SYLVIA ROMANO O CEREBRO E O PENSAMENTO

 O cérebro e o pensamento*

 

 

Georges Canguilhem

 

 

É certo que cada um de nós se envaidece por ser capaz de pensar, e muitos até gostariam de saber como é possível que pensem como de fato pensam. Ao que tudo indica, entretanto, essa questão já deixou manifestamente de ser puramente teórica, pois parece-nos que um número cada vez maior de poderes estão se interessando em nossa faculdade de pensar. E se, portanto, procuramos saber como é que nós pensamos do modo como o fazemos, é para nos defender contra a incitação sorrateira ou declarada a pensar como querem que pensemos. Com efeito, muitos se interrogam a respeito dos manifestos de alguns círculos políticos a res-peito de certos métodos de psicoterapia dita comportamental e a respeito dos relatórios de certas empresas de informática. Eles acreditam estar discernindo aí a virtualidade de uma extensão programada de técnicas que objetivam, em última análise, a normatização do pensamento. Para simplificar sem, espero, deformar, bastará citar um nome: o de Leonid Pliouchtch, e uma sigla: a da I.B.M.

Da mesma forma que os biólogos acharam que só podiam falar do cérebro humano situando esse cérebro no extremo de uma história dos seres vivos, parece-me também apropriado, para começar uma palestra sobre o cérebro e o pensamento, situar essa questão, antes de mais nada, na história da cultura.

Se, hoje, é fato notório ser o cérebro humano o órgão do pensamento, é preciso, entretanto, lembrar que um dos maiores filósofos da Antiguidade, Aristóteles, ensinava que a função do cérebro, antagonista da do coração, é a de arrefecer o corpo do animal. Foi Hipócrates quem ensinou que o cérebro é a sede das sensações, o órgão dos movimentos e dos juízos. É o que prova o tratado hipocrático Da doença sagrada (isto é, a epilepsia). Essa doutrina, retomada em parte por Platão, notadamente no Timeu, deve a Galeno o fato de ter-se imposto na cultura ocidental. O aristotelismo militante de Galeno não o desviou da tarefa de procurar a confirmação da tese hipocrática, praticando experiências muito engenhosas no sistema nervoso e no cérebro. Tendo recebido de suas origens e conservado no correr dos séculos a feição de uma questão concernente à sede da alma, nosso problema de hoje vem suscitando, a partir da filosofia cartesiana, uma filiação de teorias e uma sucessão de polêmicas de que somos hoje os herdeiros. É indispensável que façamos um rápido histórico para identificar a época em que devemos iniciar nosso exame. Trata-se do século XIX, momento em que se travou o combate do positivismo contra o espiritualismo: a teoria das localizações cerebrais.

Costuma-se, com demasiada freqüência, situar o início desse histórico em Descartes. Isso é um perfeito contra-senso. Descartes ensinava que a alma indivisível está unida ao corpo por inteiro por meio de um órgão único e, por assim dizer, fisicamente pontual: a glândula pineal (o conarium dos antigos, a nossa epífise)1. Não se tratava, portanto, de unir um pensamento dividido a um organe fédéral (órgão central do governo). Aqueles que posteriormente não entenderam que a função da glândula pineal era uma função metafisiológica, criticaram Descartes e foram procurar em outro lugar do cérebro a sede do sensorium commune. A lista é longa, de Willis a La Peyronier. Até mesmo a invenção da guilhotina deu margem a argumentações - por parte de médicos eminentes como Soemmering, correspondente de Kant - em favor desta ou daquela teoria. Cabanis (1795), para quem o cérebro secreta pensamentos assim como o fígado secreta a bílis, inseriu-se na controvérsia e debateu o caso da decapitação de Charlotte Corday.

Em 1810, Gall publicou sua Anatomia e fisiologia do sistema nervoso em geral e do cérebro em especial. Foi naquele momento que surgiu, efetivamente, a ciência do cérebro, embora ela devesse, em seguida, ultrapassar o obstáculo inicial da frenologia, feita ao mesmo tempo de ingenuidade e de pretensão. O ponto forte da doutrina de Gall é a exclusividade que ele atribui ao encéfalo e, mais especialmente, aos hemisférios cerebrais como "sede" de todas as faculdades intelectuais e morais. O cérebro, entendido como um "sistema de sistemas", é apresentado como o único suporte físico do quadro das faculdades. A frenologia é uma cranioscospia baseada na correspondência entre o conteúdo e o continente, entre a configuração dos hemisférios e a forma do crânio. Em oposição à ideologia sensualista e contra aquilo que hoje seria chamado de aquisição da experiência sob pressão do ambiente, Gall e seus discípulos sustentam a inerência das qualidades morais e dos poderes intelectuais. Mas, de forma oposta aos metafísicos espiritualistas, eles fundamentam esse inatismo no substrato anatômico de um órgão e não na substancialidade ontológica de uma alma. O interesse da controvérsia pode parecer, à distância, puramente teórico, quando na verdade, ele não o era.

Ridicularizou-se bastante a corcova dos matemáticos,2 mas, nestes últimos tempos, já não se pensa em rir dos cromossomos dos "superdotados" ou da hereditariedade genética do quociente intelectual porque, mesmo que as pessoas só tenham um quociente intelectual médio, elas conseguem perfeitamente entrever as conseqüências possíveis disso no campo das condições sociais. É preciso lembrar, entretanto, que já Gall e Spurzheim não paravam de falar do alcance prático de suas teorias na área da pedagogia, da identificação das aptidões (o que se chama hoje de orientação), da medicina e na esfera da segurança (prevenção da delinqüência). Uma das ilustrações de Daumier para o poema satírico de Antoine-François Hyppolite Fabre, Nemesis médicale (1840), retrata um frenologista diante da tradicional coleção de crânios de gesso, apalpando o crânio de um menino cuja mãe, uma mulher do povo, o tinha levado ao consultório para um diagnóstico de aptidões. E na sua Histoire de la phrénologie, Georges Lanteri-Laura relata a rapidez com a qual a frenologia, trazida para os Estados Unidos pelo próprio Spurzheim e por um de seus discípulos, um escocês chamado Combe, transformou-se em frenologia aplicada, um instrumento usado para a orientação e a seleção profissional e até mesmo para fins de consulta matrimonial. Pode-se dizer que a frenologia teve, naquela ocasião, nos Estados Unidos, um sucesso comparável e, por razões comparáveis, ao sucesso da psicanálise.

Mas não se pode de forma alguma subestimar - pois ela é capital - a influência da frenologia sobre a psicopatologia porque, senão, seria impossível entender que as primeiras localizações cerebrais das funções intelectuais tenham estado ligadas aos problemas da fala e da memória das palavras. Em matéria de afasia, Broca e Charcot confirmaram a descoberta de Bouillaud, aluno de Gall, ou seja, a localização da função da linguagem nos lóbulos anteriores do cérebro (1825-1848). Na segunda metade do século XIX, a exploração das funções do cérebro apoderou-se da corrente elétrica galvânica ou farádica como instrumento privilegiado de análise. E, paralelamente, a neurologia experimental foi alçada por alguns ao nível de uma filosofia.

Com efeito, desde 1835, um médico do Hospital de Bicêtre, Lélut, tinha escrito o seguinte na obra intitulada Qu'est-ce que c'est la phrénologie?: "Para ser totalmente completo, só faltaria a esse sistema fisiológico-psicológico tratar do modo de ação do cérebro na produção dos fatos intelectuais e morais, isto é, explicar o mecanismo de pensamento através da hipótese moderna da eletrização ou da eletromagnetização da massa encefálica" (p. 239). Meio século depois, as pesquisas de Ferrier, Fritsch, Hitzig, Flechsig inauguravam o que Hecaen e Lanteri-Laura chamaram de "idade de ouro das localizações cerebrais", ensejando o estabelecimento do primeiro mapa topográfico do cérebro. Mas, já em 1891, o psiquiatra suíço Gottlieb Burckhardt convertia os conhecimentos topográficos em técnicas de psicocirurgia e começava a praticar, na verdade sem grande sucesso, o que foi chamado, posteriormente, de lobotomia.3 Digna de nota, novamente, foi a rapidez com a qual o suposto conhecimento das funções do cérebro foi investido em técnicas de intervenção, como se o processo teórico fosse congenitamente suscitado pelo interesse com relação à prática.

Paralelamente às pesquisas sobre neurologia cerebral, a psicologia tendia a não ser mais do que uma sombra da fisiologia, encorajada por uma filosofia mal pensante que buscava, nessa psicologia, suas razões para mal pensar. O corifeu, na França, é Hyppolite Taine. Já em 1854, na obra Les philosophes français au XIXe siècle, ele contrapõe aos discursos espiritualistas de Paul Royer-Collard as pesquisas experimentais sobre o cérebro praticadas por Flourens, que dificilmente poderia ser acusado de materialismo. E a obra de 1870, De l'intelligence, vai tornar plausível, a partir de uma teoria sobre a sensação, a tese conhecida sob o nome de paralelismo psicofisiológico que os filósofos da universidade francesa, os mestres daqueles que foram nossos mestres, inclusive Bergson, fizeram questão de refutar sob o olhar reprovador de Théodule Ribot, uma espécie de executor testamentário de Taine.

Mas, até o próprio Freud, autor, em 1888, de um artigo "Cérebro" para um dicionário médico, não deixou de reconhecer-se devedor de Taine. Tendo redigido, em 1895, seu trabalho Projeto para uma psicologia científica, ele escreveu para Fliess (fevereiro de 1896): "O livro de Taine, De l'intelligence, me agrada muito. Espero que algo possa sair dali". É talvez o que tenha autorizado Ludwig Binswanger a escrever que as concordâncias são numerosas entre o naturalismo psicológico de Taine e o de Freud. Contudo, desde 1900, ao introduzir na "Traumdeutung" o conceito de aparelho psíquico, Freud, sem renunciar à topografia das localizações, mostrou-se interessado, antes de tudo, pelo que ele chamava de "tópica psíquica". Em 1915, ele acabou escrevendo, no capítulo sobre o "Inconsciente" da Metapsicologia: "Todas as tentativas para adivinhar, a partir daí (as localizações cerebrais) uma localização dos processos psíquicos, todos os esforços para pensar as representações como estando armazenadas nas células nervosas fracassaram radicalmente". E ele acrescenta que, no momento, a tópica psíquica (distinção dos sistemas Ics., Pcs.,Cs.) "nada tem a ver com a anatomia".

Para me manter apenas na esfera francesa, lembrarei dois títulos de obras da mesma época, expressamente concebidos sem referência a conceitos filosóficos. Se, em 1905, Alfred Binet publicava um ensaio sobre a natureza da sensação com o título L'Âme et le Corps, em 1923, Henri Piéron, diretor do Instituto de Psicologia, publicava Le Cerveau et la Pensée.

O cérebro e o pensamento estão unidos de modo tão estreito e até mesmo confundidos no pensamento - ou no cérebro - dos fisiologistas, dos médicos, dos psicólogos, que remeter ao cérebro toda a responsabilidade por um drama dolorosamente sentido se impõe até mesmo aos poetas. E é dessa forma que um herói das letras, poeta e ator, em dificuldades com seu ego, escreve a Jacques Rivière: "A única coisa que peço agora é sentir meu cérebro... Sou um homem que já sofreu demais com o espírito. Eu só espero que meu cérebro mude e que suas gavetas superiores se abram". Trata-se de Antonin Artaud. Foi em maio de 1923 e em março de 1924. E foi também no ano universitário de 1923-1924 que um professor do Collège de France - aluno de Charcot, como Freud o foi, e médico particular de um outro herói das letras, também em dificuldades com seu ego, chamado Raymond Roussel - Pierre Janet,4 declarou numa das suas aulas:

Foi um exagero vincular a psicologia ao estudo do cérebro. Há cerca de cinqüenta anos que nos falam demais do cérebro: afirma-se que o pensamento é uma secreção do cérebro, o que é uma bobagem, ou então que o pensamento está em relação com as funções do cérebro. Haverá uma época em que riremos disso tudo: isto não é exato. O que chamamos de pensamento, os fenômenos psicológicos, não são a função de nenhum órgão em particular: não é nem a função da ponta dos dedos nem tampouco a função de uma parte do cérebro. O cérebro não é senão um conjunto de comutadores, um conjunto de aparelhos que movimenta os músculos através da excitação. O que chamamos de idéia, o que chamamos de fenômenos de psicologia, são um processo conjunto, o indivíduo todo tomado em seu conjunto: não devemos separar um do outro. A psicologia é a ciência do homem por inteiro e não é a ciência do cérebro: este é um erro psicológico que fez muito mal durante muito tempo.5

Esse retrospecto de uma psicologia, talvez hoje injustamente esquecida, não foi feito somente para mostrar erudição, mas é, pelo contrário, uma preocupação da atualidade. Esse relato permite creditar a Janet uma posição deliberada de não-conformismo em matéria de patogenia e de terapêutica das doenças ditas mentais, uma posição tão contestadora quanto a que poderia ter, hoje em dia, um adepto da anti-psiquiatria. Quando deixamos de acreditar na primazia do cerebral, tornamo-nos céticos com relação à eficiência de um internamento quase carcerário. Segundo Janet, o conceito de alienação não é uma construção preliminarmente psicológica, ele é, antes de mais nada, "algo que se deve à polícia". Janet declara: "Um demente é um homem que não conseguiria viver nas ruas de Paris". Por pouco ele não estaria declarando serem as ruas de Paris dementes. Esse homem tranqüilo que escreveu em 1927, na obra La pensée intérieure et ses troubles, "o vocábulo `louco' é portanto um termo policial", teria, quem sabe, aprovado sorrindo o conselho escrito nas paredes de sua universidade pelos alunos de Oxford: "Do not adjust your mind, there is a fault in reality" - Vocês não precisam corrigir seu espírito, porque é a realidade que claudica.

Em resumo, um século após Gall e Spurzheim, era possível ser psicólogo sem ter que buscar argumentos na neurofisiologia. Mas voltemos por um instante à frenologia, para entender melhor a questão filosófica ligada ao problema "cérebro-pensamento".

A explicação das funções intelectuais e de seus efeitos pela estrutura e pela configuração do cérebro traz, de imediato, uma ambigüidade que sua vulgarização tornou manifesta porque grosseira. Uma das numerosas obras de vulgarização e de propaganda frenológica, Le petit Docteur Gall, de Alexandre David, contém uma página de comentários sobre um retrato de Descartes tirado do Traité de physiognomonie de Lavater (1778). Trata-se de um desenho copiado de uma pintura de Franz Hals. O frenologista, discípulo de Spurzheim, descobre na cabeça de Descartes "todas as faculdades intelectuais perceptivas": individualidade, configuração, extensão, peso, cor, localidade, cálculo, ordem, eventualidade, tempo, tons e linguagem. Explica-se assim que Descartes tenha tido muita regularidade na administração de seu interior, que ele tenha aplicado a álgebra à geometria e a matemática à ótica. Explica-se também, pela presença cerebral da "localidade", sua existência nômade. E felicita-se um certo senhor Imbert, sábio frenologista, por ter observado que o cogito é um simples efeito da "eventualidade", ou seja, "da faculdade que percebe as ações que estão em nós". O Cogito não é de forma alguma um efeito das "faculdades intelectuais reflexivas", o que justifica o que Spurzheim havia dito, ou seja, que Descartes não é tão grande pensador quanto se pensava.

Em suma, antes da frenologia, acreditava-se que Descartes era um pensador, um autor responsável pelo seu sistema filosófico. Segundo a frenologia, Descartes é portador de um cérebro que pensa sob o nome de René Descartes. Exatamente porque Descartes é seu cérebro, no qual a "eventualidade" está presente, é que ele percebe nele próprio o cogito. Porque Descartes é seu cérebro, no qual a "localidade" está presente, é que ele se desloca como um nômade, do Poitou até a Suécia, passando por Paris, por Ulm, por Amsterdã, onde ele precede os hippies que ali se sentem à vontade por outros motivos diferentes dos seus. Em suma, a partir da imagem do crânio de Descartes, o sábio frenologista conclui que todo o Descartes, biografia e filosofia, está num cérebro que é preciso dizer seu cérebro, o cérebro de Descartes, já que o cérebro contém a faculdade de perceber as ações que estão nele. Mas, finalmente, que ele é esse? Estamos aqui no âmago da ambigüidade. Quem ou o que diz eu, não somente no início do Discurso do método, mas sobretudo no início da Geometria de 1637: "Eu nomearei a unidade... Eu não terei receio de introduzir esses termos..., etc." ?

Durante todo o século XIX, o Eu penso foi, por diversas vezes, recusado ou refutado em proveito de um pensar sem sujeito pessoal responsável. Lichtenberg, na sua obra Philosophische Bemerkungen, disse: "Es denkt sollte man sagen sowie man sagt es bliekt". Dever-se-ia se dizer isso pensa como dizemos isso brilha.

O neurologista Exner, citando essa frase de Lichtenberg num memorial, Über allgemeine Denkfehler, 1889, escreve: "As expressões `eu penso', `eu sinto', não são formas corretas de se expressar. Seria preciso dizer "isso pensa em mim" (es denkt in mir), "isso sente em mim" (es fühlt in mir). O peso dos argumentos não depende de nossa vontade, forma-se um juízo em nós (es denkt is uns)."

Anteriormente, Rimbaud e Nietzsche, independentemente um do outro, acharam que deviam se desculpar por terem cedido à ilusão de seu ego pensante. Na famosa carta a Izambard de 1871, onde Rimbaud se define como um vidente, ele acrescenta: "é falso dizer: eu penso. Dever-se-ia dizer: pensam-me". E, em Além do bem e do mal, em 1886, Nietzsche escreve: "É uma alteração dos fatos pretender que o sujeito eu seja a condição do atributo `eu penso'. Alguma coisa pensa, mas, daí a acreditar que esse algo é o antigo e famoso eu é uma pura suposição" (§ 17).

Nietzsche retomou a mesma idéia diversas vezes. A lista pode ser encontrada no livro de Bernard Pautrat, Versions du soleil, no capítulo Decomposition du cogito. Quanto maior for a concordância na denúncia de uma ilusão, tanto mais o fato da ilusão será incontestável, mas também maior será o dever de dar conta dela.

"Wo Es war soll Ich werden." Essas palavras de Freud, cuja interpretação divide as escolas de psicanálise, pode ser desviada para nosso uso. E a última frase desse nosso histórico é uma pergunta: como é que um eu penso pode advir n'isso que o fisiologista de hoje, depois do frenologista, indica e descreve. N'isso, um cérebro?

O que chamamos "pensar"? Embora, de acordo com as mundanidades filosóficas, a questão tenha uma ressonância heideggeriana, nós a tomaremos pelo seu lado banal, trivial. Segundo a definição que dermos de "pensar", admitiremos pensadores desta ou daquela espécie. O autor de Pensées, o inventor do "caniço pensante", escreveu: "A máquina de aritmética tem efeitos que se aproximam mais do pensamento do que tudo aquilo que os animais fazem; mas ela não faz nada que permita dizer que ela tem vontade como os animais". E, aqui, estamos quase no computador, cujos efeitos se aproximam ainda mais do pensamento do que fazia a máquina de Pascal. Melhor ainda, eles ultrapassam o pensamento. A metáfora, agora repetida, do cérebro-computador justifica-se na medida em que se entende como pensamento as operações de lógica, o cálculo, o raciocínio. Razão, ratio, deriva etimologicamente de reor, calcular. Quanto à vontade dos animais, mesmo se considerarmos que Pascal tenha estendido de modo abusivo esse conceito a toda sorte de condutas orientadas pela busca de uma satisfação vital, devemos convir que existe pelo menos um animal capaz de desejar um efeito sem qualquer precedente na sua experiência. É o homem, inventor das máquinas, como o próprio Pascal. Se a máquina aritmética é o efeito do cálculo de um cérebro do qual ela própria é uma aproximação, pelo menos devemos admitir que os cinqüenta modelos dessa máquina teimosamente construídos antes do modelo definitivo são o indício de uma vontade de construir conscientemente motivada. Pascal acha que não há uma abordagem mecânica desse tipo de motivação. Se não é possível conceber uma máquina motivada pelo projeto de construir uma máquina, se não existe computador na origem absoluta do computador, o que proibiria o filósofo de se interrogar a respeito de outras questões diferentes das dos fisiologistas? Isso não significa de forma alguma contestar o saber do fisiologista na sua área. A estrutura dos neurônios do cérebro e a relação entre eles são a condição de seu exercício. Os progressos e a retificação do saber dos fisiologistas é assunto de fisiologistas. O fisiologista manda na própria casa. Mas o filósofo é indiscreto em qualquer lugar.

O computador é o resultado de uma tentativa de mimetizar, graças à eletrônica do século XX, as propriedades já reconhecidas no cérebro pela fisiologia do século XIX: recepção de estímulos, transmissão e desvio de sinais, elaboração de respostas, registro de operações. A descrição desse esquema funcional na linguagem atual da informática não o altera de modo fundamental. Pode-se falar à vontade do computador como se fosse um cérebro ou do cérebro como se fosse um computador. Na sua obra Mémoire pour l'avenir, François Dagognet escreveu: "A verdadeira proeza é o homem ter conseguido exteriorizar os processos cerebrais graças aos quais ele calcula, fala e pensa" e, inversamente, que "O próprio cérebro... sai redefinido em razão de sua substituição pela memória material".

Existe aí um caso particular de estratégia teórica, característica da ciência atual: a partir de observações e de experiências conduzidas em determinado campo da realidade, constrói-se um modelo, e, a partir desse modelo, continua-se a refinar o conhecimento como se estivéssemos lidando com a própria realidade.

Fazemos a seguinte pergunta: o fisiologista admite perfeitamente que o cérebro seja uma parte de um organismo, isto é, de acordo com a definição de Nageotte, de um mecanismo "cuja edificação esteja compreendida no seu funcionamento". Será que essa propriedade paradoxal, em comparação com os mecanismos artificialmente produzidos pelo homem, é ou não é ampliada por outra propriedade paradoxal que os fisiologistas atribuem ao cérebro, ou seja, a de ser um órgão cuja representação de seu funcionamento está inserida no próprio funcionamento? Para os redatores da revista Pour la Science,6 que publicaram um número dedicado ao cérebro, esse "grande computador da nossa vida" descobriu "suas maravilhosas propriedades refletindo sobre sua própria natureza". Mas eles são somente jornalistas. David Hubel, conhecido neurofisiologista, recusa o argumento "materialista-espiritualista" (ou seja dualista) segundo o qual o computador cerebral seria incapaz de entender a si próprio. Hubel reconhece, aliás, que o cérebro humano (1012 neurônios; 1014 sinapses, ou seja, cem mil bilhões) é diferente do computador, cujos componentes, até mesmo no futuro, não teriam condições de atingir esses números. Além disso, o cérebro não funciona segundo um programa seqüencial linear. Na mesma revista, Francis Crick mostra, ele também, como e em que a analogia entre o cérebro e o computador é enganadora. Ele constata, com desgosto, que o fisiologista não conseguiu descrever a percepção cons-ciente de forma a esclarecer a experiência "muito direta" que nós temos dela. "Suspeita-se fortemente ser esse fenômeno o resultado de uma retroação das vias de cálculo sobre si mesmas, mas não se sabe exatamente como isso ocorre". Como se uma retroação pudesse ser considerada transcendente em relação a uma ação direta.

Existem, entretanto, fisiologistas que não confundem os marcos e os limites de sua ciência e que, ao se esforçarem em fazer recuar esses limites, mostram-se prudentes quanto à possibilidade de ultrapassá-los. Um biomatemático, Pierre Nelson, termina o prólogo de sua obra, Logique des neurones e du système nerveux, tecendo reflexões sobre a "insatisfatória objetividade" do tipo de explicação que confunde o que é sentido com o que é lógico. O professor Michel Jouvet, ao responder a uma pergunta de um jornalista do Nouvel Observateur7 sobre se ele acreditava ser possível, um dia, a descoberta de uma fórmula química da "consciência da consciência", respondeu-lhe: "Um sistema só pode entender outro se ele for mais complexo. Lógico... Então, nosso cérebro irá poder decifrar seus próprios segredos? Mesmo com o auxílio de um computador, não estou muito certo de que conseguiremos traduzir todos os processos de consciência em termos neurobiológicos". Mas será essa questão realmente uma questão de lógica? Anteriormente, François Jacob havia invocado o teorema de Gödel como base para uma resposta semelhante à de Jouvet.8 Cabe perguntar se não se estaria tomando muitas liberdades com relação a esse teorema da limitação ao invocá-lo para questões estranhas ao seu campo de validade, a aritmética formal. Devemos, entretanto, elogiar esses biólogos pela sua reticência em deduzir a consciência de uma ciência do cérebro, mesmo fortalecida com o recurso do computador.

Mas a surpresa não poderia ser maior ao constatar o interesse manifestado pelo público no tocante à maquinaria eletrônica do pensamento humano. A lista das publicações de cultura anglo-saxã na área cujos títulos aliam as palavras Mind ou Brain a Machine é bastante longaQuanto à divulgação junto ao público, Bernard D'Espagnat observa, em obra recente, não existir espiritualista hoje em dia que não se sinta obrigado a pensar no seu espírito em termos de contatos de computador. Inútil sublinhar o uso ou, melhor dizendo, o abuso de expressões não pertinentes como "cérebro consciente", "máquina consciente", "cérebro artificial" ou "inteligência artificial". Mas, aqui, cabe perguntar por que essas justaposições de termos incompatíveis na ciência? Certamente, porque essas metáforas, nascidas do uso legítimo de modelos heurísticos ou de simuladores sofisticados pelos cientistas, foram habilmente transformadas e repetidas em lugares-comuns publicitários, no estágio industrial da informática. Como poderíamos estar contra o computador se nosso próprio cérebro é um computador? O computador na sua própria casa? Porque não, já que temos um computador em cada um de nós? Um modelo de pesquisa científica foi convertido em máquina de propaganda ideológica com dois objetivos: prevenir ou desarmar a oposição à invasão de um meio de regulação automatizado das relações sociais; dissimular a presença dos tomadores de decisão que existem por detrás do anonimato da máquina.

Mas, quer se trate de máquinas analógicas ou de máquinas lógicas, uma coisa é o cálculo ou o tratamento de dados de acordo com instruções e outra é a invenção de um teorema. Calcular a trajetória de um foguete espacial é coisa que cabe a um computador. Formular a lei da atração universal é uma performance que não está na esfera dele. Não existe invenção sem a consciência de um vazio lógico, sem tensão em direção a um possível, sem os riscos de se enganar. Quando perguntaram a Newton como é que ele tinha encontrado o que ele procurava, ele teria respondido: "pensando sempre nisso". Que sentido devemos reconhecer nesse "isso"? Que situação é essa de pensamento onde se busca o que não se vê? Que lugar para o isso numa maquinaria cerebral que seria montada para relacionar dados sob a limitação de um programa? Inventar é criar informação. Perturbar hábitos de pensamento, o estado estacionário de um saber.9 Da mesma forma que, no "Jogador de xadrez" de Torrès y Quevedo, um fonógrafo pode proclamar "Xeque ao Rei", também podemos imaginar uma máquina gritando "Eurêka" após haver encontrado a solução de um problema cujos dados e dificuldades lhe tenham sido comunicados. Não se imagina essa máquina descobrindo as funções fuchsianas do modo como Henry Poincaré relatou essa descoberta em Science et Méthode. Após vários períodos de trabalho infrutíferos, abando nados e retomados, Poincaré percebe, num relance, uma relação de identidade entre as transformações que lhe permitiram definir essas funções e aquelas da geometria não euclidiana. Foi em Coutances, subindo num ônibus: "No momento em que eu colocava meu pé no degrau, veio-me à idéia..." Será que algum dia existirão autômatos lógicos aos quais virão idéias? Eu responderia com duas citações. No seu estudo Au sujet d'Eurêka, Valéry escreveu que "as pesquisas insensatas são parentes das descobertas imprevistas". E um matemático que se interrogava sobre as dificuldades de construção de modelos para nos aproximar do acaso e formalizar o informalizável, René Thom, escreveu: "Nessa tarefa, o cérebro humano, com seu velho passado biológico, suas avaliações hábeis, sua sutil sensibilidade estética, permanece e permanecerá ainda por muito tempo insubstituível".10

Mas, se não é possível, assimilando o cérebro a uma máquina eletrônica, entender como o cérebro é capaz de inventar, será que isso pode ser entendido através de uma explicação química? Da mesma forma como o uso de certas substâncias ditas psicotrópicas vem permitindo uma melhoria real de certas doenças nervosas ou mentais, pode-se formular a esperança de estender à causa das perturbações o que se conseguiu sobre seus sintomas. Daí o interesse crescente pela química cerebral e pelas moléculas próprias à modificação da transmissão das excitações no nível das sinapses. A descoberta dos neuropeptídeos - encefalinas e endorfinas -, substâncias endógenas, assegurou um certo poder de inibição da dor psíquica e dos sofrimentos morais.

A hostilidade da antipsiquiatria contra a psicofarmacologia, a denúncia sistemática das "camisas-de-força químicas", recobre um tanto de cegueira injusta para os casos de problemas metabólicos que encon tram racionalmente sua suspensão ou sua atenuação na intervenção química dos neuromediadores. É o caso da doença de Parkinson, à qual sabemos contrapor a ação da L.Dopa, e é o caso também da esquizofrenia, tranqüilizada ou até mesmo curada através da administração de clorpromazina, cuja descoberta foi julgada tão importante quanto o foi, para a cirurgia, a dos anestésicos.

Teria sido muito surpreendente se, em razão de alguns resultados espetaculares e estimulantes, os psicofarmacologistas não tivessem nutrido a esperança de estender os poderes da química, não mais somente às deficiências do cérebro para atenuá-las, mas, também e sobretudo, ao desempenho deste, para estimulá-lo. Os redatores do artigo da revista Newsweek11 acreditam que está chegando o momento em que se descobrirá, da mesma forma como foram descobertas as substâncias destinadas a fortalecer a memória, substâncias próprias a fortalecer a invenção. Fala-se de uma possível droga capaz de suscitar o sentimento do déjà vu para ajudar as pessoas a resolverem problemas que só lhes pareçam difíceis porque sem precedentes. Não se fala de quais problemas se trata. Existe uma grande distância entre problemas de manutenção ou de contra-espio-nagem e um problema de matemática como, por exemplo, a demonstração geral do famoso teorema de Fermat. Como não ironizar o extremismo ao qual chegam os vulgarizadores? E como deixar de observar que a invenção dessa droga - que poderíamos chamar de pílula da invenção ou da concepção - seria ela própria facilitada grandemente pela invenção prévia daquilo que ela objetiva produzir? Noutras palavras, o projeto de pesquisa para um sustento da heurística seria tributário, por sua passagem da potência ao ato, da realização prévia daquilo de que ele é o projeto. Pensa-se resolver o problema particular da solução dos problemas em geral, no nível das microestruturas cerebrais, pela invenção de uma espécie de pílula pró-solução (ou pró-concepção). Trata-se, na verdade, apenas da reduplicação do problema ou, para falar de modo mais simples, do uso de uma alavanca sem ponto de apoio.

Conseqüentemente, apesar da existência e dos felizes efeitos de alguns mediadores químicos, apesar das perspectivas abertas por certas descobertas em neuroendocrinologia, não parece ter chegado o momento de anunciar, à moda de Cabanis, que o cérebro vai secretar pensamento como o fígado secreta bílis.

Não esqueço que Pascal não esqueceu da memória. Lembro-me de dois de seus Pensamentos: "A memória é necessária para todas as operação da razão" e "quando eu era criança, eu apertava meu livro...". Na primeira, Pascal visa a memória do calculador, do pesquisador, do administrador, do estrategista. A memória-arquivo e inventário. Aquela que nos orgulhamos de imitar, de reduzir, de aliviar, e até mesmo, de substituir através do tratamento automático dos bancos de dados por uma memória artificial isenta das doenças da memória.

Mas essa "Memória para o futuro", segundo a expressão de François Dagognet, que futuro ela abre para a memória? Para a memória do "Quando eu era criança...", para a memória do tempo perdido e do tempo reencontrado, para essas lembranças às quais Proust se referiu quando escreveu, nas últimas linhas de sua obra, "que elas acabarão perecendo quando o desejo de um corpo vivo não as mantiver mais"?

O exame do assunto mereceria mais do que somente um momento na conferência e mais do que uma conferência. É voluntariamente que não tratarei de uma questão que deveria logicamente conduzir à interrogação sobre a probabilidade de ver, um dia, na vitrine de uma livraria, a Autobiografia de um Computador, na falta de sua Autocrítica.

Mas, o que chamamos "pensar" quando se trata desse poder do ser vivo que Pascal chamou de vontade e cuja capacidade de simulação ele nega à maquina? Essa restrição poderia parecer imprópria a todos aqueles que lhe oporiam os robôs de hoje, os animais eletrônicos e as tartarugas de GreyWalter ou de Albert Ducrocq, todos máquinas que têm, reconhecidamente, o sentido da oportunidade, da adaptação às circunstâncias e que possuem a capacidade de aprender. Pascal não poderia prever que Henri Piéron, em 1908, iria utilizar o seu termo "comportamento" para traduzir a palavra inglesa behaviour, adotada no início do século nos Estados Unidos por Thorndike, Jennings e Watson, para designar os comportamentos animais polarizados como fenômenos biológicos de adaptação ao meio ambiente. Ainda que se continuasse chamando de psicologia esse estudo dos comportamentos - na verdade, por uma estranha conduta de exclusão e de retenção -, proibia-se qualquer referência ao pensamento e à consciência, interessando-se pelo cérebro somente como uma caixa preta onde apenas as entradas e as saídas eram levadas em conta. Distinguia-se, decerto, entre as condutas dos vivos, algumas que se continuava a chamar de inteligentes, mas sem referência a qualquer capacidade reflexiva de juízo. Objetivamente, a inteligência é a correção do comportamento em função dos obstáculos encontrados na busca de uma satisfação.

É notório que o estudo objetivo dos comportamentos utiliza as técnicas do condicionamento através de dispositivos de aprendizagem. Mas nem sempre se distingue suficientemente dois tipos de condicionamento: o condicionamento pavloviano através do enxerto de uma relação estímulo-resposta numa relação de tipo reflexo inato; e o condicionamento skinneriano ou instrumental, que é a consolidação sistemática, através do efeito reiterado de uma recompensa obtida, de uma conduta de solução satisfatória conseguida inicialmente por acaso. Na caixa de Skinner, o rato ou o pombo adquirem, através da repetição de situações erro-castigo e correção-recompensa, o comportamento aparentemente inteligente de um cálculo de vantagens. Numa e noutra teoria do condicionamento estima-se poder extrapolar uma conclusão do animal para o homem, e não se pode contestar que muitos daqueles que as defendem estão à beira de confundir adestramento com aprendizagem e de considerar qualquer meio como um ambiente, inclusive o fato social e cultural no caso do homem, e, finalmente, de passar progressivamente do conceito de educação ao de manipulação. A qual dessas duas teorias deveríamos vincular as técnicas de orientação ou de direcionamento dos indivíduos no meio social, através da distribuição manifesta ou camuflada de recompensas?

Para se justo, é preciso reconhecer que a teoria do condicionamento resultante dos trabalhos de Pavlov é incorporada, por uma certa antropologia que adota o materialismo dialético, a uma filosofia que se auto-denomina não-reducionista, na medida em que ela reconhece de modo expresso que o ambiente cultural humano é um efeito histórico e não um dado natural. Sob essa ótica, o pensamento não é mais uma função puramente cerebral, um produto biológico. Ele é um efeito social relativo ao tipo de sociedade no qual ele intervém. Numa sociedade conservadora ou repressora, a equação pensamento = cérebro serve de justificativa para as técnicas de normatização da conduta. O condicionamento skinneriano é considerado pelos neurológos progressistas como o reflexo e como o meio de conservação da sociedade americana. A isso, os radicais americanos respondem que o condicionamento, o descondicionamento, a lavagem cerebral e a camisa-de-força química não são o privilégio de país nenhum.

Mas o essencial do ambiente social humano é ser um sistema de significações. Uma casa não é percebida como pedra ou madeira, mas como abrigo. Um caminho não é terra aplainada, mas uma passagem, uma pista. Mesmo para o homem de Neanderthal, um sílex talhado não é apenas pedra: sua dureza não é apenas um dado de sensibilidade, ela é, antes de mais nada, projeto de "utensilidade". A percussão é apenas um movimento, um gesto cujos efeitos primordiais, a ferramenta e o fogo, constituem as raízes do sentido de sua existência para o ser vivo humano. Conseqüentemente, será que poderíamos admitir que a aprendizagem e o domínio do sentido das coisas e dos atos, num ambiente cultural, não trazem outros problemas de método além do simples adestramento por condicionamento? Esses problemas culminam no problema da linguagem. A relação pensamento-linguagem remete à questão cérebro-pensamento através da relação cérebro-linguagem. Será que a linguagem é "aprendida" como qualquer outro comportamento, na concepção de Skinner? Será que o ensino da linguagem é análogo a um condicionamento que desemboca no vínculo durável entre um significante, um significado e um referente? Se identificarmos aprendizagem e condicionamento não estaríamos ressuscitando com isso o empirismo, contemporâneo da época em que as funções do cérebro eram ignoradas? Se temos de levar em conta as capacidades lingüísticas inatas, será que devemos por isso identificar inatismo e programação cerebral genética? Esse foi o objeto do debate organizado em Royaumont, em 1975, entre Noam Chomsky e Jean Piaget, recentemente publicado sob o título Teorias da linguagem, teorias da aprendizagem.

Ao sustentar que a gramática de uma língua não é uma proprie-dade dessa língua, mas uma propriedade do cérebro humano, Chomsky pensa dar conta do fato de que a mesma criança que aprende a falar na língua de seus locutores adultos aprenderia uma outra língua na comunicação com outros locutores. Quando se objeta que a inteligência geral poderia obter o que Chomsky supõe estar inscrito no núcleo fixo da linguagem, Chomsky responde que, para aprender a aprender, é necessária uma disposição inicial. Segundo ele, a obrigação de ter de recorrer a uma capacidade geral para explicar a aprendizagem da língua é justamente a confirmação desse aspecto da criatividade que Wilhelm von Humboldt reconheceu ao afirmar: "Uma língua pode fazer uso infinito de meios finitos". Pode-se entender facilmente porque Chomsky invoca Descartes e Leibniz, filósofos que defenderam o inatismo dos princípios racionais; mas não se entende bem como ele pode identificar a necessidade das exigências universais da competência lingüística com a determinação genética das capacidades cerebrais. Certo é que sua oposição a Skinner e à teoria exposta na obra Verbal Behavior é paralela a sua atitude de oposição política às teses de Skinner expostas em Beyond Freedom and Dignity (1971):

A crença de que o espírito humano é vazio, fornece uma justificativa a toda sorte de sistemas autoritários. Se o espírito humano é vazio, qualquer método para conformar os espíritos à sua vontade é legítimo e isso é desenvolvido ao extremo em Skinner, por exemplo; tudo acaba numa espécie de esquema fascista. (Teorias da linguagem, teorias da aprendizagem)

Mas os adversários de Chomsky respondem que o inatismo do poder intelectual pode se transformar num argumento em favor do elitismo, como apoio para uma justificativa das relações sociais desiguais. Basta lembrarmos, no momento, que na sua versão biológica atual, o debate entre empirismo e inatismo fornece, indiferentemente, argumentos a posições políticas opostas. Sinal, sem dúvida, de que a justificação de escolhas políticas deve ser buscada noutro lugar que não no cérebro. Sobre esse último ponto, aliás, a conclusão da conferência do Sr. Jouvet12 merece atenção. Ele formulou a hipótese de que o sonho, expressão de uma atividade cerebral fechada às aferências externas, cortada do am-biente, poderia ser considerada como o indício de uma atividade de manutenção do programa hereditário, de uma ruptura da relação social. O sonho seria o guardião da liberdade natural, em reação às restrições culturais. Surge aqui a tentação de evocar Rousseau, a oposição do homem selvagem e do homem civil, e o axioma segundo o qual o homem nasceu livre, embora esteja, em toda parte, enjaulado. Mas a Profissão de fé do Vicário da Savóia não permite incluir Rousseau entre os que buscam na fisiologia os fundamentos da pedagogia e da política.

Em resumo, a linguagem humana é, essencialmente, uma função semântica da qual as explicações de tipo fisicalista nunca chegaram a dar conta. Falar é significar, dar a entender, porque pensar é viver no sentido. O sentido não é relação entre..., ele é relação com... Eis porque ele escapa a qualquer redução que tente inseri-lo numa configuração orgânica ou mecânica. As máquinas ditas inteligentes são máquinas de produzir relações entre os dados que lhes são fornecidos, mas não estão em relação com o que o usuário se propõe, a partir das relações que elas engendram para ele. Porque o sentido é relação com, o homem pode brincar com o sentido, desviá-lo, simulá-lo, mentir, criar armadilhas.13 Pois, tanto numa ocorrência como na outra, é preciso levar em conta um desvio da relação com, um entorse do sentido. A relação de sentido na linguagem não é a réplica imaterial de relações físicas entre elementos ou sistemas de elementos no cérebro do locutor. Inversamente, o sentido da palavra proferida na relação com... não é a produção de uma configuração física no cérebro do interlocutor. Da mesma forma que nossa área visual cerebral não vê, por assim dizer, os objetos que nossos olhos presumidamente deveriam nos dar a ver, não existe, nas dobras do córtex, um pensamento contemplando o fantasma dos objetos ou das situações visadas nas nossas palavras. Hoje, na idade da eletrônica, do mesmo modo que no século XIX, não se pode explicar o conhecimento científico ou a experiência poética pela réplica cerebral da relação entre o meio e o organismo. Copérnico e Galileu podem, ao falar com o jardineiro ou o camareiro, dizer que o sol se levanta, já que Copérnico e Galileu vêem, como jardineiro ou o camareiro, o globo solar subir acima do horizonte, mas eles sabem que o sol não se levanta. Como Vitor Hugo pode fazer de conta que percebe o inverso do que ele está vendo no pôr-do-sol, ele percebe, por assim dizer, a verdade do movimento aparente dos astros, isto é, aquilo que devemos pensar depois de Copérnico e Galileu:

O dia morria; eu estava perto dos mares, na praia.
E segurava pela mão minha filha, criança que sonha,
Espírito jovem que se cala.
A terra, inclinando-se como um navio que naufraga,
Virando no espaço ia mergulhando nas sombras;
A pálida noite despontava
(As contemplações: Magnitudo Parvi)

A relação entre o cérebro, o pensamento e o mundo não pode, portanto, ser considerada como a reprodução mental (ou interior) dos efeitos físicos produzidos no cérebro pela introdução do mundo (exterior) nele, utilizando, para isso, a via dos canais sensoriais. Wittgenstein escreve incisivamente a esse respeito nas suas Zettel (escritas entre 1945 e 1948): "Os filósofos que acreditam que se pode, por assim dizer, prolongar a experiência no pensamento, deveriam saber que a palavra pode ser transmi-tida pelo telefone, mas não o sarampo". É certo que não se pode trans-mitir o sarampo pelo telefone, mas podem ser transmitidos pelo telefone discursos cuja cor simbólica não é agradável para todos. Daí a prática da escuta telefônica. Daí a exclusão de indivíduos por motivo de doença contagiosa do pensamento, afastamento mais longo, geralmente, que os dezoito dias de afastamento escolar em caso de sarampo.

Existem várias formas de se dar conta do fato de que a palavra humana remete ao pensamento, o qual remete, por sua vez, a um sujeito que não é uma parte do mundo, mas, como diz Wittgenstein, "um pressuposto de sua existência". Pode-se concordar com a reflexão crítica sobre a ilusão da interioridade psíquica, reflexão inaugural da obra póstuma de Maurice Merleau-Ponty, O visível e o invisível, sem por isso concordar com todas as teses do existencialismo. Pode-se preferir, por motivo de não-engajamento axiológico, a referência a Wittgenstein já citada. O autor do Tractatus lógico-philosophicus insiste, para daí tirar uma conseqüência geral, no fato de que nosso campo de visão não é ele próprio visto por uma espécie de olho mental, localizável no mundo da percepção:

Existe realmente um sentido no qual pode ser questão de um eu não psicológico em filosofia. O eu aparece em filosofia em decorrência do fato de que o mundo é o nosso próprio mundo. O eu filosófico não é o homem, nem o corpo humano, nem a alma humana de que trata a psicologia, mas o sujeito metafísico, o limite - não uma parte do mundo.14

O melhor comentário sobre esse texto não deve ser procurado na filosofia, mas sim na pintura. A visão do pintor é, ela também, uma relação significante a. Maurice Denis disse que Cézanne chamava de "motivo" aquilo que ele desejava representar, o que o incitava a pintar; e não o assunto, isto é, as coisas representadas das quais se pode falar. Pode-se sustentar que, para o filósofo, a visão do pintor como ato de presença no mundo é mais instrutiva do que uma teoria psicofisiológica da visão. O quadro de René Magritte, A paisagem isolada, é a imagem de uma paisagem contemplada por um homem visto de costas e que diz numa bolha: "Eu não vejo nada em volta da paisagem". É bem verdade que Eu não vejo nada em volta da paisagem, como eu veria a parede em volta de um quadro representando a paisagem em torno da qual tem alguém que diz "Eu não vejo nada". Eu sou o todo da minha visão, mas eu posso transformar sempre em outro o todo da minha visão, ao me deslocar. Prova de que eu não coincido com aquilo de que constituo o limite. O campo perceptivo é, como diria Raymond Ruyer, uma superfície absoluta, mas deve-se acrescentar, móvel. O Eu não está em relação de sobrevôo com o mundo, mas sim numa relação de observação.

*

Eis-nos de volta ao mesmo ponto ao qual chegamos no final do histórico inicial. Pensar é um exercício do homem que exige a consciência de si na presença ao mundo, não como a representação do sujeito Eu, mas como sua reivindicação, pois essa presença é observação e, mais exatamente, sur-veillance. De um ponto de vista filosófico, não há contradição em reconhecer uma subjetividade sem interioridade, o que não acarreta a suspeita de idealismo solipsista. Se examinarmos com atenção, com efeito, o conceito de interioridade veicula uma imagem espacial. A interioridade é a exterioridade invertida, mas não abolida. Em relação a isso, o Eu, observador do mundo das coisas e dos homens é tanto o Eu de Spinoza quanto o Eu de Descartes. Enquanto Descartes julga intimamente a evidência de seu Cogito, Spinoza enuncia como axioma impessoal o Homo cogitat. Mas, quando ele compõe o Tratado Teológico-Político, Spinoza é esse Eu que reivindica, no último capítulo, ante o reconhecido direito do Soberano de regular qualquer coisa no Estado com respeito às ações dos cidadãos: "Que seja outorgado a cada um pensar o que quer e dizer o que pensa". Se bem que Spinoza tenha utilizado o nós da modéstia, ele não consegue deixar de escrever no fim: "acabei assim de tratar das questões que estavam no meu desígnio... Sei que sou homem e que posso ter me enganado". Desígnio, erro, marcas do pensamento, nós o tínhamos proposto. O Eu spinozano não é, a despeito da Ética geometricamente demonstrada, menos Eu do que o Eu da geometria de Descartes, em razão da quarta parte do discurso que a precede. Qualquer que seja a oposição entre as concepções cartesianas e spinozianas das relações da alma e do corpo, permanece o fato de Spinoza dizer Eu comportando-se como mandatário, solitário e reprovado, da defesa de seu sistema, da mesma forma que Descartes, nas suas Réponses aux cinquièmes objections diz Eu ante Gassendi, que ele designa pelo nome de "Chair".

De minha parte, não receio afirmar que, entre Descartes e Spinoza, é no segundo que a função subjetiva de presença-observação é mais manifesta. Na segunda parte do Discurso, Descartes cuidou bastante de sua defesa diante da acusação feita a ele de crítico político. Ele afirmou nada mais querer do que reformar seus próprios pensamentos. Ele procurou se distanciar daquelas pessoas "cujo humor confuso e inquieto" leva para a oposição. O filósofo da generosidade começou com uma filosofia da prudência. Spinoza tomou publicamente o partido do direito à liberdade de pensar. Amigo de Jean de Witt, Grande Pensionário da Holanda, cujas convicções republicanas compartilhava, ele foi testemunha de seu assassinato por insurretos orangistas na cidade de Haia, em 1672, quando os exércitos de Luis XIV invadiram a Holanda. A indignação e a dor de Spinoza levaram-no a sair de casa para pregar, nas paredes da cidade, um cartaz onde ele havia escrito Ultimi barbarorum. Conta-se que seu proprietário teve de usar a violência para contê-lo.15 Em suma, essa filosofia que refuta e recusa os fundamentos da filosofia cartesiana, o cogito, a liberdade em Deus e no homem, essa filosofia sem sujeito, muitas vezes assimilada a um sistema materialista, essa filosofia vivida pelo filósofo que a pensou, imprimiu no seu autor a força necessária para se insurgir contra o fato consumado. A filosofia deve dar conta de tal força.

Para essa tarefa, a filosofia não tem nada a esperar dos serviços da psicologia, uma disciplina que, segundo Husserl, da forma como entrou em cena na época de Aristóteles, veio a ser uma "calamidade permanente para os espíritos filosóficos" (Philosophie première, 1923-1924). Entendemos, com isso, uma ciência que se quer objetiva, situando-se entre as outras ciências objetivas com sua pretensão de instruí-las sobre as funções intelectuais que permitem que elas sejam as ciências que são. Contra essa pretensão de dar conta do todo sendo somente parte dele, a filosofia não pode deixar de erguer-se. Assim, ela deve deixar a psicologia continuar a propor, ela própria, suas aquisições teóricas para serem possivelmente exploradas pela pedagogia, pela economia e, finalmente, pela política. Quanto à filosofia, sua tarefa não é a de aumentar o rendimento do pensamento, mas de lembrar-lhe o sentido de seu poder.

Atribuir à filosofia o encargo específico de defender o Eu como reivindicação inalienável da presença-observação é não reconhecer que ela tem outro papel além do de crítica. Aliás, essa tarefa de negação não é negativa, pois a defesa de uma reserva é a preservação das condições de possibilidade da saída. Posso bem imaginar os sarcasmos que a palavra "reserva", convocada para dar sentido àquela palavrinha, Eu, não deixará de suscitar, de um lado, por parte dos psicanalistas psicanalizantes, que a considerarão um sintoma de desconhecimento do inconsciente, e, por outro lado, por parte dos psicanalistas fisicalizantes, que denunciarão a herança ridiculamente conservada do espiritualismo defunto. Mas a reserva filosófica não é nem esconderijo nem santuário; ela é a depositária da energia. Suspender a aquiescência, a adesão, a aderência, não é nem recuo nem abstenção. Essa é a razão pela qual devemos tomar cuidado para não parecer interiorizar o Eu precisamente no momento em que teríamos a tentação de confundir subjetividade com interioridade, em reação contra a atual assimilação do pensamento àquilo que René Thom chamava de "quinquilharia eletrônica". Defender nossa reserva impõe que saíamos dela de vez em quando, como Spinoza o fez. Sair de nossa reserva é fazê-lo com nosso cérebro, com o regulador vivo das intervenções em ação no mundo e na sociedade. Sair de nossa reserva é opor-nos a toda intervenção estrangeira no cérebro que tenda a privar o pensamento de seu poder de reserva, em última instância.

Espero que reconheçam que, ao tomar como exemplo a conduta de Spinoza, eu não fiz confusão, nem brinquei com as palavras. Sair de nossa casa é a imagem simbólica de sair de nossa reserva. Ocorre que Spinoza fez efetivamente as duas coisas. Não devemos, entretanto, atribuir a Spinoza uma filosofia que não seja a dele. Sua conduta é a prova de que, de acordo com a última parte da Ética, a ordem e a conexão das afecções do corpo regulam-se pela ordem e pelo encadeamento dos pensamentos na alma, correspondência cuja perfeição seria a verdadeira liberdade. Mas a última palavra é que "tudo que é belo é tão difícil quanto raro". Enquanto o homem sábio não tiver obtido "em razão de uma necessidade eterna, a consciência de si mesmo, de Deus e das coisas", ele pode ter que decidir, de repente, tomar uma atitude com respeito aos "perigos comuns da vida que podemos afastar e sobrepujar pela presença e pela força da alma". Essa é a razão pela qual Spinoza se mostrou presente para injuriar publicamente alguns homens chamando-os de bárbaros, embora ele tivesse dito que a indignação, geradora de ódio, é forçosamente má, embora ele soubesse que a multidão é terrível quando não teme nada. O homem que escreveu que não se conhecem todas as capacidades do corpo humano e que elas são, às vezes, erradamente atribuídas à alma, esse homem saiu de sua casa com o seu cérebro e, certamente, em conformidade com sua filosofia. Mas é possível que ele tenha saído dela através de uma imperceptível falha cartesiana de sua construção filosófica.

À primeira vista, poderíamos considerar que Spinoza cometeu um erro. O de acreditar que os bárbaros que ele denunciava publicamente eram os últimos. Mas ele sabia latim e quis dizer que eram os mais recentes, os últimos. Conseqüentemente, os filósofos de hoje, qualquer que seja sua linha de pesquisa, spinoziana ou cartesiana, estão certos de que não lhes faltará ocasião ou razão para, por sua própria conta e risco, num gesto de engajamento controlado por seu cérebro, escrever nos muros, nas fortificações ou nas cercas: Ultimi barbarorum.

 

Tradução de Sandra Yedid* e Monah Winograd**

 

 

Recebido em 8 de abril de 2005.
Aprovado em 12 de maio de 2005.

 

 

* Conferência na Sorbonne para o M.U.R.S. (dezembro de 1980); primeira publicação em Prospective et Santé, n. 14, .verão de 1980, pp. 81-98. Os subtítulos que haviam sido acrescentados pela revista foram suprimidos. A ordem de alguns parágrafos que haviam sido invertidos foi restabelecida de acordo com as indicações de Canguilhem (N.E.). (In: Georges Canguilhem - Philosophe, historien des sciences. Actes du Colloque, 6-8 dezembro de 1990. Paris, Albin Michel). Agradecemos a Bernard Canguilhem a autorização para publicarmos essa tradução de Georges Canguilhem (N.E.).
* Graduanda em Psicologia pela PUC-Rio. Pesquisadora do grupo Matéria Pensante.
** Psicanalista. Doutora em Teoria Psicanalítica/ UFRJ. Pesquisadora e Prof.do Departamento de Psicologia da PUC-Rio/ FAPERJ. Coordenadora do grupo de pesquisa Matéria Pensante - Neurociência, Psicanálise e saberes afins, vinculado à linha de pesquisa Clínica e Neurociência da Pós-Graduação em Psicologia da Clínica da PUC-Rio. Autora do livro Genealogia do Sujeito Freudiano e de diversos artigos científicos em periódicos de Psicologia.
1 Epífise ou Glândula Pineal: corpúsculo oval situado no cérebro, por cima e atrás das camadas ópticas e ao qual se atribuem funções endócrinas. (N.R.)
2 Paul-Jules Möbius (1853-1907), neurofisiologista alemão, cognominado "Gall redivivus", situava a corcova dos matemáticos acima da órbita esquerda do lado externo; Cf. sua obra Über die Anlage zur Mathematik (Leipzig, 1907). Ele era neto do ilustre matemático e astrônomo Augusto Ferdinand Möbius (1790-1868), inventor do Anel de Möebius.
3 G. Burckhardt, Über Rindenexcisionen, als Beitrag zur operativen Therapie der Psychosen, Allgemeine Zeitschrift für Psychiatrie, 1891, n. 47. Sobre o início da psicocirurgia, cf. artigo de Alain Jaubert, L'excision de Ia pierre de folie, no n. 4, 1975-1976, da revista Autrement: "Guérir pour normaliser".
4 Um estudo interessante de Pierre Janet deve ser consultado, na tese de Claude Prévost, La Psychophilosophie de P. Janet (Payot, 1973).
5 Pierre Janet (Curso do Collège de France 1923-1924, citado por Marcel Jousse, Archives de philosophie, v. 2, caderno 4; Études de psychologie linguistique).
6 Pour la Science, número especial; novembro de 1979. Nouvel Observateur; 29 out. 1979.
7 Nouvel Observateur; 29 out. 1979.
8 "Mas descrever em termos de física e de química um movimento da consciência, um sentimento, uma decisão, uma lembrança é outra coisa. Nada indica que venhamos a conseguir. Não somente por causa da complexidade, mas também porque sabe-se, desde Gödel, que um sistema lógico não pode bastar à sua própria descrição" (La Logique du vivant, p. 337).
9 A persistência de um estado estacionário do saber, além de uma invenção teórica, é como a medida objetiva de originalidade dessa invenção. É o que fez Max Planck dizer, em sua Autobiographie, que não basta que uma descoberta acumule provas teóricas para se impor: muitas vezes ela precisa esperar que seus adversários tenham desaparecido e que uma nova geração chegue ao poder cientifico.
10 Citado por H. Atlan, Entre le cristal et Ia fumée (Seuil, 1979, p. 229). R. Thom insiste ainda mais no caráter aventureiro de invenção teórica quando diz : "Quase todos os progressos de álgebra provêm do desejo de fazer operações proibidas (números negativos, racionais, imaginários, etc.)" (Colloque de Royaumont: Théories du langage, théories de l'apprentissage, Seuil, 1979, p. 508).
11 Drugs for the mind, Newsweek. 12 nov. 1979.
12 Ver a conferência de Michel Jouvet: "Les états de vigilance: bilan et perspectives" in Prospective et Santé, n. 14, été de 1980, pp. 73-80 (N.E.).
13 Uma máquina não pode enganar, nem tampouco se enganar. Em outras palavras, uma máquina não é capaz de maquinações. Foi Michael Scriven que fez da capacidade de mentir o critério de demarcação entre um robô aparentemente consciente e a consciência ("The Mechanical Concept of Mind", in Minds and Machines, Prentice Hall. Englewood Cliffs, 1964).
14 É necessário esclarecer que, com a expressão sujeito metafísico, Wittgenstein não entende o sujeito ontológico mesmo na época du Tractatus logico-philosophicus, e que, posteriormente, ele abandonou o conceito de sujeito metafísico.
15 Às vezes contestada, essa conduta de Spinoza foi relatada par Jakob Freudenthal, Das Leben Spinozas (Stuttgart, 1904). Cf. (Oeuvres de Spinoza, editadas por Ch. Appuhn (Garnier éd.), tomo I, p. 218, nota 1; e Georges Friedman, Leibnitz et Spinoza (Idées, Gallimard), p. 110.

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Partimos desse pressuposto para compreender as maneiras pelas quais mulheres indígenas e quilombolas/indígenas e quilombolas mulheres3 da Amazônia paraense resistem às violências do cotidiano e perscrutar suas sensibilidades em meio às situações de violência. Não se trata aqui de analisar estratégias de movimentos de mulheres indígenas e/ou quilombolas para conseguir alcançar suas reivindicações políticas, o que não deixaria de ser importante objeto de reflexão, mas sim de entender as próprias corporeidades das protagonistas como estratégias de resistência. Esta última, que pode parecer mais individualizada e circunstancial num primeiro olhar, ganha contornos coletivos quando se observa o compartilhamento de histórias, as redes de ajuda e solidariedade criadas pelas mulheres, entre outras agências, como veremos a seguir. 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Para os limites da reflexão proposta, é importante esclarecer que os depoimentos oferecidos pelas interlocutoras foram ditos às pesquisadoras em diversos momentos, os quais compreendem um lastro de 15 anos de pesquisa, sem que estas tivessem a intenção de trabalhar especificamente violência e violação de corpos, entretanto, os depoimentos foram como que aflorando pela impossibilidade – estatal e/ou comunitária – de oitiva das mulheres em situação de violência. Selecionou-se depoimentos de mulheres indígenas pertencentes aos povos Tembé Tenetehara5 , hoje moradores do município de Santa Maria do Pará, Xipaya6 e Kuruaya7 que vivem no médio Xingu e, no caso das quilombolas, selecionamos as interlocutoras moradoras das diversas comunidades localizadas no arquipélago do Marajó, também no estado do Pará. Destacam-se trajetórias e memórias que marcam de modo indelével o etnocídio praticado via colonização (Beltrão, 2012), que até o presente atinge os corpos e as vidas de pessoas indígenas e quilombolas via colonialidade.8 Nesse sentido, é latente na narrativa das interlocutoras a referência ao processo de expulsão territorial, sequestro de crianças indígenas e quilombolas pela ação missionária e/ou do Estado, tentativas reiteradas e violentas de genocídio, em face da tentativa de homogeneização e apagamento das pertenças. Vale, porém, ressaltar que a colonialidade incide de forma específica e brutal necessariamente sobre os corpos das mulheres, pois esta, segundo Lugones (2008) , se instituiu também como colonialidade gênero, que instituiu o sistema de gênero colonial/moderno, baseado nas dicotomias homem/mulher e público/privado, como o padrão. Isso ocultou sistemas de organização dos “mundos sexuais” nativos, em que muitas vezes as fronteiras entre masculino e feminino eram fluídas e as mulheres exerciam papéis importantes na vida coletiva. Não tratamos aqui de perscrutar esses sistemas “originais” e nem acreditamos que, hoje, isso seja possível. Porém, importa ter isso em consideração para um olhar etnográfico mais apurado. O ponto nevrálgico, locus em que os caminhos etnográficos se tornam mais “nebulosos”: ter o corpo marcado, como é o caso de indígenas e quilombolas mulheres/mulheres indígenas e quilombolas, pela violência física e sexual, muitas vezes infringida pelos próprios “parentes”, ou ainda por pessoas não indígenas e quilombolas, fato que mobiliza sentimentos como dor, sofrimento e vergonha. A possibilidade de ouvir (com tudo o que o ato da escuta representa para a Antropologia) implica em cuidados9 redobrados na interpretação de atos e falas que não são ditos a qualquer pessoa, nem em qualquer lugar. Os processos de violação dos corpos, vividos como eventos devastadores, segundo as interlocutoras, também formam seus modos de narrar, de liderar e de agir politicamente. De alguma forma, somos “ouvintes” privilegiadas, considerando a confiança com a qual fomos brindadas, portanto nosso compromisso com a ocultação das identidades é fato. O veneno da dor Veena Das (2008a), em seus escritos, problematiza a correlação entre dor e linguagem. Segundo a autora, por meio da expressão da dor, é possível sair da privacidade sufocante que ela produz na vítima. De acordo com Das (2008a), eventos devastadores produzem um tipo de conhecimento que só é alcançado pela experimentação do sofrimento, um conhecimento venenoso. Portanto, violências extremas não seriam apenas responsáveis pela destruição de vidas e corpos. Atuam, também, na construção de sujeitos e linguagens da dor. A enunciação da dor pede, portanto, admissão e reconhecimento, o que nem sempre ocorre. Trata-se, nos termos da autora, de sentir a dor no corpo do outro. Essa é a proposta ao fazer antropológico, requisitado de forma envergonhada, mas insistente por nossas interlocutoras. De acordo com Michael Taussig (1993), a reprodução da imagem dos povos indígenas como selvagens, irracionais e violentos é o que possibilita a propagação do terror colonial. E no caso dos coletivos quilombolas a estratégia de resistência e luta dos negros é imperdoável ao mundo colonial, afinal, os africanos são equiparadamente considerados, como os indígenas, pessoas desprezíveis. Trata-se uma operação mimética por parte do colonizador, que conduz a atos de extrema violência, não importando se esse imaginário é verdadeiro ou não. As culturas do terror criam, desse modo, o que o autor denomina como espaços de morte, nos quais indígenas, africanos e brancos viram nascer o Novo Mundo. Segundo Taussig (1993) o terror é o mediador por excelência da hegemonia colonial e acrescenta-se da discriminação presente em nossa sociedade. O autor afirma ainda que “... as culturas do terror são nutridas pelo entremesclar do silêncio e do mito.” (Taussig, 1993, 30) Os efeitos paralisantes e silenciadores do terror encontrariam na narrativa sua primeira possibilidade de cura. Quando decidiram falar sobre as violências que marcaram de forma mais ou menos severa suas trajetórias, nossas interlocutoras começaram a vencer a primeira imposição do terror, o silêncio. Como diz Maria Aparecida, quilombola, que por ser estudante universitária, escreveu seu depoimento: “não vou falar e também nunca escrevi, mas faço [o texto] porque não consigo explicar porque aconteceu comigo, talvez não haja explicação, e mesmo que tivesse jamais iria me fazer esquecer aquele homem imundo que me rasgou e tudo que aconteceu comigo. Neste caso, a forma de prevenção pra que não possa acontecer com outras mulheres é contar e contar do massacre que sofri. Mas para isso tenho que ter coragem para dar o testemunho, mas tenho muita vergonha por isso escrevo. Peço que a senhora conte, leve adiante, o massacre não pode continuar.” Para compreender o que diz Taussig (1993), traz-se à consideração e em complemento à Maria Aparecida, o depoimento de Maria Dolores, de pertença Kuruaya, que narra seu pânico no dia da violação, praticada dentro de sua casa, na frente do marido e das filhas, que à época tinham respectivamente oito anos e dois anos: “Dormi, como todas as noites, com meu marido e minhas filhas na minha cama. De madrugada acordei e levei o maior susto da minha vida, me deparei com um homem passando da sala pra cozinha, pois a porta do quarto ficava entre aberta durante a noite, então no primeiro momento imaginei que pudesse ser alguém de fora, pensei que fosse meu marido, então olhei na cama e vi as meninas e ele, percebi que tinha alguém na casa e não era o meu marido, ele dormia com as crianças. Logo depois minha filha de oito anos acordou e percebeu que eu estava bastante assustada e nervosa, então falei que tinha alguém na casa, pedi que ela não fizesse escândalo. Na hora, eu só pedia a Deus proteção pra minha família e, ao mesmo tempo, sem saber o que fazer e como agir naquela situação de angústia e muito muito medo.” Na sequência dos acontecimentos, Dolores se apercebe do perigo e evoca Deus: “... com toda Tua sabedoria me traz tranquilidade e, nas minhas orações, pedi que Deus fizesse aquela pessoa ter compaixão e não fizesse nada com meu marido e com as minhas filhas, eu coloquei minha vida nas mãos Dele. Eu dizia: Deus coloco minha família em suas mãos me proteja e me ilumine nesta noite, pois sei que corro perigo, me abençoe, te peço em amém. Dona a senhora já teve medo?” Dolores prossegue a narrativa, ofegante, e esclarece, “... agradeço todos os dias a Deus, eu esqueci parcialmente o fato, só que por mais que os anos passem, eu não consigo falar com as pessoas sobre o assunto, por medo e até mesmo vergonha.” O relato foi adiante, entrecortado pelo choro às vezes discreto, outras vezes convulsivo a ponto de interromper a narrativa. Ela segurava as minhas mãos10 com força, de certo ainda sentia pânico e as marcas corporais que se apresentavam vivas, intensas! O relato é bastante longo, mas importante para compreensão da dor, silenciada pelas circunstância e sobretudo pela vergonha. Diz a Kuruaya: “... trabalhei o dia inteiro, sou professora no bairro dos índios, local tomado pela violência. Nunca tive medo de nada. A casa é pequenininha. Toda noite eu tenho o costume de verificar portas e janelas, e nesse dia não foi diferente, entretanto nunca imaginei que alguém pudesse entrar na casa de alguém pelo telhado, por onde entrou o bandido. Quando me dei conta do perigo fingi que estava dormindo e observei por baixo do travesseiro que ele [o bandido] se aproximava e logo entrou no quarto meio agachado, ficando em volta do berço da minha filha. Chegou perto da cama e pôs a faca no meu pescoço, daí eu gritei e ele se debruçou em cima da cama fazendo ameaças, dizendo pra não gritar se não iria matar todo mundo caso eu não trepasse [mantivesse relações sexuais] com ele.” Dolores informou que ele estava visivelmente muito perturbado andando de um lado para o outro, parecia não saber o que fazer, aparentando transtornos. Tinha aparência de drogado, exalava mal cheiro, mas não parecia bêbado e nem cheirava a álcool. Ela continua: “... depois da ronda pela casa, ele saiu um momento do quarto e eu disse ao meu marido finge que dorme e cuida das meninas, pois ele vai voltar. Minha filha que estava acordada chorava muito e falei pra ela ficar bem caladinha como se estivesse dormindo foi o que ela fez, ficou quietinha abraçada à irmã e ao pai. Ele voltou e me obrigou a manter relações sexuais com ele. Sem saber o que fazer, pedia ajuda a Deus. Aquilo foi uma humilhação muito grande, na minha cama, com o meu marido vendo tudo e as minhas filhas então? Até hoje não sei “transar” como antes, a lembrança me perturba, tenho problemas, passo mal, meu marido não se conforma, reclama. Temo que me abandone por isso. Com os olhos distantes, como se voltasse à cena do crime, Dolores informa: “... pela conversa dele, percebi que ele não falava coisa com coisa, às vezes parecia tranquilo, daí a pouco se exaltava e com a faca na mão, junto do meu pescoço. Que medo! Quando ele falou que iria fazer sexo comigo, tornei a me apavorar e, na hora, pensei na família e o quanto seria pior se fossem com as minhas filhas, pensei que era melhor eu ceder do que ele fazer algo pior conosco, ele sentou na cama e falou que não era pra eu gritar, era melhor pra mim. Ele se serviu de mim duas vezes e perguntava, gostou cachorra, tu foste pega no dente, índia é tudo assim ... Eu desesperei, além de me usar me humilhava e minhas filhas e meu marido assistindo, acho que a pequena não acordou, nem sei ... quando percebi que ele tinha saído da minha casa parece que o mundo caiu sobre mim, não tinha reação de nada lembro que peguei o celular, mas não tinha condições de ligar pra ninguém, acho que ainda não tenho mundo.” Abalada, Dolores confessou que teve dificuldade de identificar o criminoso, mas o fez. Ele respondeu processo e foi condenado, o fantasma à época era a saída do agressor da cadeia. Ela ainda vive aos sobressaltos, pois se aproxima o final do cumprimento da pena. As categorias sobre violência: enredamentos na narrativa das mulheres Nos diálogos estabelecidos com as interlocutoras é possível detectar em seus depoimentos e mesmo discurso de indígenas e quilombolas, uma série de categorias a respeito de eventos que, do ponto de vista antropológico, poderiam ser definidos analiticamente como situações de violência, embora dificilmente nossas interlocutoras tenham usado explicitamente o termo violência, as protagonistas referiram-se a todo momento a situações que atingiam seus corpos individual e coletivamente. Os corpos são atingidos de forma coletiva na medida em que a corporeidade e construída socialmente e as violações são estruturais e não individuais, além de engendrarem dor e resistências. Os fatos narrados aproximam-se da definição de violência proposta por Paula Lacerda (2015) que a entende como: [...] um amplo conjunto de situações que poderiam ser percebidas, de outro ponto de vista, como ‘causadoras de sofrimento’, pessoas se apresentam como ‘vítimas de violação de direitos’, o que as transforma em sujeito e potencializa o alcance de suas reivindicações.” (2008, 28) A primeira categoria que se refere a tais processos diz respeito a violência enfrentada coletivamente pelo povo Tembé Tenetehara na Colônia Santo Antônio do Prata, educandário que recebia as crianças indígenas sequestradas de suas comunidades e apartadas de seus parentes para serem educadas, catequizadas e “civilizadas” com base na pedagogia cristã dos missionários Capuchinhos. Posteriormente, a Colônia foi transformada em Leprosário e a ameaça de contrair a doença afastou ainda mais os Tembé Tenetehara do território que tradicionalmente ocupavam. No período de instalação do Leprosário, conforme conta Dona Maria Joana, circulava na região o boato de que era possível curar a hanseníase se o doente comesse o fígado de uma pessoa saudável. Na época chegaram a ser encontrados na mata cadáveres com o fígado retirado, o que reforçava ainda mais o temor de que uma das pessoas a serem mortas pudessem ser Tembé Tenetehara. É desse cenário que emerge a categoria massacre: as interlocutoras constantemente reafirmam, ao dizer dessas memórias que “o nosso povo foi muito massacrado no Prata”. A noção de massacre parece elucidar mais enfaticamente os acontecimentos que a categoria violência, uma vez que as violações enfrentadas coletivamente pelos Tembé Tenetehara – ditos de Santa Maria – incluem espoliação territorial, epistemicídio, quebra dos laços de parentesco e, em última instância, o adoecimento e a morte dos membros do povo. O mesmo ocorre com as mulheres Xipaya e Kuruaya que, expulsas de seus territórios no médio Xingu, vieram à cidade e vivem presas a espaços, onde sequer podiam, há 10 anos, se declarar indígenas. Eram, como referem algumas das interlocutoras, impedidas de falar a língua materna, enfrentaram o massacre da discriminação, produzida pelo racismo que se apresenta em estratégias de dominação de ordem material e ideológica, utilizada pelas estruturas coloniais para manter status privilegiado de membros do grupo dominante, produzindo a perene subalternidade dos povos etnicamente diferenciados (Moreira, 2016 ), não fosse a luta que empreendem diuturnamente. No caso das quilombolas o massacre foi/é pesado e reproduzido nas diversas narrativas. A segunda categoria que diz de processos de violência é a de escravidão. Conforme explica Maria da Paz: “os antigos do nosso povo tratavam a mulher como escrava. Ela só servia para ter filho, cuidar da casa e da roça, ser usada pelo marido e trabalhar pro pai. Hoje não pode mais ser assim, mas muitos homens no nosso povo e de fora querem tratar as mulheres nessa escravidão.” A categoria escravidão parece dizer respeito a crítica que as mulheres indígenas fazem sobre a condição feminina dentro das diversas comunidades. O entendimento de que as mulheres eram e são tratadas como escravas, guarda em seu interior a reivindicação de que sejam entendidas como sujeitos, dotadas de direitos, vontades e voz. Tal categoria diz respeito a forma como as interlocutoras pensam a mulheridade e a crítica que fazem por não serem reconhecidas de tal forma. Entre as quilombolas a condição de escrava é mencionada por conta das avós e das bisavós, entretanto, algumas vezes, a condição passada é negada para não comprometer a luta e favorecer a discriminação. A terceira categoria nos parece a que possui maior tensão ao ser utilizada analiticamente: trata-se da categoria maldade. Durante muito tempo do percurso das pesquisas que apontavam para as categorias nativas, evitou-se conjecturar sobre a mesma, por receio de que escrever sobre o assunto pudesse “dar munição” para os antagonistas em relação aos povos tradicionais. Entretanto, ao buscar as noções de justiça que permitem a luta política das mulheres, a maldade atravessou o percurso da problematização. As interlocutoras com quem se dialogou nomeiam como “homens maus” aqueles que agridem seus corpos, física e/ou sexualmente. E, a essas agressões, as mulheres indígenas dão o nome de maldades. As quilombolas, algumas vezes referem-se às violações dos homens maus, como malinesas. Denominam malinesas às penas impostas, pelos encantados, a homens (e também à mulheres) que vivem fora das normas tradicionais, malinesas que trazem como consequência efeitos deletérios às relações sociais. Malinos são os encantados que castigam os transgressores com o mal, tornando-os perniciosos ao convívio social. Os encantados que “jogam a malinesa” vivem nas matas e nos cursos d’água e por serem donos dos espaços, exigem reverências e cumprimento de obrigações, nem sempre observadas pelos homens maus que terminam “malinando” com as mulheres (ou mulheres que malinam com homens). No caso da maldade ou da malinesa entre indígenas e quilombolas, uma e outra não integram a essência dos humanos, são tomadas pelas interlocutoras como condição que, dependendo do comportamento, pode ser afastada dos humanos, sempre que, arrependidos, voltem a cumprir as obrigações com os encantados. A tensão reside no fato de que muitas vezes os homens maus ou malinos podem ser companheiros das mulheres indígenas e quilombolas ou lideranças dos referidos coletivos. Duas situações parecem ilustrativas de como a categoria maldade é posta em ação. A primeira delas diz respeito a história contada por Maria Laura, que teve a filha Maria Conceição sequestrada por um homem que circulava na comunidade. A menina passou oito dias em cativeiro submetida a violência física e sexual pelo agressor. Por fim, depois de espancá-la quase até a morte, o criminoso abandonou-a sozinha na casa onde a escondia. Embora Maria Conceição tenha sido encontrada com vida e acolhida sob o modo Tembé de cuidar do corpo, a marca da violência permanece para o resto da vida e o fato de o agressor ter muito dinheiro, à época, assegurou-lhe a impunidade. Ao contar a história de sua filha, Maria Laura referiu-se ao criminoso como um “anjo mau”, aproximando-o do mito bíblico que conta a história de Lúcifer. A mesma categoria foi utilizada pela filha de Maria da Paz, Maria Lídia, para referir-se ao seu pai. Na época ele se encontrava doente, com desmaios e fraquezas constantes, e as causas não puderam ser identificadas pelos médicos que a família procurou. Maria da Paz, desde que a conhecemos, narra as agressões cometidas pelo marido, que espancava ela e os filhos e dizia constantemente a todos palavras duras, que “machucavam” quem as ouvia. Conversando com Maria da Paz e Maria Lídia, a filha afirmou que a doença do pai era um “castigo por todas as maldades que ele fez com a gente”, com o que Maria da Paz concordou. A noção de maldade parece ter um sentido diferenciado para as mulheres indígenas se comparada aos usos que assume na sociedade dita ocidental. Enquanto no ocidente a maldade é frequentemente tomada como propriedade de pessoas perversas, entre as protagonistas indígenas a categoria parece se aproximar do que a Antropologia e os movimentos de mulheres tem chamado de machismo ou violência de gênero. Atentar para o uso diferenciado do termo pelas interlocutoras só foi possível em função do envolvimento etnográfico no contexto em que estas se inserem e por meio do diálogo e inflexão mantida pelas autoras. Por fim, a última categoria percebida como o sinônimo nativo para a violência é a de machucar. Frequentemente usada na sociedade ocidental para designar ferimentos físicos, sejam acidentais ou infringidos, machucar entre as mulheres indígenas refere-se ao ato de dizer palavras ofensivas e duras, que atacam a honra e o caráter das pessoas atingidas. Nos relatos de violência dentro das relações com os maridos – sejam eles indígenas ou não – as interlocutoras afirmam que as palavras duras são tão dolorosas e machucam tanto quanto agressões físicas. Tendo em conta a lei brasileira sobre violência doméstica, temos que o “machucar” talvez possa ser compreendido como violência psicológica11 , uma entre as possibilidades de violência contra a mulher, deslindadas nesse diploma legal. Entre as quilombolas há narrativas que informam que as palavras ofendem mais que serem marcadas por paus, chicotes e outros instrumentos de agressão. As marcas físicas podem ser tratadas, curadas, mesmo que levem tempo, mas as marcas dos machucados ferem a alma (para além do corpo) e permanecem na memória das interlocutoras e nada nem ninguém faz desaparecer. Abaixo as correspondências relativas às categorias éticas e êmicas. Thumbnail  Quadro 1 : Categorias éticas e êmicas sobre violência As categorias relativas à agência: a resistência das/entre mulheres Uma das principais questões que se tornaram visíveis no diálogo com as interlocutoras diz respeito ao fato de que as violações que atingem os corpos das mulheres jamais foram aceitas de forma passiva, elas não se deixam paralisar. Os processos de agência – aqui utilizada no sentido atribuído por Pierre Bourdieu (1983) e Anthony Giddens (1984) – e resistência, sempre estiveram presentes nas trajetórias das indígenas e quilombolas. O silenciamentos via etnocídio atingiu seus corpos e vidas, mas não se consolidou na medida em que as protagonistas sempre estiveram dispostas a buscar alternativas e resisitir. É com o intuito de romper com o etnocídio e a destituição da memória de seus coletivos que as mulheres indígenas ou quilombolas contam histórias de extrema violência no contexto da pesquisa; supomos que elas acreditam que por meio do registro na produção antropológica, as interlocutoras mantém a expectativa de que as memórias não sejam esquecidas nem apagadas, mas que, pelo contrário, permaneçam vivas na luta por direitos coletivos e por reconhecimento. Relatar as estratégias de agência e resistência e o protagonismo das interlocutoras frente a situações de poder assimétricas coaduna-se com o objetivo de “contar para prevenir”, como disse Maria dos Anjos, há anos, quando em uma roda de conversa aconselhou as jovens presentes: “... não guardem segredos, eles envenenam a vida. Não façam como eu que evitei contar as malinesas, daí não consegui domei os maus [homens] da minha vida. Nem os de casa, nem os da rua e ninguém deve machucar nossas almas, somos pessoas, [e olhando firme as meninas moças da roda] devemos reagir, assim as malinesas vão pra longe da comunidade.” De fato, contar a história parece uma das principais categorias que distinguem a agência das mulheres diante da violência sofrida. O trabalho das autoras, membros da equipe de antropólogos do Grupo de Pesquisa Cidade, Aldeia & Patrimônio só teve início a partir do convite dos membros da comunidade para que os pesquisadores escrevessem a história do povo Tembé Tenetehara e de outros povos indígenas e quilombolas, como informamos à partida. Quando na comunidade, muitos pesquisadores foram “intimados” a entrevistar os membros mais velhos da comunidade, para garantir que as histórias que estes se lembravam fossem registradas antes que se perdessem com seu falecimento. Maria Laura, com o início das pesquisas na comunidade, decidiu começar a escrever diários, onde poderia registrar suas memórias pessoais e coletivas e repassar para os pesquisadores do grupo. Outra categoria importante nos processos de agência das mulheres indígenas, especialmente as Tembé, é a do cuidado. Conforme elucida Maria Laura: “... o nosso povo foi muito massacrado no Prata. Morreu muita gente. A gente jamais podia dizer que era índio, até hoje nós vivemos discriminados. Hoje tá muito melhor, a gente vive junto, faz nossas festas, cuida uns dos outros e o nosso povo se alegra. Mas vive com a discriminação. Não podemos usar uma roupa, que já dizem que nós não somos índios. Eu vou dizer que eu sou uma portuguesa, sendo que eu não sou? Até tem gente que diz, mas eu não digo. Eu digo o que eu sou, eu sou Tembé. Mas tem que viver com a discriminação.” Ao contrário da visão de cuidado amplamente discutida na literatura produzida na área da Enfermagem, pautada na atenção e medicalização de pessoas com doenças, ou deficiência, o cuidado tembé e das demais etnias é holístico e alimenta o corpo de forma completa, por meio do sistema tradicional de ação para saúde, que contempla não apenas o cuidado com o corpo, mas a proteção espiritual, e as lutas políticas por uma vida melhor, que acarretam uma corporeidade saudável. E esse corpo não se estrutura desconectado do ser indígena, com toda a carga política e epistemológica que a identidade enseja para as tembé, xipaya e kuruaya. Cuidar de si e dos seus implica em se proteger de violações e fortalecer o grupo para que as lutas políticas possam ser continuadas. Nesse sentido, o cuidado de si constitui um empreendimento que conforma resistências políticas, materiais e epistemológicas, em um contexto no qual o corpo vem à cena tanto como território de lutas e afirmações identitárias, quanto como alvo de opressões e estigmas. Com as mulheres quilombolas a situação é semelhante, sempre que alguém se machuca a cura vem via sistema tradicional de ação para saúde, mesmo que a pessoa machucada e violada receba atendimento dentro do sistema ocidental de ação para saúde. Outra categoria percebida como forma de agência das mulheres nas tensões que envolvem os maridos diz respeito a educação dos filhos. Segundo Maria Laura: “... a mulher é que educa o filho. Se ela não mandar ele ir lá, tomar a bença do pai, fazer um carinho no pai, ele não vai, não, fica na dele. Foi por causa de um dos meus filhos que meu marido parou de me bater. Um dia, ele era novinho, magro, magro... Ele virou pro pai e falou: “O senhor nunca mais vai bater na mamãe, hoje foi o último dia”. O pai perguntou: “E o que tu vai fazer?”. E ele disse: “Eu não sei, mas o senhor não encosta mais um dedo nela”. Depois disso, nunca mais ele me bateu.” Uma das filhas de Maria Laura, ao ver o pai com outras mulheres na rua: “... fazia um escândalo, batia nela. Uma vez enchi as coisas da mulher de areia, ficou tudo sujo. Depois ele metia a porrada em mim quando chegava em casa, mas eu nunca deixava barato.” Atualmente as crianças que na infância enfrentaram os pais em defesa de suas mães, criam redes de apoio e acolhimento das indígenas mulheres em situação de violência, seja recebendo-as em suas casas, rezando por elas ou conversando com os maridos e, muitas vezes constrangendo-os perante os demais parentes. Maria José, quilombola da comunidade Maria me ajude constrangia o marido, mostrando de casa em casa os ferimentos produzidos pelas surras que levava, porque teimava em estudar. A peregrinação de casa em casa produzia o recolhimento do agressor que, alcoolizado, tinha produzido as maldades, malinado a protagonista. Por fim, a última categoria percebida como característica da agência empreendida pelas mulheres tembé em relação a violência diz respeito ao processo de fechar o corpo. Prática também verificada entre as quilombolas. Em um contexto em que as violações de direitos ocorridas em hospitais são reais e prováveis, fechar o corpo contra coisas ruins é essencial. Entre as práticas frequentes, temos: rezar na cabeça de criança com febre; ministrar ervas medicinais para pessoas que adoecem ou são envenenadas; manter a gravidez ou interrompê-la quando as vidas da mãe e da criança estão ameaçadas; são exemplos de saberes e fazeres acionados no agenciamento de situações consideradas de risco, em que se sabe que o acesso ao sistema ocidental de ação para saúde não responde satisfatoriamente ou há dificuldades em acessá-lo. Fechar o corpo entre os povos tradicionais implica proteger as pessoas da comunidade tanto no plano físico quanto no espiritual. Os rituais podem ou não estar relacionados à alguma forma de religiosidade indígena afro-brasileira ou ocidental. Uma das interlocutoras, reconhecida “por ser uma das mais antigas dos nossos antepassados”, entre os Tembé, relata que nos tempos antigos, quando houve grande incidência de hanseníase na região, ela conseguiu paralisar o avanço da doença no corpo de uma das pessoas da comunidade utilizando as propriedades do mucuracaá, uma planta medicinal que também é utilizada entre os tembé para combater o mau-olhado. Outras indígenas afirmam que uma mulher grávida que estivesse sob os cuidados de Maria Carmen estaria em boas mãos, uma vez que ela acompanhava a gestação desde os primeiros meses até a hora do parto, no qual a mulher era virada de lado e dava a luz enquanto a interlocutora rezava em sua barriga. Despois do parto, a profissional de saúde permanecia na casa da parturiente até o resguardo terminar, portanto eram quarenta dias de cuidados diferenciados. Durante uma das idas a campo, a mãe de uma criança que havia nascido há pouco tempo encontrava-se aflita, pois o bebê não parava de chorar e não costumava ser assim. Nesse momento, Maria Carmen, sogra da mãe da criança, entrava na casa e, ao se dar conta da situação, perguntou se a menina havia ido tomar banho de igarapé. Como a resposta foi afirmativa, a interlocutora disse: “... minha filha pegue alho, amasse e misture com álcool e deixe um tempo. Depois passe com o dedo na palma da mão da neném, na sola do pé, no braço e na coxa, em forma de cruz. Vai ficar um cheirinho ruim, mas não tem problema, ela vai melhorar. Ela deve ter visto alguma coisa no igarapé, criança é muito sensível, parece um pintinho novo. Quando eu era pequena, minha tia levava a gente pro igarapé, mas ela entrava primeiro, pedia licença pra mãe da água pra gente entrar e jogava o alho na água, aí o banho era sossegado.” O alho é antídoto (combate o veneno) para os encantados que “jogam malinesa” quando as pessoas não reconhecem as regras, que não se referem apenas aos espaços de domínio dos mesmos, mas às horas proibidas do dia e da noite. A paçoca de gergelim preto “pisada” com hortelã é utilizada para “botar pra fora” (as indígenas não utilizam o termo “aborto”, as quilombolas usam expulsar), principalmente quando a gravidez ameaça a vida da mãe ou quando o parto é de risco. Para mulheres grávidas que sentem dores, ministra-se chá de gengibre. Para inflamações, especialmente em casos de problemas de próstata, o caroço de abacate mostra-se eficaz. Crianças, quando morrem antes do batismo, segundo os católicos, choram durante sete dias e precisam ser batizados para que “descansem”. A última prática mostra-se elucidativa da forma tembé de pensar a construção da “pessoa”, a partir do ato de batizar a criança morta. Para os Tembé Tenetehara não se deve negar às pessoas mortas, quando oriundas de famílias cristãs, o direito ao ritual de batismo que as forma e legitima. As situações acima descritas, integrantes das observações de campo, revelam que mesmo enfrentando situações de precariedade e violência, as mulheres exercem seu protagonismo, instituindo o “ser sujeito” e encontram alternativas para agenciar situações de violência. O corpo e as múltiplas corporeidades que coexistem entre as interlocutoras são territórios privilegiados da resistência de indígenas e quilombolas mulheres e das formas de cuidar de si mesmas. Thumbnail  Quadro 2 : Categorias êmicas e éticas sobre agência Entre oitivas e traduções Os diálogos em campo demonstram que os atos e falas das interlocutoras são ferramentas importantes para a compreensão de suas realidades. Ao mesmo tempo, analisar o discurso no contexto das relações antropológicas passa a ser um desafio, na medida em que aponta para a necessidade de proceder o controle das dificuldades de tradução etnográfica, dos etnocentrismos ocidentais e do viés da colonialidade vigente. Em trabalho de grande influência e repercussão, Gayatri Spivak (2010) questiona criticamente a (im)possibilidade de fala de determinados grupos. A autora constata que os subalternos em geral, e o sujeito historicamente emudecido, a mulher subalterna em particular, foram e são, ao longo da história, mal compreendidos ou mal representados pelo interesse pessoal dos que têm poder para representar. A proposição instigante de Spivak (2010), além de elucidar silenciamentos, colonialismos e violências, também aduz escutas anti-hegemônicas, epistemologicamente desobedientes, pós-coloniais. Inspirada pela reflexão provocativa da filósofa indiana, Lacerda (2014) considera que em meio a tentativas de silenciamento, os grupos e sujeitos subalternizados – e esse é um deslocamento analítico fundamental para que a subalternidade não seja entendida como lugar paralisante e intransponível – estão falando. Superando a perspectiva colonialista que pretende “dar voz” aos grupos subalternizados por meio da pesquisa, Lacerda (2014) tensiona a questão que orienta Spivak (2010): como o não subalternizado, o privilegiado, pode escutar? As posições teórico-epistemológicas (que também possuem caráter político) adotadas na presente discussão objetivam favorecer a escuta etnográfica mais responsável, capaz de superar estereótipos de passividade e compreender indígenas e quilombolas como sujeitos de suas próprias histórias. A estruturação do olhar antropológico sobre o campo, em diálogo com os conceitos e categorias referidas, foi essencial para compreensão das interlocutoras como protagonistas de suas próprias histórias, não como vítimas passivas, desagenciadas e paralisadas diante de violações. Qualquer procedimento em sentido contrário seria uma prática etnocêntrica. Atentar para as narrativas das mulheres indígenas e quilombolas, a partir do que foi explicitado, é um esforço que vai além de retomar o protagonismo de vozes subalternizadas. Trata-se de uma tentativa de constituição de possibilidades de outra epistemologia, outras referências e sensibilidades, diferentes das que o pensamento colonial afirma serem as únicas dignas de serem aprendidas e respeitadas. A partir das falas desses sujeitos, confrontamos a tentativa histórica de epistemícidio (Santos, 2010) e assimilação que incide sobre os povos indígenas e quilombolas, e, mais especificamente sobre mulheres indígenas e quilombolas/ indígenas e quilombolas mulheres. Trata-se de uma opção metodológica que abriga dimensões e responsabilidades políticas, de contemplar enunciações ditas e tomadas como periféricas e arbitrariamente alijadas pelo pensamento ocidental e colonial. Por diálogos e justiças A diversidade das agências e possibilidades de justiça nos permite esterçar para diferentes lados saindo dos limites de nossos axiomas, verdades que consideramos inquestionáveis e supostamente válidas universalmente. Axiomas estes que muitas vezes são utilizadas como princípios que mantém privilégios de uns em detrimentos de outros secularmente subalternizados. Não se trata de atribuir valor superior aos conhecimentos tradicionais ou mesmo de aderir a eles, mas de considerá-los em diálogo para produzir a melhor justiça, sem diluí-los na ciência desenvolvida na academia. A importância das reflexões que se faz é tentar indicar que as agências das mulheres e modos diversos de conhecimentos, é indicar também que se pode pensar de outro modo e que os variados sistemas de justiça precisam, de fato, dialogar. Sabemos que os estudos acerca da violência de gênero no país muitas vezes utilizam o termo violência sem muita precisão, como se violência doméstica, violência intrafamiliar, violência contra a mulher, entre outros, fossem capazes de abarcar reflexões sobre realidades diversas. Fazer o esforço de compreender noções êmicas do termo afasta o perigo da reificação e induz a “diálogos ouvintes”, que postulamos aqui, em contraposição aos “diálogos surdos.” Ainda sobre a questão dos termos utilizados para abordar a violência, contemporaneamente tem se preferido falar em mulheres em situação de violência ao invés de violência contra a mulher, para indicar que a violência é transitória e não um destino que as mulheres devem cumprir (Campos, 2011). Além disso, a mudança de termo e, por conseguinte, de enfoque, impele a pensar a questão fora do molde algoz versus vítima, possibilitando compreender que, mesmo sendo vítima, especialmente num sentido jurídico-estatal, não significa não ter poder e força de resistir. As narrativas e corporeidades de mulheres indígenas e quilombolas/ indígenas e quilombolas mulheres desafiam compreensões do senso comum sobre situações de violência e nos fazem compreender que vítimas são sujeitos. Dessa forma, como sujeitos que são, devem poder acionar sistemas tradicionais de justiça ou mesmo a “justiça dos brancos”, como dizem algumas. Porém, a colonialidade, especialmente a de gênero (Lugones, 2008 ) cria contextos em que os dois lados olvidam as demandas pelo fim de maldades e malinesas. Referências bibliográficas ALEIXO, Mariah Torres. 2015. Indígenas e quilombolas icamiabas em situação de violência: rompendo fronteiras em busca de direitos Dissertação de mestrado, Programa de Pós-Graduação em Direito, UFPA. (Inédita) BELTRÃO, Jane Felipe. 2012. Histórias ‘em suspenso’: os Tembé ‘de Santa Maria’, estratégias de enfrentamento do etnocídio ‘cordial’. Revista História Hoje, São Paulo, v. 1, no 2, p. 195-212. BOURDIEU, Pierre. 1983. Esboço de uma teoria da prática In: ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu: sociologia São Paulo: Ática, p.46-81. BRASIL. 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Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica Elie CheniauxSOBRE O AUTOR Resumos É realizada uma ampla revisão dos estudos psicanalíticos e das mais recentes pesquisas neurocientíficas sobre os sonhos. Segundo Freud, os sonhos constituem "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Para muitos neurocientistas, eles são formados a partir de estímulos aleatórios originados na ponte e não possuem qualquer significado. Contudo, diversos estudos associam as emoções experimentadas durante a vigília e o conteúdo dos sonhos. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos dá algum respaldo à teoria freudiana. Todavia, não há dados empíricos que apóiem a existência de uma instância censora que deturpe os sonhos. É possível que os sonhos exerçam um papel na elaboração psíquica de lembranças traumáticas. Na nossa opinião, as visões psicanalítica e neurocientífica sobre os sonhos podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Sonho; fases do sono; psicanálise; neurofisiologia; literatura de revisão A comprehensive review was carried out about psychoanalytic studies and the most recent neuroscientific researches about dreams. According to Freud, dreams represent "a (disguised) fulfillment of a (repressed) wish." For several neuroscientists, they are formed based on random stimuli originated from the brainstem and do not have any meaning. However, several studies associate the emotions experienced during waking with the content of dreams. The hypothesis that the dopaminergic mesolimbic-mesocortical system, which is associated with instinctual appetitive craving states, is essential to the formation of dreams brings some endorsement to Freudian theory. Nevertheless, there is no empirical data to support the existence of an instance of censorship that distorts the dreams. It is possible that the dreams play a role in psychological working-through of traumatic memories. In our opinion, psychoanalytic and neuroscientific views about dreams can be complementary and mutually enriching. Dream; sleep stages; psychoanalysis; neurophysiology; literature review ARTIGO DE REVISÃO Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica Elie Cheniaux Professor adjunto, Faculdade de Ciências Médicas - Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCM-UERJ), Rio de Janeiro, RJ. Médico, Instituto de Psiquiatria - Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Doutor em Psiquiatria, IPUB-UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Pós-doutor, Programa de Engenharia de Sistemas e Computação, Área Interdisciplinar de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia - Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Membro associado e docente, Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ), Rio de Janeiro, RJ Correspondência RESUMO É realizada uma ampla revisão dos estudos psicanalíticos e das mais recentes pesquisas neurocientíficas sobre os sonhos. Segundo Freud, os sonhos constituem "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Para muitos neurocientistas, eles são formados a partir de estímulos aleatórios originados na ponte e não possuem qualquer significado. Contudo, diversos estudos associam as emoções experimentadas durante a vigília e o conteúdo dos sonhos. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos dá algum respaldo à teoria freudiana. Todavia, não há dados empíricos que apóiem a existência de uma instância censora que deturpe os sonhos. É possível que os sonhos exerçam um papel na elaboração psíquica de lembranças traumáticas. Na nossa opinião, as visões psicanalítica e neurocientífica sobre os sonhos podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Descritores: Sonho, fases do sono, psicanálise, neurofisiologia, literatura de revisão. INTRODUÇÃO O neurocientista e psicanalista Mauro Mancia1, num artigo publicado no International Journal of Psychoanalysis, em 1999, ressalta as diferenças entre as abordagens neurocientífica e psicanalítica dos sonhos. Enquanto os neurocientistas se dedicam ao estudo das estruturas e funções cerebrais envolvidas na produção do sonho, os psicanalistas se interessam pelo significado deste, considerando os aspectos biológicos irrelevantes para a sua compreensão. Todavia, para outros autores, como o psiquiatra Morton Reiser2, o estudo dos sonhos representa uma grande oportunidade de exploração da relação entre corpo e mente. Segundo ele, os modelos da psicanálise e da neurociência para os sonhos, embora muito distintos entre si, não devem ser vistos como antagônicos ou inconciliáveis, mas sim como complementares. Reiser acredita que uma cooperação entre esses dois campos do conhecimento poderia ser mutuamente enriquecedora. Realizamos uma revisão bibliográfica a respeito dos sonhos, na qual comparamos as visões da psicanálise e da neurociência, com o objetivo de identificar possíveis pontos de contato e de divergência entre elas. Promovendo, assim, um diálogo entre a psicanálise e a neurociência, teremos subsídios para avaliar a viabilidade e a utilidade de uma aproximação ou mesmo de uma integração entre as duas no estudo da mente humana. Iniciamos nossa pesquisa bibliográfica pelos trabalhos sobre os sonhos de Sigmund Freud, criador da psicanálise, de James Allan Hobson, neurocientista que veementemente critica a teoria freudiana, e de Mark Solms, um dos principais pesquisadores na área da neuropsicanálise, disciplina científica recém-criada que se ocupa da integração entre os conceitos psicanalíticos e neurocientíficos. Com o auxílio das bases de dados MEDLINE, LILACS e PsycINFO, e utilizando como termo de busca "sonho" (ou dream), procuramos artigos científicos sobre o tema. Também consultamos diretamente alguns dos mais importantes periódicos nacionais e estrangeiros das áreas de psicanálise e de neurociência em bibliotecas e através da Internet, no portal Periódicos da CAPES. Optamos por incluir preferencialmente artigos originais ou de revisão recentes, ou então considerados clássicos na literatura científica. A teoria freudiana sobre os sonhos "A Interpretação dos Sonhos", de 1900, é considerada a primeira obra propriamente psicanalítica de Freud. Nesse trabalho, particularmente no capítulo VII, já se encontra uma teoria geral do aparelho psíquico, formulada a partir dos estudos de Freud sobre os sonhos, que são, segundo ele, a "via régia de acesso ao conhecimento do inconsciente na vida mental"3. Para Freud, o sonho constitui "uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)". Possui um conteúdo manifesto, que é a experiência consciente durante o sono, e ainda um conteúdo latente, considerado inconsciente. Este é composto por 3 elementos: as impressões sensoriais noturnas (por exemplo, a sensação de sede durante o sono), os restos diurnos (registros dos acontecimentos da véspera) e as pulsões do id (relacionadas a fantasias de natureza sexual ou agressiva). Esses elementos do sonho latente tendem a fazer o indivíduo despertar. E, durante o sono, em função da completa cessação da atividade motora voluntária, a repressão está enfraquecida, o que aumenta a possibilidade de as pulsões terem acesso à consciência. Todavia o sonho atua como "o guardião do sono". Em função de uma solução de compromisso entre o id e o ego - que é a instância que exerce a repressão -, é permitida uma gratificação parcial das pulsões, diminuindo a força delas e, conseqüentemente, possibilitando que o indivíduo continue a dormir. Essa gratificação se dá através de uma fantasia visual (o conteúdo manifesto do sonho), que é o resultado de um processo regressivo: o fluxo da energia psíquica, ao invés de seguir em direção às vias motoras, retorna às vias sensoriais3,4. Ainda de acordo com Freud, o conteúdo manifesto dos sonhos é aparentemente incompreensível porque consiste numa versão distorcida do conteúdo latente. Essa distorção se dá, em primeiro lugar, porque no sono há uma profunda regressão do funcionamento do ego, que faz com que prevaleça o processo primário do pensamento. Este é caracterizado pelo predomínio das imagens visuais (em detrimento da linguagem verbal) e pelos mecanismos de condensação (fusão de duas ou mais representações) e de deslocamento (substituição de uma representação por outra). Além disso, entre o inconsciente e o consciente existiria uma instância censora, que deliberadamente disfarçaria o conteúdo do sonho, para que o sonhador não reconheça sua origem pulsional, proibida3,4. Algumas contestações à teoria freudiana A teoria freudiana sobre os sonhos tem sido bastante contestada, dentro e fora da psicanálise. Questiona-se se as imagens que percebemos durante o sono representariam mesmo um disfarce ou distorção. Luborsky & Crits-Christoph5 estudaram os sonhos de um grupo de pacientes utilizando o core conflictual relationship theme method (CCRT), um instrumento que avalia o padrão de relacionamentos interpessoais de um indivíduo, tendo como base o relato deste. Comparando-se os resultados da avaliação relativos apenas ao conteúdo manifesto do sonho com aqueles obtidos quando foram consideradas também as associações livres do sonhador (que indicariam o conteúdo latente do sonho), não foram encontradas diferenças. Vários estudos empíricos encontraram uma correlação significativa entre a atividade mental durante a vigília e o conteúdo manifesto dos sonhos. Na amostra de Greenberg et al.6, os problemas sonhados eram basicamente os mesmos pelos quais os indivíduos estavam passando em suas vidas diurnas. Smith7, por sua vez, observou que separação ou morte eram a temática predominante nos sonhos de pacientes cardiopatas hospitalizados. Outros ensaios clínicos demonstraram que estímulos apresentados anteriormente ao sono - como filmes, fotografias ou jogos de palavras - reaparecem claramente nos sonhos8. Por outro lado, alguns autores não acreditam que seja possível recuperar o conteúdo latente do sonho na sessão analítica. Para eles, a associação livre ocasiona a produção de um material novo, criado a partir da relação paciente-analista9,10. Blechner10 afirma que muito do que é bizarro ou confuso no sonho não resulta de repressão: são elementos originalmente extralingüísticos, que não podem ser expressos em palavras. Para Robbins11, os sonhos expressam puramente a linguagem do processo primário; portanto, a atuação de uma instância censora, que refletiria um pensamento racional (característico do processo secundário), não seria possível. Coloca-se em dúvida, ainda, a afirmativa de Freud de que desejos seriam os instigadores de todos os sonhos. Para diversos autores1,12,13, os sonhos refletiriam não só os desejos e as defesas contra estes, mas a atividade mental como um todo, e teriam inúmeras outras funções além de descarga (da energia psíquica), como a solução de problemas (intelectuais ou emocionais)6,14,15, criatividade8, autoconhecimento1,16, integração da mente14,17, adaptação17, aprendizagem8, neutralização do estresse8, entre outras. McCarley & Hobson18, por sua vez, argumentam que, embora possam estar presentes no sonho temas relacionados a desejos, isso não significa que estes representem um fator causal no processo de formação do sonho. Por fim, alguns autores1,9,10,12,17,19,20 destacam a relação paciente-terapeuta e a transferência como os componentes principais na formação dos sonhos durante o tratamento. Em contrapartida à importância que Freud dava aos sonhos para a investigação da mente, o interesse por estes entre os psicanalistas tem diminuído significativamente nas últimas décadas. Kantrowitz17, estudando o currículo de 28 institutos psicanalíticos americanos, constatou que o número total de horas dedicadas ao estudo dos sonhos em cursos clínicos e teóricos no biênio 1998-1999 foi muito menor do que em 1980-1981. Para muitos analistas, os aspectos intrapsíquicos trazidos pelos sonhos podem ser igualmente obtidos por meio do estudo de sintomas, traços de caráter, atos falhos ou associações livres10,17. Os aspectos neurofisiológicos do sono Na década de 1950, Nathaniel Kleitman e seus alunos William Dement e Eugene Aserinsky descreveram pela primeira vez o sono paradoxal, ou sono REM1,2. Este, que compreende no adulto cerca de 20% do tempo total de sono, é caracterizado pela ocorrência de movimentos oculares rápidos (rapid eye movements, daí a sigla), perda do tônus muscular, freqüências cardíaca e respiratória irregulares e oscilações na pressão arterial sistêmica. Esses autores detectaram ser muito comum, quando uma pessoa era despertada nessa fase do sono, que ela referisse ter estado sonhando. Em 1962, Jouvet demonstrou que o traçado eletroencefalográfico durante o sono REM é muito semelhante ao da vigília: dessincronizado (irregular) e com ondas rápidas (ritmo b). Em contrapartida, no sono profundo, não-REM (NREM), em que não há um aumento da atividade autonômica periférica, predominam um traçado sincronizado e os ritmos d e t - daí ele ser conhecido também como sono de ondas lentas (slow wave sleep)1,21. Hoje em dia se sabe que, embora os sonhos sejam muito mais comuns durante o sono REM, eles podem ocorrer também durante o sono profundo: estima-se que entre 25 e 50% dos períodos de sono NREM estejam associados a sonhos21. Além disso, 5 a 30% dos períodos de sono REM cursam sem qualquer sonho22. Todavia, dependendo da fase do sono, as características dos sonhos são bem diferentes. Comparados com os sonhos da fase NREM, os da fase REM são mais vívidos e mais bizarros, apresentam uma maior participação do sonhador e uma maior estruturação espacial, são mais facilmente lembrados e relatados com um número maior de palavras. Já os sonhos do sono NREM são mais conceituais do que plásticos, compostos por fragmentos da realidade não organizados e não narráveis, raramente são lembrados e apresentam uma participação mais passiva do sonhador1,21. Durante o sono REM, o fluxo sangüíneo cortical é maior do que no sono de ondas lentas e, às vezes, maior até do que na vigília23. Estudos de tomografia por emissão de pósitrons (PET scan) mostram que, durante o sono REM, estão ativados o córtex visual extra-estriatal (associativo) e as regiões límbica e paralímbica; estando, ao mesmo tempo, desativados o córtex visual estriado (primário) e o córtex pré-frontal. Vários aspectos característicos do sonho podem ser relacionados a estes achados: a riqueza de imagens visuais, à ativação do córtex visual associativo e desativação do primário; a intensa expressão emocional, à ativação das regiões límbica e paralímbica; e a bizarrice, incoerência, perda da crítica e esquecimento, à desativação do córtex pré-frontal1,24,25. Acredita-se que a consciência da vigília seja mediada pela noradrenalina e pela serotonina, e a consciência do sonho (do sono REM), pela acetilcolina24,25. A atividade aminérgica (noradrenalina e serotonina) está elevada durante a vigília, diminui durante o sono NREM e se encontra ausente no sono REM. Já a atividade colinérgica é máxima no sono REM e na vigília e mínima ou ausente durante o sono NREM. Recentemente, descobriu-se que as hipocretinas desempenham um importante papel no ciclo sono-vigília: apresentam atividade máxima durante a vigília e ausente durante o sono, tanto no REM como no NREM26,27. Consolidação da memória durante o sono Para grande parte dos neurocientistas, os sonhos não têm qualquer função: são apenas um efeito colateral de processos de consolidação da memória dependentes do sono, a manifestação consciente destes27. Diversos dados indicam que o sono é fundamental para a memória e a aprendizagem. Em primeiro lugar, durante o sono REM, predomina a atividade colinérgica, sendo que a acetilcolina está claramente envolvida nas funções cognitivas28. Em vários estudos experimentais, alguns feitos com ratos, outros com humanos, observou-se que a privação do sono REM ocasionava um prejuízo na aprendizagem de habilidades perceptivas ou perceptivo-motoras (memória implícita), treinadas pouco antes do adormecer27,29,30. Em outros estudos, em que os animais ou humanos foram submetidos a um treinamento desse tipo, mas não foram privados do sono, detectou-se um aumento da duração total do sono REM28,31. Tal aumento só ocorria quando a tarefa era de fato aprendida28. Diante disso, passou-se a acreditar numa relação entre o sono REM e a consolidação da memória implícita32. Por outro lado, um ensaio clínico evidenciou uma diminuição na capacidade de aquisição de memórias explícitas em indivíduos privados do sono NREM30. Em estudos eletroencefalográficos realizados com ratos, pássaros e humanos, constatou-se que padrões de disparos de determinados neurônios do hipocampo registrados na vigília, enquanto se treinavam tarefas cognitivas (memória explícita), reapareciam durante o sono. Esse fenômeno de reativação neuronal, ou reverberação, ocorre predominantemente no sono NREM, mas também é observado no sono REM e mesmo durante a vigília28,33,34. Experiências com ratos evidenciaram que aqueles expostos algumas horas antes de dormir a ambientes não-familiares apresentaram um aumento da expressão do gene zif-268 - particularmente envolvido em processos de neuroplasticidade - no hipocampo e no córtex cerebral durante o sono REM, o que não ocorreu com os animais-controle34. Contudo, há questionamentos quanto ao papel do sono na consolidação da memória. Para Vertes32, parece um contra-senso que o sono, sendo um estado eminentemente amnéstico, tenha esse papel. Além disso, sabe-se que a consolidação de algumas formas de memória se dá também durante a vigília28. Em cerca de metade dos estudos de privação do sono com animais, os resultados não evidenciaram um déficit de aprendizagem32, e em diversos experimentos com humanos submetidos a atividades pré-sono de treinamento, não se observou uma duração aumentada do sono REM31. Por outro lado, critica-se a metodologia de vários estudos com ratos, pois tanto o treinamento como a privação do sono costumam provocar estresse, o qual, por sua vez, pode causar um prolongamento do sono REM e também prejuízo na aquisição de novas memórias28,31,32. Também merece destaque a observação de que os antidepressivos inibidores da mono-amino-oxidase, largamente prescritos num passado recente, embora causem eliminação do sono REM, nunca foram relacionados a um déficit de memória31,32. Siegel31 argumenta que, se o reaparecimento da atividade neuronal da vigília durante o sono estivesse implicado na consolidação das memórias dos eventos diurnos, os sonhos seriam cópias fiéis destes. Mas não parece ser assim. Fosse et al.35 examinaram o conteúdo de um total de 299 relatos de sonhos de 29 voluntários. Embora 65% dos sonhos estivessem relacionados a experiências pessoais recentes, apenas 1,4% deles continha elementos que pudessem ser considerados uma repetição dessas experiências. Segundo Francis Crick - ganhador do prêmio Nobel por suas pesquisas sobre o DNA - e Graeme Mitchison36, sonhamos não com as memórias que estão sendo consolidadas, mas com aquelas que estão sendo apagadas. Para eles, o sono REM é necessário para a eliminação de informações erradas ou inúteis armazenadas no cérebro. O sonho seria um reflexo de um processo de aprendizagem reversa, no qual determinadas sinapses são enfraquecidas. Embora esta formulação não tenha recebido muito apoio nos meios acadêmicos, ela é freqüentemente citada e parece ser coerente com o fato de os sonhos retratarem eventos bizarros ou irreais, os quais precisariam ser eliminados da memória32. A teoria de ativação-síntese A teoria de ativação-síntese, de Hobson & McCarley, apresentada como uma contestação à teoria psicanalítica sobre os sonhos, tem sido amplamente aceita entre os neurocientistas nas últimas duas décadas22. No sono REM, em função de uma diminuição da atividade aminérgica, ocorre uma desinibição do sistema colinérgico, especialmente na ponte. Isso faz com sejam geradas periodicamente as ondas ponto-genículo-occipitais (PGO), detectadas no eletroencefalograma do sono REM, as quais, para os dois autores, são os estímulos básicos dos sonhos. Elas se originam na ponte, propagam-se para o corpo geniculado lateral do tálamo e chegam ao córtex visual (occipital), ativando-o. Dessa forma, com base nos traços de memória visual armazenados, são produzidas as imagens do sonho. Como essa ativação cortical se dá de forma aleatória, são formadas imagens caóticas, as quais, num segundo momento, sofrem um processo de síntese, construindo, assim, uma narrativa seqüencial. Portanto, de acordo com a teoria, os sonhos nascem, no tronco cerebral, sem qualquer significado; eles não estão disfarçando nada, pelo contrário, expressam de forma transparente a atividade cerebral24,37,38. O sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical e o resgate da teoria freudiana Mark Solms22,39 apresenta uma teoria que é, ao mesmo tempo, uma crítica à teoria de ativação-síntese e uma tentativa de confirmação da formulação freudiana sobre os sonhos. Segundo ele, o sono REM e o sonho são estados dissociáveis: um pode ocorrer sem o outro. Pode haver sonhos na fase NREM do sono, e 5 a 10% destes são indistinguíveis dos sonhos da fase REM. Além disso, focos epilépticos em regiões têmporo-límbicas, ou seja, fora do tronco cerebral, podem causar pesadelos estereotipados recorrentes, tipicamente durante o sono NREM. Dos 22 pacientes estudados por ele que apresentavam uma lesão na ponte e, conseqüentemente, perda total ou parcial do sono REM, 18 mantinham a capacidade de sonhar. Por outro lado, Solms aponta que, na literatura científica, já foram registrados mais de 100 casos de eliminação do sonhar provocada por lesões no cérebro anterior que preservaram a ponte e o sono REM. Na maioria desses casos, foi afetada a área da junção parieto-têmporo-occipital, estreitamente relacionada à formação das imagens do sonho. Contudo, em outros pacientes, a eliminação dos sonhos se deveu a uma lesão no quadrante ventromedial do lobo frontal. Essa região, por sinal, era a acometida nas cirurgias de leucotomia pré-frontal, muito utilizadas no passado no tratamento da esquizofrenia e que comumente levavam a um prejuízo no sonhar. Pelo quadrante ventromedial do lobo frontal, passam fibras do sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, o qual envolve a área tegmentar ventral do mesencéfalo, o núcleo acumbente, o hipotálamo, o córtex pré-frontal e o córtex cingulado anterior. De acordo com Solms22, esse sistema é o gerador do sonho. Estudos de PET scan mostram um aumento da atividade nesse circuito durante o sono REM23,40. Além disso, agonistas dopaminérgicos, como o L-Dopa, podem causar sonhos especialmente vívidos e pesadelos. Tais achados reforçam a antiga concepção de uma ligação entre sonho e "loucura" - em ambos há alucinações, perda do juízo crítico, etc. -, já que existe uma clara correlação entre hiperatividade dopaminérgica e ocorrência de sintomas psicóticos22,23. O sistema mesolímbico-mesocortical está relacionado aos estados motivacionais, os quais instigam comportamentos que visam à satisfação das necessidades biológicas, como o beber, o comer e o copular. Substâncias estimulantes e que causam dependência, como cocaína e anfetamina, atuam nesse circuito, causando um aumento na liberação de dopamina no núcleo acumbente, o que, por sua vez, leva a uma sensação de prazer22. Um outro elemento que indica uma relação entre esse sistema dopaminérgico e o sonhar é a alta freqüência com que dependentes químicos em abstinência sonham estar buscando ou usando drogas41. Na concepção de Solms22, o sono REM e o sonho são controlados por mecanismos biológicos diferentes: o primeiro, pela atividade colinérgica da ponte; e o segundo, pelos circuitos dopaminérgicos do cérebro anterior. Estes são a via final comum de várias formas de estimulação cerebral. As ondas PGO freqüentemente exercem esse papel de estimulação cerebral, mas não de forma exclusiva. Ainda segundo Solms, o envolvimento na geração dos sonhos do sistema mesolímbico-mesocortical, claramente relacionado ao que a psicanálise chama de pulsões, parece confirmar a afirmativa de Freud quanto a um desejo ser o instigador do sonho. O papel do sonho na elaboração psíquica de experiências traumáticas Em "A Interpretação dos Sonhos", Freud3 argumenta que mesmo os pesadelos não contradizem a formulação de que os sonhos são realizações de desejos. Segundo ele, nesse caso, apesar da censura onírica, o conteúdo latente consegue chegar à consciência pouco deformado e é reconhecido pelo ego. Este então reage produzindo a ansiedade, com o objetivo de despertar o indivíduo. Freud cita ainda uma variante, os sonhos de punição, nos quais o ego antecipa a culpa (pela realização do desejo reprimido), e o conteúdo manifesto está representando uma fantasia de punição. Seria, portanto, a realização de um desejo do superego, e não do id. Mais tarde, porém, em "Além do Princípio do Prazer", de 1920, o próprio Freud42 aponta uma importante exceção à sua formulação: os sonhos repetitivos que sucedem eventos traumáticos e os que evocam traumas da infância não são realizações de desejos. Tais sonhos, de acordo com ele, obedecem à compulsão à repetição, que seria algo mais primitivo do que o princípio do prazer (e independente deste), e têm como função a sujeição ou dominação das excitações relacionadas à recordação do trauma. Para Ernest Hartmann43, contudo, os pesadelos não são uma exceção; ao contrário, constituem o paradigma de todos os sonhos. Ele estudou os sonhos de pessoas que passaram por experiências traumáticas importantes e observou que, no início, muitas vezes havia uma mera repetição do trauma; mais tarde, contudo, os sentimentos de medo, vulnerabilidade, culpa ou pesar continuavam presentes nos sonhos, mas num contexto inteiramente diferente. Por exemplo, sonhar estar sendo atingido por uma onda gigante ou um furação era muito comum, independentemente de como tivesse sido o verdadeiro trauma. Os sonhos desses indivíduos continham não os estímulos sensoriais relativos ao evento traumático, mas sim a emoção vivenciada. Segundo o autor, os sonhos contextualizam a emoção dominante, expressando-a através de uma representação pictórica. Para Hartmann, esse mesmo padrão é encontrado nos sonhos de pessoas que não sofreram traumas importantes, mas que estão experimentando uma emoção intensa, como em situações de estresse em geral. Ele afirma ainda que, quando não há uma emoção dominante, e várias emoções de menor intensidade estão presentes, tal padrão, embora menos evidente, persiste. Revonsuo15, por sua vez, baseou-se na teoria da evolução para tentar explicar os sonhos. Ele partiu das seguintes premissas: para os primeiros humanos, a vida era curta e cheia de ameaças; os eventos traumáticos freqüentemente são expressos nos sonhos; e os sonhos são fundamentais no processo de aprendizagem. De acordo com sua hipótese, a função dos sonhos é simular experiências traumáticas ou ameaçadoras que foram anteriormente vivenciadas durante a vigília. Tal simulação, segundo ele, leva a uma melhora no desempenho do indivíduo em relação à detecção e enfrentamento de ameaças, o que, conseqüentemente, aumenta a sua sobrevida e chances de procriação. Diversos autores9,14,19,20,44 acreditam que os sonhos são de grande importância para a elaboração de traumas e conflitos psíquicos e têm um papel terapêutico, semelhante ao da psicoterapia. Para explicar esse processo de elaboração, o seguinte modelo da neurociência computacional tem sido utilizado. Acredita-se que, no sonho, as redes neurais se conectem com mais facilidade do que durante a vigília43. Todavia, essas conexões não são feitas de forma aleatória: as emoções seriam os organizadores das redes neurais. Em outras palavras, as representações tendem a se associar a outras que possuam a mesma conotação afetiva2,43. Isso está de acordo com a regra de aprendizagem de Hebb, que diz que "a força de uma conexão sináptica entre dois neurônios aumenta sempre que os neurônios são ativados ao mesmo tempo por uma fonte externa". Enquanto dormimos, as experiências recentes são primeiro emparelhadas com eventos mais remotos, com os quais possuam alguma similaridade, para em seguida serem integradas aos registros permanentes de memória45. Dessa forma, a lembrança de um trauma (da infância ou recente) se associa a outras recordações, o que a torna menos poderosa e perturbadora43. DISCUSSÃO Os sonhos podem ser definidos como estados da consciência que ocorrem durante o sono. Mas ainda sabemos muito pouco sobre eles. Na edição comemorativa da revista Science, relativa ao seu 125º aniversário, é apresentada uma lista de 125 questões ainda não respondidas pela ciência e que irão desafiar os pesquisadores no próximo quarto de século. Entre elas, foram incluídas as seguintes: "qual é a base biológica da consciência?"; "por que dormimos?"; e "por que sonhamos?"46. A hipótese de Freud de que os desejos são os instigadores dos sonhos encontra agora algum respaldo na proposição de Solms22 de uma relação entre sonhos e ativação do sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical. Esse autor, como vimos, baseou-se na observação de pacientes com lesões no cérebro anterior, em estudos de PET scan no sono REM, no efeito de agonistas dopaminérgicos sobre os sonhos e na existência de diversos aspectos em comum entre sonhos e psicose. Todavia, algumas dúvidas ainda pairam sobre essa questão. Por exemplo, faltam dados na literatura científica sobre como os antipsicóticos, que são antagonistas dopaminérgicos, afetam os sonhos, tanto em indivíduos normais como em psicóticos. Além disso, os sonhos e a mais importante das psicoses, a esquizofrenia, possuem diferenças marcantes do ponto de vista fenomenológico: enquanto os sonhos são constituídos basicamente por imagens visuais, na esquizofrenia predominam as alucinações auditivas, sendo bem mais raras as visuais. E não se pode esquecer que o próprio Freud42 reconheceu a existência de exceções à sua regra: os sonhos repetitivos pós-traumáticos. Já a concepção de que uma instância censora deturpa os sonhos tem encontrado pouco apoio. Robins11 defende que o conteúdo manifesto é o próprio sonho, visto que o córtex pré-frontal, que seria fundamental em qualquer mecanismo mental de disfarce dos sonhos, encontra-se inativado durante a fase REM do sono. Por outro lado, a visão de muitos neurocientistas, como Hobson & McCarley37, de que os sonhos não possuem significado é desafiada pela constatação de quanto as emoções experimentadas durante a vigília determinam o conteúdo dos sonhos, como descrito no trabalho de Hartmann43. Os aspectos emocionais das recordações são codificados como memórias implícitas47, as quais provavelmente são consolidadas durante o sono REM32. E segundo Stickgold et al.27, o sono REM pode incrementar o processamento de memórias emocionais. Tudo isso é bastante coerente com a hipótese de que as emoções exercem um papel fundamental na formação dos sonhos. O modelo da neurociência computacional sobre o papel dos sonhos na elaboração psíquica é bastante semelhante ao modelo psicanalítico. O desenvolvimento de múltiplas associações para a representação do trauma corresponderia à incorporação desta ao pensamento do processo secundário, o qual é racional e obedece à lógica e ao princípio da realidade. Incrementar a modalidade de pensamento do processo secundário em detrimento do pensamento do processo primário representa um fortalecimento da capacidade do ego de dominar o id, o que, por sua vez, consiste num dos principais objetivos do tratamento analítico48. Freud3, em 1900, afirma que tanto o pensamento irracional como o racional participam da elaboração do sonho. Robins11 discorda, afirmando que os sonhos expressam unicamente o pensamento do processo primário; o relato deles é que está relacionado ao processo secundário. Mas o neurocientista Claude Gottesmann23 atesta que os sonhos da fase NREM do sono se assemelham ao pensamento do processo secundário. Surge aqui uma questão: se os sonhos são terapêuticos por ocasionarem uma ampliação do campo de atuação do ego e incremento do pensamento do processo secundário, como eles se apresentam com características do pensamento do processo primário? Na seção D do capítulo VII de "A Interpretação dos Sonhos", Freud3 diz que a transformação de pensamentos em imagens visuais favorece a ligação com pensamentos que sofreram o mesmo processo de transformação. Talvez o sonho represente uma parte apenas do processo de elaboração psíquica que ocorre durante o sono. Embora o aumento do número de associações das representações mentais se dê durante grande parte - ou a totalidade - do sono, apenas durante os sonhos, principalmente na fase REM, chegam à nossa consciência informações sobre esse processo. Como durante o sono REM o córtex pré-frontal - fundamental para a atenção e o pensamento racional na vigília - está inativado, a nossa consciência só é capaz de funcionar de acordo com o processo primário e, assim, só capta de forma parcial o processo que está se desenrolando. Em outras palavras, embora durante o sono estejam sendo criadas novas associações entre as idéias, só conseguimos sonhar com condensações ou deslocamentos. Pelo que vimos, o diálogo entre a neurociência e a psicanálise sobre os sonhos pode ser bastante profícuo: proposições da psicanálise têm inspirado e guiado investigações neurocientíficas, e achados da neurociência têm sido úteis para um maior refinamento da teoria psicanalítica. Correspondência: Elie Cheniaux Rua Santa Clara, 50/1213, Copacabana CEP 22041-010 Rio de Janeiro, RJ Tel.: (21) 2547.0670 E-mail: echeniaux@globo.com Recebido em 10/08/2005. Aceito em 26/02/2006. 1. Mancia M. Psychoanalysis and the neurosciences: a topical debate on dreams. Int J Psychoanal. 1999;80(Pt 6):1205-13. 2. Reiser MF. The dream in contemporary psychiatry. Am J Psychiatry. 2001;158(3):351-9. 3. Freud S. A interpretação dos sonhos. 2Ş ed. Rio de Janeiro: Imago; 1987. 4. Freud S. Esboço de psicanálise. Rio de Janeiro: Imago; 1975. 5. Luborsky L, Crits-Christoph P. Understanding transference: the core conflictual relationship theme method. New York: Basic Books; 1990. 6. 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