possuir o órgão masculino pelo de ter um filho do pai, voltando-se, portanto, para ele. Assim, a mãe torna-se uma rival, ao passo que a menina se torna mulher. Reelaborando sua construção, Freud apresenta, em 1931, um novo pressuposto na tentativa de dar conta da constituição da feminilidade. A partir desse ponto, o autor passa a enfatizar a relação mãe-filha como ponto fundamental para a estruturação feminina. Considerando a relevância dessa ligação da menina com a figura materna, é importante abordar um texto elaborado por Freud (1914/2004) intitulado À Guisa de Introdução ao Narcisismo. Nesse artigo, o narcisismo, estruturado nesse momento inicial de vida, na relação com a figura materna, passa a ser concebido como condição fundamental à constituição subjetiva do sujeito, “chegando mesmo a se confundir com o próprio eu” (Garcia-Roza, 2008, p. 42). Ademais, há a introdução dos conceitos de eu ideal e de ideal de eu, considerados instâncias psíquicas fundamentais à constituição do sujeito. De acordo com Freud: O amor por si mesmo que já foi desfrutado pelo Eu verdadeiro na infância dirige-se (...) a esse Eu ideal. O narcisismo surge deslocado nesse novo Eu que é ideal e que, como o Eu infantil, se encontra agora de posse de toda a valiosa perfeição e completude (1914/2004, p. 112) Conforme Garcia-Roza, o eu não está instaurado desde o início, e será constituído “pelas enunciações, pelos juízos de valor, pelas declarações de preferência ou de rejeição” (p. 57). E uma das formas que ele pode tomar é a de eu ideal, que é “(...) uma imagem do eu dotada de todas as perfeições, sobre o qual recai (...) o amor de si mesmo de que na infância gozou o eu real” (2008, p. 57). O eu ideal constitui-se a partir das figuras parentais, que projetam no bebê uma imagem idealizada, fazendo ressurgir o seu próprio narcisismo – renunciado por exigência da realidade. Dito de outra forma, o eu ideal é efeito do discurso parental, que, por ser apaixonado, abdica de qualquer forma de consciência crítica para produzir uma imagem idealizada (Garcia-Roza, 2008). Situado no lugar do simbólico, esse eu ideal se desdobra em outra instância, o ideal de eu. Este é algo externo ao sujeito, e refere-se a exigências às quais ele se esforçará para satisfazer, em uma promessa de restituir a perfeição narcísica perdida (Garcia-Roza, 2008). Como sempre, no campo da libido, o ser humano mostra-se aqui incapaz de renunciar à satisfação já uma vez desfrutada. Ele não quer privar-se da perfeição e completude narcísicas de sua infância. Entretanto, não poderá manter-se sempre nesse estado, pois as admoestações próprias da educação, bem como o despertar de sua capacidade interna de ajuizar, irão perturbar tal intenção. Ele procurará recuperá-lo então na nova forma de um ideal de Eu. Assim, o que o ser humano projeta diante de si como seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância, durante a qual ele mesmo era seu próprio ideal (Freud, 1914/2004, p. 112) Dessa forma, essas instâncias psíquicas – eu ideal e ideal de eu – são constituídas na relação inicial com as figuras materna e paterna, demandando um investimento destas para que possam ser instauradas. Nesse sentido, é importante retomar o texto freudiano Sexualidade Feminina, aludido anteriormente, no qual a relação mãe-filha ganha um lugar de destaque na feminilidade. Essa ligação precede a ligação da menina com o pai; desse modo, a fase pré-edipiana feminina é demasiadamente importante. Por tal motivo, Freud (1931/2006e) passa a repensar a questão do complexo de Édipo feminino. Há um processo bastante demorado até que a mulher chegue ao resultado final desse complexo. O reconhecimento da sua castração implica o reconhecimento da superioridade masculina e, por conseguinte, o da inferioridade feminina, o que a faz rebelarse contra esse estado de coisas indesejável. Dessa maneira, há três saídas clássicas para essa situação: a frigidez, por abandonar a atividade fálica e sua sexualidade em geral devido à insatisfação com seu clitóris, uma amarração ao complexo de masculinidade, mantendo a esperança de possuir um pênis com a fantasia de poder tornar-se homem no futuro, o que pode resultar em um comportamento homossexual, e a atitude feminina normal final, que seria tomar o pai como objeto para que, posteriormente, ele a conduza a uma escolha heterossexual (Freud, 1931/2006e). Assim, percebe-se que a passagem pelo complexo de Édipo é que organizará a posição sexuada do sujeito, que, através das relações identificatórias, atravessará essa experiência que irá resultar em uma identificação feminina ou masculina. Na conferência A Feminilidade, Freud (1932/2006f) orienta sua investigação no sentido de procurar desvendar o que põe fim ao vínculo da menina com a mãe, visto que a direção habitual é dar lugar a um vínculo com o pai. Esse passo não implica somente uma simples troca de objeto, e o afastamento da mãe é acompanhado por uma hostilidade que pode persistir e influenciar diretamente a relação mãe-filha por toda a vida. É importante apontar aí que, contraditoriamente, nesse momento em que a menina mais hostiliza a mãe é que, ao mesmo tempo, ela deve abandoná-la como objeto de amor e tomá-la como objeto identificatório. Em outras palavras, é preciso conservá-la “(...) como modelo de identificação para ocupar uma posição feminina em relação ao pai, quando ela deveria ser abandonada como objeto de amor” (Lima, 2006, p. 41). Por outro lado, nessa relação mãe-filha, há a posição do agente materno. De acordo com Freud (1925/2006d), a resolução para a feminilidade estaria na concepção de um filho como forma de obter o objeto fálico que lhe falta. Isso pode levá-la à fantasia de que uma filha, por não tê-lo, não lhe proporcionaria ilusoriamente a plenitude fálica tão almejada e, portanto, não pode receber o investimento narcísico que um filho receberia. Assim, de acordo com Freud (1932/2006f), o desenvolvimento da feminilidade sofre a influência dos “fenômenos residuais do período masculino inicial, (...) (os quais contribuem para a) expressão da bissexualidade” (p. 130) no transcorrer da vida de algumas mulheres. Assim, o caráter enigmático da feminilidade pode derivar disso. Relendo o texto freudiano Análise Terminável e Interminável, de 1937, Nunes afirma que o autor repensa a problemática da castração e acha “repúdio da feminilidade a descrição correta dessa notável característica dos humanos” (2002, p. 55). Assim, constata que a feminilidade é uma característica comum a ambos os sexos e não apenas ao sexo feminino, enfatizando seu estatuto originário e universal e situando-a no âmago da cultura e, em consequência, do processo de estruturação subjetiva do ser humano, já que é uma experiência determinante para a sua constituição como sujeito sexuado. Apontando uma concepção que prioriza a via do exercício pulsional e não apenas a das identificações edípicas, Poli afirma que a feminilidade corresponderia à posição de passividade pulsional, ao lado da atividade de cunho masculino. Dessa forma, tanto o homem como a mulher disporiam de ambas as tendências. A libido, sendo masculina, tem necessariamente o caráter de atividade na busca pela satisfação pulsional que a mobiliza. Até quando se goza da posição passiva – fazendo-se de objeto para um Outro – se está diante de uma passividade produzida de forma ativa, portanto, “a feminilidade seria uma produção secundária da libido, resultado da reflexibilidade no percurso pulsional” (2007, p. 32). A feminilidade indica a possibilidade de superação do pré-edípico pelo abandono da atividade pulsional e pela reconciliação com a posição passiva. Mas isso só é possível se a menina suporta desprender-se da mãe e, com ela, do erotismo clitoridiano. Não se trata exclusivamente de recalcar a atividade, mas de superá-la e substituí-la (Poli, 2007). Após a frustração da menina nas relações com a mãe e o pai no complexo edípico, ocorre o processo de recalcamento para que ela não perca o amor dos pais. “A feminilidade surge, então, quando a menina reporta o pedido que faz ao pai a um outro homem, de quem esperava receber o pênis-bebê, isto é, quando ela retorna, de forma ativa, à posição passiva que a levou ao pai” (Poli, 2007, p. 35). Enfim, o percurso teórico da concepção freudiana acerca da sexualidade feminina, apesar de sua incontestável relevância, não consegue abarcar toda essa questão e, em seu último texto sobre o tema, o autor considera a feminilidade um mistério, o que revela a incompletude de tal conceito. Apesar de basear-se na teoria freudiana, Lacan construiu uma teoria própria a partir da releitura das obras de Freud. Dessa maneira, para se compreender sua concepção da feminilidade, faz-se necessário retomar seu entendimento do que seja o complexo de Édipo. De acordo com Lacan (1958/1998c), ele se estrutura em três tempos, nos quais está em jogo a relação do sujeito com o falo. O primeiro tempo é chamado de etapa fálica primitiva, e nele (...) o falo está presente na ordem da cultura, como pano de fundo. O desejo da mãe é orientado por ele, e a criança é submetida ao capricho materno; seu desejo é o desejo da mãe. Nesse tempo, a mãe é fálica, e a criança é o seu falo. A criança aí já está presente no desejo do Outro (mãe) (Valdivia, 1997, p. 25) No segundo tempo do Édipo, de acordo com Lacan (1958/1998c), o pai intervém como privador da mãe em duplo sentido, enquanto priva a criança do seu objeto de desejo e enquanto priva a mãe de seu objeto fálico. E ele, o pai, vai aparecer mediado no discurso materno. Nesse momento, existe a dialética do ser ou não ser o falo da mãe, e a criança só chegará a essa interrogação pessoal na medida em que o pai privador a faz pressentir que a mãe reconhece sua lei como aquilo que mediatiza o seu desejo, que não mais a criança, mas sim, o objeto que se supõe que o pai tenha (Dor, 2003). No terceiro tempo do Édipo, conforme Lacan, diferentemente do pai onipotente e privador do segundo tempo, este se revela como aquele que “pode dar à mãe o que ela deseja e pode dar o que possui. Aqui intervém, portanto, a existência da potência no sentido genital da palavra – digamos que o pai é um pai potente” (1958/1998, p. 200). Esse tempo, segundo Dor, “é marcado pela simbolização da lei, que atesta da melhor forma que a criança recebeu sua plena significação” (2003, p. 88). Assim, ele significa o declínio e a saída do Édipo, sendo que isso é favorável na medida em que é feita a identificação com o pai como aquele que tem o falo, identificação essa denominada ideal de eu (Lacan, 1958/1998c). Nessa saída edípica, conforme Valdivia, a menina irá reconhecer o homem como aquele que detém o falo: “ela sabe onde está, onde deve ir buscá-lo” (1997, p. 26), isto é, ao lado do pai, aquele que o possui. No seminário As Psicoses, Lacan (1956/1998b) afirma que a identificação da menina com a mãe se realiza através do desvio rastreado pelo objeto de desejo do pai, o que leva algumas mulheres a se identificarem imaginariamente com o pai, resultando esse processo em constituir a posição estrutural histérica. Nesta, assume-se a posição masculina, o que indica uma dificuldade de ordem sexual. Assim, o corpo de outra mulher torna-se suporte de sua identificação imaginária na procura de suprir a falta de um reconhecimento simbólico paterno. Dito de outra forma há uma constante busca “(...) em seu semelhante do traço feminino que lhe falta” (Valdivia, 1997, p. 26). Assim, a feminilidade, é sempre mascarada e (...) a possibilidade de uma mulher ocupar a posição feminina estaria na supressão do endereçamento de seu sintoma ao pai (...). Uma mulher que se colocasse na posição feminina guardaria uma relação da ordem do não-todo com a castração e com a feminilidade. Seria feminina sem ser toda mulher. E aceitaria sem repúdio o fato de ser o objeto do desejo masculino (Valdivia, 1997, p. 27) De acordo com Jerusalinsky (2000), a menina que acaba de se separar do corpo da mãe e de se instalar no lugar do Um buscará no olhar do Outro algo que a reconheça. Se esse Outro for a figura materna, ela tende a se reunificar no corpo materno. Se o olhar for o da figura paterna, esta poderá conceder-lhe uma versão imaginária do objeto que lhe falta. Por tal motivo, a mulher depende do desejo do outro, não do Outro, mas do outro qualquer, e a feminilidade consiste em ter que suportar que o objeto que falta à mulher tem de vir desse outro qualquer, sendo ela obrigada, assim, a suportar a versão imaginária do objeto que o desejo do outro pendura em suas costas. Enfim, a mulher depende do olhar dos outros muito mais que o homem, no sentido de que ela tem que suportar, com seu corpo e em seu corpo, que o objeto que lhe falta venha do outro qualquer. Enfim, pode-se afirmar que os ideais femininos, como a maternidade – que anteriormente constituía o objetivo exclusivo da existência da mulher –, foram se modificando com as transformações históricas e socioculturais. Assim, nessa nova ordem social, passou a se atribuir valor à imagem, o que está relacionado a uma das possíveis formas de estruturação da feminilidade, que é a captura do olhar do outro. Portanto, promoveu-se uma mudança da relação da mulher não só com a sociedade mas também consigo própria, com seu corpo, e ela expressa por meio dele suas conquistas de maior liberdade e autonomia. A mulher e o ideal de beleza Na cultura ocidental contemporânea, há uma forte associação entre a figura da mulher e a beleza, a saúde e a juventude. Contudo, essa ligação vem se desenvolvendo ao longo da História. Sendo o corpo palco de expressão da beleza feminina, primeiramente, é importante salientar que a concepção de corpo que permeia este trabalho é a de corpo psicanalítico, o qual encontra seu lugar não em uma anatomia apenas biológica, mas sim, em uma anatomia própria e singular, construída através “do cenário fantasmático de cada um. (Certamente) (...) encontramos nas manifestações objetivas do corpo biológico as ressonâncias desse outro corpo, portador de múltiplos sentidos e significações em função desse cenário fantasmático” (Fernandes, 2008, p. 85). Assim, é um corpo que transcende o somático e que está articulado com a história do sujeito. De acordo com Novaes (2006), “historicamente, a imagem da mulher se justapõe à de beleza e, como segundo corolário, à de saúde (fertilidade) e juventude” (p. 23). Contudo, na contemporaneidade, tais representações parecem estar se manifestando intensamente. Traçando uma breve história sobre a mulher e a beleza, Vilhena, Medeiros e Novaes dizem que, durante a Idade Média, a beleza feminina era vista como “armadilha do pecado, uma tentação do diabo (...), um encobrimento enganoso de uma essência impura, leviana e vil” (2005, p. 120). No século XVI, enfatizava-se a parte superior do corpo, como a delicadeza da pele, a intensidade dos olhos, a simetria dos traços. Já nos séculos subsequentes, iniciou-se a valorização das partes inferiores, como pernas, quadris e cintura (Moreno, 2008). Com acontecimentos e movimentos políticos importantes, que resultaram em maior participação social da mulher, o século XIX trouxe mudanças no que se refere à figura feminina: o seu corpo ganha mais liberdade e espaço no âmbito público. Com isso, “a beleza passa a sinalizar uma mulher mais autônoma, que trabalha e usufrui de uma liberdade conquistada e maior” (Moreno, 2008, p. 17). Nesse século, a visão de beleza feminina estava relacionada à elegância, à posse de um corpo-ampulheta moldado por “espartilhos e anquinhas capazes de comprimir ventres e costas, projetando seios e nádegas. A couraça vestimentar deveria servir para protegê-las, simbolicamente, do desejo masculino” (Del Priori, 2009, p. 59), No século XX, conforme Del Priori, com o desnudamento – na mídia e nas praias –estimulou-se o desvelamento do corpo feminino em público, ou seja, ele adquiriu mais liberdade, banalizando-se sexualmente. Com isso, a saída foi cobri-lo com cremes, vitaminas, silicones e colágenos. Assim, essa libertação feminina parece ter tomado um sentido diferente, tornando-se “sinônimo de lutar, centímetro por centímetro, contra a decrepitude fatal. Decrepitude, agora, culpada, pois o prestígio exagerado da juventude tornou a velhice vergonhosa” (2009, p. 11). Ao mesmo tempo, nesse século, o olhar se torna mais agudo com a descoberta da celulite, em 1924, com a possibilidade de se eliminar rugas via cirurgia e de se mudar o corpo feminino, “que passa da sinuosidade de um S para a magreza e a postura de um I” (Moreno, 2008, p. 17). Especialmente a partir da década de 60, preocupar-se com a beleza física deixou de ser um tabu, o que impulsionou o uso de cosméticos e a adesão às cirurgias plásticas, as quais deixaram de ser consideradas pecado ou desrespeito à obra divina (Sant’Anna, 2001). Para Novaes, no início do século XX, “o corpo vai reunir o conjunto de discursos que hoje vemos vigorando, (sendo que, para a ciência, ele é) umas das peças centrais de aferição do dispositivo de civilização” (2006, p. 25) e as cirurgias estéticas, uma das medidas de avanço civilizatório. Tal concepção, portanto, corrobora as transformações ocorridas na área da beleza feminina. É nesse contexto que Del Priori diz: “Sobre a cera dos corpos femininos, o século XXI vai imprimindo suas primeiras marcas. Produto social, produto cultural e histórico, nossa sociedade os fragmentou e recompôs, regulando seus usos, normas e funções” (2009, p. 9). Vemos, portanto, que, na contemporaneidade, a concepção de beleza está relacionada à boa forma do corpo, a qual “(...) ocupa um lugar de destaque nos atuais modos de subjetivação, tornando-se assim um valor indispensável ao sujeito, que agrega à materialidade de seu corpo aquilo que possa conferir uma especial estima à sua dimensão física” (Souza, 2007, p. 27). A busca pela beleza e juventude consiste em uma corrida infinita que atinge mulheres de todas as classes sociais. Ser bela significa, então, aproximar-se de um ideal determinado de maneira universal (Sant’Anna. 2001). Através dessas imagens idealizadas, as mulheres buscam ser amadas, enquanto, para os homens, tais imagens são objetos de desejo sexual (Ramalho, 2001). E, apesar de muitas transformações terem ocorrido, inclusive na própria concepção de beleza, por mais que a cultura tenha proporcionado possibilidades identificatórias às mulheres, certos aspectos permanecem, como o ideal amoroso. E, juntos a esse, os ideais de beleza e de juventude vêm sendo difundidos na modernidade, “chegando muitas vezes a ser um imperativo, principalmente para as mulheres” (Ramalho, 2001, p. 42). “Hoje, o que conta é a aparência. As imagens dos corpos que desfilam assumem a forma padronizada vigente e o lugar de objetos de desejo (...). São muitas as ofertas para a mulher parecer diferente, mais bonita, mais desejável e ilusoriamente perfeita” (Pimentel, 2008, p. 43) Enfim, como salienta Ramalho (2001), vive-se na era das imagens, na qual a perfeição estética do corpo é supervalorizada, concepção essa reforçada pelas imagens – modelos inatingíveis – veiculadas pelos meios de comunicação de massa e pela consequente lógica do consumo que se fortalece na cultura ocidental contemporânea. Discussão Considerando que a feminilidade advém da significação da castração (Souza, 2007), pode-se pensar que a beleza e os seus ideais, tão difundidos na cultura contemporânea, podem ter mais de uma função no psiquismo feminino. Todas as mulheres, por estarem inseridas na cultura, têm como referência esses valores estéticos, isto é, esses padrões que apontam o que é uma mulher bela. Contudo, o que vai determinar qual função o ideal de beleza irá exercer sobre seu psiquismo está relacionado à sua experiência particular de constituição psíquica, isto é, à relação com as figuras parentais, à construção do seu eu ideal e posterior ideal de eu, à passagem pela castração e a sua elaboração. Essa vivência singular parece ser determinante na forma de cada mulher se posicionar diante de sua própria imagem e no quanto e como se investe nessa imagem para que ela possa pronunciar-se como mulher. Ao mesmo tempo, é importante ressaltar que a forma como elas se relacionam com o próprio corpo está atravessado também pela dimensão cultural, visto que “os corpos são produzidos pelas sociedades em uma dialética sujeito/cultura. (...) A experiência do corpo é sempre modificada pela experiência da cultura” (Novaes, 2006, p. 32). Assim, por exemplo, a feiura – correspondente a tudo aquilo que foge dos ideais de beleza – tem um impacto sobre a imagem feminina em função de o discurso social dizer que uma mulher feia é menos feminina. Sendo a imagem das mulheres confundida com a de beleza, “um dos pontos mais enfatizados no discurso sobre a mulher (é): ela pode ser bonita, deve ser bonita, do contrário, não será totalmente mulher (Novaes, 2006, p. 85). Dessa maneira, por um lado, pode-se pensar que as mulheres, ao servirem-se dos atributos e adereços que a cultura sinaliza como pertencentes ao ideal de beleza e, como aludido anteriormente, ao campo do feminino, estão conseguindo encontrar uma forma de elaborar a sua castração. No entanto, isso só se dá quando a sua relação com esses ideais é profícua, sem um sofrimento psíquico aprisionador na busca de se adequar a esses padrões estéticos. É nesse sentido que Pommier (1991) afirma que a relação de toda mulher com a sua imagem possui alguns impasses. Alguns dos sinais que revelam feminilidade – o andar, a voz, o olhar, a postura – são universais e incontestáveis, contudo não a dotam de uma identidade feminina; por esse motivo, em busca desse saber, ela recorre a adornos que a tornem visível, “pois é assim que seu corpo, incompleto pela ausência de falo, adquire a necessária concretude para sua existência” (Freire, 2002, p. 73). Ao se seguir essa premissa, viabiliza-se a eclosão de uma das dimensões próprias do feminino, que é um movimento de captura do olhar alheio. Como vimos neste estudo, desde a concepção freudiana, a representação do gênero feminino é dada pelo olhar desejante do outro. Dessa maneira, isso pode ser conquistado por meio da aparência bela, a qual, com seus recursos, possibilita a percepção do corpo da mulher. Considerando que é no corpo que a mulher transportará a versão imaginária daquilo que lhe falta (Jerusalinsky, 2000), o movimento de atrair o olhar do outro, como uma das saídas para a enigmática constituição da feminilidade, confere às mulheres uma garantia identitária, como se elas só pudessem se reconhecer por meio desse viés. Essa identidade pode ser alcançada, portanto, por meio da estética e de seus referenciais de beleza feminina, que utiliza recursos – tais como maquiagem, joias, acessórios – em busca de imagem bela e atraente. Nesse sentido, é na tentativa de estabelecer uma imagem idealizada perante o olhar do outro e de desfrutar das sensações corporais que o afetam “(...) que o sujeito feminino ganha corpo e se elabora. Diante do vazio e do desamparo que assola a sua existência, ele se manifesta e cria formas de existir” (Vieira, 2006, p. 110). É importante elucidar que a castração, longe de ser reduzida ao temor de uma mutilação anatômica, é efetiva no instante em que o sujeito se depara com o desvio do desejo e do olhar materno para uma outra direção que não ele e seu corpo, a qual possibilita assinalar o mistério do falo (Pommier, 1991). Assim, para a mulher, investir no próprio corpo é uma forma de (re)significá-lo, de atribuir-lhe valor e de ludibriar a referência à castração. Recorrer à beleza e a seus ideais pode ser compreendido como uma forma de as mulheres elaborarem a sua falta; os adereços, portanto, seriam complementos que contribuem para o processo de tornarse mulher, funcionando como compensação fálica. Por outro lado, quando a relação com esses ideais se torna escravizante para a mulher, a beleza parece uma tentativa de encobrir essa falta “em uma franca recusa da castração” (Pimentel, 2008, p. 44). Nesse sentido, a busca por procedimentos para manter uma aparência jovem – ideal esse também enraizado na cultura ocidental – parece estar relacionada à dificuldade de se defrontar com a finitude humana, ou seja, com a impossibilidade de ser eterno. A respeito disso, Freire (2002) ressalta: “A revolta diante da castração leva a menina a investir esse corpo como sendo o falo e o coloca (o corpo) em primeiro plano, tanto na teatralização de seus sintomas quanto no exibicionismo desse corpo” (p. 72). No contexto atual, frente à emergência da estética do corpo como uma urgência feminina, pode-se supor que é algum tipo de conflito inconsciente que essas questões sinalizam. Em outras palavras: Uma determinada inquietude que parece revelar uma tensão, marcando o ser mulher, a partir do corpo esteticamente manipulado. Nesse movimento, o desejo de uma imagem idealizada de corpo parece se ancorar num grande impasse: um certo prazer em investir, através do real do corpo, nessa imagem desejada e uma inquietação por nunca alcançá-la plenamente, ou quem sabe, numa ordem inversa: uma inquietação que parece levar incessamente ao ato de investir, dessa forma, no próprio corpo (Souza, 2007, p. 16, itálicos do autor) Para atender aos padrões de beleza atuais, as mulheres lançam-se em busca dos diferentes métodos estéticos, os quais se modificam e se sofisticam muito rápida e constantemente. Com isso, surge o corpo (...) sugado pelas lipoaspirações, implantado pelos silicones, preenchido por quantidade de gordura, cortado pelos bisturis, espetado pelas seringas com botox, diminuído ou secado pelas dietas, apertado pelos modernos espartilhos, mutilado por novas técnicas cirúrgicas, modelado pelas máquinas das academias e clínicas de estética, manipulado, enfim... (Souza, 2007, p. 15, itálicos do autor) Diante disso, para se compreender o que está em jogo, alguns questionamentos se tornam tanto pertinentes quanto necessários: por que, por exemplo, as celulites, essas cavidades sobre a pele, são tão temidas pelas mulheres e devem ser eliminadas a qualquer preço? De quais buracos as celulites estão realmente falando? Por que preencher os sinais do corpo que revelam o envelhecimento? Por que o corpo, em sua totalidade, deve ser tão rijo? Parece que aí há o que Souza abaliza: “uma eterna expectativa de reparar uma balança imaginária (...) que tenta remeter certo equilíbrio entre os excessos e as faltas simbólicas para o real de um corpo. E um corpo que possa ser reconhecido como sendo o de uma mulher” (2007, p. 70, itálicos do autor). Ante a esse quadro, pode-se supor que, no caso dessas mulheres que se lançam em uma busca infindável por um padrão de beleza inatingível, o conflito inconsciente, aludido pela mesma autora anteriormente, está relacionado a uma falha na constituição do seu eu ideal, aquele instaurado na relação com a figura que desenvolveu a função materna no sujeito. Nesse empenho em buscar a forma bela que a sociedade difunde como ideal, as mulheres tentam, dessa maneira, apresentar-se com uma imagem idealizada ao olhar dos outros, tendo em vista que este está representado inicialmente pelo olhar materno – o qual foi falho (Vieira, 2006). Nesse sentido, elas acabam estabelecendo uma relação persecutória com o próprio corpo e sua imagem e lançam-se, sem medir esforços, à pretensão de corresponder aos padrões estéticos. Contudo, essa missão acaba sendo abortada, pois esse ideal escorregadio é impossível de ser alcançado em sua plenitude. Como “o sujeito vê o seu ser numa reflexão ao outro, isto é, em relação ao Ich-Ideal” (Lacan, 1954/1998a, p. 148, itálicos do autor), sua imagem, portanto, é constituída a partir do discurso e do investimento libidinal materno, e, como há uma lacuna na constituição do seu eu ideal, ele não conseguirá se apropriar satisfatoriamente de sua imagem. Isso pode trazer como efeito o que vem sendo discutido: deixar o próprio corpo à mercê do imperativo da perfeição estética como condição fundamental para ser feliz (Pimentel, 2008). A insatisfação crônica com a imagem corporal ocorre porque, em vez de ser um complemento ao ser feminino (elementar), o investimento no embelezar-se acaba sendo tomado como um compromisso obrigatório. Há uma inversão importante aí: de complemento, a busca pelo ideal se torna condição (ilusória) de completude, e o sujeito perde para ele o estatuto de elementar. Enfim, se houve uma falha na constituição do eu ideal da mulher, o ideal de eu sofrerá os efeitos disso, visto que ele é um desdobramento do eu ideal e corresponde aos ideais culturais. Sendo o ideal de beleza obstinadamente difundido na cultura, a relação da mulher com esse ideal estará diretamente relacionada à instituição de seu eu ideal. Dessa forma, havendo uma deficiência naquele período inicial, essa situação poderá se repetir na forma como ela se coloca frente a esses padrões: por mais que ela se esforce, os resultados serão sempre insuficientes, frente à falta de investimento narcísico que o agente materno inscreveu em seu corpo. Considerações finais Como a construção do corpo, segundo a concepção tomada neste artigo, está atravessada pela dimensão cultural, é importante salientar que o culto à beleza passa a se relacionar com outros fenômenos muito expressivos na contemporaneidade. Pode-se dizer que um deles é o consumismo. Em busca dos ideais de beleza, muitas mulheres acabam entrando nesse sedutor campo e são estimuladas a adquirir produtos, roupas, sapatos, acessórios, bolsas, maquiagens ou a submeter-se a intervenções estéticas como cirurgias plásticas, próteses de silicone e aplicação de botox, dentre muitas outras, ou seja, elas são seduzidas e atraídas para, posteriormente, seduzirem e atraírem. No entanto, cabe ressaltar que a questão aqui não está no simples fato de consumir, pois desfrutar de tudo isso que socialmente é oferecido às mulheres pode, como já aludido, ser uma forma de garantia identitária na constituição da feminilidade. A questão que merece destaque e um olhar crítico é o fato de entrar em jogo uma relação desenfreada, sem limites, como se a única forma de felicidade fosse poder consumir e, assim, corresponder aos padrões estéticos. Nesse sentido, absolutamente relacionada com o fenômeno do consumismo, está a influência da mídia na transmissão e na manutenção dos ideais de beleza femininos. Direta ou indiretamente, os diferentes meios que a constituem acabam veiculando valores que, aos poucos, se tornam absolutos e incontestáveis. Esses meios de comunicação, pelo estatuto atribuído na cultura, acabam sendo influentes no processo de subjetivação, certamente não apenas das mulheres, mas de todos os que se acham nela inseridos, anunciando seus produtos como promessa ilusória de felicidade e plenitude. Dessa maneira, não poder obter esses produtos nem satisfazer aos ideais estéticos sinalizados pela cultura coloca essas mulheres em uma significativa condição de sofrimento psíquico. Além disso, conforme Novaes (2006) são culpabilizadas por sua situação, já que o que elas desejam é, supostamente, acessível, basta apenas se esforçarem para obter o que desejam ou para alcançar determinada aparência. Já que o ideal é da ordem do inatingível, funda-se um ciclo gerador de constante insatisfação e frustração, e a feiura – em geral – acaba se tornando “fruto de uma exclusão sem culpa”, como diz Novaes (2006, p. 251), o que estimula as mulheres a travarem uma angustiada batalha contra suas próprias imagens. É importante interrogar, como afirma Armênio, se o corpo feminino, que deve ser jovem, belo e magro, pode estar sinalizando “uma subtração das marcas históricas, da expressividade e das marcas femininas” (2008, p. 112). Isso vai ao encontro com o que Moreno (2008) coloca, que o corpo das mulheres passou de um sinuoso S à magreza e à postura de um I, isto é, uniformizado, sem expressão de marcas singulares. Enfim, pode-se pensar que essa uniformização também diz respeito a uma tentativa de uniformização subjetiva da mulher, que, em vez de oferecer uma via de identidade, acaba inviabilizando-a pela permanente insatisfação. • Endereço para correspondência: Heloisa Cardoso da Silva Rua Firmino Paim, 865 Bairro Getúlio Vargas Torres RS CEP: 95560-000 E-mail: helo-cardoso@hotmail.com Rebido 10/8/2010 Aprovado 16/5/2011 • * Pós-graduanda, Psicóloga clínica na Central Clin em Torres, Rio Grande do Sul – RS – Brasil. • ** Psicóloga. Psicanalista. Mestre em Psicologia Social pela PUCRS. Professora do Curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil, Torres – RS – Brasil. E-mail: siloe.rey@gmail.com Armęnio, E. (2008). A estética da magreza. In S. L. Alonso, D. M. Breyton, & H. M. Albuquerque (Org.), Interlocuçőes sobre o feminino na clínica, na teoria, na cultura (pp. 110-121). Săo Paulo: Escuta. Del Priori, M. (2009). Corpo a corpo com a mulher. Pequena história das transformaçőes do corpo feminino no Brasil (2a ed.). Săo Paulo: SENAC Săo Paulo. Dor, J. (2003). Introduçăo ŕ leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Porto Alegre: Artmed. Fernandes, M. H. (2008). Corpo. Clínica psicanalítica (3a ed). Săo Paulo: Casa do Psicólogo. Freire, L. (2002). A histeria e a beleza: uma expressăo no contexto cultural da atualidade. Psicologia: Cięncia e Profissăo, 22(3), 70-77. Freud, S. (2004). Ŕ guisa de introduçăo ao narcisismo. In Ediçăo standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (L. A. Hanns, trad., Vol. 1, pp. 95-131). Rio de Janeiro: Imago (Trabalho original publicado em 1914). Freud, S. (2006a). Tręs ensaios sobre a teoria da sexualidade. In Ediçăo standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomăo, trad., Vol. 7, pp. 119-217). Rio de Janeiro: Imago (Trabalho original publicado em 1905). Freud, S. (2006b). A organizaçăo genital infantil: uma interpolaçăo na teoria da sexualidade. In Ediçăo standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomăo, trad., Vol. 19, pp. 155-161). Rio de Janeiro: Imago (Trabalho original publicado em 1923). Freud, S. (2006c). A dissoluçăo do complexo de Édipo. In Ediçăo standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomăo, trad., Vol. 19, pp. 191-199). Rio de Janeiro: Imago (Trabalho original publicado em 1924). Freud, S. (2006d). Algumas consequęncias psíquicas da distinçăo anatômica entre os sexos. In Ediçăo standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomăo, trad., Vol. 19, pp. 273-286). Rio de Janeiro: Imago (Trabalho original publicado em 1925). Freud, S. (2006e). Sexualidade feminina. In Ediçăo standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomăo, trad., Vol. 21, pp. 231-251). Rio de Janeiro: Imago (Trabalho original publicado em 1931). Freud, S. (2006f). A feminilidade. In Ediçăo standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomăo, trad., Vol. 22, pp. 113-134). Rio de Janeiro: Imago (Trabalho original publicado em 1932). Garcia-Roza, L. A. (2008). Introduçăo ŕ metapsicologia freudiana. Artigos de metapsicologia: narcisismo, pulsăo, recalque, inconsciente (7a ed., Vol. 3). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Gil, A. C. (2010). Como elaborar projetos de pesquisa (5a ed.). Săo Paulo: Atlas. Godoi, M. R. (2006). Mídia magazine e narcisismo produtivo: investidas cultural e econômica sobre a masculinidade na contemporaneidade capitalista. Dissertaçăo de mestrado, Instituto de Linguagens, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá. Jerusalinsky, A. (2000). O desejo paterno. Correio da APPOA. Freud e o homem Moisés, 79, 31-39. Lacan (1998a). Os escritos técnicos de Freud (V. Ribeiro, trad., Livro 1). Rio de Janeiro: Jorge Zahar (Trabalho original publicado em 1954). Lacan, J. (1998b). As psicoses (V. Ribeiro, trad., Livro 3). Rio de Janeiro: Jorge Zahar (Trabalho original publicado em 1956). Lacan, J. (1998c). As formaçőes do inconsciente (V. Ribeiro, trad., Livro 5). Rio de Janeiro: Jorge Zahar (Trabalho original publicado em 1958). Lima, G. G. de. (2006). De măe a mulher: os circuitos do amor, desejo e gozo. Tese de doutorado, Instituto de Psicologia, Universidade de Săo Paulo, Săo Paulo. Mezan, R. (1994). Pesquisa teórica em psicanálise. Psicanálise e Universidade, 2, 51-75. Moreno, R. (2008). A beleza impossível. Mulher, mídia e consumo. Săo Paulo: Ágora. Novaes, J. V. (2006). O intolerável peso da feiura. Sobre as mulheres e seus corpos. Rio de Janeiro: PUC-Rio/Garamond. Nunes, S. A. (2002). O feminino e seus destinos. In J. Birman (Org.), Feminilidades (pp. 35-57). Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria. Pimentel, D. (2008). Beleza pura. Estudos de Psicanálise, 31, 43-49. Poli, M. C. (2007). Feminino/masculino. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Pommier, G. (1991). A exceçăo feminina. Os impasses do gozo (2a ed.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ramalho, R. R. (2001). Uma melancolia tipicamente feminina. Revista da Associaçăo Psicanalítica de Porto Alegre. A clínica da melancolia e as depressőes, 20, 37-55. SantAnna, D. B. (2001). Corpos de passagem. Ensaios sobre a subjetividade contemporânea. Săo Paulo: Estaçăo Liberdade. Silva, D. Q. da, & Folberg, M. N. (2008). De Freud a Lacan: as ideias sobre a feminilidade e a sexualidade feminina. Estudos de Psicanálise, 31, 50-58 Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – SBCP. (2009, janeiro). Cirurgia plástica no Brasil. Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha. Recuperado em 15 setembro 2009 do site da SBCP: http://www.cirurgiaplastica.org.br/publico/pesquisa2009.ppt. Souza, K. C. V. de. (2007). O feminino na estética do corpo: uma leitura psicanalítica. Dissertaçăo de mestrado, Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduaçăo, Universidade Católica de Pernambuco, Recife. Valdivia, O. B. (1997). Psicanálise e feminilidade: algumas consideraçőes. Psicologia: Cięncia e Profissăo, 17(3), 20-27. Vieira, K. M. F. (2006). O corpo da mulher em correçăo: subjetividade e cirurgia estética. Dissertaçăo de mestrado, Programa de Pós-Graduaçăo em Psicologia, Universidade de Fortaleza UNIFOR, Fortaleza, CE. Vilhena, J., Medeiros, S. A., & Novaes, J. V. (2005). Violęncia da imagem: estética, feminino e contemporaneidade. Revista Mal-Estar e Subjetividade, 5(1), 109-144. Endereço para correspondência:Heloisa Cardoso da SilvaRua Firmino Paim, 865 Bairro Getúlio Vargas TorresRS CEP: 95560-000E-mail:helo-cardoso@hotmail.com*Pós-graduanda, Psicóloga clínica na Central Clin em Torres, Rio Grande do Sul – RS – Brasil.**Psicóloga. Psicanalista. Mestre em Psicologia Social pela PUCRS. Professora do Curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil, Torres – RS – Brasil. E-mail:siloe.rey@gmail.com Datas de Publicação » Publicação nesta coleção 22 Nov 2011 » Data do Fascículo 2011 Histórico » Aceito 16 Maio 2011 » Recebido 10 Ago 2010 Creative Common - by 4.0 This work is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License. Ir para o topo  PDFs  Métricas    Figuras e tabelas  Versões e traduções  Como citar este artigo  Artigos relacionados  Conselho Federal de Psicologia SAF/SUL, Quadra 2, Bloco B, Edifício Via Office, térreo sala 105, 70070-600 Brasília - DF - Brasil, Tel.: (55 61) 2109-0100 - Brasílig.br a - DF - Brazil E-mail: revista@cfp.or

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Corporeidades silenciadas: reflexões sobre as narrativas de mulheres violadas Corporealities silenced: reflections about the narratives of violated women Jane Felipe Beltrão Camille Gouveia Castelo Branco Barata Mariah Torres Aleixo Sobre os autores » Resumo » Abstract » Text» De traduções olvidadas e diálogos “surdos” » Os segredos da escuta » O veneno da dor » As categorias sobre violência: enredamentos na narrativa das mulheres » As categorias relativas à agência: a resistência das/entre mulheres » Entre oitivas e traduções » Por diálogos e justiças » Referências bibliográficas » Datas de Publicação » Histórico Resumo Refletir sobre as formas de narrar as violências enfrentadas por indígenas e quilombolas mulheres/mulheres indígenas e quilombolas é a proposta do texto para discutir a possibilidade de tradução etnográfica das categorias nativas em confronto com as categorias acadêmicas para referir as mulheres em situação de violência, identificando as agências das protagonistas. indígenas; quilombolas; violência Abstract Reflect about the ways of narrate the violence faced for indigenous and maroons women/women indigenous and maroons is the propositions of the article to discuss the possibility of ethnographic translation of native categories in confrontation with the academic categories to refer women in violence situations, identify the agencies of the protagonists indigenous; maroons; violence De traduções olvidadas e diálogos “surdos” No ensaio que hoje pode ser considerado clássico para o que se convencionou chamar Antropologia Jurídica ou Antropologia do Direito2 , Geertz (2013) enuncia que o Direito é construído à luz de saberes e artesanatos locais, isto é, tem a ver com a cultura na qual ele tem vida, onde “funciona.” Segundo o autor, há diversos sentidos de direito e justiça – o que ele denomina de sensibilidades jurídicas – as quais, no contexto contemporâneo, são obrigadas a conversar, em suas palavras, “... uma iluminando o que a outra obscurece.” (2013, p. 237) De acordo com essa afirmação, o estudo e a prática do Direito devem ser feitos por meio da tradução cultural, buscando compreender as sensibilidades jurídicas que estão em jogo nas contendas, seja aquelas levadas à justiça estatal, seja as que são discutidas e resolvidas à luz das normas comunitárias e, principalmente, as que caminham na fronteira entre tais normatividades. Partimos desse pressuposto para compreender as maneiras pelas quais mulheres indígenas e quilombolas/indígenas e quilombolas mulheres3 da Amazônia paraense resistem às violências do cotidiano e perscrutar suas sensibilidades em meio às situações de violência. Não se trata aqui de analisar estratégias de movimentos de mulheres indígenas e/ou quilombolas para conseguir alcançar suas reivindicações políticas, o que não deixaria de ser importante objeto de reflexão, mas sim de entender as próprias corporeidades das protagonistas como estratégias de resistência. Esta última, que pode parecer mais individualizada e circunstancial num primeiro olhar, ganha contornos coletivos quando se observa o compartilhamento de histórias, as redes de ajuda e solidariedade criadas pelas mulheres, entre outras agências, como veremos a seguir. Temos em conta que esse diálogo entre noções de justiça não ocorre com paridade de armas, pois o Estado brasileiro se constituiu olvidando etnicidades e engendrando políticas de homogeneização e integração dos grupos diferenciados à “sociedade nacional.” A conversa entre as sensibilidades jurídicas no país ocorre na forma do que Yrigoyen Fajardo (2011) denomina pluralismo jurídico subordinado colonial, isto é, de modo a não reconhecer noções de direito que não sejam as provenientes do Estado. Quando se pensa em questões relativas às mulheres etnicamente diferenciadas a questão se complexifica. A promulgação de leis específicas às mulheres, que consideram a violência como crime4 , fruto de anos de reivindicações e estudos promovidos por organizações e coletivos feministas, diz pouco sobre diferenças de ordem cultural, étnica e racial. Diante disso, compreender noções de violência bem como as estratégias de resistência das protagonistas se impõe. Os segredos da escuta Assim, nosso objetivo é refletir sobre as formas de narrar a violência que atinge os corpos das interlocutoras que pertencem a povos indígenas e coletivos quilombolas e debater acerca das possibilidades de tradução etnográfica a partir da identificação das categorias nativas que compõem a enunciação das interlocutoras, considerando as diferenciadas noções de justiça presentes entre as mulheres que emprestam seus depoimentos às autoras do texto. Para alcance dos objetivos, procura-se compreender como se dá a construção da corporeidade entre as mulheres indígenas e quilombolas/indígenas e quilombolas mulheres, pela possibilidade de demonstrar como o corpo se apresenta entre elas como território privilegiado de resistência e luta. A marca do presente trabalho são as reflexões que ressaltam e problematizam as categorias que integram a epistemologia e o olhar nativo sobre corpo e violência. Para os limites da reflexão proposta, é importante esclarecer que os depoimentos oferecidos pelas interlocutoras foram ditos às pesquisadoras em diversos momentos, os quais compreendem um lastro de 15 anos de pesquisa, sem que estas tivessem a intenção de trabalhar especificamente violência e violação de corpos, entretanto, os depoimentos foram como que aflorando pela impossibilidade – estatal e/ou comunitária – de oitiva das mulheres em situação de violência. Selecionou-se depoimentos de mulheres indígenas pertencentes aos povos Tembé Tenetehara5 , hoje moradores do município de Santa Maria do Pará, Xipaya6 e Kuruaya7 que vivem no médio Xingu e, no caso das quilombolas, selecionamos as interlocutoras moradoras das diversas comunidades localizadas no arquipélago do Marajó, também no estado do Pará. Destacam-se trajetórias e memórias que marcam de modo indelével o etnocídio praticado via colonização (Beltrão, 2012), que até o presente atinge os corpos e as vidas de pessoas indígenas e quilombolas via colonialidade.8 Nesse sentido, é latente na narrativa das interlocutoras a referência ao processo de expulsão territorial, sequestro de crianças indígenas e quilombolas pela ação missionária e/ou do Estado, tentativas reiteradas e violentas de genocídio, em face da tentativa de homogeneização e apagamento das pertenças. Vale, porém, ressaltar que a colonialidade incide de forma específica e brutal necessariamente sobre os corpos das mulheres, pois esta, segundo Lugones (2008) , se instituiu também como colonialidade gênero, que instituiu o sistema de gênero colonial/moderno, baseado nas dicotomias homem/mulher e público/privado, como o padrão. Isso ocultou sistemas de organização dos “mundos sexuais” nativos, em que muitas vezes as fronteiras entre masculino e feminino eram fluídas e as mulheres exerciam papéis importantes na vida coletiva. Não tratamos aqui de perscrutar esses sistemas “originais” e nem acreditamos que, hoje, isso seja possível. Porém, importa ter isso em consideração para um olhar etnográfico mais apurado. O ponto nevrálgico, locus em que os caminhos etnográficos se tornam mais “nebulosos”: ter o corpo marcado, como é o caso de indígenas e quilombolas mulheres/mulheres indígenas e quilombolas, pela violência física e sexual, muitas vezes infringida pelos próprios “parentes”, ou ainda por pessoas não indígenas e quilombolas, fato que mobiliza sentimentos como dor, sofrimento e vergonha. A possibilidade de ouvir (com tudo o que o ato da escuta representa para a Antropologia) implica em cuidados9 redobrados na interpretação de atos e falas que não são ditos a qualquer pessoa, nem em qualquer lugar. Os processos de violação dos corpos, vividos como eventos devastadores, segundo as interlocutoras, também formam seus modos de narrar, de liderar e de agir politicamente. De alguma forma, somos “ouvintes” privilegiadas, considerando a confiança com a qual fomos brindadas, portanto nosso compromisso com a ocultação das identidades é fato. O veneno da dor Veena Das (2008a), em seus escritos, problematiza a correlação entre dor e linguagem. Segundo a autora, por meio da expressão da dor, é possível sair da privacidade sufocante que ela produz na vítima. De acordo com Das (2008a), eventos devastadores produzem um tipo de conhecimento que só é alcançado pela experimentação do sofrimento, um conhecimento venenoso. Portanto, violências extremas não seriam apenas responsáveis pela destruição de vidas e corpos. Atuam, também, na construção de sujeitos e linguagens da dor. A enunciação da dor pede, portanto, admissão e reconhecimento, o que nem sempre ocorre. Trata-se, nos termos da autora, de sentir a dor no corpo do outro. Essa é a proposta ao fazer antropológico, requisitado de forma envergonhada, mas insistente por nossas interlocutoras. De acordo com Michael Taussig (1993), a reprodução da imagem dos povos indígenas como selvagens, irracionais e violentos é o que possibilita a propagação do terror colonial. E no caso dos coletivos quilombolas a estratégia de resistência e luta dos negros é imperdoável ao mundo colonial, afinal, os africanos são equiparadamente considerados, como os indígenas, pessoas desprezíveis. Trata-se uma operação mimética por parte do colonizador, que conduz a atos de extrema violência, não importando se esse imaginário é verdadeiro ou não. As culturas do terror criam, desse modo, o que o autor denomina como espaços de morte, nos quais indígenas, africanos e brancos viram nascer o Novo Mundo. Segundo Taussig (1993) o terror é o mediador por excelência da hegemonia colonial e acrescenta-se da discriminação presente em nossa sociedade. O autor afirma ainda que “... as culturas do terror são nutridas pelo entremesclar do silêncio e do mito.” (Taussig, 1993, 30) Os efeitos paralisantes e silenciadores do terror encontrariam na narrativa sua primeira possibilidade de cura. Quando decidiram falar sobre as violências que marcaram de forma mais ou menos severa suas trajetórias, nossas interlocutoras começaram a vencer a primeira imposição do terror, o silêncio. Como diz Maria Aparecida, quilombola, que por ser estudante universitária, escreveu seu depoimento: “não vou falar e também nunca escrevi, mas faço [o texto] porque não consigo explicar porque aconteceu comigo, talvez não haja explicação, e mesmo que tivesse jamais iria me fazer esquecer aquele homem imundo que me rasgou e tudo que aconteceu comigo. Neste caso, a forma de prevenção pra que não possa acontecer com outras mulheres é contar e contar do massacre que sofri. Mas para isso tenho que ter coragem para dar o testemunho, mas tenho muita vergonha por isso escrevo. Peço que a senhora conte, leve adiante, o massacre não pode continuar.” Para compreender o que diz Taussig (1993), traz-se à consideração e em complemento à Maria Aparecida, o depoimento de Maria Dolores, de pertença Kuruaya, que narra seu pânico no dia da violação, praticada dentro de sua casa, na frente do marido e das filhas, que à época tinham respectivamente oito anos e dois anos: “Dormi, como todas as noites, com meu marido e minhas filhas na minha cama. De madrugada acordei e levei o maior susto da minha vida, me deparei com um homem passando da sala pra cozinha, pois a porta do quarto ficava entre aberta durante a noite, então no primeiro momento imaginei que pudesse ser alguém de fora, pensei que fosse meu marido, então olhei na cama e vi as meninas e ele, percebi que tinha alguém na casa e não era o meu marido, ele dormia com as crianças. Logo depois minha filha de oito anos acordou e percebeu que eu estava bastante assustada e nervosa, então falei que tinha alguém na casa, pedi que ela não fizesse escândalo. Na hora, eu só pedia a Deus proteção pra minha família e, ao mesmo tempo, sem saber o que fazer e como agir naquela situação de angústia e muito muito medo.” Na sequência dos acontecimentos, Dolores se apercebe do perigo e evoca Deus: “... com toda Tua sabedoria me traz tranquilidade e, nas minhas orações, pedi que Deus fizesse aquela pessoa ter compaixão e não fizesse nada com meu marido e com as minhas filhas, eu coloquei minha vida nas mãos Dele. Eu dizia: Deus coloco minha família em suas mãos me proteja e me ilumine nesta noite, pois sei que corro perigo, me abençoe, te peço em amém. Dona a senhora já teve medo?” Dolores prossegue a narrativa, ofegante, e esclarece, “... agradeço todos os dias a Deus, eu esqueci parcialmente o fato, só que por mais que os anos passem, eu não consigo falar com as pessoas sobre o assunto, por medo e até mesmo vergonha.” O relato foi adiante, entrecortado pelo choro às vezes discreto, outras vezes convulsivo a ponto de interromper a narrativa. Ela segurava as minhas mãos10 com força, de certo ainda sentia pânico e as marcas corporais que se apresentavam vivas, intensas! O relato é bastante longo, mas importante para compreensão da dor, silenciada pelas circunstância e sobretudo pela vergonha. Diz a Kuruaya: “... trabalhei o dia inteiro, sou professora no bairro dos índios, local tomado pela violência. Nunca tive medo de nada. A casa é pequenininha. Toda noite eu tenho o costume de verificar portas e janelas, e nesse dia não foi diferente, entretanto nunca imaginei que alguém pudesse entrar na casa de alguém pelo telhado, por onde entrou o bandido. Quando me dei conta do perigo fingi que estava dormindo e observei por baixo do travesseiro que ele [o bandido] se aproximava e logo entrou no quarto meio agachado, ficando em volta do berço da minha filha. Chegou perto da cama e pôs a faca no meu pescoço, daí eu gritei e ele se debruçou em cima da cama fazendo ameaças, dizendo pra não gritar se não iria matar todo mundo caso eu não trepasse [mantivesse relações sexuais] com ele.” Dolores informou que ele estava visivelmente muito perturbado andando de um lado para o outro, parecia não saber o que fazer, aparentando transtornos. Tinha aparência de drogado, exalava mal cheiro, mas não parecia bêbado e nem cheirava a álcool. Ela continua: “... depois da ronda pela casa, ele saiu um momento do quarto e eu disse ao meu marido finge que dorme e cuida das meninas, pois ele vai voltar. Minha filha que estava acordada chorava muito e falei pra ela ficar bem caladinha como se estivesse dormindo foi o que ela fez, ficou quietinha abraçada à irmã e ao pai. Ele voltou e me obrigou a manter relações sexuais com ele. Sem saber o que fazer, pedia ajuda a Deus. Aquilo foi uma humilhação muito grande, na minha cama, com o meu marido vendo tudo e as minhas filhas então? Até hoje não sei “transar” como antes, a lembrança me perturba, tenho problemas, passo mal, meu marido não se conforma, reclama. Temo que me abandone por isso. Com os olhos distantes, como se voltasse à cena do crime, Dolores informa: “... pela conversa dele, percebi que ele não falava coisa com coisa, às vezes parecia tranquilo, daí a pouco se exaltava e com a faca na mão, junto do meu pescoço. Que medo! Quando ele falou que iria fazer sexo comigo, tornei a me apavorar e, na hora, pensei na família e o quanto seria pior se fossem com as minhas filhas, pensei que era melhor eu ceder do que ele fazer algo pior conosco, ele sentou na cama e falou que não era pra eu gritar, era melhor pra mim. Ele se serviu de mim duas vezes e perguntava, gostou cachorra, tu foste pega no dente, índia é tudo assim ... Eu desesperei, além de me usar me humilhava e minhas filhas e meu marido assistindo, acho que a pequena não acordou, nem sei ... quando percebi que ele tinha saído da minha casa parece que o mundo caiu sobre mim, não tinha reação de nada lembro que peguei o celular, mas não tinha condições de ligar pra ninguém, acho que ainda não tenho mundo.” Abalada, Dolores confessou que teve dificuldade de identificar o criminoso, mas o fez. Ele respondeu processo e foi condenado, o fantasma à época era a saída do agressor da cadeia. Ela ainda vive aos sobressaltos, pois se aproxima o final do cumprimento da pena. As categorias sobre violência: enredamentos na narrativa das mulheres Nos diálogos estabelecidos com as interlocutoras é possível detectar em seus depoimentos e mesmo discurso de indígenas e quilombolas, uma série de categorias a respeito de eventos que, do ponto de vista antropológico, poderiam ser definidos analiticamente como situações de violência, embora dificilmente nossas interlocutoras tenham usado explicitamente o termo violência, as protagonistas referiram-se a todo momento a situações que atingiam seus corpos individual e coletivamente. Os corpos são atingidos de forma coletiva na medida em que a corporeidade e construída socialmente e as violações são estruturais e não individuais, além de engendrarem dor e resistências. Os fatos narrados aproximam-se da definição de violência proposta por Paula Lacerda (2015) que a entende como: [...] um amplo conjunto de situações que poderiam ser percebidas, de outro ponto de vista, como ‘causadoras de sofrimento’, pessoas se apresentam como ‘vítimas de violação de direitos’, o que as transforma em sujeito e potencializa o alcance de suas reivindicações.” (2008, 28) A primeira categoria que se refere a tais processos diz respeito a violência enfrentada coletivamente pelo povo Tembé Tenetehara na Colônia Santo Antônio do Prata, educandário que recebia as crianças indígenas sequestradas de suas comunidades e apartadas de seus parentes para serem educadas, catequizadas e “civilizadas” com base na pedagogia cristã dos missionários Capuchinhos. Posteriormente, a Colônia foi transformada em Leprosário e a ameaça de contrair a doença afastou ainda mais os Tembé Tenetehara do território que tradicionalmente ocupavam. No período de instalação do Leprosário, conforme conta Dona Maria Joana, circulava na região o boato de que era possível curar a hanseníase se o doente comesse o fígado de uma pessoa saudável. Na época chegaram a ser encontrados na mata cadáveres com o fígado retirado, o que reforçava ainda mais o temor de que uma das pessoas a serem mortas pudessem ser Tembé Tenetehara. É desse cenário que emerge a categoria massacre: as interlocutoras constantemente reafirmam, ao dizer dessas memórias que “o nosso povo foi muito massacrado no Prata”. A noção de massacre parece elucidar mais enfaticamente os acontecimentos que a categoria violência, uma vez que as violações enfrentadas coletivamente pelos Tembé Tenetehara – ditos de Santa Maria – incluem espoliação territorial, epistemicídio, quebra dos laços de parentesco e, em última instância, o adoecimento e a morte dos membros do povo. O mesmo ocorre com as mulheres Xipaya e Kuruaya que, expulsas de seus territórios no médio Xingu, vieram à cidade e vivem presas a espaços, onde sequer podiam, há 10 anos, se declarar indígenas. Eram, como referem algumas das interlocutoras, impedidas de falar a língua materna, enfrentaram o massacre da discriminação, produzida pelo racismo que se apresenta em estratégias de dominação de ordem material e ideológica, utilizada pelas estruturas coloniais para manter status privilegiado de membros do grupo dominante, produzindo a perene subalternidade dos povos etnicamente diferenciados (Moreira, 2016 ), não fosse a luta que empreendem diuturnamente. No caso das quilombolas o massacre foi/é pesado e reproduzido nas diversas narrativas. A segunda categoria que diz de processos de violência é a de escravidão. Conforme explica Maria da Paz: “os antigos do nosso povo tratavam a mulher como escrava. Ela só servia para ter filho, cuidar da casa e da roça, ser usada pelo marido e trabalhar pro pai. Hoje não pode mais ser assim, mas muitos homens no nosso povo e de fora querem tratar as mulheres nessa escravidão.” A categoria escravidão parece dizer respeito a crítica que as mulheres indígenas fazem sobre a condição feminina dentro das diversas comunidades. O entendimento de que as mulheres eram e são tratadas como escravas, guarda em seu interior a reivindicação de que sejam entendidas como sujeitos, dotadas de direitos, vontades e voz. Tal categoria diz respeito a forma como as interlocutoras pensam a mulheridade e a crítica que fazem por não serem reconhecidas de tal forma. Entre as quilombolas a condição de escrava é mencionada por conta das avós e das bisavós, entretanto, algumas vezes, a condição passada é negada para não comprometer a luta e favorecer a discriminação. A terceira categoria nos parece a que possui maior tensão ao ser utilizada analiticamente: trata-se da categoria maldade. Durante muito tempo do percurso das pesquisas que apontavam para as categorias nativas, evitou-se conjecturar sobre a mesma, por receio de que escrever sobre o assunto pudesse “dar munição” para os antagonistas em relação aos povos tradicionais. Entretanto, ao buscar as noções de justiça que permitem a luta política das mulheres, a maldade atravessou o percurso da problematização. As interlocutoras com quem se dialogou nomeiam como “homens maus” aqueles que agridem seus corpos, física e/ou sexualmente. E, a essas agressões, as mulheres indígenas dão o nome de maldades. As quilombolas, algumas vezes referem-se às violações dos homens maus, como malinesas. Denominam malinesas às penas impostas, pelos encantados, a homens (e também à mulheres) que vivem fora das normas tradicionais, malinesas que trazem como consequência efeitos deletérios às relações sociais. Malinos são os encantados que castigam os transgressores com o mal, tornando-os perniciosos ao convívio social. Os encantados que “jogam a malinesa” vivem nas matas e nos cursos d’água e por serem donos dos espaços, exigem reverências e cumprimento de obrigações, nem sempre observadas pelos homens maus que terminam “malinando” com as mulheres (ou mulheres que malinam com homens). No caso da maldade ou da malinesa entre indígenas e quilombolas, uma e outra não integram a essência dos humanos, são tomadas pelas interlocutoras como condição que, dependendo do comportamento, pode ser afastada dos humanos, sempre que, arrependidos, voltem a cumprir as obrigações com os encantados. A tensão reside no fato de que muitas vezes os homens maus ou malinos podem ser companheiros das mulheres indígenas e quilombolas ou lideranças dos referidos coletivos. Duas situações parecem ilustrativas de como a categoria maldade é posta em ação. A primeira delas diz respeito a história contada por Maria Laura, que teve a filha Maria Conceição sequestrada por um homem que circulava na comunidade. A menina passou oito dias em cativeiro submetida a violência física e sexual pelo agressor. Por fim, depois de espancá-la quase até a morte, o criminoso abandonou-a sozinha na casa onde a escondia. Embora Maria Conceição tenha sido encontrada com vida e acolhida sob o modo Tembé de cuidar do corpo, a marca da violência permanece para o resto da vida e o fato de o agressor ter muito dinheiro, à época, assegurou-lhe a impunidade. Ao contar a história de sua filha, Maria Laura referiu-se ao criminoso como um “anjo mau”, aproximando-o do mito bíblico que conta a história de Lúcifer. A mesma categoria foi utilizada pela filha de Maria da Paz, Maria Lídia, para referir-se ao seu pai. Na época ele se encontrava doente, com desmaios e fraquezas constantes, e as causas não puderam ser identificadas pelos médicos que a família procurou. Maria da Paz, desde que a conhecemos, narra as agressões cometidas pelo marido, que espancava ela e os filhos e dizia constantemente a todos palavras duras, que “machucavam” quem as ouvia. Conversando com Maria da Paz e Maria Lídia, a filha afirmou que a doença do pai era um “castigo por todas as maldades que ele fez com a gente”, com o que Maria da Paz concordou. A noção de maldade parece ter um sentido diferenciado para as mulheres indígenas se comparada aos usos que assume na sociedade dita ocidental. Enquanto no ocidente a maldade é frequentemente tomada como propriedade de pessoas perversas, entre as protagonistas indígenas a categoria parece se aproximar do que a Antropologia e os movimentos de mulheres tem chamado de machismo ou violência de gênero. Atentar para o uso diferenciado do termo pelas interlocutoras só foi possível em função do envolvimento etnográfico no contexto em que estas se inserem e por meio do diálogo e inflexão mantida pelas autoras. Por fim, a última categoria percebida como o sinônimo nativo para a violência é a de machucar. Frequentemente usada na sociedade ocidental para designar ferimentos físicos, sejam acidentais ou infringidos, machucar entre as mulheres indígenas refere-se ao ato de dizer palavras ofensivas e duras, que atacam a honra e o caráter das pessoas atingidas. Nos relatos de violência dentro das relações com os maridos – sejam eles indígenas ou não – as interlocutoras afirmam que as palavras duras são tão dolorosas e machucam tanto quanto agressões físicas. Tendo em conta a lei brasileira sobre violência doméstica, temos que o “machucar” talvez possa ser compreendido como violência psicológica11 , uma entre as possibilidades de violência contra a mulher, deslindadas nesse diploma legal. Entre as quilombolas há narrativas que informam que as palavras ofendem mais que serem marcadas por paus, chicotes e outros instrumentos de agressão. As marcas físicas podem ser tratadas, curadas, mesmo que levem tempo, mas as marcas dos machucados ferem a alma (para além do corpo) e permanecem na memória das interlocutoras e nada nem ninguém faz desaparecer. Abaixo as correspondências relativas às categorias éticas e êmicas. Thumbnail  Quadro 1 : Categorias éticas e êmicas sobre violência As categorias relativas à agência: a resistência das/entre mulheres Uma das principais questões que se tornaram visíveis no diálogo com as interlocutoras diz respeito ao fato de que as violações que atingem os corpos das mulheres jamais foram aceitas de forma passiva, elas não se deixam paralisar. Os processos de agência – aqui utilizada no sentido atribuído por Pierre Bourdieu (1983) e Anthony Giddens (1984) – e resistência, sempre estiveram presentes nas trajetórias das indígenas e quilombolas. O silenciamentos via etnocídio atingiu seus corpos e vidas, mas não se consolidou na medida em que as protagonistas sempre estiveram dispostas a buscar alternativas e resisitir. É com o intuito de romper com o etnocídio e a destituição da memória de seus coletivos que as mulheres indígenas ou quilombolas contam histórias de extrema violência no contexto da pesquisa; supomos que elas acreditam que por meio do registro na produção antropológica, as interlocutoras mantém a expectativa de que as memórias não sejam esquecidas nem apagadas, mas que, pelo contrário, permaneçam vivas na luta por direitos coletivos e por reconhecimento. Relatar as estratégias de agência e resistência e o protagonismo das interlocutoras frente a situações de poder assimétricas coaduna-se com o objetivo de “contar para prevenir”, como disse Maria dos Anjos, há anos, quando em uma roda de conversa aconselhou as jovens presentes: “... não guardem segredos, eles envenenam a vida. Não façam como eu que evitei contar as malinesas, daí não consegui domei os maus [homens] da minha vida. Nem os de casa, nem os da rua e ninguém deve machucar nossas almas, somos pessoas, [e olhando firme as meninas moças da roda] devemos reagir, assim as malinesas vão pra longe da comunidade.” De fato, contar a história parece uma das principais categorias que distinguem a agência das mulheres diante da violência sofrida. O trabalho das autoras, membros da equipe de antropólogos do Grupo de Pesquisa Cidade, Aldeia & Patrimônio só teve início a partir do convite dos membros da comunidade para que os pesquisadores escrevessem a história do povo Tembé Tenetehara e de outros povos indígenas e quilombolas, como informamos à partida. Quando na comunidade, muitos pesquisadores foram “intimados” a entrevistar os membros mais velhos da comunidade, para garantir que as histórias que estes se lembravam fossem registradas antes que se perdessem com seu falecimento. Maria Laura, com o início das pesquisas na comunidade, decidiu começar a escrever diários, onde poderia registrar suas memórias pessoais e coletivas e repassar para os pesquisadores do grupo. Outra categoria importante nos processos de agência das mulheres indígenas, especialmente as Tembé, é a do cuidado. Conforme elucida Maria Laura: “... o nosso povo foi muito massacrado no Prata. Morreu muita gente. A gente jamais podia dizer que era índio, até hoje nós vivemos discriminados. Hoje tá muito melhor, a gente vive junto, faz nossas festas, cuida uns dos outros e o nosso povo se alegra. Mas vive com a discriminação. Não podemos usar uma roupa, que já dizem que nós não somos índios. Eu vou dizer que eu sou uma portuguesa, sendo que eu não sou? Até tem gente que diz, mas eu não digo. Eu digo o que eu sou, eu sou Tembé. Mas tem que viver com a discriminação.” Ao contrário da visão de cuidado amplamente discutida na literatura produzida na área da Enfermagem, pautada na atenção e medicalização de pessoas com doenças, ou deficiência, o cuidado tembé e das demais etnias é holístico e alimenta o corpo de forma completa, por meio do sistema tradicional de ação para saúde, que contempla não apenas o cuidado com o corpo, mas a proteção espiritual, e as lutas políticas por uma vida melhor, que acarretam uma corporeidade saudável. E esse corpo não se estrutura desconectado do ser indígena, com toda a carga política e epistemológica que a identidade enseja para as tembé, xipaya e kuruaya. Cuidar de si e dos seus implica em se proteger de violações e fortalecer o grupo para que as lutas políticas possam ser continuadas. Nesse sentido, o cuidado de si constitui um empreendimento que conforma resistências políticas, materiais e epistemológicas, em um contexto no qual o corpo vem à cena tanto como território de lutas e afirmações identitárias, quanto como alvo de opressões e estigmas. Com as mulheres quilombolas a situação é semelhante, sempre que alguém se machuca a cura vem via sistema tradicional de ação para saúde, mesmo que a pessoa machucada e violada receba atendimento dentro do sistema ocidental de ação para saúde. Outra categoria percebida como forma de agência das mulheres nas tensões que envolvem os maridos diz respeito a educação dos filhos. Segundo Maria Laura: “... a mulher é que educa o filho. Se ela não mandar ele ir lá, tomar a bença do pai, fazer um carinho no pai, ele não vai, não, fica na dele. Foi por causa de um dos meus filhos que meu marido parou de me bater. Um dia, ele era novinho, magro, magro... Ele virou pro pai e falou: “O senhor nunca mais vai bater na mamãe, hoje foi o último dia”. O pai perguntou: “E o que tu vai fazer?”. E ele disse: “Eu não sei, mas o senhor não encosta mais um dedo nela”. Depois disso, nunca mais ele me bateu.” Uma das filhas de Maria Laura, ao ver o pai com outras mulheres na rua: “... fazia um escândalo, batia nela. Uma vez enchi as coisas da mulher de areia, ficou tudo sujo. Depois ele metia a porrada em mim quando chegava em casa, mas eu nunca deixava barato.” Atualmente as crianças que na infância enfrentaram os pais em defesa de suas mães, criam redes de apoio e acolhimento das indígenas mulheres em situação de violência, seja recebendo-as em suas casas, rezando por elas ou conversando com os maridos e, muitas vezes constrangendo-os perante os demais parentes. Maria José, quilombola da comunidade Maria me ajude constrangia o marido, mostrando de casa em casa os ferimentos produzidos pelas surras que levava, porque teimava em estudar. A peregrinação de casa em casa produzia o recolhimento do agressor que, alcoolizado, tinha produzido as maldades, malinado a protagonista. Por fim, a última categoria percebida como característica da agência empreendida pelas mulheres tembé em relação a violência diz respeito ao processo de fechar o corpo. Prática também verificada entre as quilombolas. Em um contexto em que as violações de direitos ocorridas em hospitais são reais e prováveis, fechar o corpo contra coisas ruins é essencial. Entre as práticas frequentes, temos: rezar na cabeça de criança com febre; ministrar ervas medicinais para pessoas que adoecem ou são envenenadas; manter a gravidez ou interrompê-la quando as vidas da mãe e da criança estão ameaçadas; são exemplos de saberes e fazeres acionados no agenciamento de situações consideradas de risco, em que se sabe que o acesso ao sistema ocidental de ação para saúde não responde satisfatoriamente ou há dificuldades em acessá-lo. Fechar o corpo entre os povos tradicionais implica proteger as pessoas da comunidade tanto no plano físico quanto no espiritual. Os rituais podem ou não estar relacionados à alguma forma de religiosidade indígena afro-brasileira ou ocidental. Uma das interlocutoras, reconhecida “por ser uma das mais antigas dos nossos antepassados”, entre os Tembé, relata que nos tempos antigos, quando houve grande incidência de hanseníase na região, ela conseguiu paralisar o avanço da doença no corpo de uma das pessoas da comunidade utilizando as propriedades do mucuracaá, uma planta medicinal que também é utilizada entre os tembé para combater o mau-olhado. Outras indígenas afirmam que uma mulher grávida que estivesse sob os cuidados de Maria Carmen estaria em boas mãos, uma vez que ela acompanhava a gestação desde os primeiros meses até a hora do parto, no qual a mulher era virada de lado e dava a luz enquanto a interlocutora rezava em sua barriga. Despois do parto, a profissional de saúde permanecia na casa da parturiente até o resguardo terminar, portanto eram quarenta dias de cuidados diferenciados. Durante uma das idas a campo, a mãe de uma criança que havia nascido há pouco tempo encontrava-se aflita, pois o bebê não parava de chorar e não costumava ser assim. Nesse momento, Maria Carmen, sogra da mãe da criança, entrava na casa e, ao se dar conta da situação, perguntou se a menina havia ido tomar banho de igarapé. Como a resposta foi afirmativa, a interlocutora disse: “... minha filha pegue alho, amasse e misture com álcool e deixe um tempo. Depois passe com o dedo na palma da mão da neném, na sola do pé, no braço e na coxa, em forma de cruz. Vai ficar um cheirinho ruim, mas não tem problema, ela vai melhorar. Ela deve ter visto alguma coisa no igarapé, criança é muito sensível, parece um pintinho novo. Quando eu era pequena, minha tia levava a gente pro igarapé, mas ela entrava primeiro, pedia licença pra mãe da água pra gente entrar e jogava o alho na água, aí o banho era sossegado.” O alho é antídoto (combate o veneno) para os encantados que “jogam malinesa” quando as pessoas não reconhecem as regras, que não se referem apenas aos espaços de domínio dos mesmos, mas às horas proibidas do dia e da noite. A paçoca de gergelim preto “pisada” com hortelã é utilizada para “botar pra fora” (as indígenas não utilizam o termo “aborto”, as quilombolas usam expulsar), principalmente quando a gravidez ameaça a vida da mãe ou quando o parto é de risco. Para mulheres grávidas que sentem dores, ministra-se chá de gengibre. Para inflamações, especialmente em casos de problemas de próstata, o caroço de abacate mostra-se eficaz. Crianças, quando morrem antes do batismo, segundo os católicos, choram durante sete dias e precisam ser batizados para que “descansem”. A última prática mostra-se elucidativa da forma tembé de pensar a construção da “pessoa”, a partir do ato de batizar a criança morta. Para os Tembé Tenetehara não se deve negar às pessoas mortas, quando oriundas de famílias cristãs, o direito ao ritual de batismo que as forma e legitima. As situações acima descritas, integrantes das observações de campo, revelam que mesmo enfrentando situações de precariedade e violência, as mulheres exercem seu protagonismo, instituindo o “ser sujeito” e encontram alternativas para agenciar situações de violência. O corpo e as múltiplas corporeidades que coexistem entre as interlocutoras são territórios privilegiados da resistência de indígenas e quilombolas mulheres e das formas de cuidar de si mesmas. Thumbnail  Quadro 2 : Categorias êmicas e éticas sobre agência Entre oitivas e traduções Os diálogos em campo demonstram que os atos e falas das interlocutoras são ferramentas importantes para a compreensão de suas realidades. Ao mesmo tempo, analisar o discurso no contexto das relações antropológicas passa a ser um desafio, na medida em que aponta para a necessidade de proceder o controle das dificuldades de tradução etnográfica, dos etnocentrismos ocidentais e do viés da colonialidade vigente. Em trabalho de grande influência e repercussão, Gayatri Spivak (2010) questiona criticamente a (im)possibilidade de fala de determinados grupos. A autora constata que os subalternos em geral, e o sujeito historicamente emudecido, a mulher subalterna em particular, foram e são, ao longo da história, mal compreendidos ou mal representados pelo interesse pessoal dos que têm poder para representar. A proposição instigante de Spivak (2010), além de elucidar silenciamentos, colonialismos e violências, também aduz escutas anti-hegemônicas, epistemologicamente desobedientes, pós-coloniais. Inspirada pela reflexão provocativa da filósofa indiana, Lacerda (2014) considera que em meio a tentativas de silenciamento, os grupos e sujeitos subalternizados – e esse é um deslocamento analítico fundamental para que a subalternidade não seja entendida como lugar paralisante e intransponível – estão falando. Superando a perspectiva colonialista que pretende “dar voz” aos grupos subalternizados por meio da pesquisa, Lacerda (2014) tensiona a questão que orienta Spivak (2010): como o não subalternizado, o privilegiado, pode escutar? As posições teórico-epistemológicas (que também possuem caráter político) adotadas na presente discussão objetivam favorecer a escuta etnográfica mais responsável, capaz de superar estereótipos de passividade e compreender indígenas e quilombolas como sujeitos de suas próprias histórias. A estruturação do olhar antropológico sobre o campo, em diálogo com os conceitos e categorias referidas, foi essencial para compreensão das interlocutoras como protagonistas de suas próprias histórias, não como vítimas passivas, desagenciadas e paralisadas diante de violações. Qualquer procedimento em sentido contrário seria uma prática etnocêntrica. Atentar para as narrativas das mulheres indígenas e quilombolas, a partir do que foi explicitado, é um esforço que vai além de retomar o protagonismo de vozes subalternizadas. Trata-se de uma tentativa de constituição de possibilidades de outra epistemologia, outras referências e sensibilidades, diferentes das que o pensamento colonial afirma serem as únicas dignas de serem aprendidas e respeitadas. A partir das falas desses sujeitos, confrontamos a tentativa histórica de epistemícidio (Santos, 2010) e assimilação que incide sobre os povos indígenas e quilombolas, e, mais especificamente sobre mulheres indígenas e quilombolas/ indígenas e quilombolas mulheres. Trata-se de uma opção metodológica que abriga dimensões e responsabilidades políticas, de contemplar enunciações ditas e tomadas como periféricas e arbitrariamente alijadas pelo pensamento ocidental e colonial. Por diálogos e justiças A diversidade das agências e possibilidades de justiça nos permite esterçar para diferentes lados saindo dos limites de nossos axiomas, verdades que consideramos inquestionáveis e supostamente válidas universalmente. Axiomas estes que muitas vezes são utilizadas como princípios que mantém privilégios de uns em detrimentos de outros secularmente subalternizados. Não se trata de atribuir valor superior aos conhecimentos tradicionais ou mesmo de aderir a eles, mas de considerá-los em diálogo para produzir a melhor justiça, sem diluí-los na ciência desenvolvida na academia. A importância das reflexões que se faz é tentar indicar que as agências das mulheres e modos diversos de conhecimentos, é indicar também que se pode pensar de outro modo e que os variados sistemas de justiça precisam, de fato, dialogar. Sabemos que os estudos acerca da violência de gênero no país muitas vezes utilizam o termo violência sem muita precisão, como se violência doméstica, violência intrafamiliar, violência contra a mulher, entre outros, fossem capazes de abarcar reflexões sobre realidades diversas. Fazer o esforço de compreender noções êmicas do termo afasta o perigo da reificação e induz a “diálogos ouvintes”, que postulamos aqui, em contraposição aos “diálogos surdos.” Ainda sobre a questão dos termos utilizados para abordar a violência, contemporaneamente tem se preferido falar em mulheres em situação de violência ao invés de violência contra a mulher, para indicar que a violência é transitória e não um destino que as mulheres devem cumprir (Campos, 2011). Além disso, a mudança de termo e, por conseguinte, de enfoque, impele a pensar a questão fora do molde algoz versus vítima, possibilitando compreender que, mesmo sendo vítima, especialmente num sentido jurídico-estatal, não significa não ter poder e força de resistir. As narrativas e corporeidades de mulheres indígenas e quilombolas/ indígenas e quilombolas mulheres desafiam compreensões do senso comum sobre situações de violência e nos fazem compreender que vítimas são sujeitos. Dessa forma, como sujeitos que são, devem poder acionar sistemas tradicionais de justiça ou mesmo a “justiça dos brancos”, como dizem algumas. Porém, a colonialidade, especialmente a de gênero (Lugones, 2008 ) cria contextos em que os dois lados olvidam as demandas pelo fim de maldades e malinesas. Referências bibliográficas ALEIXO, Mariah Torres. 2015. Indígenas e quilombolas icamiabas em situação de violência: rompendo fronteiras em busca de direitos Dissertação de mestrado, Programa de Pós-Graduação em Direito, UFPA. (Inédita) BELTRÃO, Jane Felipe. 2012. Histórias ‘em suspenso’: os Tembé ‘de Santa Maria’, estratégias de enfrentamento do etnocídio ‘cordial’. Revista História Hoje, São Paulo, v. 1, no 2, p. 195-212. BOURDIEU, Pierre. 1983. Esboço de uma teoria da prática In: ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu: sociologia São Paulo: Ática, p.46-81. BRASIL. Lei nº. 11.340 de 7 de agosto de 2006 Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm » http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm CAMPOS, Carmem Heim de. “Razão e sensibilidade: Teoria feminista do direito e Lei Maria da Penha.” In CAMPOS, Carmem Heim de. (Org.). Lei Maria da Penha comentada em uma perspectiva jurídico-feminista Rio de Janeiro. Lumen Juris, 2011. pp. 01-27. DAS, Veena. 2008a. El acto de presenciar. Violencia, conocimiento envenenado y subjetividad. In: ORTEGA, Francisco (Org.). Veena Das : sujetos del dolor, agentes de dignidad Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, p 343-374. DAS, Veena. 2008. Lenguaje y cuerpo: transacciones en la construcción del dolor. In: ORTEGA, Francisco (Org.). Veena Das : sujetos del dolor, agentes de dignidad Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, p 343-374. GIDDENS, Anthony. 1984. The constitution of society Cambridge: Polity. GUEERTZ, Clifford. 2013. O saber local: fatos e leis em uma perspectiva comparativa. In GUEERTZ, Clifford. O saber local – novos ensaios em antropologia interpretativa Petrópolis: Editora Vozes. LACERDA, Paula. 2014. Comunicação oral. In: Antopologia em Foco IV, Belém. LACERDA, Paula. 2015. Meninos de Altamira: violência, luta política e administração pública Rio de Janeiro: Garamond. LUGONES, María. 2008. Colonialidad y género. In Tabula Rasa, num. 9, julio-diciembre, Universidad Colegio Mayor de Cundinamarca, Colombia, p. 73-101. Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=39600906 Acesso em: 10.out.2013. » http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=39600906 Moreira, Adilson. 2016. Direito Discriminatório Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TkgAEQtClRU Acesso em: 04.set.2016.

Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica Elie CheniauxSOBRE O AUTOR Resumos É realizada uma ampla revisão dos estudos psicanalíticos e das mais recentes pesquisas neurocientíficas sobre os sonhos. Segundo Freud, os sonhos constituem "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Para muitos neurocientistas, eles são formados a partir de estímulos aleatórios originados na ponte e não possuem qualquer significado. Contudo, diversos estudos associam as emoções experimentadas durante a vigília e o conteúdo dos sonhos. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos dá algum respaldo à teoria freudiana. Todavia, não há dados empíricos que apóiem a existência de uma instância censora que deturpe os sonhos. É possível que os sonhos exerçam um papel na elaboração psíquica de lembranças traumáticas. Na nossa opinião, as visões psicanalítica e neurocientífica sobre os sonhos podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Sonho; fases do sono; psicanálise; neurofisiologia; literatura de revisão A comprehensive review was carried out about psychoanalytic studies and the most recent neuroscientific researches about dreams. According to Freud, dreams represent "a (disguised) fulfillment of a (repressed) wish." For several neuroscientists, they are formed based on random stimuli originated from the brainstem and do not have any meaning. However, several studies associate the emotions experienced during waking with the content of dreams. The hypothesis that the dopaminergic mesolimbic-mesocortical system, which is associated with instinctual appetitive craving states, is essential to the formation of dreams brings some endorsement to Freudian theory. Nevertheless, there is no empirical data to support the existence of an instance of censorship that distorts the dreams. It is possible that the dreams play a role in psychological working-through of traumatic memories. In our opinion, psychoanalytic and neuroscientific views about dreams can be complementary and mutually enriching. Dream; sleep stages; psychoanalysis; neurophysiology; literature review ARTIGO DE REVISÃO Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica Elie Cheniaux Professor adjunto, Faculdade de Ciências Médicas - Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCM-UERJ), Rio de Janeiro, RJ. Médico, Instituto de Psiquiatria - Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Doutor em Psiquiatria, IPUB-UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Pós-doutor, Programa de Engenharia de Sistemas e Computação, Área Interdisciplinar de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia - Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Membro associado e docente, Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ), Rio de Janeiro, RJ Correspondência RESUMO É realizada uma ampla revisão dos estudos psicanalíticos e das mais recentes pesquisas neurocientíficas sobre os sonhos. Segundo Freud, os sonhos constituem "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Para muitos neurocientistas, eles são formados a partir de estímulos aleatórios originados na ponte e não possuem qualquer significado. Contudo, diversos estudos associam as emoções experimentadas durante a vigília e o conteúdo dos sonhos. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos dá algum respaldo à teoria freudiana. Todavia, não há dados empíricos que apóiem a existência de uma instância censora que deturpe os sonhos. É possível que os sonhos exerçam um papel na elaboração psíquica de lembranças traumáticas. Na nossa opinião, as visões psicanalítica e neurocientífica sobre os sonhos podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Descritores: Sonho, fases do sono, psicanálise, neurofisiologia, literatura de revisão. INTRODUÇÃO O neurocientista e psicanalista Mauro Mancia1, num artigo publicado no International Journal of Psychoanalysis, em 1999, ressalta as diferenças entre as abordagens neurocientífica e psicanalítica dos sonhos. Enquanto os neurocientistas se dedicam ao estudo das estruturas e funções cerebrais envolvidas na produção do sonho, os psicanalistas se interessam pelo significado deste, considerando os aspectos biológicos irrelevantes para a sua compreensão. Todavia, para outros autores, como o psiquiatra Morton Reiser2, o estudo dos sonhos representa uma grande oportunidade de exploração da relação entre corpo e mente. Segundo ele, os modelos da psicanálise e da neurociência para os sonhos, embora muito distintos entre si, não devem ser vistos como antagônicos ou inconciliáveis, mas sim como complementares. Reiser acredita que uma cooperação entre esses dois campos do conhecimento poderia ser mutuamente enriquecedora. Realizamos uma revisão bibliográfica a respeito dos sonhos, na qual comparamos as visões da psicanálise e da neurociência, com o objetivo de identificar possíveis pontos de contato e de divergência entre elas. Promovendo, assim, um diálogo entre a psicanálise e a neurociência, teremos subsídios para avaliar a viabilidade e a utilidade de uma aproximação ou mesmo de uma integração entre as duas no estudo da mente humana. Iniciamos nossa pesquisa bibliográfica pelos trabalhos sobre os sonhos de Sigmund Freud, criador da psicanálise, de James Allan Hobson, neurocientista que veementemente critica a teoria freudiana, e de Mark Solms, um dos principais pesquisadores na área da neuropsicanálise, disciplina científica recém-criada que se ocupa da integração entre os conceitos psicanalíticos e neurocientíficos. Com o auxílio das bases de dados MEDLINE, LILACS e PsycINFO, e utilizando como termo de busca "sonho" (ou dream), procuramos artigos científicos sobre o tema. Também consultamos diretamente alguns dos mais importantes periódicos nacionais e estrangeiros das áreas de psicanálise e de neurociência em bibliotecas e através da Internet, no portal Periódicos da CAPES. Optamos por incluir preferencialmente artigos originais ou de revisão recentes, ou então considerados clássicos na literatura científica. A teoria freudiana sobre os sonhos "A Interpretação dos Sonhos", de 1900, é considerada a primeira obra propriamente psicanalítica de Freud. Nesse trabalho, particularmente no capítulo VII, já se encontra uma teoria geral do aparelho psíquico, formulada a partir dos estudos de Freud sobre os sonhos, que são, segundo ele, a "via régia de acesso ao conhecimento do inconsciente na vida mental"3. Para Freud, o sonho constitui "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Possui um conteúdo manifesto, que é a experiência consciente durante o sono, e ainda um conteúdo latente, considerado inconsciente. Este é composto por 3 elementos: as impressões sensoriais noturnas (por exemplo, a sensação de sede durante o sono), os restos diurnos (registros dos acontecimentos da véspera) e as pulsões do id (relacionadas a fantasias de natureza sexual ou agressiva). Esses elementos do sonho latente tendem a fazer o indivíduo despertar. E, durante o sono, em função da completa cessação da atividade motora voluntária, a repressão está enfraquecida, o que aumenta a possibilidade de as pulsões terem acesso à consciência. Todavia o sonho atua como "o guardião do sono". Em função de uma solução de compromisso entre o id e o ego - que é a instância que exerce a repressão -, é permitida uma gratificação parcial das pulsões, diminuindo a força delas e, conseqüentemente, possibilitando que o indivíduo continue a dormir. Essa gratificação se dá através de uma fantasia visual (o conteúdo manifesto do sonho), que é o resultado de um processo regressivo: o fluxo da energia psíquica, ao invés de seguir em direção às vias motoras, retorna às vias sensoriais3,4. Ainda de acordo com Freud, o conteúdo manifesto dos sonhos é aparentemente incompreensível porque consiste numa versão distorcida do conteúdo latente. Essa distorção se dá, em primeiro lugar, porque no sono há uma profunda regressão do funcionamento do ego, que faz com que prevaleça o processo primário do pensamento. Este é caracterizado pelo predomínio das imagens visuais (em detrimento da linguagem verbal) e pelos mecanismos de condensação (fusão de duas ou mais representações) e de deslocamento (substituição de uma representação por outra). Além disso, entre o inconsciente e o consciente existiria uma instância censora, que deliberadamente disfarçaria o conteúdo do sonho, para que o sonhador não reconheça sua origem pulsional, proibida3,4. Algumas contestações à teoria freudiana A teoria freudiana sobre os sonhos tem sido bastante contestada, dentro e fora da psicanálise. Questiona-se se as imagens que percebemos durante o sono representariam mesmo um disfarce ou distorção. Luborsky & Crits-Christoph5 estudaram os sonhos de um grupo de pacientes utilizando o core conflictual relationship theme method (CCRT), um instrumento que avalia o padrão de relacionamentos interpessoais de um indivíduo, tendo como base o relato deste. Comparando-se os resultados da avaliação relativos apenas ao conteúdo manifesto do sonho com aqueles obtidos quando foram consideradas também as associações livres do sonhador (que indicariam o conteúdo latente do sonho), não foram encontradas diferenças. Vários estudos empíricos encontraram uma correlação significativa entre a atividade mental durante a vigília e o conteúdo manifesto dos sonhos. Na amostra de Greenberg et al.6, os problemas sonhados eram basicamente os mesmos pelos quais os indivíduos estavam passando em suas vidas diurnas. Smith7, por sua vez, observou que separação ou morte eram a temática predominante nos sonhos de pacientes cardiopatas hospitalizados. Outros ensaios clínicos demonstraram que estímulos apresentados anteriormente ao sono - como filmes, fotografias ou jogos de palavras - reaparecem claramente nos sonhos8. Por outro lado, alguns autores não acreditam que seja possível recuperar o conteúdo latente do sonho na sessão analítica. Para eles, a associação livre ocasiona a produção de um material novo, criado a partir da relação paciente-analista9,10. Blechner10 afirma que muito do que é bizarro ou confuso no sonho não resulta de repressão: são elementos originalmente extralingüísticos, que não podem ser expressos em palavras. Para Robbins11, os sonhos expressam puramente a linguagem do processo primário; portanto, a atuação de uma instância censora, que refletiria um pensamento racional (característico do processo secundário), não seria possível. Coloca-se em dúvida, ainda, a afirmativa de Freud de que desejos seriam os instigadores de todos os sonhos. Para diversos autores1,12,13, os sonhos refletiriam não só os desejos e as defesas contra estes, mas a atividade mental como um todo, e teriam inúmeras outras funções além de descarga (da energia psíquica), como a solução de problemas (intelectuais ou emocionais)6,14,15, criatividade8, autoconhecimento1,16, integração da mente14,17, adaptação17, aprendizagem8, neutralização do estresse8, entre outras. McCarley & Hobson18, por sua vez, argumentam que, embora possam estar presentes no sonho temas relacionados a desejos, isso não significa que estes representem um fator causal no processo de formação do sonho. Por fim, alguns autores1,9,10,12,17,19,20 destacam a relação paciente-terapeuta e a transferência como os componentes principais na formação dos sonhos durante o tratamento. Em contrapartida à importância que Freud dava aos sonhos para a investigação da mente, o interesse por estes entre os psicanalistas tem diminuído significativamente nas últimas décadas. Kantrowitz17, estudando o currículo de 28 institutos psicanalíticos americanos, constatou que o número total de horas dedicadas ao estudo dos sonhos em cursos clínicos e teóricos no biênio 1998-1999 foi muito menor do que em 1980-1981. Para muitos analistas, os aspectos intrapsíquicos trazidos pelos sonhos podem ser igualmente obtidos por meio do estudo de sintomas, traços de caráter, atos falhos ou associações livres10,17. Os aspectos neurofisiológicos do sono Na década de 1950, Nathaniel Kleitman e seus alunos William Dement e Eugene Aserinsky descreveram pela primeira vez o sono paradoxal, ou sono REM1,2. Este, que compreende no adulto cerca de 20% do tempo total de sono, é caracterizado pela ocorrência de movimentos oculares rápidos (rapid eye movements, daí a sigla), perda do tônus muscular, freqüências cardíaca e respiratória irregulares e oscilações na pressão arterial sistêmica. Esses autores detectaram ser muito comum, quando uma pessoa era despertada nessa fase do sono, que ela referisse ter estado sonhando. Em 1962, Jouvet demonstrou que o traçado eletroencefalográfico durante o sono REM é muito semelhante ao da vigília: dessincronizado (irregular) e com ondas rápidas (ritmo b). Em contrapartida, no sono profundo, não-REM (NREM), em que não há um aumento da atividade autonômica periférica, predominam um traçado sincronizado e os ritmos d e t - daí ele ser conhecido também como sono de ondas lentas (slow wave sleep)1,21. Hoje em dia se sabe que, embora os sonhos sejam muito mais comuns durante o sono REM, eles podem ocorrer também durante o sono profundo: estima-se que entre 25 e 50% dos períodos de sono NREM estejam associados a sonhos21. Além disso, 5 a 30% dos períodos de sono REM cursam sem qualquer sonho22. Todavia, dependendo da fase do sono, as características dos sonhos são bem diferentes. Comparados com os sonhos da fase NREM, os da fase REM são mais vívidos e mais bizarros, apresentam uma maior participação do sonhador e uma maior estruturação espacial, são mais facilmente lembrados e relatados com um número maior de palavras. Já os sonhos do sono NREM são mais conceituais do que plásticos, compostos por fragmentos da realidade não organizados e não narráveis, raramente são lembrados e apresentam uma participação mais passiva do sonhador1,21. Durante o sono REM, o fluxo sangüíneo cortical é maior do que no sono de ondas lentas e, às vezes, maior até do que na vigília23. Estudos de tomografia por emissão de pósitrons (PET scan) mostram que, durante o sono REM, estão ativados o córtex visual extra-estriatal (associativo) e as regiões límbica e paralímbica; estando, ao mesmo tempo, desativados o córtex visual estriado (primário) e o córtex pré-frontal. Vários aspectos característicos do sonho podem ser relacionados a estes achados: a riqueza de imagens visuais, à ativação do córtex visual associativo e desativação do primário; a intensa expressão emocional, à ativação das regiões límbica e paralímbica; e a bizarrice, incoerência, perda da crítica e esquecimento, à desativação do córtex pré-frontal1,24,25. Acredita-se que a consciência da vigília seja mediada pela noradrenalina e pela serotonina, e a consciência do sonho (do sono REM), pela acetilcolina24,25. A atividade aminérgica (noradrenalina e serotonina) está elevada durante a vigília, diminui durante o sono NREM e se encontra ausente no sono REM. Já a atividade colinérgica é máxima no sono REM e na vigília e mínima ou ausente durante o sono NREM. Recentemente, descobriu-se que as hipocretinas desempenham um importante papel no ciclo sono-vigília: apresentam atividade máxima durante a vigília e ausente durante o sono, tanto no REM como no NREM26,27. Consolidação da memória durante o sono Para grande parte dos neurocientistas, os sonhos não têm qualquer função: são apenas um efeito colateral de processos de consolidação da memória dependentes do sono, a manifestação consciente destes27. Diversos dados indicam que o sono é fundamental para a memória e a aprendizagem. Em primeiro lugar, durante o sono REM, predomina a atividade colinérgica, sendo que a acetilcolina está claramente envolvida nas funções cognitivas28. Em vários estudos experimentais, alguns feitos com ratos, outros com humanos, observou-se que a privação do sono REM ocasionava um prejuízo na aprendizagem de habilidades perceptivas ou perceptivo-motoras (memória implícita), treinadas pouco antes do adormecer27,29,30. Em outros estudos, em que os animais ou humanos foram submetidos a um treinamento desse tipo, mas não foram privados do sono, detectou-se um aumento da duração total do sono REM28,31. Tal aumento só ocorria quando a tarefa era de fato aprendida28. Diante disso, passou-se a acreditar numa relação entre o sono REM e a consolidação da memória implícita32. Por outro lado, um ensaio clínico evidenciou uma diminuição na capacidade de aquisição de memórias explícitas em indivíduos privados do sono NREM30. Em estudos eletroencefalográficos realizados com ratos, pássaros e humanos, constatou-se que padrões de disparos de determinados neurônios do hipocampo registrados na vigília, enquanto se treinavam tarefas cognitivas (memória explícita), reapareciam durante o sono. Esse fenômeno de reativação neuronal, ou reverberação, ocorre predominantemente no sono NREM, mas também é observado no sono REM e mesmo durante a vigília28,33,34. Experiências com ratos evidenciaram que aqueles expostos algumas horas antes de dormir a ambientes não-familiares apresentaram um aumento da expressão do gene zif-268 - particularmente envolvido em processos de neuroplasticidade - no hipocampo e no córtex cerebral durante o sono REM, o que não ocorreu com os animais-controle34. Contudo, há questionamentos quanto ao papel do sono na consolidação da memória. Para Vertes32, parece um contra-senso que o sono, sendo um estado eminentemente amnéstico, tenha esse papel. Além disso, sabe-se que a consolidação de algumas formas de memória se dá também durante a vigília28. Em cerca de metade dos estudos de privação do sono com animais, os resultados não evidenciaram um déficit de aprendizagem32, e em diversos experimentos com humanos submetidos a atividades pré-sono de treinamento, não se observou uma duração aumentada do sono REM31. Por outro lado, critica-se a metodologia de vários estudos com ratos, pois tanto o treinamento como a privação do sono costumam provocar estresse, o qual, por sua vez, pode causar um prolongamento do sono REM e também prejuízo na aquisição de novas memórias28,31,32. Também merece destaque a observação de que os antidepressivos inibidores da mono-amino-oxidase, largamente prescritos num passado recente, embora causem eliminação do sono REM, nunca foram relacionados a um déficit de memória31,32. Siegel31 argumenta que, se o reaparecimento da atividade neuronal da vigília durante o sono estivesse implicado na consolidação das memórias dos eventos diurnos, os sonhos seriam cópias fiéis destes. Mas não parece ser assim. Fosse et al.35 examinaram o conteúdo de um total de 299 relatos de sonhos de 29 voluntários. Embora 65% dos sonhos estivessem relacionados a experiências pessoais recentes, apenas 1,4% deles continha elementos que pudessem ser considerados uma repetição dessas experiências. Segundo Francis Crick - ganhador do prêmio Nobel por suas pesquisas sobre o DNA - e Graeme Mitchison36, sonhamos não com as memórias que estão sendo consolidadas, mas com aquelas que estão sendo apagadas. Para eles, o sono REM é necessário para a eliminação de informações erradas ou inúteis armazenadas no cérebro. O sonho seria um reflexo de um processo de aprendizagem reversa, no qual determinadas sinapses são enfraquecidas. Embora esta formulação não tenha recebido muito apoio nos meios acadêmicos, ela é freqüentemente citada e parece ser coerente com o fato de os sonhos retratarem eventos bizarros ou irreais, os quais precisariam ser eliminados da memória32. A teoria de ativação-síntese A teoria de ativação-síntese, de Hobson & McCarley, apresentada como uma contestação à teoria psicanalítica sobre os sonhos, tem sido amplamente aceita entre os neurocientistas nas últimas duas décadas22. No sono REM, em função de uma diminuição da atividade aminérgica, ocorre uma desinibição do sistema colinérgico, especialmente na ponte. Isso faz com sejam geradas periodicamente as ondas ponto-genículo-occipitais (PGO), detectadas no eletroencefalograma do sono REM, as quais, para os dois autores, são os estímulos básicos dos sonhos. Elas se originam na ponte, propagam-se para o corpo geniculado lateral do tálamo e chegam ao córtex visual (occipital), ativando-o. Dessa forma, com base nos traços de memória visual armazenados, são produzidas as imagens do sonho. Como essa ativação cortical se dá de forma aleatória, são formadas imagens caóticas, as quais, num segundo momento, sofrem um processo de síntese, construindo, assim, uma narrativa seqüencial. Portanto, de acordo com a teoria, os sonhos nascem, no tronco cerebral, sem qualquer significado; eles não estão disfarçando nada, pelo contrário, expressam de forma transparente a atividade cerebral24,37,38. O sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical e o resgate da teoria freudiana Mark Solms22,39 apresenta uma teoria que é, ao mesmo tempo, uma crítica à teoria de ativação-síntese e uma tentativa de confirmação da formulação freudiana sobre os sonhos. Segundo ele, o sono REM e o sonho são estados dissociáveis: um pode ocorrer sem o outro. Pode haver sonhos na fase NREM do sono, e 5 a 10% destes são indistinguíveis dos sonhos da fase REM. Além disso, focos epilépticos em regiões têmporo-límbicas, ou seja, fora do tronco cerebral, podem causar pesadelos estereotipados recorrentes, tipicamente durante o sono NREM. Dos 22 pacientes estudados por ele que apresentavam uma lesão na ponte e, conseqüentemente, perda total ou parcial do sono REM, 18 mantinham a capacidade de sonhar. Por outro lado, Solms aponta que, na literatura científica, já foram registrados mais de 100 casos de eliminação do sonhar provocada por lesões no cérebro anterior que preservaram a ponte e o sono REM. Na maioria desses casos, foi afetada a área da junção parieto-têmporo-occipital, estreitamente relacionada à formação das imagens do sonho. Contudo, em outros pacientes, a eliminação dos sonhos se deveu a uma lesão no quadrante ventromedial do lobo frontal. Essa região, por sinal, era a acometida nas cirurgias de leucotomia pré-frontal, muito utilizadas no passado no tratamento da esquizofrenia e que comumente levavam a um prejuízo no sonhar. Pelo quadrante ventromedial do lobo frontal, passam fibras do sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, o qual envolve a área tegmentar ventral do mesencéfalo, o núcleo acumbente, o hipotálamo, o córtex pré-frontal e o córtex cingulado anterior. De acordo com Solms22, esse sistema é o gerador do sonho. Estudos de PET scan mostram um aumento da atividade nesse circuito durante o sono REM23,40. Além disso, agonistas dopaminérgicos, como o L-Dopa, podem causar sonhos especialmente vívidos e pesadelos. Tais achados reforçam a antiga concepção de uma ligação entre sonho e "loucura" - em ambos há alucinações, perda do juízo crítico, etc. -, já que existe uma clara correlação entre hiperatividade dopaminérgica e ocorrência de sintomas psicóticos22,23. O sistema mesolímbico-mesocortical está relacionado aos estados motivacionais, os quais instigam comportamentos que visam à satisfação das necessidades biológicas, como o beber, o comer e o copular. Substâncias estimulantes e que causam dependência, como cocaína e anfetamina, atuam nesse circuito, causando um aumento na liberação de dopamina no núcleo acumbente, o que, por sua vez, leva a uma sensação de prazer22. Um outro elemento que indica uma relação entre esse sistema dopaminérgico e o sonhar é a alta freqüência com que dependentes químicos em abstinência sonham estar buscando ou usando drogas41. Na concepção de Solms22, o sono REM e o sonho são controlados por mecanismos biológicos diferentes: o primeiro, pela atividade colinérgica da ponte; e o segundo, pelos circuitos dopaminérgicos do cérebro anterior. Estes são a via final comum de várias formas de estimulação cerebral. As ondas PGO freqüentemente exercem esse papel de estimulação cerebral, mas não de forma exclusiva. Ainda segundo Solms, o envolvimento na geração dos sonhos do sistema mesolímbico-mesocortical, claramente relacionado ao que a psicanálise chama de pulsões, parece confirmar a afirmativa de Freud quanto a um desejo ser o instigador do sonho. O papel do sonho na elaboração psíquica de experiências traumáticas Em "A Interpretação dos Sonhos", Freud3 argumenta que mesmo os pesadelos não contradizem a formulação de que os sonhos são realizações de desejos. Segundo ele, nesse caso, apesar da censura onírica, o conteúdo latente consegue chegar à consciência pouco deformado e é reconhecido pelo ego. Este então reage produzindo a ansiedade, com o objetivo de despertar o indivíduo. Freud cita ainda uma variante, os sonhos de punição, nos quais o ego antecipa a culpa (pela realização do desejo reprimido), e o conteúdo manifesto está representando uma fantasia de punição. Seria, portanto, a realização de um desejo do superego, e não do id. Mais tarde, porém, em "Além do Princípio do Prazer", de 1920, o próprio Freud42 aponta uma importante exceção à sua formulação: os sonhos repetitivos que sucedem eventos traumáticos e os que evocam traumas da infância não são realizações de desejos. Tais sonhos, de acordo com ele, obedecem à compulsão à repetição, que seria algo mais primitivo do que o princípio do prazer (e independente deste), e têm como função a sujeição ou dominação das excitações relacionadas à recordação do trauma. Para Ernest Hartmann43, contudo, os pesadelos não são uma exceção; ao contrário, constituem o paradigma de todos os sonhos. Ele estudou os sonhos de pessoas que passaram por experiências traumáticas importantes e observou que, no início, muitas vezes havia uma mera repetição do trauma; mais tarde, contudo, os sentimentos de medo, vulnerabilidade, culpa ou pesar continuavam presentes nos sonhos, mas num contexto inteiramente diferente. Por exemplo, sonhar estar sendo atingido por uma onda gigante ou um furação era muito comum, independentemente de como tivesse sido o verdadeiro trauma. Os sonhos desses indivíduos continham não os estímulos sensoriais relativos ao evento traumático, mas sim a emoção vivenciada. Segundo o autor, os sonhos contextualizam a emoção dominante, expressando-a através de uma representação pictórica. Para Hartmann, esse mesmo padrão é encontrado nos sonhos de pessoas que não sofreram traumas importantes, mas que estão experimentando uma emoção intensa, como em situações de estresse em geral. Ele afirma ainda que, quando não há uma emoção dominante, e várias emoções de menor intensidade estão presentes, tal padrão, embora menos evidente, persiste. Revonsuo15, por sua vez, baseou-se na teoria da evolução para tentar explicar os sonhos. Ele partiu das seguintes premissas: para os primeiros humanos, a vida era curta e cheia de ameaças; os eventos traumáticos freqüentemente são expressos nos sonhos; e os sonhos são fundamentais no processo de aprendizagem. De acordo com sua hipótese, a função dos sonhos é simular experiências traumáticas ou ameaçadoras que foram anteriormente vivenciadas durante a vigília. Tal simulação, segundo ele, leva a uma melhora no desempenho do indivíduo em relação à detecção e enfrentamento de ameaças, o que, conseqüentemente, aumenta a sua sobrevida e chances de procriação. Diversos autores9,14,19,20,44 acreditam que os sonhos são de grande importância para a elaboração de traumas e conflitos psíquicos e têm um papel terapêutico, semelhante ao da psicoterapia. Para explicar esse processo de elaboração, o seguinte modelo da neurociência computacional tem sido utilizado. Acredita-se que, no sonho, as redes neurais se conectem com mais facilidade do que durante a vigília43. Todavia, essas conexões não são feitas de forma aleatória: as emoções seriam os organizadores das redes neurais. Em outras palavras, as representações tendem a se associar a outras que possuam a mesma conotação afetiva2,43. Isso está de acordo com a regra de aprendizagem de Hebb, que diz que "a força de uma conexão sináptica entre dois neurônios aumenta sempre que os neurônios são ativados ao mesmo tempo por uma fonte externa". Enquanto dormimos, as experiências recentes são primeiro emparelhadas com eventos mais remotos, com os quais possuam alguma similaridade, para em seguida serem integradas aos registros permanentes de memória45. Dessa forma, a lembrança de um trauma (da infância ou recente) se associa a outras recordações, o que a torna menos poderosa e perturbadora43. DISCUSSÃO Os sonhos podem ser definidos como estados da consciência que ocorrem durante o sono. Mas ainda sabemos muito pouco sobre eles. Na edição comemorativa da revista Science, relativa ao seu 125º aniversário, é apresentada uma lista de 125 questões ainda não respondidas pela ciência e que irão desafiar os pesquisadores no próximo quarto de século. Entre elas, foram incluídas as seguintes: "qual é a base biológica da consciência?"; "por que dormimos?"; e "por que sonhamos?"46. A hipótese de Freud de que os desejos são os instigadores dos sonhos encontra agora algum respaldo na proposição de Solms22 de uma relação entre sonhos e ativação do sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical. Esse autor, como vimos, baseou-se na observação de pacientes com lesões no cérebro anterior, em estudos de PET scan no sono REM, no efeito de agonistas dopaminérgicos sobre os sonhos e na existência de diversos aspectos em comum entre sonhos e psicose. Todavia, algumas dúvidas ainda pairam sobre essa questão. Por exemplo, faltam dados na literatura científica sobre como os antipsicóticos, que são antagonistas dopaminérgicos, afetam os sonhos, tanto em indivíduos normais como em psicóticos. Além disso, os sonhos e a mais importante das psicoses, a esquizofrenia, possuem diferenças marcantes do ponto de vista fenomenológico: enquanto os sonhos são constituídos basicamente por imagens visuais, na esquizofrenia predominam as alucinações auditivas, sendo bem mais raras as visuais. E não se pode esquecer que o próprio Freud42 reconheceu a existência de exceções à sua regra: os sonhos repetitivos pós-traumáticos. Já a concepção de que uma instância censora deturpa os sonhos tem encontrado pouco apoio. Robins11 defende que o conteúdo manifesto é o próprio sonho, visto que o córtex pré-frontal, que seria fundamental em qualquer mecanismo mental de disfarce dos sonhos, encontra-se inativado durante a fase REM do sono. Por outro lado, a visão de muitos neurocientistas, como Hobson & McCarley37, de que os sonhos não possuem significado é desafiada pela constatação de quanto as emoções experimentadas durante a vigília determinam o conteúdo dos sonhos, como descrito no trabalho de Hartmann43. Os aspectos emocionais das recordações são codificados como memórias implícitas47, as quais provavelmente são consolidadas durante o sono REM32. E segundo Stickgold et al.27, o sono REM pode incrementar o processamento de memórias emocionais. Tudo isso é bastante coerente com a hipótese de que as emoções exercem um papel fundamental na formação dos sonhos. O modelo da neurociência computacional sobre o papel dos sonhos na elaboração psíquica é bastante semelhante ao modelo psicanalítico. O desenvolvimento de múltiplas associações para a representação do trauma corresponderia à incorporação desta ao pensamento do processo secundário, o qual é racional e obedece à lógica e ao princípio da realidade. Incrementar a modalidade de pensamento do processo secundário em detrimento do pensamento do processo primário representa um fortalecimento da capacidade do ego de dominar o id, o que, por sua vez, consiste num dos principais objetivos do tratamento analítico48. Freud3, em 1900, afirma que tanto o pensamento irracional como o racional participam da elaboração do sonho. Robins11 discorda, afirmando que os sonhos expressam unicamente o pensamento do processo primário; o relato deles é que está relacionado ao processo secundário. Mas o neurocientista Claude Gottesmann23 atesta que os sonhos da fase NREM do sono se assemelham ao pensamento do processo secundário. Surge aqui uma questão: se os sonhos são terapêuticos por ocasionarem uma ampliação do campo de atuação do ego e incremento do pensamento do processo secundário, como eles se apresentam com características do pensamento do processo primário? Na seção D do capítulo VII de "A Interpretação dos Sonhos", Freud3 diz que a transformação de pensamentos em imagens visuais favorece a ligação com pensamentos que sofreram o mesmo processo de transformação. Talvez o sonho represente uma parte apenas do processo de elaboração psíquica que ocorre durante o sono. Embora o aumento do número de associações das representações mentais se dê durante grande parte - ou a totalidade - do sono, apenas durante os sonhos, principalmente na fase REM, chegam à nossa consciência informações sobre esse processo. Como durante o sono REM o córtex pré-frontal - fundamental para a atenção e o pensamento racional na vigília - está inativado, a nossa consciência só é capaz de funcionar de acordo com o processo primário e, assim, só capta de forma parcial o processo que está se desenrolando. Em outras palavras, embora durante o sono estejam sendo criadas novas associações entre as idéias, só conseguimos sonhar com condensações ou deslocamentos. Pelo que vimos, o diálogo entre a neurociência e a psicanálise sobre os sonhos pode ser bastante profícuo: proposições da psicanálise têm inspirado e guiado investigações neurocientíficas, e achados da neurociência têm sido úteis para um maior refinamento da teoria psicanalítica. Correspondência: Elie Cheniaux Rua Santa Clara, 50/1213, Copacabana CEP 22041-010 Rio de Janeiro, RJ Tel.: (21) 2547.0670 E-mail: echeniaux@globo.com Recebido em 10/08/2005. Aceito em 26/02/2006. 1. Mancia M. Psychoanalysis and the neurosciences: a topical debate on dreams. Int J Psychoanal. 1999;80(Pt 6):1205-13. 2. Reiser MF. The dream in contemporary psychiatry. Am J Psychiatry. 2001;158(3):351-9. 3. Freud S. A interpretação dos sonhos. 2Ş ed. Rio de Janeiro: Imago; 1987. 4. Freud S. Esboço de psicanálise. Rio de Janeiro: Imago; 1975. 5. Luborsky L, Crits-Christoph P. Understanding transference: the core conflictual relationship theme method. New York: Basic Books; 1990. 6. Greenberg R, Katz H, Schwartz W, Pearlman C. A research-based reconsideration of the psychoanalytic theory of dreaming. J Am Psychoanal Assoc. 1992;40(2):531-50. 7. Smith RC. Studying the meaning of dreams: accurate definition of the independent variable. Biol Psychiatry. 1986;21(11):989-96. 8. Fisher S, Greenberg RP. Freud scientifically reappraised: testing the theories and therapy. New York: John Wiley & Sons, Inc.; 1996. 9. Azevedo AMA. Validação do processo clínico psicanalítico: o papel dos sonhos. Rev Bras Psicanal. 1994;28:775-96. 10. Blechner MJ. The analysis and creation of dream meaning. Contemp Psychoanal. 1998;34:181-94. 11. Robbins M. Another look at dreaming: disentangling Freud's primary and secondary process theories. J Am Psychoanal Assoc. 2004;52(2):355-84. 12. Andrade VM. Sonho e inconsciente original (não-reprimido): a conduta analítica em face de representações inacessíveis à consciência por método interpretativo. Boletim Científico da SPRJ. 2004;2:7-16. 13. Fromm E. A linguagem esquecida. Rio de Janeiro: Zahar; 1962. 14. Cruz JG. A injeção de Irma, cem anos depois: algumas considerações sobre a função dos sonhos. Rev Psicanal. 1996;III:93-109. 15. Revonsuo A. The reinterpretation of dreams: an evolutionary hypothesis of the function of dreaming. Behav Brain Sci. 2000;23(6):877-901. 16. Doin C. A psicanálise e as neurociências: os sonhos. Rev Bras Psicanal. 2001;35(3):687-716. 17. Kantrowitz JL. Brief communication: a comparison of the place of dreams in institute curricula between 1980-1981 and 1998-1999. J Am Psychoanal Assoc. 2001;49(3):985-97. 18. McCarley RW, Hobson JA. The neurobiological origins of psychoanalytic dream theory. Am J Psychiatry. 1977;134(11):1211-21. 19. da Rocha Barros EM. An essay on dreaming, psychical working out and working through. Int J Psychoanal. 2002;83(Pt 5):1083-93. 20. Scalzone F, Zontini G. The dream's navel between chaos and thought. Int J Psychoanal. 2001;82(pt 2):263-82. 21. Nielsen TA. A review of mentation in REM and NREM sleep: "covert" REM sleep as a possible reconciliation of two opposing models. Behav Brain Sci. 2000;23(6):851-66. 22. Solms M. Dreaming and REM sleep are controlled by different brain mechanisms. Behav Brain Sci. 2000;23(6):843-50. 23. Gottesmann C, Joncas S. Letter to the editor: hypothesis for the neurophysiology of dreaming. Sleep Res Online. 2000;3(1):1-4. 24. Hobson JA. The new neuropsychology of sleep: Implications for psychoanalysis. Neuro-psychoanalysis. 1999;1:157-83. 25. Pally R, Olds D. Consciousness: a neuroscience perspective. Int J Psychoanal. 1998;79( Pt 5):971-89. 26. Aloe F, Azevedo AP, Hasan R. Mecanismos do ciclo sono-vigília. Rev Bras Psiquiatr. 2005;27(Suppl 1):33-9. 27. Stickgold R, Hobson JA, Fosse R, Fosse M. Sleep, learning, and dreams: off-line memory reprocessing. Science. 2001;294(5544):1052-7. 28. Maquet P. The role of sleep in learning and memory. Science. 2001;294(5544):1048-52. 29. Karni A, Tanne D, Rubenstein BS, Askenasy JJ, Sagi D. Dependence on REM sleep of overnight improvement of a perceptual skill. Science. 1994;265(5172):679-82. 30. Plihal W, Born J. Effects of early and late nocturnal sleep on priming and spatial memory. Psychophysiology. 1999;36(5):571-82. 31. Siegel JM. The REM sleep-memory consolidation hypothesis. Science. 2001;294(5544): 1058-63. 32. Vertes RP. Memory consolidation in sleep; dream or reality. Neuron. 2004;44(1):135-48. 33. Poe GR, Nitz DA, McNaughton BL, Barnes CA. Experience-dependent phase-reversal of hippocampal neuron firing during REM sleep. Brain Res. 2000;855(1):176-80. 34. Ribeiro S. [Dream, memory and Freud's reconciliation with the brain]. Rev Bras Psiquiatr. 2003;25:59-63. 35. Fosse MJ, Fosse R, Hobson JA, Stickgold RJ. Dreaming and episodic memory: a functional dissociation? J Cogn Neurosci. 2003;15(1):1-9. 36. Crick F, Mitchison G. The function of dream sleep. Nature. 1983;304(5922):111-4. 37. Hobson JA, McCarley RW. The brain as a dream state generator: an activation-synthesis hypothesis of the dream process. Am J Psychiatry. 1977;134(12):1335-48. 38. McCarley RW. Dreams: disguise of forbidden wishes or transparent reflections of a distinct brain state? Ann N Y Acad Sci. 1998;843:116-33. 39. Solms M. New findings on the neurological organization of dreaming: implications for psychoanalysis. Psychoanal Q. 1995;64(1):43-67. 40. Yu CK. Neuroanatomical correletes of dreaming. II. The ventromesial frontal region controversy (dream instigation). J Neuro-psychoanalysis. 2001;3:193-201. 41. Johnson B. Drug dreams: a neuropsychoanalytic hypothesis. J Am Psychoanal Assoc. 2001;49(1):75-96. 42. Freud S. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago; 1920. 43. Hartmann E. Nightmare after trauma as paradigm for all dreams: a new approach to the nature and functions of dreaming. Psychiatry. 1998;61(3):223-38. 44. Guimaraes Filho, PD. Corpo, mente, sonhos: um percurso intrincado. Rev Bras Psicanal. 1995;29(1):69-76. 45. Palombo SR. Connectivity and condensation in dreaming. J Am Psychoanal Assoc. 1992;40(4):1139-59. 46. Kennedy D, Norman C. What don't we know? Science. 2005;309(5731):75. 47. Pally R. Memory: brain systems that link past, present and future. Int J Psychoanal. 1997;78(Pt 6):1223-34. 48. Freud S. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago; 1976. Correspondência: Elie Cheniaux Rua Santa Clara, 50/1213, Copacabana CEP 22041-010 Rio de Janeiro, RJ Tel.: (21) 2547.0670 E-mail: echeniaux@globo.com Datas de Publicação Publicação nesta coleção 16 Nov 2006 Data do Fascículo Ago 2006 Histórico Aceito 26 Fev 2006 Recebido 10 Ago 2005 Creative Common - by-nc 4.0 This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.